Morto ou Vivo
Capítulo 88
A24 quilômetros do entroncamento com a 373, a rodovia 95 aparecia abaixo do C-130, uma linha cinzenta e reta cortando o deserto marrom.
— Estamos perto do Nellis Range? — perguntou Clark a Marty.
— Olhe pela janela e quase pode tocá-lo. Isso é o que estou dizendo: logo que cruzarmos para o noroeste, vamos iluminar as telas de radar. E esses caras não brincam em serviço.
— Temos que chegar na Yucca.
— Merda. Me diga que vocês não são terroristas.
— Somos a turma do bem.
— Que tipo de turma do bem?
— Difícil de explicar. Pode nos levar até lá antes que nos obriguem a descer?
— Qual entrada: norte ou sul?
— Sul.
— Se eu abrir todo o acelerador posso forçar o pássaro a chegar a 300 por hora, e se conseguir pousar... Calcule uns quatro minutos depois de desviarmos da rodovia. Pode me fazer um favor?
— O quê?
— Me ameace de novo. Quando me algemarem, quero ter algum tipo de defesa.
Cinco minutos depois, eles viram pela janela outra linha cinzenta se intersectar com a 95 vindo do sul.
— Seguindo pela 373 — anunciou Marty. Quando passaram pelo entroncamento, ele rumou para o noroeste e começou a descer até chegar a uns 10 metros acima do deserto.
Um cume diante deles.
— Busted Butte — anunciou Marty, subindo e estabilizando. — Cinco quilômetros. Sessenta segundos. — Girou novamente, primeiro para a esquerda, depois para a direita, e desceu em um vale raso.
Um lote de pouco menos de 1 hectare revestido de cascalho apareceu pela janela.
Do lado direito do lote, a colina tinha uma abertura recortada na forma de um buraco de fechadura, com uma enorme entrada de túnel no centro.
— Companhia — avisou Jack.
Da direção norte do lote, uma estrada se estendia pelo deserto. Uma carreta carregada com o que parecia ser um enorme haltere de aço entrava no lote.
— Que diabo é aquilo? — gritou Dominic.
— Um tonel GA-4 — respondeu Jack. — Para transportar varetas de combustível usadas.
— Pensei que este lugar ainda não estivesse funcionando.
— Não está. — Jack apontou os binóculos ao norte, pela estrada, até uma cabine de guarda do tamanho de uma cabine telefônica. Pôde observar dois corpos caídos no pavimento. — Homens abatidos na guarita.
Clark perguntou a Marty:
— Pode descer na...
— Não com aquele caminhão ali. Destroçaria o rotor. Posso pousar a uns 50 metros abaixo da estrada.
— Faça isso.
— Estou indo.
Marty girou abruptamente, espiralando de volta por onde haviam chegado antes de pairar sobre a estrada. No lote, o caminhão parou e homens desceram apressados da cabine.
— Contei cinco — avisou Dominic.
Enquanto observavam, dois deles correram ao longo da carreta na direção do EC-130. Ainda correndo, os homens levantaram AK-47 e começaram a disparar.
— Merda! — exclamou Marty. — Que porra é essa?
— Esses são os bandidos — informou Clark.
Marty deslizou o helicóptero para a direita, mais adiante da estrada e atrás da colina.
— Aí está bom — disse Clark.
Marty desceu o EC-130 e pousou direto. Clark e os demais desceram. Clark se inclinou pela porta e gritou:
— Ache um abrigo e se esconda. Fique longe do rádio e esteja aqui quando voltarmos.
— Ah, deixa disso...
Clark apontou sua arma na direção de Marty.
— Isso ajuda?
— Sim!
Clark bateu a porta e correu para onde os outros tinham se agrupado 10 metros adiante. Areia bateu neles quando Marty subiu, girou à esquerda e seguiu estrada abaixo, onde girou novamente atrás de uma colina baixa. Após vinte segundos, o ruído do rotor sumiu.
— Escutem — pediu Jack.
Do outro lado da colina, a carreta estava em movimento.
Com Chavez na ponta, todos avançaram ladeira acima. Estavam a 3 metros da crista quando escutaram o pipocar de armas automáticas. Rajadas controladas de três tiros. Vozes gritaram, ecoando pelas paredes do cânion. Chavez caiu de barriga e rastejou para a frente. Pouco depois assinalou para os demais avançarem. Abaixo, a carreta estava entrando na reentrância na colina. Enquanto observavam, um homem com capacete amarelo correu pelo lote, na direção da estrada. Três pops sobrepostos, e o homem caiu para a frente e ficou parado.
— Contei mais quatro — disse Dominic. — Não vejo nenhum deles se movendo. E vocês?
Ninguém respondeu.
Desceram correndo a encosta até o trecho acimentado na beira do lote, e continuaram para a pendente seguinte em direção à entrada. Rastejaram até a borda, deram uma espiada e foram recebidos com o ruído de aço arranhando. A cabine do caminhão desaparecia na boca do túnel. O tonel deslizou pela entrada, arranhando pela borda superior. O caminhão encalhou e parou, tentou avançar mais um pouco e parou novamente. O motor morreu.
Um homem apareceu na traseira da carreta, com um AK no ombro. Balas se enfiaram na terra aos pés deles. Todos recuaram e caíram no chão. Chavez ziguezagueou para a frente, deu uma olhada, levantou-se e apoiou um joelho, e disparou três tiros, caindo novamente no chão.
— Um a menos.
— Sabemos qual é o tamanho dessa coisa? — perguntou Jack.
— Não é maior que um armário de vestiário, imagino — respondeu Clark. — Dois homens podem carregá-la. Vamos, vamos avançar. — Foram descendo pela borda de concreto, depois rolaram por ela um por um e caíram no solo. Ao longo da parede de concreto se amontoavam pilhas de caixas, rolos de arame, caixas de ferramentas com rodinhas, conjunto de acetileno e de arcos de soldagem. Atrás disso, a quina que levava à entrada.
Aos pares, eles foram avançando em turnos até Clark poder espiar pelo canto. Voltou-se, apontou para Jack e gesticulou para que ele avançasse, em seguida Dominic, e então Chavez. Nada se mexia na entrada. A carreta estava bem entalada, os dois lados pressionando as paredes e o tonel contra o teto.
O ruído de um motor veio do túnel. Depois foi diminuindo.
— Parece um carrinho de golfe — disse Dominic.
— Veículo utilitário Cushman. Meio parecido, só que mais rápido.
— O que você sabe sobre a planta? — indagou Clark.
— Vi alguns esboços na internet, mas como a obra não foi nem concluída, não sei...
— Seu palpite.
— Esse túnel principal provavelmente vai até a entrada norte. Em intervalos, deve haver rampas que levam para baixo.
— Linha reta ou em curvas?
— Retas.
— Qual a profundidade?
— Uns 300 metros. No fundo, a rampa se nivela em um patamar, mas não sei o tamanho. Saindo desse patamar estão os túneis usados para depositar os tonéis. A boa notícia é que vão tentar plantar essa coisa na maior profundidade possível, o que significa que precisarão de uma rampa. Do túnel principal até o fundo provavelmente deve levar uns dez minutos.
Quando Clark fez o sinal, Jack e Chavez correram até a ré da carreta, subiram e começaram a avançar para além do tonel. Quando estavam quase na cabine, ele e Dominic passaram pela esquina, foram pelos dois lados do caminhão e correram ao longo das paredes dos dois lados da entrada. Clark deslizou, ajoelhou-se e olhou por baixo do chassi do caminhão. Levantou-se e assinalou a Jack: dois homens lá dentro. Jack assentiu e retransmitiu para Ding, que passou para Dominic, do outro lado.
Vagarosa e cuidadosamente, Jack abriu a janela traseira da cabine, recebeu um empurrão de Chavez e se espremeu pela abertura até o compartimento de dormir. Deslizou para o assoalho, rastejou até o painel. As paredes da rocha no exterior estavam a menos de 30 centímetros das janelas.
Subiu a cabeça para dar uma olhada por cima do painel, até poder ver através da janela dianteira. O túnel era mais imponente do que ele imaginara. Como o esqueleto de um submarino, as paredes e o teto eram reforçados por enormes vigas cintadas. Lâmpadas de halogêneo fixadas no teto se estendiam à distância.
Por cima do capuz, Jack percebeu o topo da cabeça de um homem se movimentar da direita para a esquerda e desaparecer da vista. Vinte metros túnel adentro, viu outro homem acocorado ao lado de um Cushman amarelo. Com cuidado para manter a cabeça fora da vista, ele se contorceu para se sentar no lugar do motorista. Do compartimento de dormir, atrás, escutou uma única batidinha. Uma... Outra batida. Duas...
Na terceira, Jack apertou a mão na buzina.
Os tiros saíram dos dois lados da cabine. O homem ao lado do Cushman levantou e disparou uma rajada de balas do AK. A resposta foi um único pop, e depois outro. O homem tropeçou para a frente, caiu para fora do Cushman e deslizou para o chão.
— Pode sair, Jack — avisou Clark.
Aos pares, eles rastejaram por baixo do caminhão e entraram no túnel. O primeiro sujeito que Jack tinha visto estava deitado imóvel a alguns metros de distância. Dominic deu uma corrida até o Cushman e verificou o outro. Virou-se e passou o polegar pela garganta.
Eles recolheram os dois AK e depois, com Chavez na direção, subiram no Cushman e começaram a descer o túnel.
— Qual a estabilidade desse negócio que eles fizeram? — perguntou Jack a Clark.
— Bem estável. O disparador tem que ser enfiado no cano com bastante força. Precisa de uma boa carga, e precisa ser armado. Por quê?
— Trabalhando numa ideia.
Uns 50 metros mais adiante, a fileira de lâmpadas de halogêneo do teto se convergiu em um círculo.
— Primeira rampa — disse Jack.
— Calma, Dom — ordenou Clark.
Pararam a uns 20 metros de distância, saíram e caminharam até a entrada da rampa. Iluminada de cima por mais lâmpadas de halogêneo, a rampa fazia um ângulo de 25 graus para baixo.
— Já deveríamos ser capazes de escutar o Cushman deles — sussurrou Jack.
Ficaram em silêncio e escutaram. Nada.
Voltaram e prosseguiram. O túnel fazia uma curva para a direita. Dominic parou antes, e Jack saltou para olhar na curva. Voltou.
— Limpo.
Continuaram avançando. Chegaram à segunda rampa e pararam para escutar, mas não ouviram nada. A mesma coisa na terceira e na quarta. Quando se aproximaram da quinta, ouviram uma voz ecoando na rampa. Desceram, avançaram e olharam pelo túnel.
Puderam ver, à distância, a mancha amarela do Cushman aparecer sob uma lâmpada de halogêneo, depois sumir na sombra e voltar a aparecer novamente sob a luz.
— Três quartos da distância até o fundo — declarou Jack.
— Se você tem alguma ideia, chegou a hora — disse Clark.
— Depende da sua certeza sobre a estabilidade dessa coisa.
— Noventa por cento.
Jack assentiu.
— Ding, preciso da sua ajuda.
Subiram novamente no Cushman, fizeram um retorno e voltaram pelo túnel. Cerca de trinta segundos depois estavam de volta. Jack e Ding tiraram da traseira do Cushman, cada um, um cilindro de acetileno.
— Torpedo — falou Jack.
— Estão cheios?
— Quase vazios.
— Marcar o tempo é que vai ser difícil.
— Deixo isso com você. Você é o chefe.
— Vão em frente.
Jack e Chavez levaram os cilindros até a entrada da rampa, deitaram os dois transversalmente ao sentido da rampa, e depois deram um empurrão. Imediatamente começaram a rolar, ribombando contra as paredes enquanto desciam. Jack e Chavez correram de volta para o Cushman e entraram. Dominic se colocou na rampa e esperou.
Clark fez uma contagem de dez para zero, e depois disse:
— Vamos.
Quase imediatamente ficou evidente que o Cushman tinha freios inadequados. Depois de 50 metros, o marcador de velocidade batia acima da marca dos 80 quilômetros por hora. Eles passavam disparando pelas luzes do teto. Dominic freou, diminuindo ligeiramente a velocidade, mas fumaça começou a sair dos tambores. Cerca de 200 metros abaixo deles, os cilindros giravam e batiam como um par de bolas. O Cushman do Emir estava quase no fundo.
— Vai ser por pouco — disse Chavez.
— Diminua nossa velocidade, Dom — pediu Clark.
Dominic apertou os freios, sem resultados. Bateu no pedal. Nada aconteceu.
— Mantenham suas mãos para dentro — gritou, e desviou para a direita. O painel fronteiro do Cushman arranhou a parede do túnel, criando uma tempestade de faíscas. Diminuíram um pouco. Ele se afastou da parede, e depois voltou.
Cem metros abaixo na rampa, os cilindros atingiram o Cushman do Emir. Um cilindro quicou e passou por cima, mas o segundo se chocou contra o para-choque traseiro. O Cushman derrapou, inclinou para o lado, então capotou de vez e derrapou na plataforma.
— Faça a gente parar — ordenou Clark.
Dominic girou abruptamente a roda, colocando todo o lado esquerdo se arrastando pela parede. O Cushman vagarosamente foi parando. Todos saíram e correram rampa abaixo. Na plataforma, o Cushman do Emir havia capotado. A alguns metros de distância havia um corpo esparramado no concreto. Eles pararam na entrada da plataforma. À esquerda, o túnel continuava por mais uns 20 metros antes de virar acentuadamente à esquerda. Não havia ninguém no túnel. Chavez foi até o corpo e se ajoelhou.
— Não é ele — disse.
Todos saíram correndo pelo túnel. Depois de uma esquina, viram-se em um beco de 10 metros de largura. Por cima, as vigas curvas cobriam o teto. Podiam perceber as entradas circulares para os deslocamentos de armazenamento, espaçados em intervalos de 6 metros de cada lado do beco.
— Contei 12 em cada lado — anunciou Dominic.
— Vamos nos dividir — ordenou Clark. — Eu e Jack vamos pela direita, e vocês dois pela esquerda.
Clark e Jack atravessaram correndo até a parede oposta. Jack falou sem emitir som: pego os seis últimos. Clark assentiu. Jack saiu correndo, examinando cada deslocamento enquanto passava. Do outro lado, Dominic fazia o mesmo.
Jack atravessou o quinto deslocamento, não viu nada e continuou passando pelo sétimo e oitavo. Viu uma luz piscando uns 200 metros abaixo. Mal pôde perceber duas figuras acocoradas ao lado do que parecia uma caixa de iscas industrial. Jack olhou ao redor. Clark avançava, mas estava longe demais. O mesmo valia para Dominic e Chavez.
— Que se dane.
E saiu correndo naquela direção.
Tinha coberto metade da distância até as figuras quando uma das cabeças levantou. A boca de uma arma brilhou com um relâmpago laranja. Jack continuou correndo. Levantou a arma e disparou duas vezes. Ouviu Clark gritar em cima:
— Por aqui!
O homem avançou, atirando da altura cintura. Jack se agachou e se encostou na parede, tentando diminuir o próprio volume. Ajustou a mira, colocou as guias no centro da massa do homem, e apertou duas vezes. O homem girou e caiu. O outro ignorou a queda de seu camarada e continuou trabalhando, suas mãos se movimentando dentro da caixa. Levantou o olhar, viu Jack e continuou trabalhando. Dez metros adiante. Jack levantou a arma e continuou disparando até o carregador abrir e mostrar o pente vazio. Seis metros. Uma cabeça olhou pelo lado da caixa e desapareceu novamente. Jack cobriu os últimos 3 metros em duas passadas, abaixou os ombros e se jogou contra a caixa. Sentiu uma coisa explodir em seu ombro, a dor subindo por sua nuca. A caixa escorregou. Os pés de Jack foram para trás, e ele se chocou de cara com o concreto. Com sangue espirrando do nariz quebrado, conseguiu se colocar de joelhos. Sua visão piscava. Olhou ao redor. O corpo do primeiro homem estava esparramado contra a curva da parede, seu AK a pouca distância. Jack rastejou até ele, agarrou a alça com a mão direita e arrastou a arma. Levantou e saiu tropeçando em volta da caixa.
Já de pé, o Emir caminhava em direção à caixa. Viu Jack e parou. Seu olhar piscou na direção da caixa, depois de volta para o rosto de Jack.
— Não! — gritou Jack. — Você está liquidado. Isso acabou.
Jack ouviu as pisadas correndo no túnel atrás dele.
— Não, não acabou — disse o Emir, e se ajoelhou diante da caixa.
Jack disparou.