Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 18 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 18

 

A recepção que tiveram depois de pousar em Trípoli devia ter informado Clark e Chavez tudo que precisavam saber sobre o humor do coronel Muammar Kadafi e seus generais, assim como sobre o nível de apoio que podiam esperar. O tenente da Milícia Popular que os esperava no final da escada do avião era polido, mas tão verde quanto o sol líbio era quente, e o tique nervoso no seu olho esquerdo informou a Clark que ele sabia o suficiente sobre sua responsabilidade para ficar nervoso. Pode se preparar, rapaz. Evidentemente, Kadafi não estava nada feliz por ter soldados do Ocidente em seu solo, muito menos soldados de forças especiais. Clark não sabia nem se importava se esse desprazer era fruto do orgulho ou de algum motivo político mais profundo. Enquanto ficassem fora do caminho da Rainbow e não fizessem com que alguém dentro da embaixada fosse morto, Muammar podia ficar tão puto quanto quisesse.

O tenente fez continência a Clark, disse “Masudi”, que Clark supôs que fosse seu nome, depois ficou de lado e fez um gesto na direção de um caminhão do Exército com jeito dos anos 1950, com toldo de lona, estacionado a uns 30 metros dali. Clark fez um sinal para Stanley, que comandou os homens para que reunissem o equipamento e fossem até o caminhão.

O sol estava tão quente que fazia a pele de Clark arder, e mandar o ar superaquecido aos seus pulmões quase os queimava. Uma ligeira brisa tremulava as bandeiras no teto do hangar, mas estava longe de refrescar qualquer coisa.

— Bem, pelo menos mandaram alguém, hein? — murmurou Chavez a Clark enquanto caminhavam.

— Sempre vendo o lado bom das coisas, hein, Ding?

— Pois é, mano.

Menos de uma hora depois de serem retirados do avião em Heathrow e ouvir o relato de Alistair Stanley, Clark, Chavez e os demais atiradores da Rainbow 6 de prontidão estavam a bordo de um jato da British Airways em direção à Itália.

Como todas as equipes militares, a Rainbow tinha sua cota de mudança de pessoal, afinal os homens voltavam para seus países de origem, a maioria promovida por merecimento depois do trabalho no grupo. Dos oito que Stanley havia escolhido para a operação, quatro eram originais: primeiro-sargento Miguel Chin, Navy SEAL; Homer Johnston; Louis Loiselle e Dieter Weber. Dois americanos, um francês e um alemão. Johnston e Loiselle eram atiradores de elite, ambos terrivelmente precisos, suas balas raramente deixando de acertar bem no X do alvo.

De fato, todos eles eram bons atiradores. Ele não tinha a menor preocupação quanto a isso, porque não se chegava a fazer parte da Rainbow sem que, em primeiro lugar, tivesse muito tempo de serviço, e, em segundo lugar, fosse o melhor entre os melhores. E certamente ninguém permanecia na Rainbow sem estar à altura do exigido por Alistair Stanley, que era, apesar de educadíssimo, um durão de verdade. Melhor suar no treinamento que sangrar em uma operação, Clark lembrava a si mesmo. Era um antigo adágio do SEAL, e ao qual qualquer serviço de forças especiais que valesse o nome aderia como se fosse palavra divina.

Depois de uma breve escala em Roma, foram levados a um Piaggio P180 Avanti, um bimotor turboélice gentilmente fornecido pelo 28º Esquadrão “Tucano” da Aviação do Exército para o trecho final até Taranto, onde ficaram sentados bebendo Chinotto, o equivalente italiano do Sprite, enquanto recebiam uma lição da história de Taranto, a Marina Militare, e sua predecessora a Regia Marina. Depois de quatro horas disso, o telefone via satélite de Stanley recebeu uma ligação. Os políticos haviam se entendido. Como convenceram Kadafi a não enviar sua tropa de choque era algo que Clark não sabia, nem se importava. A Rainbow tinha sinal verde.

Uma hora depois, embarcaram no Avanti para o salto de 800 quilômetros pelo Mediterrâneo até Trípoli.

Clark seguiu Chavez até o caminhão e subiu a bordo. Sentado no banco de madeira diante dele havia um homem em roupas civis.

— Tad Richards — disse o homem, apertando a mão de Clark. — Embaixada dos EUA.

Clark nem se preocupou em perguntar qual era a posição do sujeito. A resposta provavelmente envolveria uma combinação das palavras adido, cultural, júnior e departamento de Estado, mas de fato ele era parte da estação da CIA na Líbia, que trabalhava fora da embaixada, no Corinthia Bab Africa Hotel. Tal como o tenente da Milícia Popular que os recebera, Richards parecia verde demais. Provavelmente era seu primeiro posto no exterior, considerou Clark. Na verdade, não importava. Pelo menos enquanto o sujeito tivesse a inteligência de que precisavam.

Com um ranger de engrenagens e a fumaça de diesel saindo pelo cano, o caminhão deu um salto para a frente e começou a se movimentar.

— Desculpem o atraso — disse Richards.

Clark deu de ombros, notando que o sujeito não perguntou pelo nome de ninguém. Talvez mais esperto do que eu pensava.

— Percebo que o coronel não está nem um pouco entusiasmado por nos hospedar.

— Percebe corretamente. Não tenho certeza dos comos nem dos porquês, mas os telefones tocaram que nem doidos nas últimas oito horas. O Exército postou segurança extra ao redor do hotel.

Fazia sentido. Fosse ou não uma ameaça verdadeira, a “proteção” reforçada da embaixada americana pelo governo líbio certamente era um sinal. O povo da Líbia estava tão infeliz com a presença de soldados ocidentais em seu solo que era possível haver ataques a alvos americanos. Era tudo bobagem, é claro, mas Muammar tinha que se equilibrar entre ser o mais recente aliado dos EUA no norte da África e governar um país cujas simpatias eram amplamente favoráveis à causa palestina, e consequentemente desfavoráveis a seus opressores, os Estados Unidos e Israel.

— As alegrias da política internacional — observou Clark.

— Amém.

— Você fala árabe?

— Sim, passável. E estou melhorando. Já trabalho no nível três do curso da Pedra da Rosetta.

— Ótimo. Vou precisar de você por perto, traduzindo para nós.

— Pode deixar.

— Tem informação da inteligência para nós?

Richards assentiu, enxugando a testa com um lenço.

— Montaram um posto de comando no último andar de um edifício de apartamentos a um quarteirão da embaixada. Eu mostro a você o que temos quando chegarmos lá.

— Está bem — respondeu Clark. — Algum contato de dentro do complexo?

— Nada.

— Quantos reféns?

— Segundo o Ministério do Exterior sueco, 16.

— O que fizeram até agora. Os locais, quero dizer?

— Pelo que eu saiba, nada além de estabelecer um perímetro e manter civis e repórteres longe dali.

— A notícia se espalhou? — perguntou Chavez.

Richards assentiu.

— Há duas horas, enquanto vocês voavam. Desculpem, me esqueci de contar.

Clark perguntou:

— Serviços públicos?

— Água e eletricidade ainda abastecem o complexo.

Cortar esse fornecimento era praticamente o primeiro item da lista do que fazer em uma situação com reféns. Isso era importante por duas razões: primeiro, por mais durões que fossem, a falta desses elementos começava a desgastar os bandidos; e em segundo lugar, a volta da água e da eletricidade podia ser usada durante as negociações: nos devolva cinco reféns e deixamos que o ar-condicionado volte a funcionar.

Mas esse era mais uma vez o caso em que o governo líbio, tendo recebido o recado de “se mandar dali”, lavava as mãos diante da situação. No entanto, isso poderia ser revertido a seu favor. A menos que os bandidos dentro da embaixada fossem uns completos idiotas, já teriam notado que água e luz continuavam e tentavam adivinhar o que acontecia lá fora, supondo que as forças de segurança ou estavam despreparadas ou esperando para cortar a energia como preparação para um ataque.

Talvez... se, pensou Clark. Não é fácil entrar na mente de qualquer pessoa, muito menos na de algum escroto que acha legal tomar como refém um bando de civis inocentes. Podia ser também que os bandidos não tivessem nenhum pensamento estratégico nem considerassem o significado do assunto do fornecimento de energia e água. Ainda assim, haviam sido bons o suficiente para despachar um grupo de Särskilda Skyddsgrupens, o que no mínimo sugeria que a Rainbow lidava com pessoas com algum treinamento. Não havia nada melhor que a Rainbow, disso Clark tinha certeza. Seja qual fosse a situação lá dentro, a coisa iria se resolver — muito provavelmente em detrimento dos bandidos.

O trajeto durou vinte minutos. Clark passou a maior parte do tempo imaginando cenários e observando as estradas empoeiradas cor de cobre de Trípoli passar pela abertura dos fundos do caminhão. Finalmente, o veículo resmungou e parou em um beco cujas entradas dos dois lados eram sombreadas por tamareiras. O tenente Masudi apareceu e abaixou a porta traseira. Richards desceu e conduziu Stanley e Clark pelo beco, enquanto Chavez e os demais recolhiam o equipamento para depois os seguir. Richards os guiou subindo dois andares de degraus de pedra montados num muro externo, então atravessando a porta de um apartamento semiacabado. Pilhas de placas de reboco estavam arrumadas contra a parede, juntamente com latas de gesso de acabamento. Apenas duas das quatro paredes estavam terminadas, pintadas num tom verde-musgo que parecia tirado de um episódio de Miami Vice. A sala cheirava a tinta fresca. Uma grande janela panorâmica enquadrada por tamareiras dava vista, a uma distância de uns 200 metros, para o que Clark supôs ser a embaixada sueca, um edifício no estilo de villa espanhola, de dois andares, cercado por um muro de estuque branco de aproximadamente 2,5 metros de altura, com espigões de ferro batido no topo. O andar térreo do edifício tinha muitas janelas, todas barradas e fechadas.

Mais de 500 metros quadrados, pensou Clark azedamente. Muito território. E talvez mais um porão.

Ele meio que esperava encontrar ali um ou dois coronéis ou generais da Milícia Popular esperando por eles, mas não havia nenhum. Evidentemente, Masudi seria o único contato deles com o governo líbio, o que para Clark estava de bom tamanho, desde que o sujeito tivesse as condições necessárias de providenciar o que pedissem.

A rua abaixo parecia uma parada militar. Nas duas vias adjacentes à embaixada que eram visíveis, Clark contou pelo menos seis veículos do Exército, dois jipes e quatro caminhões, cada um cercado por um grupo de soldados, fumando e passeando pelo lugar, rifles descuidadamente pendurados nos ombros. Se ele não soubesse de antemão, o posicionamento das armas dos soldados informariam Clark de tudo que precisava saber sobre a atitude de Kadafi diante da crise. Tendo sido colocado fora da jogada dentro do próprio país, o coronel retirou suas tropas de elite do perímetro e as substituiu pelo grupo de recrutas mais mal-ajambrados que conseguiu reunir.

Como um garotinho mimado que pega suas bolas de gude e vai para casa.

Enquanto Chavez e os demais começavam a desempacotar e separar o equipamento na inacabada sala de refeições, Clark e Stanley inspecionaram o complexo da embaixada com binóculos. Richards e o tenente Masudi ficaram de lado. Após dois minutos de silêncio, Stanley disse sem abaixar o binóculo:

— Bem difícil.

— Sim — respondeu Clark. — Viu algum movimento?

— Não. E aquelas são janelas de fazenda. Boas e sólidas.

— Câmeras de vigilância fixas em cada canto, logo abaixo do beiral, e duas na fachada frontal.

— Melhor supor o mesmo para os fundos — respondeu Stanley. — A questão é saber se o pessoal da segurança teve tempo de apertar o botão.

A maioria das embaixadas tinha uma lista de procedimentos de emergência que qualquer destacamento profissional de segurança saberia de cor. E, no topo da lista, sob a rubrica “Em caso de invasão armada e tomada da embaixada” ou algo semelhante, haveria instruções para desarmar definitivamente o sistema externo de vigilância do edifício. Bandidos cegos são mais facilmente dominados. Mas não havia como saber se os suecos tinham ou não feito isso, de modo que a Rainbow agiria supondo que as câmeras não apenas funcionavam como estavam sendo monitoradas. A boa notícia era que elas eram fixas, o que tornava mais fácil estabelecer os pontos cegos e as falhas na cobertura.

Clark disse:

— Richards, a que horas é o pôr do sol?

— Mais ou menos em três horas. A meteorologia diz que haverá céu claro.

Merda, pensou Clark. Operar em um clima de deserto podia ser um pé no saco. Trípoli tinha pouca poluição, mas nada como a das metrópoles ocidentais, de forma que a luz ambiente da lua e das estrelas dificultaria a movimentação. Muito iria depender de quantos bandidos havia lá dentro e de como se posicionavam. Se tivessem gente o suficiente, quase certamente teriam vigilância estabelecida, mas nada disso seria difícil para Johnston e Loiselle. Ainda assim, qualquer aproximação ao complexo devia ser cuidadosamente planejada.

— Johnston — chamou Clark.

— Sim, chefe.

— Dê uma volta. Ache seus poleiros e depois volte aqui para esboçarmos o esquema de cobertura e campos de fogo. Richards, diga ao nosso acompanhante para avisar: deixem nossos homens trabalhar e não fiquem no caminho deles.

— Está bem. — Richards pegou Masudi pelo ombro, levou-o um pouco para longe e depois começou a falar. Depois de meio minuto, Masudi assentiu e saiu.

— Temos as plantas? — perguntou Stanley a Richards.

O sujeito da embaixada checou as horas.

— Devem estar aqui dentro de uma hora.

— Vindas de Estocolmo?

Richards balançou a cabeça negativamente.

— Daqui. Ministério do Interior.

— Deus do céu.

Também não havia sentido transmiti-las aos poucos em arquivos JPEG. Nenhuma garantia de que fossem melhores que o que já tinham — a menos que os líbios se dispusessem a levar as fotos até um serviço de impressão profissional para emendá-las. Clark não pensava em segurar o fôlego esperando por isso.

— Ei, Ding?

— Aqui, chefe.

Clark lhe entregou os binóculos.

— Dê uma olhada. — Juntamente com Dieter Weber, Chavez seria o líder de um dos dois grupos de assalto.

Chavez escrutinou o edifício por um minuto, depois devolveu os binóculos.

— Porão?

— Ainda não sabemos.

— Os bandidos geralmente gostam de se preparar, portanto eu diria que estão concentrados no primeiro andar ou no porão, se houver um, ainda que isso seja duvidoso... a menos que sejam realmente idiotas.

Não há saída no subsolo, pensou Clark.

— Se conseguirmos determinar mais ou menos onde estão os reféns e se estão reunidos ou separados... Mas, se eu tivesse que tomar uma decisão de pronto, diria que o melhor seria entrarmos pelo segundo andar, pelas paredes do sul e do leste, limpar esse andar e depois descer. Na verdade, tática padrão de pequenas unidades. Tome o ponto mais elevado do mapa e os bandidos automaticamente ficam em desvantagem.

— Prossiga — disse Clark.

— As janelas do primeiro andar estão descartadas. Podemos cuidar das grades, mas não rapidamente, e isso faria muito barulho. Mas esses balcões... Os parapeitos parecem bastante sólidos. Deve ser fácil subir até lá. Muito vai depender da planta. Se for mais aberta, não tão compartimentada, eu diria para começarmos por cima. Caso contrário, podemos sacudir as gaiolas com granadas de luz e som, arrombamos as paredes em alguns lugares com Gatecrashers e depois voamos para dentro.

Clark olhou para Stanley, que assentiu, aprovando.

— O garoto está aprendendo — disse com um sorriso.

— Vai se foder — respondeu Chavez com seu próprio sorriso.

Clark checou mais uma vez seu relógio. Tempo.

O bandidos não tinham feito contato, e isso o preocupava. Havia apenas um par de razões para explicar o silêncio: ou esperavam para ter certeza de que tinham a atenção do mundo inteiro antes de anunciar suas exigências ou esperavam ter certeza da atenção do mundo inteiro antes de começar a jogar cadáveres pela porta da frente.