Morto ou Vivo
Capítulo 89
Mais tarde, quando interrogado por Hendley e Granger, Jack Ryan Jr. respondera cautelosamente à pergunta se pretendia simplesmente ferir o Emir ou se, no calor da batalha, havia perdido o centro de seu alvo. A verdade era que Jack não tinha nenhuma certeza sobre isso. No momento crítico, o fluxo de adrenalina nas veias e o coração disparado se combinaram para aparentemente comprimir e alongar o tempo em seu cérebro. Pensamentos contraditórios disputavam o controle de suas habilidades motoras mais afinadas: disparar para matar, deter o Emir; disparar para ferir, ganhar uma mina de ouro de informações, mas arriscar que o sujeito apertasse o botão.
Ao ver Jack diante de si naquele túnel escuro, o Emir hesitou apenas um segundo antes de voltar sua atenção para a bomba, os olhos arregalados e febris, os dedos trabalhando no painel aberto do dispositivo. E levou apenas mais uma fração de segundo para Jack compreender que lidava com um homem que não se importava se viveria ou morreria, por tiro ou por detonação nuclear. O Emir viera terminar sua tarefa sagrada.
A arma de Jack deu um solavanco em suas mãos, e o túnel brilhou alaranjado, e, quando o ruído se dissipou, ele viu o Emir deitado de costas, os braços abertos, a lanterna iluminando seu rosto. Jack conseguiu ver que a bala 7.62 milímetros do AK-47 tinha entrado em ângulo reto pela coxa direita do Emir, subindo e perfurando sua nádega. Deu dois passos adiante, a arma levantada, pronto para disparar novamente, quando escutou os passos atrás dele. Depois Clark, Chavez e Dominic estavam ali, afastando-o.
Apesar de só descobrir a razão um dia depois, através de uma interceptação da Segurança Nacional, Clark e companhia emergiram na entrada do túnel principal com o seu inimigo agora amarrado e amordaçado, não para enfrentar o ruído de helicópteros e sirenes, mas sim para um silêncio mortal. Como Clark suspeitara, o curso do helicóptero deles para o norte ao longo da rodovia 95 e a subsequente intrusão no espaço aéreo sobre a montanha Yucca não havia passado despercebido na rede de radares que cobria a Nellis Air Force Range e a área de testes nucleares de Nevada. No entanto, o alerta, que normalmente levaria helicópteros e forças de segurança do Terceiro Esquadrão de Operações Especiais da Base Aérea de Creech tinha sido abortado pelo carregamento de teste do DOE vindo da usina nuclear de Callaway. Em algum ponto no inevitável e muitas vezes incompreensível processo burocrático, o DOE esquecera de avisar à Força Aérea que havia dispensado a escolta de helicóptero para o carregamento. Assim, no que dizia respeito a Creech, o EC-130 roubado pela equipe de Clark era apenas a escolta do carregamento.
Seja por medo ou por suspeitar que seus passageiros fossem realmente os mocinhos, Marty levara a sério a ordem de Clark de “ficar por ali” e aguardou com o EC-130 em terra até Clark e os demais aparecerem correndo pela estrada de serviço. Vinte e cinco minutos mais tarde estavam na Paragon Air, onde descobriram que Marty havia ficado também fora do rádio.
— Espero não ter que lamentar isso — disse ele, quando todos desceram.
— Provavelmente você nunca vai saber, mas fez uma coisa ótima, meu amigo — disse-lhe Clark, que limpou sua Glock e deixou no chão do assento de passageiros. — Daqui à uma hora, chame a polícia. Mostre a arma para eles e dê minha descrição.
— O quê?
— Simplesmente faça isso. Vai te deixar longe da cadeia.
Além do mais, não sou exatamente alguém “achável”, pensou Clark, sem dizer.
Vinte minutos depois de deixarem a Paragon Air, estavam de volta na casa do Emir, onde entraram pela garagem e fecharam a porta. Chavez e Jack foram recolher Tariq, enquanto Pasternak e Dominic tiravam o Emir da traseira do veículo e o deitaram no chão da garagem, onde Pasternak se ajoelhou para um exame rápido.
— Vai viver? — perguntou Clark.
Pasternak abriu o apressado curativo de campo que aplicaram antes de sair de Yucca, apalpou a carne enrugada ao redor do ferimento de entrada, depois deslizou a mão pela nádega do Emir.
— Entrou e saiu limpo — proclamou Pasternak. — Nada de artérias, nada de ossos, acho. O sangue está coagulando. Que tipo de projétil?
— Uma 7.62 milímetros revestida.
— Ótimo. Sem fragmentos. A menos que infeccione, ele sobreviverá.
Clark assentiu.
— Dom, venha comigo — disse.
Os dois voltaram para a casa para fazer uma revista completa. Apesar de terem usado luvas o tempo todo em que estiveram ali, cedo ou tarde o FBI iria baixar no local, e ele era extremamente bom para descobrir evidências de traços onde não deveria existir nenhum.
Satisfeito, Clark fez sinal para que Dom voltasse para o carro, e discou para o Campus. Em segundos estava com Hendley, Rounds e Granger em conferência telefônica. Clark os informou de toda a ação, e depois disse:
— Temos duas opções: ou o deixamos anonimamente embrulhado nas escadas do edifício Hoover ou cuidamos nós mesmos do assunto. De qualquer maneira, quanto menos tempo ficarmos aqui, melhor.
A linha ficou em silêncio. A decisão era de Hendley.
— Espere um instante — disse o diretor do Campus. Dois minutos depois estava de volta. — Voltem para o Gulfstream. O piloto sabe para onde vocês irão.
Chegaram ao aeroporto de North Las Vegas 40 minutos depois e pararam na pista ao lado do avião, onde foram recebidos pelo copiloto, que os fez entrar. Quando levantaram voo, Clark ligou novamente para Hendley, que começara o complicado processo de informar o governo dos EUA que o Depósito de Lixo Nuclear da Montanha Yucca fora penetrado por terroristas, agora mortos, e que, apesar de a bomba atômica portátil que tinham deixado para trás estar segura, era melhor tirar o artefato de lá o mais rápido possível.
— Como você pode ter certeza de que essa história não vai explodir de volta na nossa cara? — perguntou Clark.
— Não posso, mas não temos muita escolha no caso.
— É verdade.
— Como está nosso paciente?
— O doutor limpou os buracos, costurou tudo e lhe deu antibióticos. Está estável, mas como uma dor dos infernos. Jack provavelmente o aleijou para sempre.
— Essa é a última das suas preocupações — observou Hendley. — Está falando?
— Nem uma palavra. Aonde vamos?
— Aeroporto de Charlottesville-Albermale. Serão recepcionados lá.
— E de lá para onde? — pressionou Clark. Eles estavam na posse do terrorista mais procurado do mundo; quanto mais cedo achassem um esconderijo onde pudessem reagrupar e planejar os próximos movimentos, melhor.
— Algum lugar tranquilo. Um lugar onde o Dr. Pasternak possa trabalhar.
Diante da resposta, Clark sorriu.
Quatro curtas horas depois que saíram de Las Vegas, pousaram na pista única do CHO e taxiaram para o terminal executivo. Cumprindo a palavra, Hendley providenciara um par de Suburbans para esperá-los. Os dois se aproximaram do avião em formação, manobraram simultaneamente e pararam de ré junto à escada. Hendley saiu pela porta de passageiros do primeiro Suburban e assinalou para que Clark e Jack viessem com ele, enquanto Caruso e Chavez, seguidos por Pasternak, escoltavam seus dois prisioneiros até o outro Suburban. Em poucos minutos, já tinham saído do aeroporto e seguiam ao norte na direção da rodovia 29.
Hendley atualizou os dois com as informações. Do pouco que Gavin Biery conseguira garimpar da inundação de informações codificadas no tráfego eletrônico, o Terceiro Esquadrão de Operações Especiais da Base Aérea de Creech chegara em Yucca quarenta minutos depois da ligação de Hendley. Duas horas mais tarde, como evidência certeira de que o Departamento de Energia, a Segurança Nacional e o FBI haviam descido em massa na montanha Yucca, o trânsito eletrônico secou.
— Já descobriram a casa do Emir?
— Ainda não.
— Não vão demorar muito para rastrear a Paragon Air — disse Clark. — Então, Gerry, cuspa logo o resto. Para onde vamos?
— Tenho alguns hectares de terreno de criação de cavalos e uma casa de campo perto de Middleburg.
— Quantos são alguns?
— Doze. Dá espaço para respirarmos um pouco. — Hendley verificou o relógio. — O equipamento do Dr. Pasternak já deve ter chegado lá.