Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 78 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 78

 

Quando Clark e Jack saíram do avião e receberam o carro alugado, já eram sete da manhã: hora do desjejum e de uma chamada para casa. Armados apenas com o nome dos irmãos — Citra e Purnoma Salim —, e com a data da chegada deles em Norfolk, Clark e Jack não tinham escolha senão depender do Campus para lhes dar um ponto de partida.

Pararam em um restaurante a 1,5 quilômetro ao sul do aeroporto na Military Highway, sentaram num reservado e pediram café, ovos e panquecas. Enquanto esperavam, Clark ligou para Rick Bell.

— Só temos o hotel que os Salim relacionaram no formulário de entrada — disse ele a Clark. — Se não se registraram lá, temos que apelar para a criatividade. A embaixada indonésia em Washington mantém uma lista de seus cidadãos viajando ou em férias nos EUA, mas, como eles vieram com um passaporte falso, é cara ou coroa se entraram no sistema.

— Vamos começar com o hotel — disse Clark. — Eles tiveram que dormir em algum lugar.

Bell lhes informou o nome do hotel e desligou.

— Econo Lodge em Little Creek — contou Clark a Jack. — Encha a barriga. Provavelmente vamos andar muito hoje.

 

Acharam o Econo Lodge a 3 quilômetros da Base de Veículos Anfíbios, e a uns 400 metros do canal de Little Creek.

— O SEAL está na base de anfíbios, certo? — perguntou Jack.

— Sim. Grupo Dois de Guerra Especial: Equipes Dois, Quatro e Oito, mais uma equipe de SDV, de veículos lançadores de nadadores.

— Sente falta?

— Às vezes, mas geralmente não. Sinto falta principalmente das pessoas, e do trabalho, mas também houve momentos bem feios.

— Se importa de elaborar mais?

Clark deu uma olhadinha de lado e sorriu.

— Não. É da natureza do que os SEAL fazem, Jack. Vão para lugares onde ninguém mais quer ir e fazem o que ninguém mais pode fazer. Atualmente chamam esses lugares de “áreas negadas”. Na nossa época, chamávamos de “território indígena”. O SEAL anda recebendo agora muito mais atenção do que na época em que eu fazia parte, e quanto mais, pior, no que me diz respeito. Quanto menos as pessoas falarem sobre isso, melhor para o trabalho.

— Então, o que mudou?

— Na verdade não sei. Mantenho contato com alguns caras que ainda estão lá, e eles também não sabem definir bem. Recebem um bocado de garotos que chegam pensando que vão correr na praia, fazer flexões e sair com o Budweiser. — Aqui Clark estava se referindo à insígnia tridente do SEAL. — Geralmente esses não duram nem uma semana.

— O joio do trigo — observou Jack.

— A uma média de 75 por cento. Bem, chegamos... — Clark saiu pelo Shore Drive e estacionou ao lado do saguão. — Pode ser que tenhamos que forçar um pouco para conseguir a informação que precisamos.

— Você guia, eu sigo.

Entraram e foram para o balcão de recepção. Uma garota loura, no começo dos seus 20 anos, com bronzeado artificial disse:

— Bom dia.

— Bom dia. — Clark tirou seu distintivo de delegado federal e o exibiu rapidamente. — U.S. marshal. Procurando por um casal de jovens que se hospedaram aqui há algumas semanas.

— Opa. O que eles fizeram?

— Depende da rapidez com que os encontrarmos. Depois da meia-noite vamos ter que emitir um mandado de testemunha material contra eles. Por enquanto só queremos detalhes sobre um caso antigo. Os nomes são Salim: Citra e Purnoma Salim.

— Isso soa árabe. — Ela torceu o lábio.

— O que você quer dizer?

Clark colocou um pouco de dureza na voz. A garota se encolheu e disse:

— Nada, desculpa. Hã... Então vocês só querem saber se eles estiveram aqui?

— Para início de conversa.

A garota se sentou no computador e começou a digitar no teclado.

— Tem uma data?

— Um dia a mais ou a menos — disse Clark a ela.

— Muito bem, sim, aqui estão eles. Ficaram por uma noite e saíram.

— Dinheiro ou crédito?

— Pagaram com dinheiro, mas anotamos um cartão de crédito para o caso de danos.

— Está aí no seu arquivo?

— Não sei se posso informar isso. Posso me meter em confusão, não é?

Clark deu de ombro.

— Sem problemas, compreendo. — Voltou-se para Jack. — Ligue para o vice-procurador geral.

Jack não perdeu a deixa. Tirou o celular, apertou a discagem rápida e foi para o outro lado da sala.

— O que é isso? — perguntou a garota.

— O vice-procurador geral. Vou precisar do seu nome para o mandado.

— Hã?

— Temos que emitir o mandado para um indivíduo específico. É assim que funciona. Vou precisar também do nome do seu chefe. Então, qual é o seu nome?

— Lisa.

Para Jack, Clark informou:

— Lisa... — Jack assentiu e disse o nome dela no telefone. Clark, de volta para a garota: — Me diga seu sobrenome e número do registro no Seguro Social.

— Hã, espera. Espera um segundo... Então vocês só precisam da informação do cartão de crédito?

— Sim, mas não se preocupe com isso. Vamos ter uma equipe aqui em vinte minutos. A que horas você sai?

— Às nove.

Clark deu um risinho.

— Desculpe, mas hoje não vai ser assim.

Lisa digitava novamente o teclado.

— Eles usaram um Visa, número...

 

— Bem bolado — disse Jack, quando voltaram para o carro.

— Ninguém quer ser aporrinhado. Eu chamo isso da teoria do pequeno-grande. Faça com que o favor que você pediu pareça bem pequeno e as consequências bem complicadas. Então, o que você achou? Seu tipo?

— Ela? Bonitinha, mas algo me diz que não é exatamente o tipo que consegue fazer palavras cruzadas.

Clark riu.

— Então você se guarda para uma garota com beleza e cérebro.

— Algo errado com isso?

— Nada. Pegue o cartão. Ponha Bell para trabalhar nele.

 

Levou vinte minutos.

— Não houve mais despesas com motel, mas no dia em que fizeram o check-out peguei meia dúzia: lojas de suvenires, McDonald’s, Starbucks... Só coisas ocasionais, e apenas nesse dia. Estou mandando os detalhes e um mapa do Google.

— Para que o mapa? — perguntou Jack.

— Todas as despesas estavam dentro de 1 quilômetro quadrado uma da outra.

Jack desligou e deu as notícias a Clark.

— Trocaram de cartão de crédito, trocaram de nomes — disse Clark. — Bom sinal.

— Como assim?

— Cidadãos corretos não fazem isso, Jack.

O sinal de e-mail no celular de Jack tocou, e ele verificou.

— Para onde vamos? — perguntou Clark.

— Virginia Beach.

 

— Muito bem, pessoal, temos que tomar uma decisão — disse Sam Granger. — Texto simples ou codificado?

Granger, Hendley e Bell estavam discutindo o assunto havia mais de uma hora. Com Hadi e sua equipe tendo submergido depois do ataque a Paulínia, e com o CRO trocando diariamente suas tabelas de uso único, será que Hadi tinha condições de decodificar mensagens? Mais ainda: será que tinham condições de “desesteganizar” as imagens dentro das quais as ordens eram embutidas? Granger e Bell achavam que não, mas Hendley estava preocupado.

No passado, o CRO manejara suas grandes operações pela regra do “dispositivo do homem morto”: uma vez dada a ordem de executar, não há como dar para trás ou desligar o fio. Essa mudança veio após o fracasso do CRO em colocar uma bomba no U-Bahn de Berlim quando, logo depois de o sinal de avançar ser dado, o líder da célula do CRO em Munique foi capturado pelo Bundesamt für Verfassungsschutz — o Escritório Federal para a Proteção da Constituição — e persuadido a recuar os atacantes. É claro que, no contexto maior, nada disso importava: com a regra valendo ou não, Hadi receberia ou não a mensagem. Se tivesse condições de decodificar, uma mensagem de texto simples o assustaria e as chances deles se esvaneceriam.

— Olhem, temos que arriscar — disse Bell. — Vamos usar nossa mensagem para assustá-lo, mas a nosso favor. Fazê-lo ficar tão preocupado que nem questione o texto aberto.

Hendley considerou o assunto, depois olhou Granger.

— Sam?

— Muito bem. Vamos fazer isso. Vamos movimentar Hadi apenas uma vez, dizendo que é para limpeza final, e movê-lo para a Rocinha, onde Chavez e Dominic podem pegá-lo.

Bell levantou e caminhou para a porta.

— Vou fazer o upload. — E saiu.

Um minuto mais tarde, toca o telefone de Hendley. Era Gavin Biery.

— Vocês já mandaram a mensagem?

— Rick saiu para fazer isso.

— Merda. Parem ele, mandem ele voltar. Estou subindo.