Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 40 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 40

 

Eles tinham que treinar para não parecer conspiradores, para se apresentarem como pessoas comuns que estavam em um almoço normal em um café parisiense num dia de garoa, o que os ajudava. Além deles, havia apenas dois clientes: um casal jovem em uma mesa coberta por um guarda-sol.

Ibrahim havia lhes dito como se vestir — como franceses de classe média —, e continuar assim dali em diante. Todos falavam francês, e, apesar de serem muçulmanos, nenhum deles frequentava mesquitas regularmente, fazendo suas preces diárias em casa, e jamais assistindo aos sermões dos imames mais radicais e loquazes, afinal todos eram mantidos sob observação constante pelas várias agências policiais francesas.

Ao se manter em locais públicos e conversar como pessoas normais, eles evitavam as reuniões conspiratórias em pequenas salas que podiam ser grampeadas por policiais espertos. Encontros ao ar livre eram facilmente observáveis, mas quase impossíveis de serem gravados. E praticamente todos os homens da França encontravam amigos regulares no almoço. Mesmo que a polícia francesa fosse grande e bem-financiada, não podiam investigar todo mundo nesse país infiel. Com a visibilidade regular vem o anonimato. Muitos outros já foram capturados ou mesmo mortos por seguirem o caminho contrário. Especialmente em Israel, onde as agências policiais eram notoriamente eficientes, principalmente devido ao dinheiro que tão generosamente espalhavam pelas ruas. Havia sempre os que gostavam de ganhar dinheiro dando informações, razão pela qual ele devia escolher muito cuidadosamente as pessoas.

Assim, as reuniões não começavam com cantos religiosos. De qualquer maneira, eles conheciam todos. E falavam exclusivamente em francês, para que ninguém notasse o uso de língua estrangeira. Muitos ocidentais estavam aprendendo a reconhecer os sons do árabe — e para eles isso sempre soava conspiratório. A missão deles era se tornar invisíveis à luz do sol. Felizmente, isso não era tão difícil.

— Então, qual é a missão? — perguntou Shasif Hadi.

— É uma instalação industrial — respondeu Ibrahim. — Por enquanto, isso é tudo que precisam saber. Quando estiverem no terreno, receberão a informação completa.

— Quantos? — perguntou Ahmed. Era o membro mais jovem da equipe, barbeado e com um bigode bem-cuidado.

— O objetivo não é provocar baixas; pelo menos não baixas humanas.

— Então, o quê? — Esse era Fa’ad. Era um kuaitiano, alto e bem-apessoado.

— Mais uma vez repito: vocês saberão mais quando for necessário. — Tirou um pedaço de papel do bolso e o desdobrou na mesa em frente. Era um mapa impresso por computador, alterado com algum software de edição de imagens, de modo que todos os nomes estavam apagados. — O problema é selecionar o melhor ponto de entrada — disse Ibrahim. — A instalação é bem-protegida, tanto por dentro quanto no perímetro. As cargas explosivas necessárias serão comuns, pequenas o suficiente para se levar numa mochila. Os guardas inspecionam a área duas vezes ao dia, de modo que a marcação do tempo será crítica.

— Se você me passar as especificações dos explosivos, posso começar a planejar — disse Fa’ad, satisfeito por ver sua educação usada pela Sagrada Causa de Alá. Os demais o acharam excessivamente orgulhoso de seu diploma de engenharia pela Universidade do Cairo.

Ibrahim assentiu.

— E o que há sobre os serviços de inteligência e a polícia do local? — perguntou Hadi.

Ibrahim balançou a mão em sinal de desprezo.

— Administrável.

O tom despreocupado contradizia seus pensamentos. Ele tinha realmente medo da investigação policial. Eram como os malignos djins no modo como conseguiam inspecionar algum tipo de prova e retirar magicamente dali todo tipo de informação. Não dava para dizer o que sabiam e como conseguiam ligar aquilo tudo. E sua função primária era não existir. Ninguém devia conhecer seus nomes e rostos. Ele viajava anônimo como o vento do deserto. O CRO poderia permanecer vivo apenas se ele permanecesse escondido. Por sua vez, Ibrahim viajava com vários cartões de crédito desconhecidos — dinheiro vivo, infelizmente, não era mais anônimo. A polícia temia os que usavam dinheiro vivo, e os revistavam rigorosamente. Ele tinha na sua casa passaportes em quantidade suficiente para satisfazer o Ministério de Relações Exteriores de um Estado-nação, cada um deles tendo custado uma fortuna e usado apenas algumas vezes antes de ser reduzido a cinzas. E ele se perguntava se mesmo isso seria precaução suficiente. Bastava apenas uma pessoa para o trair.

E as pessoas que podiam traí-lo eram precisamente aquelas em quem ele confiava absolutamente. Pensamentos como esse viravam e reviravam na mente. Bebeu um gole de café. Ele se preocupava até mesmo em falar enquanto dormia no avião em um voo transoceânico. Bastava apenas um deslize desses. Não era a morte o que ele temia — nenhum deles temia isso —, mas sim o fracasso.

Mas não eram os Sagrados Guerreiros de Alá aqueles que cumpriam as missões mais difíceis, e não seriam suas bênçãos proporcionais aos méritos? Ser lembrado. Ser respeitado por seus compatriotas. Conseguir lutar pela causa — mesmo que fizesse isso sem reconhecimento, compareceria diante de Alá com a paz em seu coração.

— Já temos a autorização final? — perguntou Ahmed.

— Ainda não. Espero que logo, mas ainda não. Quando nos separarmos aqui, não nos veremos mais até estarmos no país.

— E como vamos saber disso?

— Tenho um tio em Riad. Ele planeja comprar um carro novo. Se meu e-mail disser que se trata de um carro vermelho, esperamos; se for verde, passamos para a etapa seguinte. E assim, cinco dias depois desse e-mail, vamos nos encontrar em Caracas, como planejado, e depois fazer o restante da viagem de carro.

Shasif Hadi sorriu e deu de ombros.

— Então vamos todos orar para que seja um carro verde.

 

O escritório já contava com placas com seus nomes nas portas, notou Clark. Tanto ele quanto Chavez tinham escritórios de tamanho médio, adjacentes, com mesas, cadeiras giratórias, duas cadeiras para visitante em cada um e computadores pessoais, completos, com os manuais sobre como usá-los e como acessar todo tipo de arquivo.

Por sua parte, Clark foi bem rápido para dominar o sistema do seu computador. Em vinte minutos, para seu próprio espanto, já navegava pelo andar localizado no porão, sob rochas, do quartel-general da CIA em Langley.

Dez minutos depois:

— Puta merda — sussurrou.

— É mesmo — disse Chavez desde a porta. — O que você achou?

— É um compartimento para o nível de diretor. Acabei de navegar por ali. Jesus, isso me deixa entrar na porra quase toda.

Davis estava de volta.

— Vocês são rápidos. O sistema de computadores permite que tenham acesso a muita coisa. Não é exatamente tudo, só aos compartimentos maiores. É tudo que precisamos. A mesma coisa com Fort Meade. Temos uma abertura para quase tudo classificado como inteligência computacional. Vão ter que ler muita coisa para se atualizarem. A palavra-chave EMIR os levará a 23 compartimentos, que é tudo o que temos sobre nossa caça, inclusive um perfil terrivelmente bom; ou pelo menos é o que achamos. Está identificado como ESOPO.

— Sim, estou vendo isso aqui — respondeu Clark.

— Um sujeito chamado Pizniak, professor de psiquiatria da faculdade de medicina de Yale. Leiam tudo e vejam o que acham. De qualquer maneira, se precisarem de mim, sabem onde é a minha loja. Não receiem fazer perguntas. A única pergunta idiota é a que não é feita. Ah, aliás, a secretária pessoal de Gerry é Helen Conolly. Trabalha com ele há muito tempo. Ela não está, e repito, não está por dentro do que fazemos aqui. Gerry redige ele mesmo seus relatórios e coisas assim, mas neste nível de decisão geralmente fazemos tudo verbalmente. Aliás, John, ele me contou sobre sua ideia de reestruturação. Foi bom você ter lhe dito aquilo, pois me poupou de levantar o assunto.

Clark deu uma risadinha.

— Fico sempre contente em bancar o cara malvado.

Davis saiu, e os dois voltaram ao trabalho. Primeiro, Clark viu as fotos que tinham do Emir, que não eram muitas e estavam em má qualidade. Os olhos, percebeu, eram frios. Quase sem vida, como os de um tubarão. Nenhuma expressão neles. Isso não é interessante?, pensou Clark. Muita gente dizia que os sauditas eram um povo sem humor — como os alemães, mas sem o senso de humor era a frase usada por muitas pessoas —, porém essa não fora sua experiência lá.

Clark jamais conhecera um saudita ruim. Havia alguns que ele conhecia desde sua vida na CIA, pessoas com as quais aprendera a língua. Todos eram religiosos, parte da conservadora seita wahabita do islamismo sunita. Não muito diferentes dos batistas sulistas no que dizia respeito à integridade de sua devoção. Por ele, tudo bem quanto a isso. Uma vez estivera em uma mesquita e observara a prática da religião, com cuidado para permanecer sem ser notado no fundo — e havia sido em boa medida uma lição em linguagem, mas era evidente a sinceridade da crença religiosa. Conversara sobre religião com seus amigos sauditas e não achou nada neles que pudesse objetar. Era difícil fazer amigos íntimos entre o povo, mas um verdadeiro amigo saudita se colocaria diante de uma bala para protegê-lo. As regras de sua religião sobre coisas como hospitalidade eram realmente admiráveis. E o islamismo proibia o racismo, algo que infelizmente o cristianismo tinha deixado de lado.

Clark não sabia se o Emir era ou não um muçulmano devoto, mas certamente não era nenhum idiota, e o ESOPO deixava isso bem claro. Era naturalmente paciente, mas também capaz de ser muito resoluto na tomada de decisões. Uma combinação rara, pensou Clark, embora ele mesmo se comportasse assim. A paciência era uma virtude difícil de adquirir, ainda mais para um verdadeiro fiel em seja lá que causa tivesse escolhido como missão de vida.

O manual do seu computador tinha um diretório da biblioteca digitalizada interna da Agência, e também referências a partir da palavra-chave EMIR. Assim, Clark começou a navegar. Quanta coisa Langley teria sobre o sujeito? Que agentes de campo haviam trabalhado com ele? Que anedotas chegaram a relatar? Será que alguém tinha a chave para o caráter do cara?

Clark se sacudiu do devaneio e observou o relógio. Uma hora já havia passado.

— O tempo voa — murmurou, e pegou o telefone. Quando o outro lado respondeu, Clark disse: — Gerry, aqui é o John. Tem um minuto? Tom também, se estiver à mão.

Dois minutos mais tarde estava no escritório de Hendley. Tom Davis, caça-talentos do Campus, chegou um minuto depois.

— O que houve?

— Tenho um candidato, talvez — disse Clark, e então, antes que qualquer um dos dois pudesse fazer a pergunta óbvia, continuou: — Veio de Jack Ryan; o mais velho, quero dizer.

Isso atraiu a atenção de Hendley, que se inclinou na cadeira, mãos cruzadas sobre a almofada de anotações sobre a mesa.

— Prossiga.

— Não me pergunte como, porque não conheço todos os detalhes, mas há um Ranger, um veterano chamado Driscoll, que caiu na água quente. Os boatos dizem que Kealty quer fazer dele um exemplo.

— Em cima do quê?

— Uma missão no Hindu Kush. Matou um punhado de bandidos em uma caverna enquanto eles dormiam. Kealty e seu procurador-geral querem acusar Driscoll de assassinato.

— Deus do céu! — murmurou Tom Davis.

— Você conhece o sujeito? — perguntou Hendley.

Clark assentiu.

— Há uns dez anos, logo antes de começar a Rainbow, fiz um trabalhinho na Somália. Tinha uma equipe de Rangers fazendo a vigilância para mim. Driscoll era um deles. Ficamos em contato, tomamos uma cerveja de vez em quando. Sujeito sólido.

— Até onde já chegou esse assunto do procurador-geral?

— A investigação criminal do Exército está no caso. Investigação preliminar.

Hendley suspirou e coçou a cabeça.

— O que foi que Jack disse?

— Ele tinha suas razões para me contar. Sabe que estou aqui a bordo.

Hendley assentiu.

— Primeiro o mais importante: se isso está vindo da Casa Branca, Driscoll não vai se safar sem algum arranhão.

— Tenho certeza de que ele sabe disso.

— No melhor dos casos, vai para a reserva. Talvez fique com a pensão.

— Tenho certeza de que sabe disso, também.

— Onde ele está?

— Brooke Army Medical, lá em San Antonio. Ganhou uma lembrancinha no ombro durante a retirada.

— Coisa séria?

— Não sei.

— Muito bem, vá ter uma conversinha com ele. Veja como se sente. — Depois, para Davis: — Enquanto isso, Tom, abra uma pasta para Driscoll. Levantamento completo e tudo mais.

— Certo.

— Entre — disse Ben Margolin para Mary Pat. — Feche a porta.

Mais um dia no NCTC. Mais tráfego interceptado, mais pistas que poderiam levar a alguma coisa ou a coisa alguma. O volume era espantoso, e mesmo que isso não fosse novidade para nenhum deles, a maioria se preocupava achando que estava perdendo mais coisas do que captavam. Uma tecnologia melhor ajudaria, mas ninguém sabia quanto tempo ainda levaria para ter os novos sistemas instalados e funcionando. O fiasco do Trailblazer fez os poderes instituídos temerem outro fracasso, e então estavam fazendo testes de versões beta de tudo que havia naquela coisa. Enquanto isso, pensou Mary Pat, ela e o restante do NCTC se viravam, tentando manter o dedo no dique enquanto procuravam outras rachaduras.

Mary Pat fechou a porta como lhe mandaram e sentou diante da mesa de Margolin. Lá fora, o centro de operações zumbia de atividade.

— Liquidaram com a ideia de pedir ajuda externa — disse Margolin sem mais preâmbulos. — Não vamos usar nenhum dos agentes britânicos no Paquistão.

— Pelo amor de Deus. Por quê?

— Acima da minha competência, Mary Pat. Levei até onde pude, mas não consegui. Meu palpite: Iraque.

A mesma ideia ocorrera a Mary Pat antes mesmo que seu chefe dissesse a palavra. Com a pressão de seus cidadãos, o Reino Unido estava consistentemente se distanciando, tanto politicamente quanto na alocação de recursos de combate, da Guerra do Iraque. O boato era que, a despeito de seu tom conciliador em público, o presidente Kealty estava furioso com os britânicos, que o tinham, achava, deixado à mercê de uma queda iminente. Sem o apoio pelo menos nominal do Reino Unido, qualquer plano para retirar tropas americanas seria retardado, isso se já não corressem perigo. Pior ainda, a atitude de distanciamento dos britânicos tinha por sua vez encorajado o governo iraquiano, cujos pedidos pela retirada dos Estados Unidos haviam passado de educados e firmes para estridentes e agressivos, o que os cidadãos americanos não podiam deixar de notar. Primeiro, nosso aliado mais próximo, e depois, o próprio povo pelo qual tínhamos derramado nosso sangue para salvar. Depois de fazer sua campanha com a promessa de desentranhar os Estados Unidos do Iraque, Kealty estava descendo nas pesquisas, e alguns dos comentaristas da TV chegaram mesmo a acusar Kealty de suprimir a retirada para pressionar o Congresso, que ficara irresoluto diante de alguns dos projetos de estimação do novo presidente.

O fato de a solicitação de alistar os britânicos para seguir o ângulo do mapa de Peshawar ter sido negada não devia surpreender Mary Pat, veterana de mais pinimbas intergovernamentais de que conseguia se lembrar, mas foi o que aconteceu. Essa maldita caverna era a melhor pista que tiveram a respeito do paradeiro do Emir em anos. Ver isso escorrer pelos dedos por conta do que parecia ser um chilique presidencial a deixava furiosa. É claro que o fato de seu próprio DCI, Scott Kilborn, ser um banana, não ajudava nada.

Mary Pat sacudiu a cabeça e suspirou.

— É uma pena que Driscoll tenha perdido seus prisioneiros.

— Um tanto de inalação de água tende a soltar as línguas — disse Margolin.

Uma ideia popular, pensou Mary Pat, mas de pouca utilidade no mundo real. Ela não tinha pudores nem era nenhuma Poliana para achar que a tortura não tinha seus méritos, mas geralmente essas técnicas deixavam a desejar na produção de informação confiável e verificável. Na maioria das vezes, era uma perda de tempo. Durante e pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial, o MI6 e o OSS conseguiram mais informações de generais alemães capturados durante um jogo de pingue-pongue ou de damas do que com alicates ou eletrodos.

O cenário tão falado do “tique-taque da bomba” era quase um mito. A maior parte das conspirações contra os Estados Unidos desde o 11 de Setembro haviam sido quebradas no berço, enquanto os bandidos estavam recrutando, movimentando dinheiro ou preparando a logística. A imagem de um terrorista com o dedo prestes a apertar um botão em algum lugar enquanto os bons rapazes tentavam extrair informação de algum compatriota dele era mais do que rara, era simplesmente uma invenção de Hollywood, e tinha tanta semelhança com o mundo real da inteligência quanto James Bond. De fato, em toda sua carreira, houvera apenas uma ocasião em que a situação de “tique-taque da bomba” aconteceu, e John Clark resolvera o caso em minutos ao quebrar alguns dedos e fazer as perguntas certas.

— Clichês são clichês por alguma razão — dissera-lhe Ed certa vez. — Porque são geralmente verdadeiros, as pessoas tendem a usá-los em demasia.

No que dizia respeito a Mary Pat, quando se tratava de interrogatórios, o clichê “pode-se pegar mais moscas com mel do que com vinagre” era o mais correto. A moralidade era apenas uma face na discussão de prós e contras. O que realmente importava era a eficácia. Faz-se o que for necessário para se conseguirem os melhores resultados. Ponto final.

— Então — disse ela a seu chefe —, de volta ao ponto de partida?

— Porra nenhuma. Aquele velho amigo do outro lado da poça que você mencionou... Dê uma ligadinha para ele, conversa informal.

Mary Pat sorriu, mas sacudiu a cabeça.

— Isso é o que chamam de matar o emprego, Ben.

Ele deu de ombros.

— Só se vive uma vez.

 

Melinda ficou agradavelmente surpresa ao vê-lo novamente. Ele a levara de carro para ver “John” na semana anterior. Pagara bem e não fizera nada abertamente pervertido, o que estava ótimo para ela, principalmente a parte monetária.

O sujeito — bem, ele estava bem-apresentável, ou o que passava por isso por ali. Não era comum para ela aparecer em público assim. Era uma garota de programa, não uma puta de rua, mas esse hotel tinha um restaurante particularmente agradável, e o maître a conhecia e gostava dela. Uma trepadinha grátis dava muitas vantagens para uma garota, e, verdade seja dita, ele era um cara decente, casado, como muitos de seus clientes e, portanto, confiável. Bem, quase confiável. Nunca se podia ter certeza, mas os homens na posição dele, que viviam por ali, geralmente conheciam as regras. E, se isso não funcionasse, ela ainda tinha sua Pequena Sra. Colt na bolsa.

Contato visual. Um sorriso de conhecedor. Era bonitinho, esse cafetão. Barba bem curta, como algo que Errol Flynn poderia exibir em um filme de pirata. Mas ela não era Olivia de Havilland. Era mais bonita, pensou Melinda, sem nem um traço de timidez. Dava duro para permanecer delgada. Os homens gostavam de mulheres cujas cinturas pudessem envolver com as mãos. Especialmente as que tinham belos peitos acima.

— Olá — disse ela com simpatia. Um sorriso que era simplesmente amigável no rosto, mas quem o recebia sabia que havia muito mais por trás dele.

— Boa noite, Melinda. Como você está nesta noite tão agradável?

— Muito bem, obrigada. — Um pouquinho de dentes aparecendo com o sorriso.

— Está ocupada esta noite?

— Não, agora não. — Mais dentes. — Mas nem sei seu nome.

— Ernest — respondeu ele com um sorriso gentil. O sujeito tinha certo charme, mas do tipo estrangeiro, pensou Melinda. Não europeu. De algum outro lugar. O inglês dele era bom, com um pouco de sotaque... Tinha aprendido inglês em algum outro lugar. Era isso. Aprendera bem... e o que mais? O que ele tinha de diferente? Ela se perguntou. Começou a catalogá-lo de modo mais completo. Magro, mais alto que ela, adoráveis olhos escuros, bem melancólicos. Mãos macias. Não trabalhava em construção. Mais tipo de quem mexia com dinheiro, esse Ernest, nome que certamente não era de nascimento. O olhar dele a avaliava. Ela estava acostumada com isso. Tipo Como será a trepada dela? Bem, ele tinha razões para saber que ela era muito boa. Seu patrão não havia se queixado, até pagara um extra. Sim, ela era mesmo boa. Melinda tinha muitos fregueses habituais, alguns dos quais conhecia pelo nome verdadeiro — ou pelo que eles diziam ser o nome verdadeiro. Ela dava nomes para seus clientes regulares, frequentemente relacionados com o tamanho de seus cacetes. Ou com a cor, nesse caso, pensou com um risinho abafado e um sorriso não reprimido que Ernest poderia guardar para si. Isso era algo que ela fazia quase instintivamente. De qualquer modo, já estava contando o dinheiro.

— Você gostaria de vir comigo? — perguntou ele, quase tímido. Os homens sabiam instintivamente, pelo menos os espertos, que a timidez é bem excitante para as mulheres.

— Gostaria sim. — E ser recatada também funcionava bem na outra direção. — Para ver seu amigo?

— Talvez. — O primeiro erro dele. Ernest não ficaria contrariado se provasse o produto ele mesmo. Ela podia ser uma puta suja, mas era boa amante, com muita prática no negócio, e os desejos dele eram os mesmos que os dos outros homens. — Por favor, você vem comigo?

— Certamente.

Foi um trajeto curto, para surpresa de Melinda. Um apartamento bem na cidade, num edifício de luxo com seu próprio estacionamento subterrâneo. “Ernest” desceu do carro e galantemente abriu a porta para ela. Foram até os elevadores, e ele apertou o botão. Ela não conhecia o edifício, mas a fachada era suficientemente característica para que se lembrasse. Então John tinha uma casa na cidade? Mais conveniente para ela, e para ele?, perguntou-se. Ou talvez ele se lembrasse agradavelmente dela. A sua experiência lhe dizia que isso acontecia com frequência.

“John” estava de pé na entrada da cozinha, segurando uma bela taça de vinho branco.

— Bem, olá, John, que surpresa agradável — saudou Melinda, com seu melhor sorriso. Era um sorriso particularmente competente, capaz de aquecer o fundo do coração de um homem, e também outros órgãos, é claro. Ela foi até ele, beijando-o suavemente antes de aceitar a taça oferecida. Depois um pequeno gole. — John, você tem um ótimo gosto para vinhos. Italiano?

— Pinot grigio — confirmou.

— Eles também têm a melhor cozinha.

— Seus ancestrais são italianos? — perguntou John.

— Húngaros — admitiu ela. — Fazemos boas massas, mas os italianos fazem a melhor vitela do mundo. — Outro beijinho de boas-vindas. John era meio estranho, mas beijava bem. — Como você tem passado?

— Viajar é um problemão para mim — confessou ele, falsamente naquele momento.

— Para onde você teve que ir? — perguntou Melinda.

— Paris.

— E gosta do vinho de lá?

— O italiano é melhor — respondeu, já um pouco chateado com a conversa. Ela não estava ali por seus dotes de conversação. Todas as mulheres tinham isso, mas os talentos de Melinda eram melhores em outras áreas. — Você está com um belo vestido.

Que posso tirar rapidamente, ela não disse. Escolhia suas roupas de trabalho com isso em mente. Alguns homens gostam das mulheres despidas, mas um número surpreendente gosta de dar uma rapidinha com as mulheres parcialmente vestidas: saia levantada, inclinada sobre uma mesa ou sofá, com sutiã, mas com os seios à mostra... John também gostava do sexo oral ajoelhado, e ela nem se importava com isso, desde que ele não se entusiasmasse demais.

— Apenas algo que joguei por cima — respondeu ela. — Mas que belo apartamento.

— É conveniente. Gosto da vista.

Melinda aproveitou a oportunidade para olhar a grande janela envidraçada. Ok, tudo bem. Agora ela sabia exatamente onde estava. Havia muitas pessoas nas ruas, pelo menos no que eles consideravam ruas por ali, meros caminhos para passar de um hotel de luxo para outro, para os que eram pães-duros e não gostavam de pegar um táxi. Nem eram bem calçadas, entretanto. Não se ganhava dinheiro com calçadas. John simplesmente ficou atrás e olhou para ela.

— Melinda, você é uma visão — disse com um sorriso. Era o tipo de sorriso com o qual ela estava acostumada, o sorriso de “vamos-trepar-logo”. Um sorriso aparentemente polido, mas no fundo cheio de tesão. Uma olhadinha abaixo da linha da cintura de John confirmou seu palpite.

Era o momento de ir até ele para outro beijo. Poderia ter sido pior.

— Hmmm — murmurou ela. Muito bem, hora de trabalhar, John. Seus braços a envolveram. Braços bem fortes, talvez para que ela soubesse que era propriedade dele. Os homens eram assim. Depois, gentilmente, ele a conduziu para o quarto.

Nossa, pensou ela. Seja lá quem tivesse decorado o quarto, sabia para que servia o apartamento. Provavelmente, não era a primeira decoração dele ou dela, disso Melinda tinha certeza, pelo detalhe da bela poltrona onde ela podia tirar a roupa. Ao pôr do sol teria sido uma porra de perfeição, pensou. Sentou-se e, antes de mais nada, tirou seus sapatos Manolo Blahnik. Apesar de serem bem bonitos, tirá-los era mais agradável do que colocá-los. Eram feitos para olhar, não para caminhar, e seus pés eram pequenos, de garota. Os homens sempre gostavam deles. O top tomara que caia saiu, foi colocado sobre a penteadeira, e ela se levantou. Nunca usava sutiã quando saía para trabalhar, e se sentia bem assim. Nada de caimento em seus seios tamanho 46, quase 48. Homens gostavam daquilo. Um momento depois, estava nua e se dirigia para ver John mais de perto.

— Posso ajudar? — perguntou. Os homens sempre gostavam que ela os despisse, especialmente se seu tom insinuasse um “me coma” urgente.

— Sim, por favor — respondeu John, com um sorriso sonhador. Seja lá de onde ele viesse, não estava acostumado com esse tipo de adoração. Bem, pagava caro para ter isso, que era uma das coisas em que ela era boa mesmo. Em um minuto, viu a razão pela qual se lembrava dele. Vermelho, um apelido perfeito. É claro, ela o beijou.

E, é claro, ele reagiu favoravelmente a isso. Pelo que pagava, ela queria que ele virasse cliente regular. Andava pensando em um carro novo. Uma BMW, ou talvez logo um Mercedes. Ele poderia ajudá-la com isso. Como na profissão, ela gostava de pagar em dinheiro. Bem, podia ser um cheque visado pelo carro certo. Um Mercedes-Benz Classe E, pensou. Gostava da solidez do carro alemão. Dava para se sentir segura dentro de um deles. Ela gostava de se sentir segura. Levantou-se.

— John, vai ser a noite toda? Isso custa mais, 2.500 dólares.

— Tanto assim? — perguntou ele, com um sorriso.

— Há um antigo ditado: você recebe pelo que paga.

— Esta noite não. Tenho que sair depois.

Você não passa as noites aqui?, pensou ela. Será que aqui é só seu matadouro? Ele devia ter uma tonelada de dinheiro para sair gastando assim. Só esse lugar devia ter custado 1 milhão, talvez 1,5 milhão. Se era do tipo que gostava tanto assim de sexo, ela realmente queria tê-lo como cliente regular. Os homens não gostavam de como as mulheres como ela os avaliavam, e muito menos que fossem a fundo nisso. Os homens eram tão idiotas, pensou Melinda, mesmo os ricos. Especialmente os ricos. Observou-o pegar um envelope, que entregou a ela.

Como sempre, Melinda abriu o envelope e contou as notas. Era importante que os homens soubessem que se tratava de uma transação de negócios, mesmo que fosse estimulado pelo melhor amor fingido que o dinheiro pudesse comprar. Vários deles haviam desejado que o relacionamento entre eles fosse mais que isso. Ela possuía um jeito extremamente charmoso de desviar essa conversa para outras direções.

O envelope foi para dentro da bolsa Gucci, do lado da Pequena Sra. Colt com cabo de madrepérola. Quando ela levantou, dava seu melhor sorriso. A parte dos negócios tinha acabado. Agora o amor podia começar.