Morto ou Vivo
Capítulo 50
Clark estava no corredor subterrâneo entre um complexo do terminal e outro. Na maior parte do tempo, andando em esteiras móveis, como as esteiras de bagagem. E pareciam mesmo longas. Observou Hadi sair ao ar livre para fumar mais um cigarro antes de voltar, apressando-se pelos detectores de metal — milagrosamente seu escudo de marshal não fez a coisa disparar ali —, descendo o túnel comprido e depois subindo as escadas rolantes até o terminal de embarque, onde já era hora de trabalhar. Hadi dobrou à esquerda no alto. Viu seu portão em um monitor — sem examinar o bilhete para ver o número do voo. Será que isso fazia dele um profissional treinado ou simplesmente um cara com boa memória ou confiança excessiva?, perguntou-se Clark. Bem, você paga para ver e faz suas escolhas. No alto, Hadi tomou a esquerda na direção do Saguão F. Caminhava rapidamente. Será que está apressado?, pensou. Se for isso, má notícia para ele. E logo o alvo se voltou para verificar um monitor, orientou-se e se dirigiu à esquerda para o Portão F-5, onde sentou, como se tivesse necessidade de relaxar. O F-5 era um voo para... Las Vegas? O McCarran International era um aeroporto de bom tamanho com um número enorme de conexões sabe-se lá para quantos outros destinos. Apenas um atalho para Hadi? Isso era prudente? Hmm. Quem, se é que houvera alguém, treinara esse alvo? Alguém da KGB, ou uma pessoa de dentro da organização? Seja lá qual fosse a resposta, o voo saía em 15 minutos, e não havia tempo suficiente para John voltar ao Terminal 1 e conseguir um bilhete para segui-lo. O exercício de rastreamento terminaria ali. Droga. Nem podia se esforçar para examinar o sujeito de modo óbvio demais, ou observá-lo mais de perto. Hadi podia ter olhado ao redor, e seria capaz, assim, de reconhecer seu rosto. Devia ter sido treinado por um profissional, e podia ter a mesma habilidade de Clark para se lembrar de rostos que apareciam e desapareciam no transcorrer da vida. Para um espião de campo essa era uma habilidade de sobrevivência de importância considerável. Clark foi até a loja de presentes e comprou uma barra de chocolates, além de uma Coca Light, permitindo que seu olhar varresse o saguão. Hadi estava sentando, sem nem mesmo procurar o local fechado para fumar onde as pessoas podiam exercitar seu mau hábito atrás de vidros. Talvez ele conseguisse controlar suas paixões, pensou John. Esse tipo de gente pode ser perigoso. Mas então o voo foi chamado, os bilhetes da primeira classe antes, e Hadi se levantou, caminhou até o portão de embarque e mostrou o seu. Até mesmo sorriu para o funcionário que o inspecionou e acenou para que entrasse no antigo DC-9 para desfrutar da poltrona larga e das bebidas grátis em sua viagem para Las Vegas, onde as pessoas podiam exercitar todo tipo de maus hábitos à vontade. John terminou de comer e voltou para a entrada do túnel. Como antes, a escada rolante parecia descer até o inferno, e ele agradeceu a seja lá qual arquiteto que tivesse especificado os corredores rolantes. Clark já tinha idade suficiente para apreciá-los. Lembrou-se de não franzir a testa quando pensou no que considerava uma missão estourada. Parcialmente estourada, de qualquer modo. Agora sabiam de coisas sobre o alvo que não conheciam antes, inclusive uma foto. Ele gostava de viajar usando uma cobertura de judeu; quase esperto, mas bastante óbvio. Judeus e árabes eram primos genéticos, afinal de contas, e suas crenças religiosas não eram tão separadas — apesar da fúria que ambos demonstravam diante desse mero pensamento, é claro. Cristãos, também. São todos Povos do Livro, como uma vez lhe explicaram seus amigos sauditas. Mas pessoas religiosas geralmente não assassinam. Deus pode não concordar. De qualquer maneira, seu trabalho atual era voar de volta ao Campus. Esperou para ver o portão de embarque fechar e observou o avião de turbinas duplas se afastar do terminal, e taxiar até a pista. Três horas até Las Vegas? Talvez um pouco menos, passando por Iowa, Nebraska e Wyoming, a caminho da cidade que celebrava o pecado. E de lá, para onde? Seja para onde fosse, ele não iria descobrir tão cedo. Bem, essa missão toda era duvidosa, e não podia ficar tão desapontado assim se ela resultara em um fracasso. Droga, pelo menos tinham algumas fotos do sujeito. Achou um balcão onde lhe ofereceram um voo de volta para o Baltimore-Washington em noventa minutos. Ligou para se certificar de que haveria alguém o esperando com um carro.
Hadi, na poltrona 1D de seu voo, examinou o menu enquanto bebericava o vinho branco que o recepcionou — o da Itália era melhor, mas isso não era surpresa —, e se repreendeu pela distinção de seu olfato para vinhos. O solo abaixo era quase sempre plano, com uns estranhos bolsões verdes, que, ele sabia, marcavam o sistema de irrigação que os fazendeiros americanos usavam nas pradarias. Essa área já havia sido chamada por exploradores de o Grande Deserto Americano. Hoje era o celeiro do mundo, apesar de outros desertos, verdadeiros, estarem mais adiante, além das montanhas. Que país grande e estranho era esse, cheio de pessoas estranhas, a maioria infiéis. Mas eram pessoas diante das quais ele tinha que se cuidar, e tinha que estar atento a si mesmo e à sua conduta a cada minuto, muito mais do que na Itália. Era difícil para um homem nunca relaxar, jamais baixar a guarda. Com sorte, poderia relaxar quando encontrasse seu amigo, dependendo da próxima escala de seu voo. Que estranho que ele jamais soubesse onde o Emir vivia. Eram amigos havia muitos e muitos anos. Tinham aprendido juntos a cavalgar, na mesma época e no mesmo lugar, quando eram muito jovens, estudaram na mesma escola, brincaram e correram juntos. Mas o vinho cobrou seu preço, e ele tinha passado por um longo dia. Seus olhos ficaram pesados e Hadi deslizou para o sono enquanto a noite alcançava a aeronave.
Clark embarcou em outro avião, sentou na sua poltrona de primeira classe e fechou os olhos, não para dormir e sim para repassar os acontecimentos do dia. O que ele tinha feito? O que havia feito de errado? Que coisas deram errado? O que tinha feito certo e por que isso não fora suficiente?
Para encurtar a história, era uma questão de mão de obra. Os rapazes Caruso pareciam ser bem competentes, e Jack agiu bem, mas isso não era grande surpresa. O garoto tinha bons instintos. Talvez questão de hereditariedade. Considerando tudo, não foi uma operação ruim, dado como foi montada apressadamente. Sabiam que ele se dirigia para Chicago. Teria sido melhor se dividissem em equipes de dois e depois enviar eletronicamente a foto para facilitar o acompanhamento? Poderiam ter feito isso? Tecnicamente possível, talvez, mas só porque poderia ter sido possível não significa que teria funcionado. Em coisas desse tipo era preciso ter múltiplas reservas de apoio, porque não podiam contar com os acontecimentos casuais exceto para estragar as coisas. Droga, não se podia contar com operações cuidadosamente planejadas, mesmo com muitos profissionais treinados. O inimigo não tinha que ser profissional para que eventos ocasionais estragassem os melhores planos. Talvez fosse boa ideia, pensou, dar uma volta pelas missões europeias com os gêmeos, só para observar a capacidade de ação deles em campo. Pareciam bons, mas parecer bom é algo que modelos de moda podem fazer. Tudo dependia de treinamento e experiência. Muita experiência. O treinamento se desenvolve em campo, e experiência era algo que ele tentara incutir muito nos novos agentes da CIA na Fazenda, no litoral da Virgínia. Mas jamais soube o quanto daquilo funcionara. Alguns voltavam e compartilhavam cervejas com ele e Chavez. Mas o que dizer dos garotos que não voltavam? Que lições se podia tirar deles? Raramente se escutavam essas histórias, porque não voltar significava jamais voltar: uma estrela dourada na parede do lado direito do átrio da CIA, e geralmente uma página em branco no livro.
Melhorar a comunicação interna entre as equipes, para começar, pensou. Considerando que não tinham experiência em leitura de mentes, era imperativo que tivessem sólidos protocolos de comunicação. Recrutar mais tropas seria uma boa ideia, mas isso não aconteceria. Supunha-se que o Campus devia operar pequeno e esperto. Talvez tivessem habilidade para fazer isso, mas com certeza havia momentos em que muitas pessoas resolviam um bocado de problemas. Só que isso não aconteceria.
O avião de Clark pousou suavemente no Aeroporto Internacional de Baltimore-Washington. Levou cinco minutos taxiando até o portão D-3, permitindo que Clark desembarcasse rapidamente. Passou pelo banheiro e caminhou até o saguão, esperando que alguém estivesse esperando por ele. Resultou ser Jack, que acenou.
— Sei quem é você — disse Clark. — Não precisa avisar às outras pessoas que me conhece.
— Nossa, eu só queria...
— Eu sei o que você queria. Mas nunca se quebram as regras de campo até chegar em casa e abrir a primeira cerveja, rapaz. Não se esqueça disso.
— Saquei. O que você conseguiu saber?
— Ele voou para Las Vegas, e provavelmente está lá agora. Mas, sobretudo, aprendi que não temos pessoal suficiente para fazer nada importante no Campus — concluiu mal-humorado.
— Sim, bem, mas não podemos fazer o que fazemos se tivermos supervisão governamental. Você sabe disso.
— Suponho que sim, mas existem vantagens em fazer parte de uma organização maior, sabia?
— Sim. Acho que somos um tipo de parasitas no corpo político.
— Imagino que sim. Alguma tentativa de rastrear o alvo para onde ele foi?
Jack fez que não com a cabeça enquanto saíam do saguão.
— Nada.
— Aposto que ele continuou prosseguindo, talvez mais umas duas escalas, porém não há como saber.
— Por quê?
— Complexidade. Sempre que for possível dificulte as coisas para o adversário. Na nossa vida, é um princípio básico.
Do lado de fora do Aeroporto Internacional McCarran, Hadi dizia exatamente a mesma coisa para Tariq, que respondeu:
— Já discutimos isso longamente. Não sabemos de nenhum perigo. Nossas comunicações são as mais seguras que o dinheiro pode comprar, e ninguém penetrou na organização, caso contrário não estaríamos aqui, não é?
— E o que aconteceu com Uda bin Sali e os outros? — perguntou Hadi.
— Morreu de ataque cardíaco. Revisamos o relatório oficial da necropsia.
— E os demais?
— Todos os dias pessoas morrem com problemas no coração, mesmo os eleitos de Alá — assinalou Tariq.
— Talvez os judeus o tenham matado, mas os médicos em Roma disseram que morreu de ataque cardíaco.
— Talvez haja um meio, uma droga, quem sabe, que possa fazer parecer assim.
— Talvez. — Tariq dobrou à esquerda para entrar na cidade. — Mas nesse caso não precisamos temer os israelenses aqui.
— Talvez — concedeu Hadi. Estava cansado demais pela longa viagem para discordar seriamente. Muito tempo no ar, muito vinho e pouco sono decente para que reunisse sua energia intelectual. — Seu carro está limpo?
— Lavamos o carro a cada três dias. E quando fazemos isso revistamos em busca de todo tipo de aparelho de escuta.
— Então, como ele está?
— Você mesmo verá dentro de alguns minutos. Perceberá que está saudável e muito bem, do ponto de vista físico. Mas também vai achar difícil reconhecê-lo. Os cirurgiões suíços fizeram milagre com sua aparência. Poderia, se quisesse, caminhar aqui pelas ruas sem temer ser reconhecido.
Hadi aproveitou a oportunidade para olhar para fora do carro.
— E por que aqui? — perguntou, cansado.
— Ninguém admite viver aqui, salvo os ladrões proprietários de hotéis e cassinos. A cidade é notavelmente corrupta, tal como Beirute já foi, como meu pai me dizia. Muito jogo, mas Sua Alteza não faz apostas com dinheiro.
— Sei disso, apenas com sua vida. Mais perigoso de certa forma, mas, afinal, todos os homens morrem, não é?
— Os infiéis locais agem como se não tivessem medo disso. É estranho ver a quantidade de igrejas cristãs que existem aqui. As pessoas gostam de casar nesta cidade, e não compreendo a razão disso, mas é assim. O Emir escolheu a cidade por causa do anonimato que aqui impera. Acho que foi sábio. Muitas pessoas vêm para cá jogar e pecar contra Alá. Existe bastante crime do tipo que mantém a polícia ocupada.
Tariq dobrou à direita para a aproximação final da casa de campo do Emir, e pensou no que dissera. Era muito mais confortável que as cavernas do Paquistão ocidental, o que era muito prazeroso para Tariq e para o restante da equipe, Alá seja louvado. Diminuiu a velocidade e acionou a seta para dobrar à esquerda. Ele e seus colegas obedeciam a todas as leis americanas que conheciam.
— É aqui?
— Sim — confirmou Tariq.
Tinha escolhido bem, mas Hadi não disse isso. O Emir poderia ter selecionado uma habitação com melhores defesas, mas isso poderia atrair a atenção de seus vizinhos, e seria contraproducente na era de helicópteros e aviões carregados de bombas. Na aproximação de Las Vegas, o piloto chamou atenção para uma grande base da Força Aérea dos Estados Unidos logo ao norte da cidade. Outra jogada esperta de seu amigo, se abrigar perto de uma grande instalação militar americana — aparentemente não era uma boa ideia, mas era essa a razão que a tornava brilhante. Sua decisão de morar no coração do Ocidente infiel, pensou Hadi com admiração. Por quanto tempo planejara isso? Como havia conseguido organizar tudo? Bem, por isso ele era o líder da organização: por sua capacidade de ver o que os outros não viam. Conquistara seu lugar no mundo, e naquele lugar tinha a possibilidade — o direito — de obter o que queria com os homens... e com as mulheres, segundo o indivíduo atrás do volante. Todos os homens têm suas necessidades, e suas fraquezas, pensou Hadi consigo mesmo. E essa não era particularmente debilitante. Por sua vez, Hadi havia aproveitado algumas das alegrias de Roma. E quase nunca sentia culpa por isso. Então seu amigo fazia o mesmo. Nenhuma surpresa.
O carro estacionou na garagem. Notou que uma vaga estava vazia. Então ele tinha outro serviçal? Saiu do carro, pegou a maleta no porta-malas e caminhou para a porta.
— Hadi? — soou a voz da porta da casa. A porta da garagem já estava descendo.
— Effendi — respondeu Hadi. Os homens se abraçaram e se beijaram como era costume em sua cultura.
— Como foi seu voo?
— Todos os quatro foram ótimos, mas cansativos. — Hadi passou algum tempo examinando seu rosto. A voz o tornava mais reconhecível. O rosto não. Saif Rahman Yasin estava transformado. O nariz, o cabelo, e até os olhos, de alguma maneira. Ou não estariam?, perguntou-se. Apenas a expressão neles. Evidentemente estava satisfeito em ver seu amigo de infância, e a jovialidade que apresentava era tão diferente de seu rosto formal visto na TV e nos jornais.
— Você está bem, meu amigo — disse Hadi.
— Levo aqui uma vida tranquila e confortável — explicou o Emir, com um raro sorriso. — Louvado seja Alá, não temos montanhas para subir. Há muita felicidade em viver debaixo dos narizes deles, como dizem.
— Quando soube disso, achei que você tinha enlouquecido, mas agora percebo sua sabedoria.
— Obrigado. — O Emir o levou para dento da casa. — Você escolheu viajar como judeu, não foi? Isso é bom. Por aqui existem muitos deles.
— E a cidade é tão corrupta quanto dizem?
— Ainda mais. A população é muito móvel. As pessoas aqui não reconhecem ninguém, salvo talvez seus amigos mais íntimos. É como o Líbano costumava ser.
— Ou Bahrein ainda é.
— Mas isso é perto demais de casa. — Ele não precisava explicar. Muitos sauditas iam para lá em carros com motoristas, para desfrutar dos prazeres da carne, e vários poderiam reconhecer sua voz, ou seu novo rosto. A família real saudita queria vê-lo morto tanto quanto os americanos. De fato, eles até instalariam palanques para o público na praça da Justiça em Riad para que os infiéis vissem seus últimos minutos com suas minicâmeras e outros artefatos de gravação. Havia muitos prêmios por sua cabeça... E o dos americanos não era sequer o mais alto.
— Entre. Vamos colocar você numa cama de verdade.
Hadi o seguiu pela cozinha para dentro da casa, e foram para a esquerda rumo à ala dos dormitórios.
— Você está seguro aqui? — perguntou Hadi.
— Sim, mas posso sumir em alguns minutos. Não é perfeito, mas é o melhor que se pode conseguir.
— E testa sempre sua rota de fuga?
— Semanalmente.
— Faço a mesma coisa na Itália.
— Descanse! — disse o Emir abrindo a porta do quarto. — Precisa de alguma coisa?
Hadi meneou a cabeça.
— Poderia comer, mas preciso dormir. Vejo você de manhã.
— Boa noite, meu amigo. — Um empurrão com o ombro, e o Emir fechou a porta. O sujeito tinha voado quase 10 mil quilômetros. Conquistara o direito de estar exausto.