Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 13 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 13

 

Jack Jr. se apertou contra a parede e deslizou por ela, sentindo as farpas das tábuas grosseiras agarrarem na sua camisa. Chegou no canto e parou, pistola na postura Weaver, com as duas mãos, cano apontado para baixo. Não como nos filmes de Hollywood ou nos programas policiais da TV, pensou, nos quais sempre carregam a arma com o cano apontado para cima e bem do lado do rosto. Claro, parecia muito legal — nada enquadrava melhor o queixo firme e os olhos azuis do herói do que uma volumosa Glock —, mas ali não se tratava de parecer legal, mas sim sobre continuar vivo e abater os inimigos. Ter crescido na Casa Branca, cercado pelos profissionais do Serviço Secreto que conheciam suas armas melhor que seus próprios filhos certamente tinha suas vantagens, não é mesmo?

O problema com o modo hollywoodiano de manuseio de armas era duplo: visão do local e emboscada. O combate com armas de mão no mundo real se tratava de atirar direto e sob pressão, e isso, por sua vez, se referia sempre ao estado mental e à visão do local. O primeiro dizia respeito ao condicionamento; o segundo, à mecânica. Era muito mais fácil e muito mais eficaz ter a arma levantada, ter uma boa visão do local e do alvo e dar um tiro do que fazer isso tudo ao revés. O outro fator — emboscada — era sobre o que acontece quando você dobra um canto para se ver face a face com o bandido. Você vai querer a arma levantada, perto do seu rosto, ou mais baixa, onde poderia, só poderia, ter a oportunidade de disparar um tiro na perna do sujeito antes que este o agarrasse e a situação evoluísse para uma luta livre sem regras? Isso não acontecia com muita frequência, é claro, mas, no que dizia respeito a Jack e a todos os verdadeiros atiradores, era muito melhor lutar com um inimigo que estivesse com uma bala 9 milímetros na perna do que o contrário.

Teoria, Jack, lembrou-se ele, voltando para o aqui e agora. Teorias são para salas de aula, e não para o mundo real.

E onde diabos estava Dominic? Eles haviam se separado na porta da frente, Dominic saindo pela direita para checar os aposentos do fundo da casa — os aposentos potencialmente mais “pesados” —, e Jack, pela esquerda, na direção da cozinha e sala de estar, mais abertos. Não se preocupe com Dominic. Se preocupe com você. Seu primo era do FBI — pelo menos oficialmente —, e não precisava de nenhuma lição sobre essas coisas.

Jack passou a arma para a mão esquerda, secou a palma na perna das calças e depois trocou novamente de mãos. Respirou fundo, deu um pequeno passo atrás e espreitou pela esquina. Cozinha. Refrigerador à direita, balcão cor de abacate, pia de aço inox e micro-ondas de balcão à esquerda; mesa de jantar e cadeiras mais adiante, depois do fim do balcão, ao lado da porta dos fundos.

Jack observou o lugar em busca de movimento e não viu nada. Então avançou, com a arma levantada perto da altura do ombro, olhos em movimento, cano da pistola seguindo o olhar, então rastejou para a cozinha. Adiante e à direita uma passagem em arco levando à sala de estar, ele supôs, projetando mentalmente a planta. Dominic deveria vir pela sala da direita para se juntar a ele...

— Jack, janela dos fundos! — gritou Dominic de algum lugar no fundo da casa. — Alguém correndo! Localizei pela janela lateral! Branco, casaco vermelho, armado... Estou nele!

Jack resistiu ao impulso de avançar de vez e, ao contrário, continuou se movendo devagar e continuamente, verificando o restante da cozinha, depois espreitando pelo canto que levava à sala de estar. Limpo. Parou ao lado da porta do pátio, corpo alinhado à esquerda da maçaneta e na esperança de que os batentes de vigas 4x6 por baixo da alvenaria insossa deteriam, ou pelo menos amorteceriam, balas atiradas contra ele, depois se abaixou para espreitar o beco atrás da casa pela portinhola. Viu à sua direita uma figura se movendo no fundo do beco: colete azul, letras amarelas. O colete do FBI de Dominic. Jack abriu a porta, olhou novamente, depois abriu a porta de tela. Diante dele havia uma porta escura na parede de tijolos; à sua esquerda, uma lixeira verde. Caminhou naquela direção. Arma em punho, procurando alvos. Viu uma sombra se movendo na porta e deu a volta a tempo de enxergar uma silhueta de homem na soleira.

— Parado! Não se mova, não se mova! — gritou, mas a figura continuou se movendo, braço esquerdo aparecendo à luz, a mão segurando um revólver. — Jogue isso fora! — gritou Jack mais uma vez, e, na batida seguinte do coração, disparou duas vezes, os dois tiros alcançando o centro da massa. A figura caiu de costas na soleira. Jack se virou novamente, de volta para a lixeira, movendo-se até poder ver atrás da esquina, procurando por...

Então alguma coisa bateu nas suas costas, entre os ombros, e ele tropeçou para a frente. Sentiu o sangue subir à cabeça e pensou, Ah, merda, puta que pariu... Bateu na lixeira, o ombro esquerdo sofrendo o maior impacto, e tentou girar no calcanhar na direção da fonte do disparo... Sentiu outra bala bater no seu lado, logo abaixo da axila, e soube que era tarde demais.

— Parem! — gritou uma voz pelo megafone, seguida de três assovios rápidos que ecoaram pelo beco. — Interromper exercício, interromper exercício!

— Puxa, cara... — murmurou Jack, depois se inclinou na lixeira e expirou profundamente.

O homem que acabara de atirar nele — o agente especial Walt Brandeis — saiu da soleira e sacudiu tristemente a cabeça.

— Deus do céu. Morrer assim, filho, com tinta verde no meio das costas... — Jack podia ver o meio sorriso aparecer nos lábios de Brandeis enquanto lhe olhava de cima abaixo, e depois fez um muxoxo. — É simplesmente uma vergonha, isso é o que é.

Dominic apareceu na esquina do beco, correndo e parou de repente, e depois disse:

— De novo?

 

— Eis o problema, Jack: você estava...

— Apressado, eu sei.

— Não, não desta vez. É mais que isso. A pressa não foi seu problema principal, foi parte dele, mas não foi por isso que você foi morto. Quer dar um palpite?

Jack Jr. pensou um instante.

— Eu supus.

— A porra que você fez foi mesmo supor. Você supôs que o alvo que viu naquela porta era o único presente. Você supôs que, depois de liquidá-lo, podia deixar de se preocupar com isso. É o que eu chamo de Síndrome do Alívio de Emboscada. Não vai achar isso nos manuais, mas acontece assim: você sobrevive a uma emboscada, escapando por pouco, e se sente como se fosse de ouro. Subconscientemente, rotula na sua mente aquela porta e a sala de “não checada” para “limpa”. Ora, se isso fosse uma situação de verdade e houvesse dois deles ali dentro, o criminoso médio idiota provavelmente teria aparecido para você no mesmo momento que seu colega fez isso, mas sempre existem as exceções por aí, como essa criatura rara, o bandido esperto, e as exceções matam você.

— Você está certo — murmurou Jack, bebendo um gole de Coca Light. — Droga.

Juntamente com Brian, que não participara do último exercício, ele e Dominic se reuniram na sala de descanso depois do interrogatório de relatório feito por Brandeis, que não diminuiu em nada a força da reprimenda, filho de ex-presidente ou não. Ele disse a Jack basicamente o mesmo que Dominic, só que de modo mais divertido. Brandeis, nascido no Mississippi, tinha um jeito caipira de falar que tirava um pouco da acidez da crítica. Um pouco, mas não tudo. O que é que você pensava, Jack, que viria para cá e já bancaria o especialista?

Como a maior parte das dependências do centro de treinamento urbano do FBI, em Quantico, afetuosamente chamado de Hogan’s Alley, a sala de descanso era espartana, com paredes e assoalho de madeira, e mesas de fórmica que pareciam ter sido marteladas. Mas o cenário do curso não tinha nada de desmazelado, com seu banco, agência de correios, barbearia e salão de bilhar. E entradas escuras, pensou Jack. Tudo aquilo parecia bem real, assim como a bala de paintball que atingira suas costas. Ainda coçava, e ele suspeitava que veria um belo vergão quando fosse ao chuveiro mais tarde. Mas, bala de paintball ou não, ele estava morto. Suspeitou que usavam paintball por conta dele. Dependendo do cenário do treinamento e os agentes que nele estivessem, o Hogan’s Alley podia ser muito mais barulhento e assustador. Jack já havia até ouvido boatos de que a HRT — Equipe de Resgate de Reféns — às vezes usava munição verdadeira. Mas, a bem dizer, esses caras eram os melhores dos melhores.

— E você aí? Não vai falar nada? — perguntou Jack a Brian, que estava escarrapachado na cadeira, balançando nas duas pernas de trás. — Eu posso aguentar logo toda a advertência.

Brian meneou a cabeça e sorriu, acenando para seu irmão.

— Aqui é o pedaço dele, primo, não o meu. Quando você for até as Vinte e Nove Palmeiras, nós conversamos. — Os marines tinham seu próprio e assustador campo de treinamento de combate urbano, chamado MOUT (Operações Militares em Terreno Urbano). — Até lá, eu fico calado, muito obrigado.

Dominic bateu com os nós dos dedos na mesa em frente a Jack.

— Primo, porra, você pediu que nós te trouxéssemos para cá, não foi?

A frieza de aço na voz de Dominic era inequívoca, e Jack ficou momentaneamente sem jeito. O que está acontecendo, perguntou-se ele.

— Certo.

— Você queria sentir como era de verdade, não é?

— Sim.

— Bem, então pare de se comportar como um garotinho pego colando. Isso aqui não é sobre conferências. Não importa merda nenhuma quem você é ou se cometeu um erro de principiante pela terceira vez. Droga, levei tiro nas primeiras dez vezes que fiz esse curso. Aquela porta que você não viu? Quase apelidaram aquela porra com meu nome por conta da quantidade de tiros que levei ali.

Jack acreditava nele. O Hogan’s Alley era o campo de treinamento dos agentes do FBI havia mais de vinte anos, e os únicos que passavam perfeitamente por ali eram os que passaram tantas vezes que sonhavam com aquilo. E era assim com tudo, Jack sabia. A perfeição vem da prática, e isso não era um clichê, mas de fato um axioma, especialmente na área da defesa da lei e nas operações militares. A prática produz novas trilhas na sua fiação mental enquanto seu corpo desenvolve memória muscular — repetir a mesma ação inúmeras vezes até que os músculos e as sinapses trabalhem em uníssono e o pensamento se apague da equação. Quanto tempo isso demora para acontecer? , perguntou-se.

— Ora, vamos... — disse Jack.

— Não. Pergunte a Brandeis. Ele vai ficar feliz em contar. Levei uma porrada de tiros dele. Merda, nas duas primeiras vezes passei direto por aquela porta e morri por causa disso. Olha, não fico muito contente em dizer isso, mas a verdade é que você foi muito bom para uma primeira vez. Terrivelmente bom. Droga, quem imaginaria isso... Meu priminho sabe-tudo um au-tên-ti-co pistoleiro.

— Agora você está gozando com a minha cara.

— Não, não estou não. É verdade, cara. Fala aí, Brian. Diga a ele.

— Ele está certo, Jack. Você ainda está muito tosco. Diabo, você enquadrou o Dom na mira duas vezes lá na lavanderia...

— Enquadrei?

— Quando você se preparou do lado de fora de um aposento, lembra, logo antes de entrar, e depois se separou lá dentro, um grupo avançando para o lado pesado e outro para o lado leve...

— Sim, estou lembrado.

— Na lavanderia, você deu um passo para a lateral e apontou sua arma para fora de sua zona. O cano da sua arma me enquadrou... bem na nuca, de fato. Algo que não se pode fazer mesmo.

— Ok, lição número um: não aponte sua arma para seus amigos.

Brian riu.

— É um jeito de colocar a coisa, sim. Como eu dizia... você ainda está tosco, mas tem um grande instinto. Puxa, será que você andou escondendo coisas de nós? Fez algum treinamento com o Serviço Secreto quando era moleque? Talvez algumas férias com Clark e Chavez?

Jack sacudiu a cabeça.

— Não, nada disso. Quer dizer, sim, andei disparando algumas armas, mas nada como isso. Não sei... Parecia que passava na minha cabeça antes mesmo de acontecer... — Jack deu de ombros e sorriu. — Talvez tenha um pouco do DNA de marine do meu pai. Quem sabe, talvez eu simplesmente tenha visto muitas vezes Duro de matar.

— Não acho que seja isso — retrucou Brian. — Bem, seja lá o que for, eu não me importaria de ter você na minha retaguarda.

— Apoio isso.

Todos levantaram as latas de Coca Light e brindaram juntos.

— Falando nisso, caras... — disse Jack, hesitantemente. — Vocês se lembram daquele caso, ano passado... na Itália?

Brian e Dominic trocaram olhares.

— Lembramos — disse Dom. — Negócio quente, aquele.

— É, bem, eu estava pensando que não me importaria de fazer um pouco mais daquele tipo de coisa... Não exatamente o mesmo, talvez, mas algo assim.

Brian falou:

— Meu Deus, primo, você está falando em se desligar do seu teclado e cair no mundo real? Enquanto falamos, posso até ver o diabo amarrando seus patins de gelo.

— Engraçadinho. Não, eu gosto do que faço, sei que faz diferença, mas é uma coisa tão intangível. O que vocês fazem... o que nós fizemos na Itália... isso é o real. Mão na massa, sabe? Dá para ver os resultados na hora.

— Como mencionou o assunto — disse Dominic —, sempre quis perguntar a você: alguma coisa te preocupou depois. Não que tivesse que acontecer isso, mas vamos encarar os fatos: você caiu de bunda numa situação de merda, se é que me permite a expressão.

Jack considerou o assunto.

— O que você quer que eu diga? Que fiquei preocupado? Bem, não fiquei. Não mesmo. Claro, eu estava nervoso e houve uma fração de segundo antes de acontecer que pensei: que diabos estou fazendo? Mas isso sumiu, e éramos apenas eu e ele, e eu simplesmente fiz o que tinha que fazer. Para responder a pergunta que acho que você quer perguntar, não, não perdi um minuto de sono por causa daquilo. Você acha que eu devia?

— Merda, não. — Brian olhou ao redor para ter certeza de que estavam sós, depois se inclinou para perto, antebraços na mesa. — Não há “devia” nisso, Jack. Ou você perde ou não perde. Você não perdeu, ótimo. O cuzão merecia. Da primeira vez que despachei um cara, Jack, ele estava apontando a arma para mim. Era matar ou ser morto. Eu o abati, e sabia que era a coisa certa. Mas ainda tive pesadelos. Certo ou errado, mereça o cara ou não, matar um homem não é algo agradável. Qualquer um que pense o contrário é um pouco maluco. O entusiasmo todo não é, na verdade, sobre matar: é sobre cumprir o dever e fazer o trabalho para o qual você se arrebentou treinando, observando os caras à sua direita e à sua esquerda, e saindo inteiro do outro lado.

— Além disso, Jack — acrescentou Dominic —, aquele sujeito na Itália não iria simplesmente se aposentar um dia. Um bando de pessoas iria perder a vida antes que alguém o despachasse. Para mim, esse é o negócio. Um inimigo que recebe o merecido, muito bem, mas o que nós fazemos, o fundo da questão de tudo isso aqui, não é vingança, pelo menos não pela simples vingança. Pensar assim é como trancar a porta da cocheira depois que os cavalos fugiram. Eu prefiro mil vezes parar antes o sujeito que planeja abrir a porta da cocheira.

Brian olhou fixo seu irmão gêmeo por alguns instantes e depois balançou a cabeça e sorriu.

— Puta merda! Mamãe dizia que você era o filósofo da família. Nunca acreditei nela, até agora.

— É, é... — murmurou Dominic. — Só que não é tanto filosofia, é mais matemática. Mate um, salve centenas ou milhares. Se estivéssemos falando de pessoas decentes e respeitadoras da lei, a equação era mais complicada, mas eles não são assim.

— Concordo com ele, Jack — disse Brian. — Aqui nós temos a oportunidade de fazer coisas realmente boas. Mas, se você estiver pensando em fazer esse tipo de coisa porque acha que vingança é a resposta ou que tudo é essa merda de James Bond...

— Não foi isso o que...

— Ótimo, porque não é mesmo, nem de longe. É uma merda feia e ponto. E a vingança é um motivador vagabundo. Faz você ficar desleixado, e desleixo é a morte.

— Sei disso.

— E o que você vai fazer a respeito?

— Acho que vou falar com Gerry e ver o que ele diz.

— É melhor você preparar bem seu discurso — disse Dominic. — Porra, Gerry já assumiu um risco enorme contratando você. Seu pai iria ter um ataque...

— Deixa que eu me preocupe com meu pai, Dom.

— Ótimo, mas, se você acha que Gerry vai simplesmente lhe dar uma arma e dizer “Vai em frente, faça o mundo mais seguro para a democracia”, vai ver outra coisa cair em cima de você. Se você fosse comprar uma fazenda, ele mesmo telefonaria para o corretor.

— Sei disso.

— Ótimo.

— Então — disse Jack —, se eu falar com ele, vocês dois me apoiam?

— Por algo que vale a pena, sim — respondeu Brian. — Mas isso aqui não é uma democracia, Jack. Supondo que ele não liquide a ideia no ato, provavelmente vai ter que conversar com Sam. — Sam Granger era o chefe de operações do Campus. — E duvido que ele pergunte a nós.

Jack assentiu.

— Provavelmente você está certo. Bem, como você disse, é melhor eu me preparar para vender muito bem o meu peixe.