Morto ou Vivo
Capítulo 83
Os irmãos Salim deixaram o hotel às nove da manhã, e quase imediatamente Jack e Clark perceberam que retraçavam a mesma rota até Newport News Marine Terminal. Em Portsmouth, os dois saíram da rodovia e foram até um depósito da U-Haul na Butler Street. Clark seguiu adiante da entrada, dobrou na Conrad, desligou os faróis, fez um retorno e parou a 10 metros do cruzamento.
Abaixo no quarteirão, o Inteprid entrara em um estacionamento e parara diante da primeira fileira de unidades de armazenamento. Citra Salim desceu e trotou até uma unidade, que abriu com uma chave.
— Não gosto disso — disse Jack. — Para que dois jovens de férias precisam de uma unidade de armazenamento?
— Não é por um bom motivo — replicou Clark.
Citra saiu. Fechou e trancou a unidade, e voltou ao Intrepid. Carregava duas bolsas pequenas de lona.
Dentro de minutos estavam de volta na rodovia, na direção do túnel da baía. Quando chegaram do outro lado, o Intrepid continuou a refazer a rota da tarde anterior, terminando mais uma vez no King Lincoln Park. Entretanto não entraram no estacionamento, mas passaram e depois dobraram à direita na Jefferson e voltaram pela mesma direção.
— Você acha que eles nos notaram? — perguntou Jack.
— Não. Simplesmente estão sendo cuidadosos. Estamos seguros.
Estavam em uma área industrial: companhias de transporte, fornecedores de cascalho, ferros-velhos e lojas de manutenção de barcos. O Intrepid dobrou mais uma vez à direita.
— Rua 12 — falou Jack. — Novamente indo para o leste.
Clark deixou que se afastassem um pouco mais, depois desligou os faróis, deu a volta e parou no meio-fio. A 300 metros dali, o Intrepid entrou à direita, em um condomínio de apartamentos.
— Visitando novos amigos? — perguntou-se Jack.
— Vamos descobrir.
Clark acendeu os faróis e saiu novamente. Quando ficaram paralelos ao apartamento, duas pessoas saíram do estacionamento e desceram pela calçada. Eram os Salim. Com as mochilas. Clark passou por eles e olhou pelo retrovisor. Os dois caminharam de volta à Jefferson. Clark dobrou na esquina seguinte, parou de novo, luzes apagadas.
— Está vendo os dois?
— Sim, já pesquei.
Na Jefferson, os Salim cruzaram a rua e desapareceram por um canteiro central com grama alta atrás do muro de uma companhia de transporte.
— Hora de ir — disse Clark.
Com os faróis ainda apagados, ele fez a curva em U e passou da 12 para a Jefferson. Enquanto alcançavam a interseção, enxergaram os Salim virando à esquerda e sumindo atrás da cerca da transportadora.
— Estão ficando sem espaço — declarou Jack. A transportadora dava fundos para a 664, uma rodovia elevada com quatro pistas.
— Vamos a pé — disse Clark.
Estacionaram, saíram e trotaram para cruzar a rua até o canteiro central. No fundo da companhia de transporte, acharam um riacho pantanoso rodeado por arbustos cerrados e uma trilha estreita. Estavam no meio do caminho quando Clark percebeu onde estavam.
— É o canal da 664. Lembra à direita quando saímos do túnel? — Tinham visto dezenas de iates a motor e lanchas atracadas no canal.
Abaixo da trilha, um motor gorgolejou e ligou. Clark e Jack correram. Cerca de 50 metros adiante, no final de um cais, os Salim estavam sentados em uma lancha. O rapaz estava na cadeira do piloto e avançou o acelerador. O barco saiu do cais e se dirigiu ao canal.
Jack e Clark estavam de volta ao carro em um minuto. Entraram na Jefferson e foram para o sul. Depois de alguns quarteirões, o canal apareceu pela janela do passageiro. Puderam ver o barco dos Salim navegando na direção da boca do canal.
— Estão indo para o terminal — disse Clark.
— E a patrulha do porto?
— Jack, depois que passarem por volta do quebra-mar, estarão a 400 metros do primeiro atracadouro. Só temos cinco minutos, se tanto.
Clark fez o retorno e foi na outra direção.
Passaram por baixo da 664, dobraram ao sul para o Terminal. No final da rampa, a estrada se bifurcava em um conjunto de reservatórios. Clark se enfiou pela direita e seguiu por uma sinuosa estrada de terra. No meio do conjunto de reservatórios, Clark freou e parou. Cerca de 100 metros adiante havia uma guarita iluminada. Um portão oscilante bloqueava a estrada.
— Merda.
— O distintivo de delegado não abre caminho?
— Uma vez lá dentro, sim, mas os portões principais passam a exigir uma TWIC, a Credencial de Identificação de Trabalhador em Transporte, e quem não tiver uma não entra.
— Como você sabe disso?
— A Rainbow tinha uma equipe cuidando de se manter atualizada com protocolos de identificação — respondeu Clark. — Os bandidos sempre tentam estar onde não devem. Prever o que vão tentar falsificar é meio caminho andado para saber qual é o alvo projetado.
Clark deu a ré pela estrada, um braço em cima do encosto enquanto manobrava pela janela traseira, até chegarem à bifurcação. Entrou pela esquerda e parou em um desvio perto da cerca do conjunto de reservatórios.
— A pé de novo — disse Clark.
À esquerda deles, do outro lado do conjunto de reservatórios, podiam ouvir o trânsito correndo pela 664. À direita, acompanhando a estrada de terra, havia uma berma coberta por arbustos. Os dois correram pelo aterro, depois abriram caminho pela folhagem, e desceram por uma ladeira oposta. Aí se viram em um terreno com mato baixo do tamanho de um campo de futebol. No final, podiam ver a guarita que tinham localizado antes. Correram pelo campo, subiram por outra encosta, atravessaram alguns arbustos, e terminaram em uma estrada de terra. À esquerda, havia um estacionamento de terra com fileiras e fileiras de contêineres de carregamento e dois barracões provisórios. Clark e Jack passaram pela estrada e entre os contêineres em trinta segundos. Pararam para recuperar o fôlego, depois continuaram.
Acharam caminho pelo meio dos contêineres até a borda do estacionamento. As docas estavam a 200 metros dali, três delas se projetando pelo porto, com um navio atracado de cada lado, seis no total.
— Muito campo aberto entre aqui e lá. E muita iluminação. Parece um estádio. Que navio?
— Só um palpite, mas diria que é aquele que ainda não descarregou. — Apontou para um navio contêiner atracado na extrema direita. O carregamento lotava o convés de proa. — Consegue ler o nome?
Jack apertou o olho.
— Losan.
A 300 metros de distância, Citra e Purnoma Salim ancoravam o barco no píer abaixo da popa do Losan.
— Tem certeza de que é este? — sussurrou Citra.
— Tenho sim. Tome. — Ela pegou a mochila e a enfiou sob o braço.
Purnoma levantou, agarrou a escada de aço de manutenção e amarrou o cabo da proa nela. Estabilizou o barco enquanto a irmã subia pela escada. Ao chegar no último degrau, levantou os braços, apanhou o cabo de proa e passou os pés por cima da borda. Quando ela estava no meio do caminho, Purnoma a seguiu. Um minuto depois estavam no cais.
— Não deve haver mais que dois tripulantes a bordo. Você liquida com eles, eu vou para os tanques. Quando você terminar, me avise que começo.
— Lembre: aja como se fizesse parte e você passa a fazer parte — disse Clark, depois levantou e caminhou pelo estacionamento. Jack o seguiu. Um trio de sujeitos fumava do lado de fora de um dos barracões. Clark levantou o braço, acenando. — E aí, pessoal. Como estão as coisas?
— Tudo bem. E com você?
Clark sacudiu exageradamente os ombros.
— Outro dia, outra merreca.
Os homens riram.
Clark e Jack continuaram andando, deixando o estacionamento e caminhando por uma alameda de carretas. Saíram no molhe e viraram à direita, passando pelos navios. Chegaram ao cais do Losan.
— Não pode ser assim tão fácil.
— Não atraia o azar, rapaz.
Começaram a descer pelo cais. Cerca de 50 metros adiante, podiam ver que a escada de desembarque do Losan estava abaixada, a base um pouco acima do cais.
— Eles devem ter um guarda — ponderou Jack.
— Vigia, Jack. No mundo marítimo são chamados de “vigias”. Logo saberemos.
Começaram a subir, os pés pisando suavemente os degraus de aço. No alto, a gaveta da balaustrada estava aberta, mas um pedaço de cabo bloqueava a entrada. Clark soltou uma ponta e os dois entraram. À direita, adiante, um arco levava ao convés de proa, à esquerda o convés descoberto se estendia até a popa. A antepara estava quebrada em três escotilhas. Clark sacou a pistola. Jack fez o mesmo. Foram até a primeira escotilha, silenciosamente desengataram a abertura e a abriram. Do porão vinha o ruído do que parecia ser duas raquetes de pingue-pongue batendo uma na outra. Clark fez uma mímica com a mão indicando uma arma, e Jack assentiu.
Um segundo tiro.
Então, do convés de proa, veio um suave ruído radiofônico ou de um celular a rádio.
Clark apontou para si mesmo, e então para baixo da escada, depois apontou para Jack e em seguida para o convés de proa. Jack assentiu, e Clark desapareceu lá dentro.
Jack deu dois passos na direção do convés e parou. Seu coração estava disparado. Respirou fundo para se acalmar. Mudou a arma para a mão esquerda e enxugou a palma da mão na calça. Calma, Jack. Respire. É como se estivesse jogando Hogan’s Alley. É claro que não era exatamente assim, e ele sabia disso, mas fez o que conseguiu para expulsar o pensamento para o fundo de sua mente. John vai se virar bem; não se preocupe com John. Foque no que está à sua frente... Continuou caminhando, um passo cuidadoso de cada vez, a arma levantada e empunhada com as mãos, apontando para o final do convés, examinando a superestrutura acima de sua cabeça. Chegou ao arco do convés de proa. Parou. As esquinas eram o diabo, como lhe disseram Dominic e Brian. Nenhum policial gosta de esquinas. Nunca avance por uma esquina, Jack fez questão de se lembrar. Dê uma olhadinha, veja o que há, e recue.
Foi o que ele fez então: deu uma olhadinha e recuou. À sua esquerda, havia uma parede de aço de 12 a 15 metros de altura. Eram os bulktainers, os tanques armados para carga de líquidos embarcados, percebeu Jack. Quatro em cada armação e 12 pelo través. A parte frontal deles se encontrava com a plataforma levantada do porão de carga. Jack deu outra olhada, dessa vez examinando o convés aberto adiante do porão. Estava para recuar quando viu uma figura correr de trás do outro lado do bulktainer e se ajoelhar ao lado da escotilha do porão. A figura começou a soltar as alavancas da escotilha. Quando terminou, abriu a escotilha uns 30 centímetros, depois correu novamente para fora de seu campo de visão.
Do estibordo veio o rangido de outra escotilha abrindo, depois fechando. Passadas soaram no convés. Agora vozes murmuradas. Jack saiu de lado e deslizou pelo tabique até o último bulktainer. Deslizou até a frente deste, deu uma olhada pela esquina. Nada.
Então ouviu um sibilo, depois outro, e mais outro. Jack levou um momento para localizar o som: pés em uma escada de ferro. Olhou para cima. Pouco mais de 1 metro acima de sua cabeça havia uma escada pendurada. Qual é a sua, cara? Só havia um modo de descobrir. Colocou a arma de volta no coldre, agarrou o degrau de baixo e começou a subir. No alto, a escada do bulktainer acima estava deslocada uns 30 centímetros para o lado, de modo que Jack teve que agarrar o degrau seguinte e deixar os pés balançando.
Escutou alguma coisa embaixo dele e olhou. Apesar de o convés estar escuro demais para ver o rosto, Jack reconheceu os cabelos longos e negros de Citra Salim. Ela levantou a arma. Sem ponto de apoio, ele balançou ainda mais. O cano da arma de Citra brilhou alaranjado. Jack sentiu alguma coisa bem quente passar pelo lado de seu queixo e bater no aço atrás de sua cabeça.
Do outro lado do bulktainer, uma voz de homem:
— Citra?
Jack tentou pegar a arma, mas antes mesmo que seus dedos tocassem o cabo, ele sabia que era tarde demais.
Que modo idiota de acabar, pensou.
Atrás de Citra, uma figura apareceu atravessando o arco. John Clark deu uma passada rápida, levantou a arma e disparou na nuca da mulher. Ela desabou no convés.
— Citra! Você está aí?
Jack apontou para bombordo. Clark assentiu e começou a se mover para aquele lado. Jack apertou a mão no rosto; seus dedos ficaram ensanguentados. Não está jorrando, pensou, o que era bom. Começou a subir novamente, passando do segundo para o terceiro nível. No meio da subida até o contêiner mais acima, parou, sacou a arma, e continuou. Deteve-se no alto. À sua esquerda, a cabine do piloto e os suportes estavam a 1 metro de sua cabeça. Ele espreitou por cima da borda do contêiner.
Quatro tanques cilíndricos de propano, totalmente brancos sobressaindo na escuridão, estavam colocados lado a lado, dois na frente e dois atrás. A cinco contêineres de distância Jack viu um objeto prateado disparar pelo ar e cair sobre o que estava. Ele esticou o pescoço, tentando localizar o objeto, quando viu um brilho amarelado crepitando embaixo, na frente de um dos tanques.
— John!
— Aqui!
— Ele tem alguma coisa. Uma bomba, uma granada... alguma coisa.
Outro objeto fez uma curva no ar. Dessa vez, Jack viu melhor. Uma bomba caseira em formato de tubo. Jack se jogou por cima da borda do contêiner, saiu andando de lado para a frente e começou a bordejar pelos outros cofres de carga, em marcha atlética. Viu a cabeça de Clark aparecer a estibordo acima do contêiner.
Equilibrando-se na parte frontal do contêiner, Jack espreitou cada um deles, a arma acompanhando o movimento. Outra bomba fez um arco no ar e quicou em um tanque. Então mais uma.
Ele saltou para o tanque seguinte, oscilou, conseguiu se equilibrar e pulou novamente. O pé escorregou e Jack bateu com o peito na borda do quarto contêiner. A estibordo, Clark havia subido na borda e ia na direção dele.
— Os fusíveis estão queimando, John — gritou Jack.
Ele se impulsionou para cima, enganchou a perna na borda, conseguiu se ajoelhar.
— Você o viu? — perguntou Clark, dando mais um passo.
Um torso apareceu atrás de um dos contêineres, disparou um tiro na direção de Clark e mergulhou novamente para fora de vista.
— Porra — murmurou Jack, e começou a correr, braços estendidos como se caminhasse na corda bamba. Estava atravessando o sexto contêiner quando Purnoma Salim apareceu por cima da borda do oitavo tanque e caiu em cima do outro. Depois se levantou, girando na direção de Clark, que estava no meio de um pulo entre duas bordas. Purnoma levantou a arma. Ainda correndo, Jack girou a sua, braço esquerdo esticado para se equilibrar, e começou a disparar, tentando manter a mira no centro de massa. Purnoma caiu. Jack parou de disparar. Dois contêineres atrás dele, ouviu um estouro. O suporte tremeu. Estouro.
— John, saia daí! — gritou Jack, e continuou correndo.
Estouro.
A borda balançou sob os pés de Jack, que tropeçou de lado, batendo no contêiner. Viu a curva branca de um tanque de propano disparando para cima dele. Girou o corpo de lado e jogou o impacto para os braços e os ombros, depois deslizou pela borda e se viu imprensado na parede do cofre de carga.
Em algum lugar do terminal, começou a soar uma sirene de alarme.
— Jack? — gritou Clark.
— Estou bem!
Ouviu um ruído sibilante. Olhou ao redor. Diretamente abaixo dele, vindo da parte inferior do fundo do tanque, viu um brilho amarelo. Puta merda.
— John, se mexa, saia!
Um tanque mais acima, outro estouro.
Jack rolou de costas e sentou, e ficou escarrapachado no tanque. Levantou e olhou ao redor. Não tinha para onde ir. Uma queda de 15 metros de cada lado, a escada mais próxima a mais de 7 metros de distância. Cabine do piloto. Jack correu por cima do tanque e pulou. Agarrou na sacada, balançou a perna e prendeu o tornozelo. Conseguiu subir e rolou por cima da cabine de pilotagem.
Estouro.
Jack rolou. Olhou para baixo. Ouviu barulho de líquido se movimentando dentro do tanque. O cheiro o atingiu. Os olhos começaram a lacrimejar.
— John! — gritou.
— Sim, a bombordo.
— Está sentindo o cheiro?
— Sim. Mexa seu rabo.
Jack levantou, correu por cima do teto, achou a escada da superestrutura e começou a descer. Clark estava esperando embaixo.
— Que porra é essa? — perguntou Jack.
— Gás de cloro, Jack.
Quarenta minutos depois, molhados e exaustos, alcançaram o carro e dirigiram de volta para a Terminal Avenue. Pelo retrovisor, podiam observar as luzes azuis e vermelhas piscando, do começo ao fim do terminal. Sabendo que sua presença criaria mais problemas que soluções, passaram para o outro lado do Losan, percorreram pela praia algumas centenas de metros, depois caminharam de volta pelo terminal, esquivando-se dos caminhões de bombeiros e carros de polícia até chegarem ao conjunto de reservatórios.
Clark voltou pela 664 e foi na direção nordeste para Newport News, onde acharam um restaurante 24 horas. Jack ligou para o Campus. Hendley atendeu.
— Essa merda em Newport News... São vocês?
— Já está no noticiário?
— Em todos os canais. O que aconteceu?
Jack relatou os acontecimentos, depois perguntou:
— A coisa foi feia?
— Podia ser pior. Até agora, só uns trinta trabalhadores do terminal foram parar no hospital. Nenhuma morte. O que era aquilo. Que tipo de tanques?
— Propano, acho, uns cinquenta. Só jogaram meia dúzia de bombas, mas aposto que tinham muito mais nas mochilas.
— Os dois estão mortos?
— Sim.
— Preciso de vocês dois de volta no aeroporto. Já fizemos reservas no voo das três e meia de volta para cá.
— O que está acontecendo?
— Tivemos notícias de Chavez e de Caruso. Pegaram Hadi, e ele está falando.