Morto ou Vivo
Capítulo 68
— Como você se sente? — perguntou Gerry Hendley, quando Jack se sentou diante de sua mesa. Sam Granger estava de pé ao lado, encostado em uma janela, com os braços cruzados.
— Fora o fato de me perguntarem isso uma porrada de vezes, estou bem — respondeu Jack. — Foi só um arranhão, Gerry. Nada que um pouco de superbonder não pudesse controlar.
— Não é disso que estou falando.
— Sei do que você está falando.
— Jack, há menos de 12 horas você matou um homem. Se me disser que isso não o está incomodando, vou te acorrentar na sua mesa.
— Chefe...
— Ele está falando sério — disse Granger. — Goste ou não disso, você é filho do presidente Jack Ryan. Se acha que isso não nos faz dar uma pausa, pense novamente. E se por um segundo nós acharmos que sua cabeça não está bem-aparafusada, você volta para o banco.
— O que vocês querem de mim? A verdade é que minhas mãos ainda tremem e que meu estômago está revirado. Eu enfiei a agulha no MoHa porque ele merecia. Esse tal de Sinaga... não sei. Talvez merecesse, talvez não. Ele veio para cima de mim, tentou me matar... — Jack hesitou, pigarreou. — Se eu queria matá-lo? Não. Estou contente por ter sido ele e não eu? Podem apostar.
Gerry considerou o assunto por alguns instantes, depois assentiu.
— Pense um pouco no assunto e volte a falar comigo amanhã. Seja lá o que quiser fazer, tem seu lugar aqui.
— Obrigado.
— Sam, peça para eles entrarem, por favor.
— Espere um instante — disse Jack. — Já discuti o assunto com John e Ding... Se lembram do e-mail sobre o nascimento que conseguimos? — Hendley assentiu. — Não passou dali. Nenhuma resposta, nenhum encaminhamento. Nada de nada. Estou achando que aquele e-mail foi uma ordem de “mudar de canal”.
— Explique — pediu Granger.
— Sabemos que o CRO usa esteganografia para se comunicar. Provavelmente através das imagens nos banners em seus sites, e provavelmente fazem isso há algum tempo. E se o e-mail fosse um sinal para as células mudarem para um protocolo que use apenas esteganografia; digamos que seja a versão de silêncio de rádio deles.
— Com que objetivo?
— Operações especiais entram em silêncio de rádio quando estão prestes a entrar em ação. Talvez o Emir tenha dado o sinal verde para alguma operação.
— Observamos uma queda nas comunicações antes do 11 de Setembro — observou Granger. — E também em Bali e Madri.
Hendley assentiu.
— Jack, quero que fique grudado em Biery. Destrinchem o que conseguiram com Nayoan.
— Muito bem.
— Faça-os entrar, Sam.
Granger abriu a porta, e Clark e Chavez entraram e sentaram ao lado de Jack. Hendley disse a Clark:
— Já sabe?
— O quê?
— As acusações contra Driscoll já eram.
— Quem diria — falou Clark, sorrindo.
— O secretário de imprensa de Kealty anunciou isso ontem, bem no final do expediente. Bem a tempo de deslizar para o fim de semana. Sam conversou com um velho amigo em Benning. Driscoll está limpo. Retiro honroso, pensão completa mais adicional de deficiência. O ombro dele vai ser um problema?
— Só se você quiser que ele monte divisórias aqui no escritório, Gerry.
— Ótimo. Muito bem, vamos ver o que vocês têm.
— Não achei nada no trailer de Sinaga, a não ser uma câmera digital SLR — disse Clark. — Nikon, preço médio. Tinha um cartão SD lá dentro com algumas centenas de imagens. Principalmente fotos de paisagem, mas cerca de uma dúzia eram de rostos.
— Fotos para passaporte — acrescentou Chavez. — Todos homens, a maioria do Oriente Médio ou indonésios, ao que parece. E um deles já vimos antes. Se lembram do estafeta que seguimos, Shasif Hadi?
— Não brinca — disse Granger.
— Mas olha só — respondeu Jack. — Na foto de rosto que Sinaga tinha, Hadi está completamente barbeado. Quando o estávamos seguindo, usava barba e bigode. Barbeie, use um novo passaporte, e está pronto para outra.
— Isso pode responder à pergunta de para onde ele foi depois de Las Vegas, pelo menos parcialmente. Saiu do país — disse Clark.
Hendley assentiu.
— Mas para onde e por quê? Sam, o que mais sabemos sobre Sinaga?
— Ele está no topo da parada de sucessos em Jacarta. Conversei com um amigo de um amigo que é o chefe da estação em Surabaya. O sujeito era bom. Tinha uma queda especial por passaportes.
— E como estamos com o reconhecimento facial?
Essa foi respondida por Jack:
— Biery está com seu sistema em testes beta, mas não sabemos muito sobre o sistema que a Imigração e a Segurança Nacional estão usando. Os parâmetros deles podem ser diferentes dos nossos.
— FBI? — perguntou Granger.
— Provavelmente o mesmo sistema. Se não for, de qualquer maneira fazem polinização cruzada.
— Quando Dom voltar, vamos ver se ele solta um balão de ensaio. Considerando que Hadi é a nossa única variável conhecida, vamos focar primeiro nela. Descobrir aonde ele foi depois de Las Vegas. Sr. Clark, como deixou as coisas em São Francisco?
— Estamos limpos com Nayoan. Deixamos tudo no lugar, mas fizemos o download de muitos dados. Gavin está amaciando tudo agora. Uma coisa é certa: Nayoan era um grande operador de logística para o CRO. Dinheiro, documentação... Sabe mais lá o quê. Quanto a Sinaga, montamos um cenário de arrombamento. Ele perdeu a luta contra o assaltante e foi morto. Trouxe seu DVD, algum dinheiro, para dar consistência no caso.
— Vamos ficar de olho no noticiário de lá, para ver se está funcionando. Deveria. Fomos bem cuidadosos.
— Muito bem, então vamos esperar até nosso supernerd achar alguma coisa. Obrigado, cavalheiros. Sr. Clark, pode ficar mais um momento? — Depois que Jack e Chavez saíram e a porta fechou, Hendley disse: — Então?
Clark sacudiu o ombro.
— Ele está ok. Se vai ter gosto pelo trabalho de campo, só o tempo dirá, mas ele está lidando bem com isso. É um garoto esperto.
— E o que a esperteza tem a ver com isso? — perguntou Granger.
— Está bem, então. É equilibrado. Tal como o pai.
— Você o levaria novamente para o campo?
— Em um segundo, chefe. Ele tem bons instintos, boa capacidade de observação, e aprende muito rápido. E mais: tem um pouco de cinza nele, o que não prejudica.
— Cinza? — perguntou Hendley.
— O homem cinza — respondeu Clark. — Os melhores espiões sabem como se dissolver na paisagem: como caminham, como se vestem, como falam. Você passa por eles na rua e nem os nota. Jack tem isso, e é natural.
— Mais da genética dos Ryan?
— Talvez. Não se esqueça de que ele cresceu sob o microscópio. Sem nem perceber, provavelmente pescou muitas coisas no ambiente. Os garotos são astutos. Jack percebeu cedo o que todos aqueles sujeitos de terno escuro faziam por lá o tempo todo. Colocou suas antenas para funcionar.
— Você acha que ele vai contar ao pai?
— Sobre o Campus? Acho. Não é culpa de ninguém, mas Jack vive sob a sombra do pai, e é uma puta de uma sombra. Quando ele souber o que realmente quer, vai achar um modo de dizer.
Com a ajuda de um funcionário da alfândega, Musa carregou o contêiner na traseira de seu Subaru Outback alugado, acenou para o inspetor e dirigiu saindo pelo portão. Musa, é claro, não começou sua longa viagem para Calgary como dissera ao inspetor da alfândega, mas sim dirigiu uns 20 quilômetros para leste, até o subúrbio de Surrey, e entrou no estacionamento do Holiday Inn Express. Achou uma vaga de estacionamento bem em frente a seu quarto no térreo, entrou e passou o restante do dia cochilando e passando de um programa idiota de TV para outro até finalmente se fixar na CNN. Seu quarto tinha conexão wireless de internet, de modo que teve que resistir ao impulso de ligar o laptop, logar e procurar atualizações. Tinha um pen drive com a última tabela de uso único e o software de descodificação — e não entendia realmente nada das duas coisas —, mas logar em um site satélite nessa altura da operação não era prudente. No dia seguinte ao meio-dia seria a próxima verificação agendada, e mesmo essa seria breve. A menos que lhe dissessem o contrário, ele assumiria que as outras peças do plano estavam encaixando no lugar.
Musa ficou olhando o teto, deixando o blá-blá-blá da televisão ao fundo, e fez sua lista de verificação mental. Ele conhecia de cor as distâncias e as rotas, e sua documentação passaria por tudo, salvo um escrutínio intenso. É claro que o inspetor de alfândega do aeroporto havia sido uma barreira, mas aquilo não era nada comparado com as medidas de segurança dentro dos Estados Unidos. Ali a polícia era curiosa, atenta e hipervigilante. Mas, Musa lembrou a si mesmo, dentro de alguns dias tanto as forças de segurança estaduais quanto as federais estariam realmente com os pratos cheios, e ele já estaria em seu destino.
*
Cochilou até o relógio o despertar às sete horas da noite. Sentou e esfregou os olhos. Podia perceber, mesmo com as cortinas puxadas, que os restos de luz do dia já diminuíam. Acendeu a luminária de cabeceira. Na televisão, um dos âncoras estava entrevistando algum sujeito de Wall Street, picando e repicando a economia dos Estados Unidos.
— Atingiu o fundo do poço? — perguntava o âncora. — O país está entrando em etapa de recuperação?
Idiotas. Os Estados Unidos ainda veriam o fundo do poço. Em breve.
Musa foi até o banheiro, jogou água no rosto, e em seguida vestiu o paletó. Ficou no meio do quarto, pensando, depois voltou ao banheiro e puxou uma toalha do aparador. Movimentando-se de trás para a frente, limpou todas as superfícies que tocara: balcão, assento da privada, maçaneta da descarga, interruptor de luz... Terminou com a mesa de cabeceira, o controle remoto e a lâmpada. Já havia pago pelo quarto, de modo que não precisava passar pela recepção. O recepcionista disse que ele podia deixar o cartão de entrada no quarto, o que ele fez, primeiro limpando-o bem, depois colocando-o sobre a televisão. Enfiou a toalha no bolso da calça. O que mais? Teria esquecido alguma coisa? Não, concluiu. Saiu, fechou a porta e caminhou até a traseira do Subaru. O contêiner estava no lugar. Destravou as portas, entrou e ligou o motor.
Depois de sair do estacionamento, entrou na rodovia 1 e dirigiu para sudoeste por 35 quilômetros até o acesso para a rodovia Fraser, pela qual foi em direção a leste por mais 11 quilômetros até a rua 264. Ali, dobrou para o sul e dirigiu por mais uns quatro minutos. Logo viu adiante as luzes do estádio. Era o cruzamento da 13 com a 539, um conjunto em forma de trevo ao lado da fronteira entre os EUA e o Canadá. Musa sentiu seus batimentos cardíacos aumentarem. Continuou em frente.
A uns 500 metros ao norte do conjunto a estrada se dividia; a pista da esquerda indo para o conjunto, e a pista da direita realizando uma curva até se inserir no que seu mapa chamava de Avenida Zero, e se dirigia a oeste. Ele apertou o botão de zerar o odômetro e olhou pelo retrovisor. Ninguém atrás dele. Levou o Subaru até o limite de velocidade, depois diminuiu um tantinho e ajustou o controle de velocidade máxima.
Estranho, pensou, que esse pedaço desinteressante de estrada com duas pistas, enquadrado dos dois lados por capões de árvores e campos de agricultores fosse a fronteira entre dois países. A única evidência que Musa viu disso foi uma cerca de arame na altura da cintura do lado sul da estrada. Os americanos gostavam de suas cercas, não é mesmo?
Ele dirigiu por 12 quilômetros, observando o sol se pôr e as estrelas aparecerem. Seus faróis refletiam no asfalto cinza, as faixas divisórias amarelas sumindo embaixo do carro, até depois do que pareceram ser horas, os faróis apontaram para uma interseção. Quando se aproximou, olhou a placa: rua 216. Ótimo. Agora ele estava perto. Em seguida, veio a 212, depois a 210. Musa desligou o controle de velocidade de cruzeiro e encostou o carro. Adiante e à sua esquerda viu algumas casas atrás de uma fileira de árvores. Observou pela janela do motorista, deixando que o carro continuasse diminuindo a velocidade... Pronto.
Ao lado de um grupo de pinheiros, uma abertura na cerca de arame. Uma placa dizia: PROPRIEDADE PARTICULAR. MANTENHA DISTÂNCIA. Musa olhou adiante, não viu faróis, depois verificou no retrovisor. Limpo. Apagou os faróis, pisou no freio, girou à esquerda e, cruzando a outra pista, ele atravessou o portão.
Estava nos Estados Unidos.
A estrada quase imediatamente começou a descer, a terra aplainada ficando mais esburacada. À sua direita, 1 acre de tocos de pinheiros se destacava na paisagem. Alguma madeireira comprara esse pedaço da floresta e decidira derrubar as árvores.
A estrada ficou mais esburacada, mas o Subaru com sua tração nas quatro rodas lidou bem com isso. A estrada de madeireiros fazia meandros ao sul e ao leste, descendo por um terreno descoberto por mais uns 800 metros, antes de chegar a um cruzamento triplo de estradas de terra. Musa dobrou à esquerda. A estrada ficou mais suave minutos antes de emergir em outra interseção. Virou ali à esquerda, dirigindo-se mais uma vez a leste por algumas centenas de metros antes de girar para o sul mais uma vez. Cinco minutos depois apareceu o asfalto. Essa devia ser a estrada da rua H. Ele soltou a respiração. Se era para ser surpreendido atravessando a fronteira, isso já teria acontecido. Estava livre. Por enquanto.
Acendeu novamente os faróis e dobrou à direita na estrada. Mais 8 quilômetros o levariam à rodovia 5, logo ao norte de Blaine, Washington. De lá, ele dirigiria para o sul. Três dias de viagem fácil por grandes rodovias.