Morto ou Vivo
Capítulo 52
— Nosso amigo chegou em segurança? — perguntou Ibrahim. Os cliques digitais interrompiam de vez em quando a voz de seu subordinado.
— Sim — respondeu o Emir. — Saiu daqui ontem. Li os detalhes do seu plano. Informe em que pé estão as coisas.
— Estamos prontos. Basta seu aviso e podemos estar no país em 72 horas.
Falar diretamente com o comandante de sua equipe no terreno foi uma decisão súbita de sua parte, e certamente perigosa, especialmente diante de suas próprias circunstâncias precárias, mas o risco valia a pena. O método de comunicações era tão seguro quanto qualquer outro; um pacote caseiro de criptografia que haviam conectado à conta VoIP — Voice over Internet Protocol — do Skype para comunicação entre computadores.
Ao decidir prosseguir com a operação de Ibrahim, o Emir queria ter uma discussão final, como uma medida tranquilizante não apenas para ele, como também para Ibrahim. Se por acaso ele perdesse a vida na missão, sua verdadeira recompensa estaria no paraíso, mas aqui na terra ele ainda era um soldado indo para a batalha, e soldados muitas vezes precisam de elogios e encorajamento.
— Quantas vezes você esteve lá? — perguntou o Emir.
— Quatro. Duas para recrutamento e duas para reconhecimento.
— Fale mais sobre seu contato.
— O nome dele é Cassiano Silva. Brasileiro de nascimento, educado na religião católica. Converteu-se ao islã há seis anos. É um dos fiéis, disso tenho certeza, e jamais deixou de providenciar tudo que pedi.
— Tariq me disse que você o recrutou de modo bem eficiente.
— Os serviços de inteligência ocidentais chamam o método de “falsa bandeira”. Ele acredita que sou da inteligência do Kuwait, com ligações com a Divisão de Análise de Mercado da OPEP. Achei que ele iria considerar a ideia de espionagem industrial mais... palatável.
— Estou impressionado, Ibrahim — disse o Emir, com convicção. — Você demonstrou bons instintos.
— Obrigado, senhor.
— E seu plano... você está confiante de que é factível?
— Estou, mas gostaria de continuar cuidadoso até chegar ao terreno. Na aparência, todas as partes se encaixam perfeitamente.
Portanto, ele deixaria Ibrahim prosseguir com o plano. Sabia que aquele seria o primeiro dominó de uma série, no final da qual aconteceria algo que realmente mudaria o mundo. Mas isso estava no futuro — não em um futuro distante, mas longe o suficiente para saber que, se focasse nisso excluindo as demais pequenas peças, poderia prejudicar o todo.
— Quantas baixas você calcula?
— Por enquanto é impossível calcular. Centenas, talvez. Mas, como você disse, esses números no fundo são irrelevantes.
— Certo, mas cadáveres aparecendo na televisão têm um efeito espantoso, algo que deve funcionar a nosso favor mais tarde. Quanto tempo deve levar seu reconhecimento final?
— De cinco a seis dias.
— E depois disso?
— De 48 a 72 horas para o próprio evento.
O Emir examinou mentalmente seu calendário. Manipulando mais de uma operação como era o caso, tinha que segurar a aprovação final até que pelo menos tivesse notícias da equipe na Rússia. As outras peças em Dubai e Dakar já estavam no lugar e esperando. A pedra fundamental, é claro, a adorável garota tártara, que não podia apressar tanto assim. Tariq tinha confiança de que ela se movimentava em ritmo adequado, e por enquanto ele precisaria se satisfazer com isso, mas no fundo da mente deveria considerar alternativas para o caso de ela fracassar. Eles seriam capazes de disfarçar suas ações ou colocar em prática algumas táticas de retardo, mas violência — especialmente o tipo de violência que provavelmente seria requerida — sem dúvida atrairia a atenção das autoridades.
Se tal ação se tornasse necessária, será que eles poderiam permanecer tão à frente das autoridades para poder completar o Lótus?
— Você tem minha aprovação final — disse o Emir.
O palpite de que o Emir muito provavelmente já estava nos Estados Unidos, escondido em algum lugar entre as Dakotas e a Califórnia, foi rapidamente seguido pela compreensão de que pouco havia a fazer para confirmar essa hipótese. É certo que sabiam que Shasif Hadi, viajando com o codinome de Joel Klein, tinha se dirigido para Las Vegas quando perderam seu rastro, mas isso não queria dizer nada. O passaporte Klein não havia mais aparecido no sistema, o que poderia significar que ele não seguira para além de Las Vegas ou que simplesmente tinha cumprido as regras do trabalho e trocara Klein por outra identidade. A recuperação que Jack fez das atividades anteriores de Hadi mostrava muitas viagens pelo Golfo Pérsico, pela Europa Ocidental e pela América do Sul — que necessitavam muitas escalas. Salvo distribuir a foto de Hadi para as agências de segurança em Las Vegas, pouco poderiam fazer além de continuar trabalhando no problema de o que dispunham.
— Nossa! — disse Jack Ryan do fundo do seu cubículo.
— O quê? — perguntou Dominic da sala de conferências, onde a reunião estratégica diária mal tinha começado.
— Esperem aí, estou indo. — Digitou algumas teclas, enviando o arquivo para a ligação audiovisual da sala de conferências e pegou o controle remoto da mesa.
— Você está com cara de adolescente que acabou de ver o primeiro peitinho — falou Brian. — O que aconteceu?
— Estava rondando um dos sites do CRO quando topei com isso. — Dirigiu o controle remoto para o monitor de 42 polegadas na parede. Após alguns segundos, três imagens apareceram lado a lado na tela plana: a primeira mostrando um homem enforcado pelo pescoço em uma sala sem características marcantes; a segunda mostrando o mesmo homem deitado no chão, a cabeça decepada a seu lado; na terceira, a cabeça estava ladeada pelos pés cortados.
— Jesus Cristo, isso é mesmo muito sério — disse Brian.
— Qual site, Jack? — perguntou Rounds.
Ele recitou a URL e depois falou:
— É um portal do CRO, mas até agora tinha sido apenas propaganda. Tipo “rá, rá, enfiem isso no infiel, pusemos eles para correr”.
— Bem, com certeza isso aqui não é conversa mole — falou Ding Chavez.
— É uma punição — declarou Clark, olhando a tela.
— Enforcamento é um modo bastante padrão de execução para eles, e a decapitação é uma humilhação adicional, algo tirado do Corão, se me lembro, mas os pés... Será que essa é a mensagem real?
— O quê? Será que ele tentou fugir? — perguntou Dominic. — Deixar o CRO?
— Não, ele fez alguma movimentação que não deixou os escalões superiores felizes. Vimos isso no Líbano em 1982. Algum grupo derivado do Hamas, não me lembro do nome, explodiu um ônibus em Haifa. Uma semana depois os líderes foram encontrados dessa mesma maneira: enforcados, decapitados e com os pés cortados.
— Que jeito de mostrar seu ponto — disse Chavez.
Rounds perguntou:
— Jack, de onde esse site é gerado?
— Esse é o lance — respondeu. — Vem de Benghazi.
— Bingo — disse Dominic. — Isso chegando tão perto e tão próximo do caso da embaixada em Trípoli... Quanto querem apostar que estamos vendo o final de uma missão feita sem sanção?
Ninguém da mesa aceitou a aposta.
— E se for mais que uma punição? — disse Jack.
— Explique — rebateu Rounds.
Clark respondeu:
— É um aviso. Aquela coisa no Líbano... Duas semanas depois, o Hamas tentou enfiar um carro-bomba dentro da embaixada britânica, um quarteirão distante do local da explosão. Falhou porque o pessoal da inteligência ainda estava trabalhando na explosão do ônibus.
— O mesmo princípio pode estar valendo aqui — disse Jack. — Estão avisando às outras células que tenham modos.
— Sim, mas a favor do quê? — perguntou Chavez.