Morto ou Vivo
Capítulo 12
Mesmo se ela não tivesse ido antes no motel, teria poucas dificuldades para encontrá-lo, bem ao lado do que a cidade de Beatty otimistamente chamava de rua principal, que na verdade não era mais que um pedaço de 800 metros de estrada, com velocidade reduzida a 50 quilômetros por hora entre as rodovias 95 e 374.
O próprio hotel — o Motel 6 do Vale da Morte — tinha, apesar da aparência exterior, quartos relativamente limpos que cheiravam a sabão desinfetante. Não apenas ela já havia visto piores, como também já exercera suas... habilidades especiais, em lugares piores. E com homens piores, e por muito menos dinheiro. Se havia alguma coisa que a chateava era o próprio nome do motel.
Uma tártara keräşen de nascimento, Allison — seu nome real era Aysilu, que em turco significava bela como a lua — herdou da mãe, do pai e de seus ancestrais um saudável respeito por presságios, tanto os sutis quanto os abertos, e o nome Motel 6 do Vale da Morte certamente se qualificava como um desses últimos.
Não importa. Presságios eram voláteis e o significado sempre estava aberto para interpretações. Nesse caso, o nome do motel dificilmente se aplicava a ela. Seu alvo estava muito embevecido com ela para ser alguma ameaça, direta ou indiretamente. E o que ela tinha vindo fazer aqui exigia pouco pensar de sua parte, tão bem fora treinada. E ajudava o fato de os homens serem simples, criaturas previsíveis, motivados pelas necessidades mais básicas.
— Homens são argila — dissera-lhe uma vez sua primeira instrutora, uma mulher chamada Olga, e mesmo na tenra idade de 11 anos ela sabia que isso era verdade, tendo visto os olhares prolongados dos rapazes de sua aldeia, e mesmo os olhares sempre observadores de alguns homens.
Mesmo antes de ela começar a passar pelas mudanças e seu corpo principiar a florescer, instintivamente sabia qual era o sexo mais belo, que era também o mais forte. Os homens eram fisicamente fortes, e isso tinha seus benefícios e prazeres, mas Allison moldava uma força diferente, que havia lhe servido muito bem, mantendo-a viva em situações perigosas, e confortável nos tempos difíceis. E agora, com 22 anos, sua aldeia deixada para trás, sua força a tornava rica. Melhor ainda, ao contrário de muitos de seus empregadores anteriores, o atual nem exigira uma demonstração da parte dela. Se isso era em função de seus ideais religiosos estritos ou simplesmente profissionalismo, ela não sabia, mas eles a tinham aceitado de boa-fé pelo valor de face, juntamente com as recomendações — ainda que ela não soubesse de quem. Certamente de alguém influente. O programa de treinamento pelo qual havia passado, agora descontinuado, existia sob um manto de segredo bem-guardado.
Ela dirigiu, passando pelo estacionamento do motel, depois deu uma volta pelo quarteirão e voltou na outra direção, procurando por qualquer coisa fora do lugar, alguma coisa que mexesse com sua intuição. Viu o veículo dele, uma picape Dodge azul 1990, juntamente com meia dúzia de outras, todas com placas do estado, menos uma da Califórnia e uma do Arizona. Satisfeita de ver tudo em ordem, entrou em um posto de gasolina, manobrou e voltou ao motel, estacionando a duas vagas da picape Dodge. Levou um tempo retocando a maquiagem no espelho retrovisor e tirou um par de camisinhas do porta-luvas. Jogou-as dentro da bolsa, que fechou com um sorriso. Ele começara a se queixar das camisinhas, dizendo que não queria ter nada entre eles, mas ela objetou, dizendo que preferia esperar que se conhecessem melhor, talvez fazer um teste para doenças sexualmente transmissíveis, antes de levar o relacionamento a um patamar mais elevado. A verdade era que familiaridade e cuidado não tinham nada a ver com sua hesitação. Seu empregador havia sido bastante detalhista, fornecendo-lhe um dossiê minucioso sobre o homem, desde sua rotina diária até seus hábitos de alimentação e a história de seus relacionamentos. Ele tivera duas amantes antes dela, uma namorada no colégio que o dispensou entre o penúltimo e o último ano na escola, e outra pouco depois de se formar na universidade. Esse, também, foi um relacionamento breve. A probabilidade de ele possuir alguma doença era quase inexistente. Não, o uso de camisinhas não era mais que outra ferramenta do seu arsenal. A proximidade pela qual ele ansiava era uma necessidade, e necessidades eram simplesmente pontos de alavancagem. Quando ela finalmente “cedesse” e deixasse que ele a possuísse sem proteção, isso serviria apenas para reforçar o domínio dela sobre ele.
Argila, pensou.
Ela não poderia mais postergar o assunto por muito tempo, pois seu empregador lhe perguntava informações que ela ainda não havia extraído. A razão da impaciência ou o que pretendiam fazer com a informação que ela lhes transmitia era assunto deles, mas evidentemente os segredos desse homem eram de importância crítica. Esse tipo de coisas, porém, não podia ser apressada. Não se você quisesse bons resultados.
Ela saiu, trancou a porta do carro e caminhou para o quarto. Como de hábito, ele havia deixado uma rosa pendurada entre a maçaneta e o batente da porta — o código “deles” para que ela soubesse onde ele estava. Era um homem doce, diga-se a verdade, mas tão fraco e carente que ela achava quase impossível sentir por ele qualquer outra coisa que não desdém.
Ela bateu à porta. Escutou passos caminhando rapidamente em direção a ela, depois a corrente chacoalhando enquanto era destrancada. A porta se abriu e lá estava ele em sua calça de veludo cotelê e uma da meia dúzia de camisetas andrajosas que usava, todas com referência a algum filme de ficção científica ou programa de televisão.
— Olá — arrulhou ela, balançando as cadeiras como uma modelo na passarela. Anos de treinamento a haviam deixado sem nenhum traço de sotaque. — Feliz por me ver?
O vestidinho de alça — da cor de pêssego que ele gostava tanto — se ajustava nos lugares certos e ondulava nos outros, o balanço perfeito entre castidade e provocação. A maioria dos homens, mesmo se não percebessem isso, gostava que suas mulheres fossem damas no cotidiano e putas na cama.
Seu olhar faminto terminou de percorrer suas pernas e seus seios, e depois repousaram em seu rosto.
— Hã, sim... Puxa, sim — murmurou. — Vamos, entre logo.
Fizeram amor duas vezes nas duas horas seguintes, a primeira vez durando apenas alguns minutos, e a segunda, dez, e apenas tanto porque ela o controlou. Músculo de diferentes tipos, pensou. Mas não menos poderosos. Quando terminaram, ele ficou deitado de costas, arquejando, o peito e o rosto pegajosos de suor. Ela rolou e se aconchegou no ombro dele, exalando pesadamente.
— Puxa — murmurou ela. — Essa foi... Puxa...
— É, foi sim — respondeu ele.
Steve não era um sujeito feio, com cabelos ruivos ondulados e olhos azul-claros, mas era magro demais para seu gosto, e sua barba coçava em seu rosto e em suas coxas. Mas era limpo e não fumava, e seus dentes eram bons, de modo que, pelo que ela sabia, podia ser pior.
Quanto às suas habilidades como amante... eram quase inexistentes. Era um amante ultra-atencioso e gentil demais, sempre preocupado se estava fazendo alguma coisa errada ou se deveria estar fazendo algo diferente. Ela fazia o melhor possível para lhe dar segurança, dizendo todas as coisas certas e fazendo os ruídos certos em todos os momentos certos, mas suspeitava que lá no fundo da mente dele estava a preocupação de perdê-la — não que a “tivesse” realmente.
Era a quintessência da síndrome de a bela e a fera. Ele não a perderia, é claro, pelo menos até ela conseguir as respostas que seus empregadores queriam. Allison sentiu um momentâneo sentimento de culpa, imaginando como ele reagiria quando ela desaparecesse. Tinha bastante certeza de que ele havia se apaixonado por ela, o que, afinal, era o ponto central, mas ele era tão... inofensivo que era difícil não sentir de vez em quando pena por ele. Difícil, mas não impossível. Ela expulsou o pensamento da cabeça.
— E como vai o trabalho? — perguntou Steve.
— Tudo bem, sempre a mesma coisa: dando minhas voltas, vendendo meu peixe, dando meu número de telefone e mostrando um pouco meu decote para os médicos...
— Ei!
— Relaxe, estou brincando. Muitos médicos estão preocupados é com o recall.
— Na TV, os analgésicos?
— Esses aí. Mas estamos recebendo muita pressão pelo fabricante para continuar empurrando.
Pelo que ele sabia, ela era representante de laboratórios farmacêuticos de Reno. Eles “se conheceram” numa Barnes & Noble, onde, na Starbucks da loja, Allison se viu sem um centavo para pagar seu Caffé Mocha. Atrás dela na fila, Steve nervosamente se ofereceu para pagar a conta dela. Armada com seu dossiê — ou com a pequena parte que ela achou que devia ler —, e consciente de seus hábitos, o encontro foi facilmente combinado e mais fácil ainda quando ela mostrou interesse pelo livro que ele lia, algo sobre engenharia mecânica sobre o qual na verdade ela não sabia nada. Steve nem havia percebido, tão feliz em ter uma garota bonita prestando atenção nele.
— Então, sobre toda essa coisa de engenharia... — disse ela. — Não sei como você faz isso. Tentei ler um dos livros que me emprestou, mas não entendi nada.
— Bem, você é muito esperta, com certeza, mas é um assunto muito árido. Não se esqueça de que passei quatro anos na universidade por conta disso, e mesmo assim não aprendi realmente nada de prático até conseguir esse emprego. O MIT me ensinou muito, mas nada comparado com o que aprendi desde então.
— Assim como?
— Ah, você sabe, coisas.
— Coisas como?
Ele não respondeu.
— Está bem, está bem. Já saquei, Sr. Sujeito Secreto Muito Importante.
— Não é isso, Ali — respondeu, num tom levemente lamuriento. — É que eles fazem você assinar todos aqueles papéis... Acordo de confidencialidade e tudo mais.
— Puxa, você deve ser importante.
Ele fez que não com a cabeça.
— Nada... Você sabe como é o governo... completamente paranoico. Diabo, fico até surpreso por eles não nos passarem pelo polígrafo, mas quem sabe?
— Então o que é? Armas e bombas e coisas assim? Espere um instante... Você é cientista de foguetes?
Ele deu uma risadinha.
— Não, nada de cientista de foguetes. Engenheiro mecânico, engenheiro comum e corrente.
— Um espião? — Ela se apoiou no cotovelo, deixando o lençol cair e revelar um seio pálido. — É isso aí, não é? Você é um espião.
— Não, também nada de espião. Quer dizer, olhe só para mim. Sou um nerd.
— O disfarce perfeito.
— Cara, você tem mesmo muita imaginação, pode crer.
— Mas você se esquiva das perguntas. E isso é conhecido, típica manobra de espião.
— Nada disso. Sinto muito desapontar você.
— Então o quê? Me diga...
— Trabalho no DOE, o Departamento de Energia.
— Como energia nuclear e essas coisas.
— Certo.
A verdade é que ela sabia exatamente o que ele fazia para ganhar a vida, onde trabalhava e o que acontecia por lá. O que ela procurava — o que eles procuravam — era muito mais específico. Acreditavam que ele conhecia a informação, talvez já na sua cabeça, e, se não, certamente possuía acesso a ela. Allison pensou distraída por que eles a escolheram para fazer o serviço em vez de extrair a informação à força. Suspeitava que a resposta tinha muito a ver tanto com onde ele trabalhava quanto com a não confiabilidade da tortura. Se Steve desaparecesse ou morresse em circunstância mesmo que remotamente suspeita, haveria uma investigação não apenas pela polícia local, como também pelo FBI, o tipo de escrutínio que seu empregador provavelmente estava muito ansioso para evitar. Ainda assim, o fato de eles não terem escolhido o método mais direto lhe dizia algo: a informação que precisavam era tão crítica quanto extraordinária. Steve era provavelmente sua única fonte viável para obtê-la, o que significava que esta ou era altamente protegida em outro lugar ou que o conhecimento que ele tinha sobre isso era bastante particular.
Não que isso importasse. Ela faria o trabalho, pegaria o dinheiro e depois... bem, quem sabe?
Sua remuneração era considerável, talvez o suficiente para lhe dar um ponto de partida para começar uma nova vida em outro lugar, fazendo outra coisa para se manter. Algo comum, como ser bibliotecária ou contadora. Sorriu com o pensamento. Ser comum podia ser muito bom. Ela teria que ser bem cuidadosa, entretanto, com essas pessoas. Seja lá como eles estivessem planejando usar a informação, era mortalmente importante, o suficiente para assassinar alguém.
De volta ao trabalho...
Preguiçosamente, ela passou o dedo pelo peito dele.
— Mas você, tipo, não corre perigo ou coisa parecida, não é? Quero dizer, de pegar um câncer ou coisa assim.
— Bem, não — disse ele. — Na verdade, não. Acho que há um pouco de risco, mas temos protocolos, regras e regulamentos, de modo que só se você ferrasse com tudo para se machucar.
— Então isso nunca aconteceu, com ninguém?
— Claro que sim, mas geralmente é por estupidez, como algum sujeito que teve o pé esmagado por uma empilhadeira ou se engasga com nachos na cafeteria. Já tivemos alguns casos graves em... em outros lugares, mas isso só acontece quando alguém tenta cortar caminho, e, mesmo quando isso acontece, existem sistemas de backup e procedimentos. Acredite em mim, benzinho, eu estou bem seguro.
— Que bom, fico feliz. Odeio pensar que você pode se machucar ou adoecer.
— Isso não vai acontecer, Ali. Sou muito cuidadoso.
Veremos, pensou ela.