Morto ou Vivo
Capítulo 59
Steve havia passado com brilhantismo no último teste, decidiu Allison. Ela cancelou no último instante o encontro dos dois em Reno, alegando que seu chefe lhe pedira para substituí-lo numa conferência de representantes de laboratórios em Sacramento. A conferência era verdadeira, tal como os cartões de visita, as amostras grátis de remédios e os folhetos que ela carregava na pasta de couro sempre que se encontravam para fazer sexo, mas só até aí. Allison até gostava dele, mas no seu negócio essas coisas eram medidas por uma régua de cálculo. Steve não era repulsivo nem abusivo, e isso o colocava na parte superior da escala. Não que isso importasse para o desempenho dela, mas certamente tornava seus encontros toleráveis.
Tal como previsto, Steve ficou preocupado e desapontado com o cancelamento de última hora, e de modo igualmente previsível, imediatamente propôs uma solução. Ele pediria licença do trabalho e voaria para Sacramento durante o fim de semana para que pudessem passar algum tempo juntos. Ela poderia assistir à conferência durante o dia, e teriam as noites para eles. Allison demonstrou o nível adequado de surpresa e gratidão pela sugestão, e prometeu que o próximo fim de semana que passariam juntos seria memorável. Em algum momento desse fim de semana, ela enfiaria o anzol mais fundo, timidamente sugerindo que ele a apresentasse à família. Talvez ela até arranjasse um jeito para que ele a visse chorando, para então confessar que de algum modo estava abalada pela “conexão especial” que sentia para com ele.
Como ela sabia desde o começo, a parte complicada seria vender o peixe. Seu “controlador” — um termo russo do qual jamais gostara —, o homem com as mãos marcadas por queimaduras, propusera um ângulo que ela achou que valia a pena explorar, mas isso envolveria expô-la com uma história não corroborada que Steve poderia ficar tentado a verificar. Mas, de qualquer modo, se na hora de vender o peixe Steve não estivesse completamente sob seu controle, ela recuaria e tentaria outro caminho. Steve não era estúpido, mas, quando se tratava de assuntos do coração, os homens eram tão irracionais quanto as mulheres, ou talvez mais. Sexo, com todo seu poder, não era mais que um ponto de passagem, e, se ela estivesse julgando corretamente seu alvo, não estava mais que a alguns passos do prêmio.
A pergunta que Allison não se permitia pensar muito era a natureza da informação que seu empregador procurava. Por que diabos, perguntou-se ela, eles se importavam com um lençol freático no meio do deserto?
Para um navio porta-contêiner padrão Panamax, o Losan era pequeno, uma “fileira de 12” com 2.700 TEU — unidades equivalentes a 6 metros —, o que equivalia a 165 metros, cuja capacidade fora há muito superada pelos Post-Panamax descendentes. Contudo, a Tarquay Industries de Smithfield, Virgínia, estava menos interessada em modernidade do que em cortar prejuízos.
Dos 120 tanques de quinhentos galões para propano que tinha vendido ao governo do Senegal, 46 foram declarados defeituosos, havendo passado pelo controle de qualidade com alças de manejo impropriamente soldadas. Por si só esse não era um problema insuperável, e a Tarquay se oferecera para consertar sem custos adicionais no local, mas, ao serem examinados tanto pelos inspetores do governo senegalês quanto pelo engenheiro-chefe da Tarquay, verificou-se que as soldas tinham comprometido a integridade do casco e que nenhum dos tanques aguentaria a pressão estabelecida de 250 psi ou cerca de 1,72 milhão de pascals.
Como esse era o contrato inicial da Tarquay com o Senegal, e de fato seu primeiro negócio com o exterior, logo foi providenciada uma substituição, juntamente com um pedido oficial de desculpas da diretoria, e os tanques substitutos foram imediatamente despachados. Em Dacar, os tanques defeituosos foram listados no conhecimento de entrada com o código R3001c — “Reexportação de produtos não petrolíferos por rejeição de qualidade após armazenamento” —, depois transportados para um armazém da alfândega em Port Sud e enfim descarregados num terreno vazio e cheio de ervas daninhas, limitado por uma cerca de tela de 1 metro de altura.
Oito meses mais tarde foram feitos arranjos para que os tanques defeituosos fossem devolvidos a Smithfield. O Losan, fazendo sua última escala antes de cruzar o Atlântico de volta aos Estados Unidos, tinha o espaço necessário para levar a carga.
Dois dias antes da partida, os tanques foram carregados por empilhadeiras na plataforma de vagões ferroviários, lacrados no local e transportados por 3 quilômetros até a doca em que se encontrava o Losan, onde os tanques foram descarregados com guindastes e colocados em armações-contêineres abertas — quatro tanques em cada uma —, e depois içados para o Losan e arrumados em fileiras de 12.
Tendo sido inspecionados na entrada, os tanques, que estavam sob o controle da alfândega desde a chegada, não foram nem pesados nem examinados antes de serem carregados a bordo do Losan.
A dor de cabeça e a náusea tinham piorado progressivamente nas últimas dez horas, o que de algum modo surpreendeu Adnan; ele não esperava que os sintomas chegassem tão cedo. Suas mãos tremiam e a pele estava pegajosa. Evidentemente as histórias sobre a toxicidade do navio não eram exageradas. Não importa, pensou, já era quase a hora. Segundo o mapa de Salychev, estavam a apenas 20 quilômetros do ponto de entrega.
Pela graça de Alá descobriram o barril de contenção precisamente onde deveria estar, ainda repousando na antepara da prateleira. Era mais leve do que Adnan esperava, o que era ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Ele sabia o peso aproximado do núcleo, de modo que era relativamente fácil estimar o peso do barril de contenção; obviamente era selado com chumbo, mas não tão espessamente quanto sua inteligência havia previsto. Isso significava que o próprio cofre tinha sido planejado como escudo primário, o que não os ajudaria. No entanto, o barril ainda estava selado e parecia não ter sofrido danos durante o incidente ocorrido havia tantos anos.
Soltaram a fechadura da prateleira, levantaram e puxaram o barril pelas quatro alças em forma de D, e o retiraram do depósito e pelo convés inundado até a escada. Ali se movimentaram vagarosamente e com cuidado, um passo de cada vez, até o passadiço, e então até o corredor principal. Os dois últimos grandes obstáculos — a escada até o convés superior e a escada para descer até os botes — foram ultrapassados sem incidentes, e logo estavam de volta à praia. Alegremente tiraram os macacões de proteção e as máscaras de gás, enfiaram tudo em uma das mochilas, onde colocaram também uma pedra para dar peso e a jogaram na enseada.
A caminhada de volta ao promontório levou uma hora. Adnan ordenou aos homens que colocassem o tambor no solo e descansassem, depois foi até a praia e perscrutou pela neblina na direção da baía. Mal podia ver a silhueta do barco de Salychev. Tirou um sinalizador da mochila, arrancou a capa de ignição e balançou o tubo brilhante sobre a cabeça. Passaram trinta segundos e então veio do bote a piscadela dupla de uma lanterna. Adnan se voltou para os demais e acenou para que descessem.
Trinta minutos mais tarde estavam novamente no barco e voltando pelo mesmo caminho da vinda. Quando chegaram à baía principal, o tambor de contenção já estava selado dentro do segundo, com o escudo mais pesado, que tinham trazido consigo. Salychev olhou desconfiado para o contêiner mas não disse nada enquanto navegava o barco para alto-mar.
Agora Adnan estava de pé ao lado de Salychev, na cabine de pilotagem. Já era quase meia-noite. E nada além do negrume aparecia pelas janelas.
— Certamente fez por merecer seu pagamento, capitão — disse Adnan. — Ficamos agradecidos.
Salychev sacudiu os ombros e não disse nada.
Perto de seu quadril, Adnan sentiu a silhueta quadrada do rádio se projetando do console de madeira do timão. Movimentando-se vagarosamente, retirou o canivete do bolso do casaco e abriu a lâmina com o polegar. Apertando-a contra o cabo de força do rádio. O clique quando este se partiu mal foi audível.
— Vou verificar como estão os homens — disse Adnan. — Posso lhe trazer um copo de café? Alguma coisa mais forte?
— Café.
Adnan desceu a escada até o salão principal, e depois mais uma escada pequena até o compartimento de dormir. Estava escuro, salvo pela pouca luz que se filtrava do salão. Todos dormiam, cada um em um beliche, todos deitados de costas. Mais cedo ele dera a cada um o que disse ser mais uma dose de iodeto de potássio; de fato, era uma dose de 3 gramas de lorazepam enfiada em uma cápsula genérica de celulose. Com uma dose três vezes maior que a padrão, o medicamento antiansiolítico era o suficiente para pôr os homens em sono profundo. Uma bênção, pensou Adnan.
Nas últimas quatro horas, ele pelejara com o que tinha que fazer em seguida — não sobre a necessidade, mas sobre o método. Esses homens já estavam morrendo, e nada podia mudar isso; ele estava morrendo, e nada tampouco podia mudar isso. Era o custo da guerra e o fardo dos fiéis. Ele se consolou um pouco sabendo que eles jamais despertariam, nem sentiriam dor alguma. A única outra consideração, então, era o barulho. Salychev era velho, mas duro e sazonado por uma vida no mar. Melhor pegá-lo de surpresa mais tarde.
Adnan foi até a mesa de trabalho montada na antepara da popa e abriu a gaveta do alto à esquerda. Lá estava a faca que havia descoberto em sua busca mais cedo. Tinha um formato em J, com uma ponta aguçada como uma agulha e uma borda finamente amolada, usada, ele supôs, para destripar peixes.
Agarrou o cabo de madeira, a lâmina para cima, e parou ao lado do primeiro beliche. Respirou fundo, depois colocou a mão esquerda sob o queixo do homem, girou a cabeça na direção do colchão e colocou a ponta da faca na depressão abaixo da orelha e a enfiou, puxando a lâmina na direção do queixo. O sangue jorrou da carótida cortada; na escuridão, parecia negro. O homem soltou um gemido suave sob a palma da mão de Adnan, depois teve um, dois espasmos, e ficou imóvel. Adnan se movimentou até o segundo, repetiu o processo, e depois fez o mesmo no terceiro. No total, não levou mais que noventa segundos. Deixou a faca no convés, subiu até o salão e lavou o sangue das mãos. Ajoelhou-se ao lado da pia, abriu a gaveta de baixo e tirou dali a pistola Yargin 9 milímetros que tinha escondido. Puxou um pouco a mola para ter certeza de que havia uma bala na câmara, girou a trava e enfiou a pistola no bolso do casaco. Finalmente, pegou um copo de café de plástico da prateleira.
Subiu a escada e foi para a cabine de pilotagem.
— Café — disse, entregando o copo a Salychev com a mão esquerda. O capitão se voltou para pegá-lo. Adnan sacou a Yargin do bolso e atirou em sua testa. Sangue e miolos se espalharam pela janela. Salychev se inclinou para trás e caiu na antepara. Adnan ligou o piloto automático no painel do timão, depois agarrou Salychev pelos tornozelos, arrastou-o até a escada e deixou que rolasse até o salão.
De volta ao leme, Adnan levou um minuto para verificar novamente a posição na antiga unidade Loran-C, desligou o piloto automático e ajustou a rota.
A silhueta escura da ilha apareceu no horizonte uma hora depois. Mais uma hora se passou e Adnan diminuiu os motores e acompanhou a costa na direção leste até que o visor do Loran-C exibisse as coordenadas corretas.
A ilha era conhecida como Kolguyev e fazia parte, segundo o mapa de Adnan, do Okrug Autônomo de Nenets, um círculo quase perfeito de charcos, pântanos e colinas baixas com 80 quilômetros de largura e abrigo de apenas um assentamento chamado Bugrino, na costa sudoeste, habitado por algumas centenas de nenets, pescadores, agricultores e pastores de renas.
Adnan deixou o motor em ponto morto e desligou a ignição. Verificou seu relógio: dez minutos atrasado. Tirou o farol portátil do suporte na antepara e foi até o convés. A piscada em código do farol foi quase imediatamente seguida pela correta resposta da costa.
Cinco minutos depois, escutou o ruído suave de um motor de popa. Uma lancha saiu da escuridão e encostou na amurada de bombordo. Havia quatro homens a bordo, todos armados com AK-47. Adnan não reconheceu nenhum deles. Não que isso importasse, afinal o código de luz estava correto, e, se fosse uma armadilha, não havia nada que ele pudesse fazer.
— Você é Abdul-Baqi, Servo do Criador? — perguntou um dos homens, o líder, supôs Adnan.
— Não. Servo do Eterno — respondeu Adnan. — É bom vê-los aqui.
— E você também, irmão.
— Joguem a corda e subam a bordo. Pelo menos dois são necessários para levantar.
Enquanto Adnan amarrava a linha na braçadeira de bombordo, dois dos homens subiram a bordo, soltaram o vaso de contenção de sua posição no convés e o levaram até a amurada, onde os dois homens a bordo da lancha o agarraram e colocaram no convés. Em seguida os dois se juntaram a seus colegas.
— Algum problema? — perguntou o líder.
— Nenhum. Tudo correu como planejado.
— Podemos ajudar em mais alguma coisa?
Adnan sacudiu a cabeça.
— Não, obrigado. Já terminarei tudo. Aqui é profundo, quase 300 metros. O mar fará o resto.