Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 87 de 92

Páginas do PDF

Morto ou Vivo

Capítulo 87

 

Clark voltou à cozinha.

— Jack, pegue a lista telefônica. Precisamos do aeroporto mais próximo. Passeios comerciais de helicópteros são nossa melhor aposta.

— Já vendo.

— Dom, você dirige. Doutor, ficará confortável aqui com ele? — Ding vinha pelo corredor arrastando Tariq atrás de si. — Voltaremos para pegá-lo.

— Com certeza.

Jack anunciou:

— Paragon Air Helicopter Tour na rodovia 215. A 5 quilômetros daqui.

Em trinta segundos estavam no carro e em dois minutos na rodovia. Clark usou o telefone via satélite para ligar para o Campus. Rick Bell atendeu, e Clark falou:

— Preciso de você, Gerry e Sam para uma conversa em conferência imediatamente.

— Espera aí.

Transcorreram trinta segundos. Hendley entrou na linha.

— O que há, John?

— Estou com Jack na linha também. Nosso sujeito fugiu, saiu ontem. Um guarda-costas ainda estava na casa. Eles têm uma bomba, Gerry, provavelmente abaixo de 10 quilotons, mas grande o suficiente para o que planejaram.

— Espera, como é? Isso é confiável?

— Acredito que sim. E temos que assumir que é.

— Onde eles conseguiram isso?

— Não tenho ideia. Nosso sujeito não tinha essa informação.

— Muito bem, o que mais?

— O Emir irá se encontrar com seis homens a mais ou menos 160 quilômetros daqui. O guarda-costas não tinha os detalhes completos, mas o alvo deles é a montanha Yucca.

— A do depósito de lixo nuclear?

— Essa aí.

— Mas ainda nem está aberta. Não há nada ali.

— Há o lençol freático — rebateu Jack.

— Como é?

— Pense em um teste nuclear subterrâneo. Detone uma bomba nuclear sob 3 mil metros de rocha e a onda de choque desce direto. Os engenheiros de lá já têm túneis de armazenamento que descem a mais de 300 metros. O lençol freático está 150 metros mais abaixo. É uma peneira geológica — explicou Jack. — Toda a radiação da bomba desce direto para os aquíferos, e dali para o restante do sudoeste. Talvez chegue até a Costa Oeste. Estamos falando de milhares de quilômetros quadrados envenenados pelos próximos 10 mil anos.

O silêncio se fez na ponta do Campus. Depois Granger disse:

— Onde eles conseguiram essa porra?

— É de fabricação caseira, provavelmente algo estilo canhão primitivo: dispare um pedaço de urânio chamado “infiltrante” dentro de um pedaço maior chamado de “mina” e se consegue massa crítica — respondeu Clark.

— E o material? Onde obtiveram?

— Não tenho certeza. O guarda-costas disse que um dos capitães do Emir estava na Rússia até duas semanas atrás.

— Você é quem está no terreno, John. O que quer fazer? — indagou Hendley.

— Estamos com opções limitadas, Gerry. Seja lá quem chamemos, não vai simplesmente mandar a cavalaria. Há uma centena de questões antes que alguém se mexa: quem somos nós, onde conseguimos a informação, que provas temos... Você sabe como é isso.

— Sim.

— Estamos a uns dois minutos de uma pista de aviação. Vamos ver se conseguimos um helicóptero. Dependendo do que conseguirmos, podemos estar sobre Yucca em trinta minutos. Se chegarmos lá primeiro, protegeremos a base até você achar alguém que escute.

— E se chegarem lá em segundo lugar?

— Não quero nem pensar nisso. Ligo quando estivermos voando.

 

A 150 quilômetros do norte de Las Vegas, na rodovia 95 do Vale da Morte, o Emir diminuiu a marcha de seu carro e cruzou o canteiro central até o acostamento. A via de terra mal era perceptível através da berma de cactos anões, mas ele pegou o caminho para dentro de uma depressão e logo achou as marcas de pneu. Pelo para-brisa, a uns 500 metros adiante, as Skeleton Hills se levantavam do terreno desértico como montanhas lunares.

A trilha continuava descendo, depois virava ao norte e começava a correr paralela a um cânion raso. Ele viu um carro estacionado uns 400 metros adiante. Quando se aproximou, percebeu se tratar de um Subaru. Musa estava de pé ao lado da porta do motorista. O Emir diminuiu a marcha e parou ao lado dele, que entrou no carro. Os dois se abraçaram.

— Que bom ver você, irmão — disse Musa.

— E você também, velho amigo. Estão todos lá?

— Sim, logo adiante.

— E o dispositivo?

— Já está carregado e a bordo.

O Emir seguiu as indicações de Musa por mais uns 800 metros pela trilha, até onde esta fazia uma curva junto a uma colina baixa. A carreta de Frank Weaver estava estacionada, a frente virada para a estrada. O tonel GA-4 brilhava ao sol. Três homens estavam de pé ao lado da porta do motorista.

O Emir e Musa desceram e foram até lá.

— Minha equipe da Rússia — disse Musa. — Numair, Fawwaz e Idris.

O Emir acenou para cada um.

— Todos agiram muito bem. Alá sorrirá sobre vocês. — O Emir verificou o relógio. — Partiremos em 15 minutos.

 

O espaço era apertado, mas todos conseguiram se espremer na cabine do caminhão. Fawwaz, que era o mais parecido com Frank Weaver, dirigia. Cinco minutos mais tarde, estavam na rodovia em direção ao norte.

Uma placa no acostamento informava: RODOVIA 373 — 10 quilômetros.

 

Chavez parou no estacionamento da Paragon Air. Através da cerca podiam ver dois helicópteros — ambos Eurocopter EC-130 — parados na pista. Chavez foi até o escritório, e Clark desceu com Jack.

— Ding, dê a volta até o portão da manutenção. Abriremos para você.

Clark e Jack foram até o escritório. Uma mulher com cerca de 60 anos, usando um penteado que parecia uma colmeia vermelha, estava sentada atrás do balcão. À direita, através de uma meia porta de vidro, estava a área de manutenção.

— Bom dia — saudou Clark.

— Bom dia para você. Em que posso ajudar?

— Será que tem um piloto por aí com quem eu possa falar?

— Talvez seja algo que eu possa ajudar. Está interessado em um tour?

— Não, na verdade tenho uma pergunta técnica sobre o conjunto de sustentação do rotor do EC-130. Meu filho aqui estuda aviônica, e seria de enorme ajuda se pudesse ver um de perto.

— Só um instante, vou ver se Marty tem um tempinho.

Ela pegou o telefone, falou por um minuto, e depois disse:

— Ele já vem.

Clark e Jack foram rumo à porta. Um sujeito com macacão cinza se aproximou e a abriu. Clark estendeu a mão.

— Olá, Marty! Steve Barnes. Este é meu filho Jimmy... — Enquanto falava, avançou pela porta, levando Marty consigo. — Tenho uma pergunta sobre o EC-130.

Apenas mais duas pessoas eram visíveis no hangar, ambas no extremo oposto, perto de um Cessna.

— Claro — respondeu Marty. — Mas provavelmente deveríamos voltar lá para dentro.

Clark levantou a fralda da camisa e mostrou o cabo da Glock a Marty.

— ...Ah, merda, ei...

— Relaxa — disse Clark. — Só queremos pegar um helicóptero emprestado.

— Hã?

— E queremos que você pilote.

— Isso é uma piada?

— Nada disso. Você vai nos ajudar ou dou um tiro na sua perna e levo o helicóptero de qualquer jeito. Coopere, nos leve até onde queremos ir e estará de volta dentro de uma hora. Diga sim.

— Sim.

— Qual pássaro está pronto?

— Bem, nenhum...

— Não minta para mim, Marty. Estamos no fim de semana. Horário nobre para tours e lições.

— Ok. Aquele ali. — Marty apontou.

— Vá dizer à recepcionista que você vai dar uma saidinha rápida. Banque o espertinho e leva um tiro na bunda.

Marty abriu a porta, enfiou a cabeça, e fez o que mandaram.

Jack sussurrou a Clark:

— O que é conjunto de sustentação do rotor?

— Não faço ideia.

Marty virou as costas para a porta e Jack perguntou:

— Onde estão os controles para o portão lateral?

— Na parede de fora, do outro lado do hangar.

Jack seguiu naquela direção. Clark sorriu para Marty.

— Vamos indo.

— O que está acontecendo? — perguntou Marty enquanto se dirigiam para o EC-130. — O que vamos fazer?

— Você está salvando o dia, Marty.

Quando se aproximaram do helicóptero, Jack, Chavez e Dominic vieram pelo outro lado do hangar. Foram para o fundo, enquanto Clark sentou no banco de passageiro da frente. Marty entrou, apertou o cinto e começou a checagem anterior ao voo.

— Para onde vamos? — perguntou.

Jack respondeu:

— Noroeste. Quando você chegar nas rodovias 95 e 373, siga para o noroeste. — E deu a latitude e a longitude para o piloto.

— Esse espaço aéreo é restrito, cara — falou Marty. — É a área do Nellis Range e da área de testes nucleares de Nevada. Não podemos...

— Claro que podemos.

 

Oito minutos depois estavam no espaço aéreo. Clark ligou para Hendley e o informou:

— Estamos no ar.

— Rick Bell também está na linha. Mais fichas estão caindo. A CNN, a MSNBC, a Fox, todo mundo está cobrindo. Algum tipo de explosão em uma igreja em Waterloo, Iowa; estão falando de algo entre cinquenta e sessenta mortos, e talvez duas vezes esse número de feridos. Teve alguma coisa em Springfield, no Missouri, também. Uma estação de rádio local estava cobrindo a inauguração de uma estátua, e diz que parecia a porra da Omaha Beach. Também em uma cidade em Nevada... Brady... Alguém entrou na piscina de um colégio e rolou granadas por baixo da arquibancada. Deus do céu.

— Estão fazendo o que sempre fizeram — disse Clark. — Terror. O Losan, o incêndio de Paulínia, esses ataques. O CRO está mandando uma mensagem: ninguém está a salvo em nenhum lugar.

— Bem, vai haver muito mais fiéis depois disso tudo.

— É pior que isso — disse Bell. — Se lembra do mergulho que a economia deu depois do 11 de Setembro? Multiplique isso por mil, e é o que pode acontecer. O Emir e o CRO tentam terminar o serviço: fazer com que a economia destrua o país de dentro para fora. Atacaram nossa fonte de petróleo, tentaram atingir um grande porto, mataram sabe Deus quantos no coração do país, e agora estão tentando uma ação nuclear. As pessoas são a economia. Paralise uma, paralisa-se o restante. Acrescente Kealty a isso, considerando que ele está girando o totó, e temos uma porra de um problemão.

— Faz sentido — respondeu Clark. — Nada do que esse sujeito faz é unidimensional.

— Qual sua previsão de horário de chegada? — quis saber Hendley.

Clark perguntou a Marty:

— Quanto tempo?

— Vinte e dois minutos.