Morto ou Vivo
Capítulo 14
O outono estava ali. Podia-se perceber isso pelo vento e pelos blocos de gelo, que começavam a se separar da costa para revelar as águas negras do Oceano Ártico. Não poderia ser mais frio sem congelar, e ainda havia muito gelo à vista, simplesmente para lembrar que o verão ali era, na melhor das hipóteses, fugaz. A Mãe Natureza continuava implacável e cruel como sempre, mesmo sob um cristalino céu azul e com poucas nuvens parecendo bolas de algodão.
O lugar não era muito diferente do seu primeiro posto naval em Polyyarniy, 12 anos antes, bem na época em que a Marinha soviética começava a ser desmantelada. Ah, claro, ainda tinham alguns navios, a maioria deles ancorada nos portos do fiorde Kola, tripulados por homens que permaneceram na Marinha ou porque foram obrigados ou porque não tinham casa para onde voltar. Havia tripulações completas compostas quase inteiramente por oficiais que na verdade recebiam pagamento algumas vezes ao ano. Vitaliy fora um dos últimos convocados para a antiga Marinha soviética e, para seu próprio espanto, viu-se gostando do trabalho.
Depois do estúpido treinamento básico, ele foi promovido a starshina, ou suboficial e contramestre. Era um trabalho difícil, extenuante, mas satisfatório, e acabou por lhe render uma habilidade útil. Ele se aproveitou pessoalmente do sucateamento da Marinha soviética ao comprar a preço de banana um velho, mas bem-conservado, barco de desembarque T-4 que convertera oficialmente em barco de passageiros. Na maioria das vezes, ele levava expedições científicas que exploravam a região por razões obscuras e que não lhe interessavam, enquanto outros eram caçadores que buscavam transformar um urso polar num caríssimo tapete.
Seu afretamento daquela semana o esperava abaixo no litoral, numa pequena aldeia de pescadores. Dois dias antes ele havia carregado o equipamento deles: um caminhão GAZ com tração nas quatro rodas, pneus novos e recém-pintados, equipados com uma armação pesada em forma de A, que ele recebera de um motorista que, como ele, provavelmente tinha sido pago em euro. Como qualquer bom capitão faria, Vitaliy inspecionou a carga e ficou surpreso ao descobrir que todos os códigos de identificação, inclusive o do bloco do motor, haviam sido retirados do caminhão. Apesar de o serviço não ser particularmente complicado nem exigir um mecânico para ser executado, algo disse a Vitaliy que os próprios afretadores não tinham feito aquilo. Então, deviam ter chegado ali, comprado o GAZ em boas condições, pagando uma bela soma a alguém para tirar todas as marcas, e depois contratado o afretamento. Muito dinheiro para espalhar e uma preocupação evidente com anonimato. O que isso queria dizer?
Mas não havia vantagem em ser muito curioso. Os gatos espertos sabiam dos perigos da curiosidade, e ele gostava de pensar que era suficientemente esperto. Os euros também cuidariam de sua memória, algo em que o grupo parecia confiar bastante. O líder do grupo, evidentemente de ascendência mediterrânea, disse a Vitaliy que o chamasse de Fred. Não era tanto um artifício e mais um apelido de conveniência, quase uma piada particular entre eles, e o sorrisinho furtivo durante o primeiro encontro dos dois confirmava isso.
Ele observou o grupo embarcar e lhe acenar, e, quando isso terminou, assinalou a Vanya, seu maquinista e marinheiro, para soltar as amarras. Vitaliy ligou os motores a diesel e se afastou da doca.
Logo se viu no canal e a caminho do mar. A água escura não era exatamente atraente, mas ele e o barco pertenciam àquele lugar, e lhe provocava bem-estar voltar a navegar. Para a manhã ficar perfeita, ele só precisava de um tranquilizante, e isso Vitaliy conseguiu acendendo um Marlboro Lights 100 americano. Então a manhã ficou perfeita. A frota pesqueira local já havia saído do porto — trabalhavam em horas terríveis —, e as águas estavam abertas para uma navegação fácil, com apenas uma pequena agitação de ondas batendo nas boias de sinalização.
Assim que passou o quebra-mar, ele rumou para estibordo e navegou para leste.
Seguindo suas instruções, Adnan manteve a equipe reduzida, apenas ele e mais três em quem confiava, número suficiente para o carregamento pesado, mas não para criar problemas quando chegasse à inevitável conclusão de sua missão. Na verdade, ele não se importava com essa parte. Afinal, sofreria o mesmo destino que seus compatriotas. Uma triste necessidade, pensou. Não, sua maior preocupação era com a possibilidade de fracasso. Fracassar ali sem dúvida teria um efeito ressonante na operação maior, seja lá qual fosse, e Adnan faria qualquer coisa em seu poder para ter certeza de que isso não aconteceria.
Sua vida. Adnan sorriu diante dessa ideia. Os infiéis viam aquilo tudo — árvores, água e posses materiais — como vida. A vida tampouco era definida pelo que você comia, bebia ou conspurcava com suas necessidades corporais. O tempo passado na terra não era mais que a preparação para o que viria depois, e, se você fosse devoto e obediente ao verdadeiro Deus, sua recompensa seria gloriosa para além da imaginação. O que era menos certo, percebia Adnan, era qual seria seu destino se tivesse êxito na missão. Será que receberia missões ainda maiores ou seu silêncio seria mais valioso para o jihad? Ele preferia a primeira hipótese, ainda que apenas para continuar servindo Alá, porém, caso o silêncio fosse seu destino, que fosse. Ele aceitaria qualquer resultado com a mesma equanimidade, confiante de ter vivido sua vida terrena da melhor maneira possível.
Mas o que viria, pensou, estava ainda no futuro, e não iria deixar que isso o preocupasse. Aqui e agora ele tinha um trabalho a fazer. E um trabalho importante, apesar de ele não saber exatamente como se enquadrava no cenário completo. Isso era para mentes mais sábias.
Eles tinham chegado à aldeia de pescadores no dia anterior, depois de se separar do motorista que entregaria o caminhão nas docas, nas mãos do capitão do barco fretado. A aldeia estava semiabandonada, a maioria dos moradores havia se mudado depois que as águas ficaram sem peixe após anos de superprodução. Os poucos que permaneciam cuidavam de suas próprias vidas, virando-se da melhor maneira possível à medida que o outono se transformava em inverno. Adnan e seus homens, empacotados em parcas e com os rostos cobertos com echarpes para se proteger do frio, despertaram pouca atenção, e o gerente do hotel, que ficou surpreso e feliz por ter tantos hóspedes pagantes, não fez nenhuma pergunta — nem sobre de onde vinham nem quais eram seus planos de viagem futuros. Ainda que o gerente tivesse perguntado, Adnan não poderia ter respondido nem se quisesse. O futuro pertencia a Alá, soubesse o resto do mundo disso ou não.
Estava escuro em Paris e havia uma friagem no ar que afetava mais os dois árabes que os parisienses. Mas essa era uma desculpa para mais vinho, sempre bem-vindo. E as mesas na calçada já tinham menos fregueses, de modo que podiam falar mais livremente. Se alguém os estivesse observando, estaria sendo muito cuidadoso ao fazê-lo. E não se podia ficar o tempo inteiro com receio, mesmo nesse negócio.
— Você espera outra comunicação? — perguntou Fa’ad.
Ibrahim assentiu.
— Supostamente está a caminho. Um bom estafeta. Muito confiável.
— O que espera?
— Aprendi a não especular — disse Ibrahim. — Tomo o rumo conforme chegam as instruções. O Emir sabe o que fazer, não é?
— Até agora ele tem sido eficaz, mas às vezes acho que parece uma mulher velha — resmungou Fa’ad. — Se você planejar a operação de modo inteligente, ela funcionará. Nós somos os olhos e as mãos do Emir no campo. Ele nos escolheu. Devia confiar mais em nós.
— Sim, mas ele vê coisas que nós não vemos. Nunca se esqueça disso — lembrou Ibrahim a seu convidado. — É assim que ele decide sobre todas as operações.
— Sim, ele é muito sábio — admitiu Fa’ad, sem realmente ser sincero, mas precisando falar de qualquer modo. Ele jurara lealdade ao Emir e isso, realmente, era tudo, mesmo tendo jurado há cinco anos, ainda em sua adolescência entusiasmada. Nessa idade as pessoas acreditam muito, e facilmente juram lealdade. E leva anos para esse tipo de juramento se desgastar. Se é que se desgasta.
Mas isso não acalmou inteiramente suas dúvidas. Ele encontrara o Emir apenas uma vez, enquanto Fa’ad podia alegar conhecer o homem. Essa era a natureza do trabalho deles. Nem Ibrahim nem Fa’ad sabiam onde seu líder vivia. Conheciam apenas uma ponta de um longo rastro eletrônico. Essa era uma precaução de segurança importante: a polícia americana era possivelmente tão eficiente quanto a europeia, e a polícia europeia tinha homens a ser temidos. Mesmo assim, havia muito de mulher velha no Emir. Ele nem mesmo confiava naqueles que juraram morrer em seu lugar. Em quem, então, ele confiava? Por que nesses e não... nele?, perguntou-se Fa’ad. Fundamentalmente, Fa’ad era brilhante demais para aceitar coisas na base do “porque eu digo que é assim”, como qualquer mãe no mundo diz para seu filho de 5 anos. Ainda mais frustrante é que não podia nem fazer certas perguntas, porque isso implicaria deslealdade para com os demais. E deslealdade na organização era sinônimo de pedir a autoimolação. Mas Fa’ad sabia que, em última instância, isso realmente fazia sentido, tanto do ponto de vista do Emir quanto da organização como um todo.
Não era fácil realizar a obra de Alá, mas isso Fa’ad já sabia. Ou, pelo menos, era o que dizia a si mesmo. Bem, pelo menos em Paris ele podia admirar as mulheres que passavam, a maioria vestida como prostitutas, exibindo os corpos como se fizessem propaganda do seu comércio. Era ótimo, pensou Fa’ad, que Ibrahim tivesse optado por viver nessa área. Pelo menos o cenário era bonito.
— Aquela ali é bonitinha — disse Ibrahim concordando com a observação muda. — É mulher de um médico, e infelizmente não comete adultério, segundo minha experiência.
— Leitura de mente. — Fa’ad riu. — As mulheres francesas aceitam avanços?
— Algumas sim. A parte mais difícil é ler a mente delas. Poucos homens têm essa habilidade, mesmo aqui. — E deu uma boa risada. — Nesse sentido, as francesas não são diferentes das nossas mulheres. Algumas coisas são universais.
Fa’ad bebeu um gole de café e se inclinou para se aproximar de Ibrahim.
— Vai funcionar? — perguntou, querendo mencionar a operação planejada.
— Não vejo razão para não funcionar, e os efeitos serão dignos de atenção. O único inconveniente é que ganharemos novos inimigos, mas como notaríamos essa diferença? Não temos amigos entre os infiéis. Para nós, agora, é simplesmente o caso de colocar as ferramentas no lugar, prontas para o ataque.
— Inshallah — respondeu Fa’ad.
E ambos brindaram, tal como os franceses depois de fecharem um acordo.
Nada como ter a vantagem de mando do campo, pensou o ex-presidente Ryan. Ele havia feito doutorado em história na Universidade de Georgetown, de modo que conhecia o campus quase tão bem quanto sua própria casa. Além do mais, descobriu que o circuito de palestras era surpreendentemente agradável. Era um trabalho fácil, recebendo uma quantidade de dinheiro embaraçosa para falar sobre um assunto que conhecia bem: sua época na Casa Branca. Até então, só tinha visto uma pequena quantidade de loucos de auditório, oitenta por cento dos quais eram adeptos de teorias conspiratórias que eram rapidamente abafadas pelo restante da audiência. Os outros vinte por cento eram esquerdistas que tinham a opinião de que Edward Kealty fizera o país sair da beira do abismo que Ryan criara. Era bobagem, com certeza, mas não era possível duvidar da sinceridade deles, algo que Ryan levava a sério: havia a realidade e havia a percepção, e raramente as duas coisas coincidiam. Era uma lição que Arnie van Damm tentou — na maior parte das vezes, em vão — martelar na cabeça de Ryan durante sua presidência, e uma lição que a teimosia orgulhosa de Ryan não o deixava engolir facilmente. Algumas coisas eram simplesmente verdade. E que a percepção fosse ao diabo. O fato de a maioria do eleitorado americano parecer ignorar esse fato ao eleger Keating ainda perturbava a cabeça de Ryan, mas, de novo, ele não era um observador objetivo. Robby é quem deveria estar no Salão Oval. O truque era não deixar esse desapontamento perturbar seu discurso. Por mais que gostasse de fazê-lo, criticar o presidente em exercício — mesmo que fosse um babaca — não pegava bem.
A porta para o salão verde — nesse caso, uma pequena sala de espera ao lado do McNeir Auditorium — abriu e Andrea Price-O’Day, sua principal agente do Serviço Secreto, passou pelos agentes na porta.
— Cinco minutos, senhor.
— Como está a multidão? — disse Ryan.
— Casa cheia. Mas sem tochas nem ancinhos.
Ryan riu disso.
— Sempre um bom sinal. Como está minha gravata?
Há muito aprendera que Andrea era muito mais hábil com um nó de gravata Windsor que ele — quase tão boa quanto Cathy, mas a boa doutora saíra cedo para o hospital naquela manhã, então ele mesmo dera o laço. Um erro.
Andrea virou a cabeça e avaliou.
— Não está mau, senhor. — Ela ajustou levemente a gravata e acenou brevemente, aprovando. — Sinto meu trabalho como segurança indo embora.
— Isso não vai acontecer, Andrea. — Price-O’Day estava há tanto tempo com a família Ryan que, de fato, a maioria deles raramente lembrava que ela andava armada e pronta para matar ou morrer pela segurança deles.
Houve uma batida na porta, e um dos agentes enfiou a cabeça pela abertura.
— SHORTSTOP — anunciou, e abriu a porta, deixando Jack Jr. entrar.
— Jack! — disse o Ryan mais velho, avançando em sua direção.
— Olá, Andrea — cumprimentou Jack Jr.
— Sr. Ryan.
— Bela surpresa — declarou o ex-presidente.
— Sim, bem, meu encontro me deu um bolo, então...
Ryan riu.
— É, um homem deve ter suas prioridades.
— Droga, não era isso que eu queria dizer...
— Esqueça. Fico contente por você ter vindo. Já tem um lugar?
Jack Jr. assentiu.
— Na primeira fila.
— Ótimo. Se eu tiver problemas, você me passa a deixa.
Jack deixou seu pai, caminhou pelo saguão, pegou as escadas para descer um andar e seguiu rumo ao auditório. Adiante, o saguão estava quase na penumbra, com metade das lâmpadas fluorescentes do teto desligadas. Como a maior parte das instituições educacionais, Georgetown tentava ser mais “verde”. Enquanto passava por uma sala de conferências, Jack escutou um arranhar metálico vindo do cômodo. Parou, recuou e olhou pela persiana. Lá dentro, um faxineiro de macacão azul estava ajoelhado ao lado de uma enceradeira virada, mexendo no polidor com uma chave de fenda. Num impulso, Jack abriu a porta e enfiou a cabeça. O faxineiro levantou a cabeça.
— Olá — disse Jack.
— Alô. — O homem parecia ser hispânico e falou com sotaque carregado. — Mudando o polidor — disse.
— Desculpe interromper — disse Jack, e fechou a porta atrás de si. Tirou o celular e discou o número de Andrea. Ela atendeu no primeiro toque. Jack disse: — Ei, estava a caminho do auditório... Há um faxineiro aqui embaixo...
— Sala de conferências dois-b?
— Essa.
— Já o revistamos e vamos passar o detector novamente. De qualquer modo, vamos pela rota do porão.
— Ok, só estava checando.
— Procurando outro emprego? — perguntou Price-O’Day.
Jack deu uma risadinha.
— Que tal o salário?
— Menos do que você ganha. E o horário é um inferno. Logo mais vejo você.
Andrea desligou. Jack caminhou para o auditório.
— Hora do espetáculo, senhor — disse ela ao ex-presidente Ryan, que levantou e ajustou os punhos. O gesto era singularmente do Jack Ryan mais velho, mas Price-O’Day já havia visto um pouco do filho no pai, e a chamada de SHORTSTOP sobre o faxineiro lhe dissera algo mais. Intelectualmente, o filho não fora esculpido em uma matéria diferente da do pai. Será que havia algo como genes de espião?, considerou Andrea. Se assim fosse, Jack Jr. provavelmente os herdara. Como o pai, era intensamente curioso e aceitava poucas coisas pela aparência. É claro que tinham revistado o edifício e é claro que Jack sabia disso. Mesmo assim, ele notara o faxineiro e imediatamente pensara: Anomalia. Foi um alarme falso, mas a questão fora válida, algo que os agentes do Serviço Secreto aprendiam a questionar através de treinamento e experiência.
Andrea verificou seu relógio e repassou mentalmente a rota, vendo o mapa na cabeça, cronometrando as voltas e as distâncias. Satisfeita, bateu duas vezes na porta, assinalando para o agente que estava ali que SWORDSMAN estava pronto para se movimentar. Esperou um instante para o cordão de proteção se formar, abriu a porta, verificou o saguão e saiu, assinalando a Ryan para segui-la.
Sentado no auditório, Jack Jr. folheava distraído o programa da noite, seu olhar percebendo as palavras, mas o cérebro sem registrar nada delas. Algo inconscientemente o incomodava, aquela sensação nebulosa de alguma coisa deixada sem acabar... Alguma coisa que ele pretendia fazer antes de deixar o Campus, talvez?
O reitor da Georgetown apareceu no palco e caminhou em direção ao pódio, acompanhado de aplausos polidos.
— Boa noite, senhoras e senhores. Como temos apenas um ponto no programa desta noite, serei breve em minha introdução. O ex-presidente John Patrick Ryan tem uma longa história de serviço público...
Faxineiro. A palavra pulou, solta, na mente de Jack. Ele foi revistado, Andrea dissera. Mesmo assim... Pegou o celular, e se deteve. O que iria dizer? Que tinha um pressentimento? Ele podia ver o lado esquerdo do palco a partir da poltrona onde estava. Dois agentes do Serviço Secreto de terno negro apareceram. Atrás deles, Andrea e seu pai.
Antes de perceber o que fazia, Jack levantou e se direcionou para a saída lateral. Trotou subindo as escadas, caminhou pelo saguão, contando as salas de conferência enquanto passava.
Chave de fenda, pensou, e de repente a coceira inconsciente que ele sentira minutos antes entrou em foco. O faxineiro usava uma chave de fenda para remover o polidor que estava preso no centro da enceradeira por uma porca de atolamento.
Com o peito agora disparando, Jack chegou à sala de conferência correta e parou a alguns passos de distância. Viu luzes saindo pela persiana, mas não ouviu nada vindo de dentro. Fez uma pausa, caminhou até a porta e tentou abrir a maçaneta. Trancada. Espiou pela janela. A enceradeira ainda estava lá. O faxineiro havia desaparecido. A chave de fenda estava no chão.
Jack virou e começou a correr de volta ao auditório. Parou na porta, recompôs-se e depois abriu gentilmente a porta e entrou, fechando-a suavemente. Algumas pessoas olharam quando ele entrou, tal como um dos agentes de Andrea parado no corredor central. Este acenou reconhecendo Jack, e depois voltou a esquadrinhar o auditório.
Jack começou a esquadrinhar, procurando primeiro por algum sinal de macacão azul, mas rapidamente deixou isso de lado: o faxineiro não entraria no auditório. As coxias também deviam estar vazias, trancadas pela equipe de Andrea. Quem mais?, pensou, pescando no mar de rostos. Membros da audiência, agentes, segurança do campus...
Parado ao lado da parede leste, o rosto parcialmente na sombra e as mãos apertadas diante de si, estava um guarda de segurança. Como os agentes, ele também esquadrinhava a audiência. Como os agentes... Jack continuou perscrutando, contando os guardas de segurança do campus. Cinco no total. E nenhum deles esquadrinhando a multidão. Sem treinamento em proteção pessoal, a atenção deles não estava focada no público — a mais provável área de ameaça —, mas sim no palco. Menos o guarda na parede leste. O homem virou a cabeça e seu rosto passou rapidamente pela luz.
Jack tirou o celular e mandou uma mensagem para Andrea: GUARDA, PAREDE LESTE = FAXINEIRO.
No palco, Andrea estava de pé, 3 metros atrás e à esquerda do pódio. Jack a viu tirar o celular, verificar a tela e devolver o aparelho ao bolso. A reação foi imediata. O microfone no punho subiu à sua boca e depois desceu. O agente no corredor central caminhou casualmente para o fundo e depois virou à direita na interseção acarpetada, indo em direção à parede leste. Jack então viu Andrea dar um passo para trás de seu pai, movimentando-se no que assumiu ser um ângulo de intercepção entre ele e o guarda.
O agente do corredor central chegou ao corredor da parede leste. Dez metros adiante, o guarda virou a cabeça em sua direção, pausando um instante breve no agente, e depois se voltou novamente para o palco, onde Andrea havia se colocado em posição de bloqueio. Seu pai, notando a movimentação, olhou rapidamente na direção dela, mas continuou falando. Ele percebia o que Andrea estava fazendo, é claro, raciocinou Jack, mas não sabia se existia alguma ameaça específica.
Na parede leste, o guarda também notou o movimento de Andrea. De modo casual, desceu dois passos no corredor e se inclinou para sussurrar algo no ouvido de um membro da audiência. A mulher olhou para o guarda, surpresa no rosto, depois se levantou. Sorrindo agora, o guarda a pegou pelo cotovelo e, passando para seu lado direito, a guiou pela saída na direção do palco.
Quando passavam pela quarta fileira, Andrea deu mais um passo adiante, mantendo a posição de bloqueio.
Ela desabotoou o paletó.
O guarda subitamente passou a mão do cotovelo para o pescoço da mulher, depois caminhou de lado, movimentando-se lateralmente para passar pela primeira fileira. A mulher soltou um grito. Cabeças se voltaram. A mão direita do guarda deslizou para a cintura, na frente de sua calça. Ele sacudiu a mulher, usando-a como escudo. A pistola de Andrea apareceu e apontou.
— Parado, Serviço Secreto!
Atrás dela, outros agentes já se movimentavam, encobrindo o ex-presidente, fazendo-o se abaixar e o levando para o outro lado do palco.
A mão do guarda saiu da cintura portando uma semiautomática 9 milímetros. Vendo o alvo se mover para longe de seu alcance, o guarda cometeu o erro que Andrea esperava. Com a arma na altura do palco, ele deu um passo adiante. E com isso ficou uns 20 centímetros longe de seu escudo humano.
Andrea disparou uma vez. A 5 metros de distância, a bala côncava de baixa velocidade atingiu o alvo, penetrando na cabeça do guarda entre o olho esquerdo e a orelha. Projetada para situações em lugares fechados, com multidão presente, a bala fez o que prometia, abrindo em cogumelo dentro da cabeça do guarda, expandindo toda sua energia em 1 milésimo de segundo e parando, como a necropsia mostraria mais tarde, a 5 centímetros do lado oposto do crânio.
O guarda desabou, morto antes de alcançar o carpete.
— Andrea me falou que você salvou o dia — disse o ex-presidente Ryan vinte minutos depois, na limusine.
— Só soltei o sinalizador — respondeu Jack.
A coisa toda fora uma experiência surreal, pensou Jack, mas, de alguma forma, menos surreal do que o desenrolar dela. Ainda que a série de acontecimentos tivesse sido breve — cinco segundos do momento em que o guarda pegou a mulher de sua poltrona até o disparo de Andrea o derrubar —, a repetição mental na cabeça de Jack transcorria, previsivelmente, em câmera lenta. A audiência ficou tão chocada com o tiro que só houve alguns gritos, todos emitidos antes que o assassino caísse morto.
Por sua parte, Jack sabia muito bem que não devia se movimentar, de modo que ficou parado ao lado da parede oeste enquanto a segurança do campus e os agentes de Andrea esvaziavam o auditório. Seu pai, abrigado no meio do monte do Serviço Secreto, já estava fora do palco antes que Andrea tivesse feito o disparo mortal.
— Mesmo assim — disse Ryan. — Obrigado.
Era um momento desconfortável que terminou em um silêncio ainda mais desagradável. Foi Jack Jr. quem o quebrou.
— Assustadora essa merda, hein?
O ex-presidente Ryan assentiu.
— O que fez você voltar lá... quero dizer, voltar para verificar o faxineiro?
— Quando o vi, ele tentava tirar o polidor da enceradeira com uma chave de fenda. Ele precisava de uma chave de boca.
— Impressionante, Jack.
— Por causa da chave de fenda...
— Em parte por isso. E em parte porque você não entrou em pânico. E deixou os profissionais fazerem o trabalho. Oito em cada dez pessoas não teriam notado a coisa com a enceradeira. E a maioria teria entrado em pânico, paralisando. Outros teriam tentado avançar em cima do sujeito. Você fez a coisa certa, de cabo a rabo.
— Obrigado.
O Ryan mais velho sorriu.
— Agora vamos ver como contamos isso tudo para sua mãe...