Morto ou Vivo
Capítulo 28
Como Vitaliy havia previsto, seus passageiros não bebiam vodca. Ele comprara quatro litros para o estoque de seu próprio armário, mas, apesar de todos eles fumarem, não bebiam. Isso apenas confirmava o que suspeitava. Não que isso importasse. O dinheiro deles seria gasto da mesma maneira que o de outros.
Ele aportou seu barco de desembarque na margem em uma leve inclinação coberta de pedregulhos, que era o que passava por praia por ali. Manteve a rampa de desembarque levantada, afinal um urso podia vagar e entrar a bordo. Eles estavam seguindo na direção dos melhores pontos de caça, apesar de a temporada já ter terminado. Seus passageiros tinham armas de fogo, mas não eram do tipo que ia atrás de caça. Ele pensou em caçar alguma coisa para seus próprios propósitos. Daria uma boa decoração na cabine de pilotagem, algo que faria os clientes se lembrarem dele. Mas não achou tempo para isso.
Os passageiros que fretaram o barco estavam acampados na área de carga. Vitaliy instalara colchões de plástico e cadeiras dobráveis. Eles ficavam sentados lá, fumando e conversando em voz baixa entre si, não o importunando para quase nada. Tinham até levado a própria comida. Não era uma ideia ruim. Vanya não era um cozinheiro gourmet por nenhum padrão, e se alimentava principalmente com rações do Exército russo, que comprava à vista de um sargento intendente em Arcangel.
A região era fantasmagoricamente silenciosa. Os aviões voavam alto demais, e até mesmo observar suas luzes anticolisão era difícil e muito raro, tão afastada da civilização era essa parte da Rússia, terra para aventureiros ou naturalistas ocasionais, assim como dos pescadores locais que tentavam arrancar sua reduzida sobrevivência do mar. Chamar essa parte da Rússia de “economicamente estagnada” era até um elogio. Salvo a moribunda Marinha russa, não havia nada ali para os homens fazerem, e metade disso era limpar os restos da confusão ou do desastre que tivesse matado muitos marinheiros, os pobres coitados.
Mas foi isso, lembrou-se ele, que o levara até ali, e por alguma razão gostava do lugar. O ar era sempre fresco, e os invernos muito mais que rígidos, algo que um verdadeiro russo tinha no sangue, o que o fazia diferente dessas raças europeias menores.
Verificou seu relógio. O sol levantaria bem cedo. Ele acordaria seus passageiros dentro de mais ou menos cinco horas, deixando que bebessem chá e comessem pão com manteiga como desjejum. Tinha bacon para completar, mas não ovos.
Pela manhã, ele sairia para o mar e observaria o trânsito dos navios mercantes. Havia uma quantidade surpreendente deles. Faziam mais sentido econômico que caminhões e trens para viajar até os novos campos petrolíferos e o complexo de mineração de ouro do lago Yessey. E estavam construindo um oleoduto para transportar petróleo para a Rússia europeia, financiado principalmente por empresas petroleiras americanas. Os locais chamavam isso de “invasão americana”.
Vamos encerrar o dia, pensou. Tomou um último gole de vodca e se ajeitou no colchão que colocara na cabine de pilotagem, antecipando cinco ou seis horas de sono.
Salvo o escrutínio extra na alfândega de Dallas, que disseram a Shasif ser provável por causa do seu nome e rosto, a conexão de voos ocorrera tranquilamente. Tal como fora instruído, ele comprara uma passagem de ida e volta e levava bagagem suficiente para uma semana nos Estados Unidos. Da mesma maneira, havia reservado um carro de aluguel, feito a reserva de hotel e estava bem abastecido com folhetos das atrações locais, assim como e-mails de amigos da área. Shasif supunha que fossem pessoas reais; de qualquer maneira, era altamente improvável que as autoridades verificassem isso.
Todos os pontos que podiam levantar bandeiras vermelhas estavam cobertos. Ainda assim, a inspeção fora estressante, mas, no final das contas, não causara problemas. Com um aceno o deixaram passar pelo controle e sair pelo portão.
Sete horas depois de sair de Toronto, ele aterrissou no Aeroporto Internacional de Los Angeles às dez e quarenta e cinco, pouco mais de duas horas de diferença em seu relógio, pois viajara no sentido contrário do fuso horário enquanto atravessava o país.
Depois de passar pela alfândega, dessa vez sob o olhar ainda menos amistoso dos agentes da Administração de Segurança de Transporte em Los Angeles, Shasif foi até o balcão da Alamo e pacientemente esperou 15 minutos. Dez minutos depois já estava em seu Dodge Intrepid rumo a leste do Century Boulevard. O carro estava equipado com um desses computadores de navegação, de modo que ele parou num posto de gasolina, digitou o endereço no computador, voltou para o fluxo de trânsito e começou a seguir as setas indicadas na tela.
Quando ele finalmente entrou na 405 seguindo pela direção norte já era quase hora do almoço, de modo que o trânsito estava mais intenso. Quando alcançou a rodovia 10, a Santa Monica Freeway, os carros se movimentavam na velocidade letárgica de 50 quilômetros por hora. Shasif não conseguia imaginar como as pessoas podiam viver num lugar assim. Certamente era bonito, mas todo esse barulho e confusão... Como alguém podia esperar ouvir a voz tranquila de Deus? Não era à toa que a América estava em tal estado de confusão moral.
A Santa Monica Freeway permitiu uma velocidade maior, e assim chegou ao acesso da Pacific Coast Highway em mais dez minutos. Quinze quilômetros depois ele chegou ao seu destino, Topanga Beach. Entrou no estacionamento, que estava com uns três quartos de lotação, e achou uma vaga perto do acesso à praia, onde estacionou.
Desceu do carro. Havia um vento forte vindo do oceano, e ele podia escutar o grasnado dos pássaros à distância. Para além das dunas, viu os surfistas, cinco ou seis deles, remando pela arrebentação. Shasif atravessou o estacionamento e caminhou até uma ladeira ladeada por arbustos perto da estrada de serviço. Uns 15 metros abaixo, pela extensão de terra, estava uma figura solitária, olhando para o oceano. O homem era de ascendência árabe. Shasif verificou o relógio. Bem na hora. E caminhou até o homem.
— Desculpe — disse Shasif. — Estou procurando o Reel Inn. Acho que passei sem ver.
O homem se virou. Seus olhos estavam cobertos pelos óculos de sol.
— Passou sim — respondeu. — Há uns 300 metros. Se estiver procurando um cozido de peixe, entretanto, eu experimentaria o Gladstone. É mais caro, mas a comida é melhor.
— Obrigado.
Isso feito, Shasif não sabia mais o que dizer. Simplesmente entregar o pacote e ir embora? O sujeito tomou a decisão por ele, estendendo a mão. Shasif tirou a caixa com o CD-ROM do bolso do paletó e a entregou ao homem, e quando fez isso notou as cicatrizes nas mãos do contato.
Fogo, pensou Shasif.
— Vai ficar um pouco por aqui? — perguntou o homem.
— Sim. Três dias.
— Que hotel?
— O Doubletree. Distrito comercial.
— Fique perto do telefone. Pode ser que tenhamos algo para você. Você fez um bom trabalho. Se estiver interessado, pode ser que peçamos para você realizar um papel maior.
— Claro. Qualquer coisa que esteja a meu alcance.
— Entraremos em contato.
Então o homem foi embora, descendo pela estrada.