Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 79 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 79

 

Dois minutos depois Biery já estava no andar de cima, entrando no escritório de Hendley.

— Descobri um padrão — anunciou. — Se vocês mandarem isso em texto simples Hadi vai saber que é falsa.

A interceptação de Rick Bell no último instante era o resultado de uma maratona de madrugadas observando seu algoritmo recém-escrito mastigar as tabelas de uso único do CRO. Apesar de, por sua própria natureza, as letras de uma tabela dessas serem randômicas e, portanto, impenetráveis por qualquer um que trabalhasse fora da tabela corrente, era da natureza de Biery observar padrões onde ninguém pensava que existissem. Era, como uma vez explicou para Jack, uma espécie de projeto SETI (Busca de Inteligência Extraterrestre): “Provavelmente não existe nada lá, mas não seria ótimo se houvesse?” Nesse caso, o que Biery descobriu foi um padrão para as tabelas de uso único do CRO.

— As tabelas de uso único são ótimas, provavelmente a forma mais simples de criptografia “inquebrável” do mundo, apesar de nada ser realmente inquebrável — explicou quando Rick Bell regressou. — Na verdade, tudo é uma questão de probabilidade, realmente...

— Outra hora, Gavin — interrompeu-o Granger.

— Certo.

— Bem, como você imaginou, o Emir, ou seja lá quem montou isso, provavelmente estava preocupado com seu pessoal no campo. É meio estúpido levar uma tabela de uso único com você, ou ter no laptop que leva de um lado para o outro, então bolaram um sistema para recriar a tabela do dia enquanto se está fora. Consome algum tempo, mas é factível.

— Estamos ouvindo — disse Bell.

— Eles usam uma fórmula chamada método do quadrado do meio. Foi criada por um matemático húngaro chamado Von Neumann em 1946. Essencialmente, o que se faz é tomar um número semente, e o tamanho não importa, desde que seja um número par de dígitos, calcular o quadrado disso, depois tomar a parte do meio do resultado, mais uma vez, quantos dígitos você queira, e usar como seu novo número semente. Como esses sujeitos provavelmente estarão fazendo as contas no papel, possivelmente usarão pequenos números, e constroem a partir daí. Por exemplo...

Biery pegou o bloco na mesa de Hendley e começou a escrever:

 

49 × 49 = 2-4-0-1. Novo número semente = 40

 

— Considerando que não se pode usar zeros, faz-se o arredondamento. Então seu novo número semente é 41. Depois você calcula o quadrado disso e continua, até encher a grade da tabela.

— E os números são aleatórios? — perguntou Granger.

— Pseudoaleatórios, mas você não é capaz de saber disso a menos que tenha um monte de tabelas para mastigar os números. Quanto mais complicada a fórmula, mais aleatórios serão os números, mas em algum momento não se pode prosseguir nos cálculos com papel e lápis.

— Então, que fórmula estão usando?

— Dia, mês e ano, todos somados. Pegue hoje, por exemplo, 21 de maio de 2010... — E escreveu:

 

21 + 5 + 2010 = 2036

 

— Você usa apenas os dois dígitos do meio. Arredondando o zero, é claro.

— E 13 é seu novo número semente — disse Hendley.

— Você sacou.

— E todas as tabelas de uso único usam o mesmo método?

— Todas as que pegamos no cofre de Almasi.

— Que belo trabalho, Gavin.

— Obrigado. — E saiu.

— Esse rapaz acabou de salvar nossa pele — comentou Granger.

 

Sabendo que Alá tomaria isso como falta de fé, Hadi sempre resistiu a acreditar em presságios, mas a proximidade do Jardim Botânico no Rio com a estátua do Cristo Redentor era enervante. Mas, então, lembrou a si mesmo que tudo no Rio parecia estar perto do Cristo Redentor. Colocada a 710 metros de altura, no alto do morro do Corcovado, olhando centenas de quilômetros quadrados de floresta e da mancha urbana, o monólito de 38 metros de altura e 1.145 toneladas de pedra-sabão era o marco mais famoso da cidade, lembrando a Hadi que ele se encontrava em um país essencialmente pagão.

Hadi tinha feito um bom tempo na viagem depois de se separar de Ibrahim e dos demais, mas passara as primeiras duas horas com as mãos apertadas no volante e olhando o retrovisor a cada vinte segundos.

Uma hora depois do amanhecer parou no município de Seropédica, nos subúrbios mais distantes a leste do Rio. A 50 quilômetros de distância podia ver o Rio de Janeiro propriamente dito: uma cidade que se espalhava por 1.300 quilômetros quadrados de área e com uns 12 milhões de almas — quase a metade da população da Arábia Saudita em apenas uma cidade. São Paulo era ainda maior, mas ele havia aterrissado lá à noite e margeara a parte norte da cidade até seu hotel em Caieiras.

Na entrada do Jardim Botânico, comprou um ingresso e uma brochura com mapa no caixa. A brochura descrevia as atrações do jardim: 141 hectares, 7 mil espécies de plantas tropicais, laboratórios de pesquisa... Folheou as páginas até encontrar a localização de espaços específicos. O aviário estava no começo da lista. Orientou-se pelo mapa e começou a caminhar. Era um dia claro e ensolarado, e a umidade quase insuportável. Distante ao sul, podia enxergar a capa de fumaça negra ocasionada pelo ataque em São Paulo, tão densa que parecia que a noite havia caído naquela seção da costa.

A meio caminho de seu destino, passou por uma sorveteria e olhou pela janela. Uma pequena televisão instalada no canto da loja estava ligada na Record News. Imagens do incêndio na refinaria, algumas obtidas do solo e outras de um helicóptero, eram transmitidas ao lado do rosto da âncora. Ela se virou para outra câmera, uma mudança de assunto, e subitamente apareceu um retrato falado na tela. A semelhança não era perfeita, mas era precisa o suficiente para Hadi sentir o coração pular no peito.

Não pode ser, pensou. Quem me viu? Eles não haviam deixado testemunhas, disso tinha certeza. A picape de segurança da refinaria que passou enquanto estavam colocando as cargas estava longe demais para vê-lo. Uma câmera de vigilância, talvez? Não, isso não estava certo. Se tivessem uma imagem verdadeira dele, teriam-na transmitido, e não um esboço.

Continuou a observar a reportagem, esperando ver seu retrato falado seguido por um de Ibrahim. Depois Fa’ad, depois Ahmed. Mas só ele permanecia na tela.

Pense, pense...

Percebeu uma loja de lembranças do outro lado da praça de alimentação. Foi até a loja e entrou. Verificou se havia aparelhos de televisão ou rádios. Não havia nenhum, de modo que ficou por ali, para não parecer ter pressa, antes de escolher um boné com o brasão do Jardim Botânico bordado. Pagou em dinheiro, dispensou a sacola, saiu e colocou o boné, puxando-o até bem perto das sobrancelhas. Verificou o relógio. Estava adiantado pelo menos uns setenta minutos para o encontro. Foi até uma marquise de concreto e se sentou em um banco ao lado de um canteiro de samambaias.

Será que Ibrahim e os demais teriam visto o esboço? Se o viram, poderiam não aparecer. Eles tinham discutido contingências para perseguição, para captura e para a morte de membros da equipe, mas não para isso.

Passou uns cinco minutos sentado ali, olhando para o espaço e pensando, então tomou uma decisão. Folheou a brochura até achar o que precisava.

 

O cyber café ficava do lado leste do jardim. Pagou à atendente por meia hora, e esta lhe designou um dos terminais. Levou um tempo para se lembrar do URL do site. Aquele era o quinto dia, de modo que logou no... bitroup.com.

Quando o site apareceu na tela, ele fez o login e clicou na área de mensagens. Ficou surpreso ao ver um arquivo de texto esperando na seção de uploads. Clicou duas vezes no arquivo e viu que continha duas linhas de pares alfanuméricos. Anotou-os no verso da brochura. Dava 334. Ele se desconectou da conta e saiu.

 

Levou trinta minutos para criar a tabela, e outros vinte para decodificar e verificar a mensagem duas vezes:

 

Retrato falado na TV visto. Suspeito comprometido,

um de sua equipe. Quebre contato.

Proceda até o Tá Ligado Cyber Café na rua Bráulio

Cordeiro para instruções. 1400 horas.

Acuse o recebimento da mensagem pela codificação:

9M, 6V, 4U, 4D, 7Z.

 

Hadi leu a mensagem duas vezes. Comprometido? Sua mente girava. Não era possível. Ibrahim ou um dos outros o traíram? Por quê? Nada disso fazia sentido, mas a mensagem era autêntica. Quebre contato. Verificou o relógio: 11:45. Agora apressado, codificou os pares de recebimento da mensagem, voltou ao café, digitou a resposta em um arquivo de texto e fez o upload dele.

 

Ibrahim passou pelos carros de Fa’ad e Ahmed enquanto entrava no estacionamento. Achou uma vaga, estacionou e desligou o motor. Fa’ad e Ahmed estacionaram uma fila atrás dele, separados por uma dúzia de carros. Pela janela do passageiro, viu Hadi saindo pelo portão principal do Jardim Botânico. Seus passos eram apressados, a postura tensa. Polícia?, pensou Ibrahim. Continuou observando, meio que esperando ver homens correndo atrás de Hadi, mas nada aconteceu.

O que é isso?

Hadi alcançou seu carro e entrou.

Ibrahim tomou uma decisão de momento. Esperou até o carro de Hadi se dirigir para a entrada, deu a ré e o seguiu. Diminuiu a marcha ao lado do carro de Ahmed e fez um gesto para que o seguisse.

O que deu em você, meu amigo?