Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 77 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 77

 

Descendo 20 mil pés de altitude para pousar no Rio de Janeiro, Chavez e Dominic podiam ver a cortina de fumaça flutuando sobre São Paulo, 400 quilômetros ao sul do Rio. Ao norte de São Paulo, o incêndio continuava enfurecido em Paulínia. A caminho do aeroporto, na noite anterior, ouviram no noticiário que os bombeiros e o pessoal de resgate da área tinham mudado de estratégia, focando não na extinção do inferno na refinaria e sim em evacuação e contenção. O etanol havia parado de se espalhar no oleoduto uma hora depois da explosão inicial, mas nesse meio-tempo algo como 10 mil galões de combustível se derramaram na refinaria e, apesar de um tanto disso ainda estar queimando, o problema agora dizia respeito às dezenas e dezenas de tanques de mistura e armazenamento. A conflagração certamente se extinguiria em algum momento, porém os especialistas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos não concordavam em quanto tempo isso levaria para acontecer. Alguns previam quatro dias, outros duas semanas ou mais. O ponto no qual não havia desacordo, entretanto, era no custo ambiental que o desastre provocava. A fuligem de petróleo já cobria campos e casas tão ao sul quanto Colombo. Emergências de hospitais estavam inundadas de pacientes se queixando de problemas respiratórios.

— Se isso não for o inferno na terra, não sei o que pode ser — disse Dominic, com olhos grudados na janela.

— Não vou discutir isso, cara. Como você se sente? — Ding cochilara em sono leve durante boa parte do voo, mas Dominic parecia ter entrado em coma até uma hora atrás.

— Melhor, acho. Eu estava destruído.

— Em mais de um jeito, mano. Sei que já disse isso, mas sinto muito sobre Brian. Era um bom soldado.

— Obrigado. Então, quando pousarmos, qual o plano?

— Ligar para casa e verificar no noticiário se a informação sobre Hadi já atingiu as ondas. Se já tiver, saímos à caça. Se não, nos agachamos e esperamos.

Após desembarcar e passar pela alfândega e pela imigração, foram direto para o balcão da Avis e se identificaram. Dez minutos depois estavam parados no meio-fio, esperando o Hyundai Sonata ser levado até eles.

— Ar-condicionado? — perguntou Dominic.

— Sim, mas câmbio manual. Não se pode ter tudo.

O Sonata verde-escuro dobrou a esquina. O atendente desceu, entregou os formulários para Chavez assinar, depois acenou e foi embora. Os dois entraram e partiram. Dominic tirou o telefone via satélite da bolsa e ligou para o Campus.

— Já descemos — disse a Hendley, e ligou o viva voz do telefone.

— Ótimo. Vocês estão no viva voz. Sam e Rick estão aqui também. Biery está chegando. — Dominic escutou a porta abrir, e depois a cadeira se arrastando. Biery disse: — Dom, você está aí?

— Sim. Nós dois.

— Estamos no negócio. Passamos por dez sites de armazenamento antes de conseguir um contato. Ele usa um site chamado filecuda.com. Tal como Jack sacou, Hadi usava uma variação de seu e-mail como login. Quebramos a senha em dez minutos. Até agora não há nada na conta.

— Montamos uma mensagem que acreditamos que porá Hadi em nossa direção. Sam vai dar os detalhes — disse Rick Bell.

Granger entrou na conversa:

— Estamos um tanto preocupados que o vazamento de notícias realmente assuste Hadi, portanto iremos dar passinhos, movendo-o de um lugar a outro. Ele vai estar de guarda, de modo que imaginamos que, se ele for ao primeiro ponto e não sofrer nenhuma emboscada, vai começar a ficar mais confortável com a ideia. Quando acharmos que ele está fisgado, diremos a ele para encontrar um contato na Rocinha...

— Onde?

Ding respondeu:

— É português. Significa “pequena fazenda”. Por aqui, os bairros pobres são chamados de favelas, e a Rocinha é a maior do Rio.

— Estamos pensando em movimentá-lo duas, talvez até três vezes antes de enviá-lo para a Rocinha. Depende do tom de suas respostas. Vou mandar uma lista e horários para vocês via e-mail.

— Por que lá?

— A polícia do Rio não sobe lá a menos que seja absolutamente necessário. Fica mais fácil para vocês operarem.

— Quando vocês vão mandar a dica sobre Hadi? — perguntou Dominic.

— Dentro de uns quarenta minutos, por fax para a Record News. Enviaremos nosso próprio esboço e descrição. Esperamos que seja suficientemente claro para que Hadi se reconheça, mas vago o suficiente para evitar que ele seja capturado imediatamente.

— E que certeza temos de que irão usar o material? — perguntou Chavez.

— Sobrevivência do mais forte. Eles são um canal de notícias e estão brigando por audiência durante o maior desastre da história brasileira. Vão receber a dica como um presente divino — disse Hendley.

— Não tem como não gostar desse jornalismo selvagem — respondeu Ding.

— Aqui estamos ligados em todos os canais. Logo que a coisa entrar no ar, ligamos para vocês.

Dominic desligou. Para Chavez:

— Vamos à caça?

— Sem porra de dúvida. Mas preciso primeiro fazer uma parada. Conheço um cara que conhece um cara.

— Que sabe onde colocar as mãos em algumas armas.

— Isso aí.

 

Frank Weaver despertou às cinco da manhã, bebeu duas xícaras de café feito na cafeteira do quarto, depois leu o jornal por vinte minutos antes de tomar uma chuveirada e ir para o saguão para seu café da manhã continental grátis. Às sete e quinze estava arrumado e saindo pela porta.

Sua carreta estava no mesmo lugar onde a deixara, assim como o tonel, mas ele sabia que estariam. O DOE equipara o caminhão com um equipamento imobilizador. Se o motor fosse ligado sem uma chave, os sistemas de combustível se fechariam. Um belo detalhe. Quanto ao tonel, ninguém poderia sair correndo com aquela coisa. Talvez o King Kong, se sentisse falta de um de seus halteres, porém ninguém mais.

Fez sua volta de inspeção habitual, verificando as presilhas, os cadeados e as correntes. Não achando nada fora do lugar, destrancou a porta do motorista e subiu na cabine. Estava colocando a chave na ignição quando se deteve.

Alguma coisa...

No começo não conseguiu perceber o que era, mas lentamente foi compreendendo: alguém havia entrado no caminhão. Mas isso não era possível. Como tudo mais nessa carreta, a tranca da porta era especial. Era preciso mais que um ladrãozinho com gazua para abri-la. Weaver olhou ao redor. Nada parecia fora do lugar. Verificou o porta-luvas e o console central para ver se faltava alguma coisa. O mesmo com o compartimento de dormir. Tudo estava como ele deixara.

Arma.

Ele procurou embaixo do assento. O revólver calibre .38 estava lá, bem enfiado no coldre de couro fixado na armação do assento.

Weaver ficou sentado ali por meio minuto antes de dar de ombros e se livrar daquela sensação estranha. Talvez o café do hotel fosse mais forte do que ele pensava e o deixara ressabiado.

Ligou a unidade de GPS no painel e esperou que fizesse o ciclo de autodiagnóstico, e depois abriu sua rota. O terceiro de quatro dias. Mais 500 quilômetros fáceis até Saint George, em Utah.

Tariq achou o Emir no banheiro, arrumando as poucas coisas que trouxera dentro de uma caixa.

— Depois que eu gravar meu testamento e sair para encontrar Musa, queime estas coisas.

— Farei isso. Tenho duas peças de informação. Cada um dos quatro homens de Nayoan confirmou o sinal de avançar. O primeiro será em Waterloo, domingo de manhã.

— Ótimo.

— Segundo: nosso homem interceptou o caminhão sem problemas. Já temos a rota do motorista, incluindo paradas de descanso e abastecimento. Está com a chegada prevista entre duas e meia e três horas da tarde, depois de amanhã.

O Emir assentiu e fechou os olhos, mentalmente se lembrando do cronograma.

— Está perfeito, meu amigo. Musa estará no lugar pelo menos com quatro horas de antecedência. Vá preparar a câmera. Já é hora.