Morto ou Vivo
Capítulo 70
O alvo deles não estava exatamente em São Paulo, mas 120 quilômetros ao norte da cidade, no centro da explosiva economia petrolífera do Brasil. A maior das refinarias brasileiras, a Replan, em Paulínia, processava 400 mil barris de petróleo por dia, algo como 75 milhões de litros. O suficiente, Shasif Hadi lera em algum lugar, para encher mais de trinta piscinas olímpicas. É claro que, como Ibrahim lhe dissera nas instruções iniciais, sabotar tal refinaria não seria uma tarefa fácil. Havia uma infinidade de redundâncias de segurança a ser considerada, sem contar com as medidas de segurança física. Entrar na área da refinaria não seria realmente uma barreira (o muro mais alto do perímetro tinha apenas 3 metros), mas, uma vez lá dentro, havia pouco que pudessem fazer. Explosivos podiam destruir tanques de armazenamento, mas esses estavam colocados bem separados para que houvesse um efeito dominó. Do mesmo modo, as centenas de válvulas de controle (conhecidas como ESD — dispositivos de fechamento de emergência), que regulavam o fluxo de produtos químicos para o labirinto de colunas de destilação, torres de fracionamento, unidades de craqueamento e tanques de mistura e armazenamento, eram virtualmente invulneráveis, e recentemente haviam sido atualizados com algo chamado sistema Neles ValvGuard, que por sua vez era regulado pelo centro de controle da refinaria, o qual, desde suas primeiras viagens de reconhecimento, sabiam estar no subsolo e ser pesadamente fortificado. Shasif não compreendia nada desses detalhes, mas a essência do que Ibrahim dissera era clara. As chances de provocar um vazamento catastrófico dentro da Replan de Paulínia eram astronomicamente pequenas. Mas essa palavra — dentro —, lembrou Shasif a si mesmo, era o pivô da questão, não? Havia outras maneiras de começar a derrubar os dominós.
Como planejado, cada qual estava em um hotel separado, assim como tinha seu próprio carro alugado. Saindo em momentos predeterminados pela manhã, cada homem pegou a rodovia SP-348, a Rodovia dos Bandeirantes, para sair de São Paulo em direção a Campinas, 30 quilômetros ao sul de Paulínia. Ao meio-dia se encontraram em um restaurante chamado Fazendão Grill. Shasif foi o último a chegar. Localizou Ibrahim, Fa’ad e Ahmed sentados a uma mesa no canto e foi até eles.
— Como foi a viagem? — perguntou Ibrahim.
— Sem problemas. E a sua?
— Também.
— É bom ver todos aqui — disse Shasif. Olhou ao redor da mesa e recebeu cumprimentos de volta.
Todos estavam há cinco dias no país, cada qual com suas próprias tarefas em São Paulo. Os explosivos — Semtex-H tcheco — haviam sido despachados para o país por correio comercial, 60 gramas de cada vez, para diminuir as chances de interceptação. Apesar de ser muito confiável, o Semtex carregava consigo uma falha perigosa: uma marcação química acrescentada durante a fabricação para fazer sua presença mais detectável a “farejadores”. Os marcadores não eram acrescentados antes de 1991, mas como esses lotes sem cheiro tinham validade máxima de dez anos quando armazenados, o ano 2000 foi, além de um marco social, também um divisor de águas para os terroristas, que ou fabricavam seus próprios explosivos sem marcadores ou desenvolviam técnicas especiais de manuseio para os novos lotes, borrifados com dinitrato de glicol ou com um composto conhecido como 2,3-dimetil-2,3-dinitrobutano, ou DMDNB, ambos conhecidos como “vaporizadores de baixa difusão”, que eram perfume para as narinas dos farejadores.
Para sorte de Shashif e dos demais, eles precisavam de apenas algo próximo de 500 gramas de explosivo para seus objetivos, de modo que as encomendas fracionadas levaram apenas algumas semanas. A partir desse quase meio quilo de Semtex eles fabricaram seis cargas: cinco com 60 gramas e a sexta com 190 gramas.
— Fiz uma última inspeção na refinaria ontem. Como esperávamos, o canal de desvio e o acostamento ainda não estão prontos. Se fizermos direito nosso trabalho não há como impedi-lo.
— Quantos galões, você acha? — perguntou Ahmed.
— É difícil dizer. A linha está completamente funcional, e a capacidade é de quase 3,2 bilhões de galões por ano, quase 9 milhões por dia. Daí em diante os cálculos se tornam complexos. Mas basta dizer que é o suficiente para nossos objetivos.
— Nenhuma mudança no plano de retirada? — perguntou Fa’ad.
Ibrahim olhou fixo para ele. Abaixou a voz:
— Nenhuma mudança. Mas não se esqueça: vivendo ou morrendo, precisamos ter sucesso. Os olhos de Alá estão sobre nós. Se Ele quiser, alguns de nós ou todos sobreviveremos. Ou não. Essas preocupações são secundárias, está entendido?
Um a um, cada homem assentiu.
Ibrahim verificou o relógio.
— São sete horas. Vejo vocês lá.
Depois que a empolgação inicial do primeiro fim de semana em que escapavam juntos e o rubor de fazer amor esvaneceu, ela começou a se distanciar dele, olhando pela janela, recusando a sugestão de saírem, permitindo apenas um beijinho em seus lábios... Depois de trinta minutos assim, Steve perguntou:
— O que há de errado?
— Nada — respondeu Allison.
— Tem alguma coisa. Posso ver no seu rosto. Você faz essa coisa com seus lábios. — E sentou a seu lado na cama. — Me diga?
— É estúpido. Não é nada.
— Allison, por favor. Fiz algo de errado?
Essa era a pergunta que ela esperava. Steve de Coração Mole. Steve Tímido, tão preocupado em perdê-la.
— Tem certeza de que não vai rir?
— Prometo.
— Ontem eu estava conversando com minha irmã Jan. Ela disse que viu esse documentário, alguma coisa no Discovery Channel ou no National Geographic, acho. Era todo sobre a geologia do...
— De onde eu trabalho? Allison, eu disse...
— Você prometeu que não ia rir.
— Não estou rindo. Está bem, vá em frente.
— Ela disse que muitos cientistas são contra essa coisa toda. Existem protestos o tempo todo. Coisas legais tentando fechar aquilo. Dizem que há falhas de terremotos ao redor de toda a área. E estavam falando da água subterrânea, se houver vazamento.
— Não vai haver nenhum vazamento.
— Mas e se houver? — insistiu Allison.
— O menor vazamento seria detectado. Eles têm sensores por todos os lugares. Além disso, o lençol freático está a 300 metros abaixo.
— Mas o solo... não é suave, ou coisa parecida? Permeável?
— Sim, mas existem sistemas redundantes, níveis e mais níveis, e a coisa vai estar selada em barris. Você devia ver aquelas coisas, são como...
— Fico preocupada com você. E se alguma coisa acontecer?
— Não vai acontecer nada.
— Você não pode conseguir outro emprego? Se você e eu... Quero dizer, se nós continuarmos... Eu ficaria o tempo todo preocupada.
— Escute, por enquanto não está nem operacional. Droga, só estamos nos preparando para fazer um ensaio de entrega.
— O que é isso?
— Apenas uma simulação. Um ensaio. Um caminhão vem, nós descarregamos o barril. Sabe, verificamos todos os procedimentos para ter certeza de que tudo está funcionando como deveria.
Allison suspirou, cruzou os braços.
— Ei, não vou mentir. Acho legal que você esteja preocupada comigo, mas realmente não há por que se preocupar — disse Steve.
— Verdade? Toma, olha aqui. — Allison foi até a mesa de cabeceira, agarrou a bolsa e voltou. Procurou lá dentro e depois tirou uma folha de papel dobrada. — Jan me mandou isso por e-mail. — E entregou a ele.
Apesar de ser apenas o desenho em corte, era suficientemente detalhado para mostrar o andar principal da instalação, dois andares inferiores e, bem abaixo, atrás de camadas de “rocha” marrom e cinza, uma fita horizontal azul intitulada “lençol freático”.
— Onde ela conseguiu isso? — perguntou Steve.
— Pelo Google.
— Ally, há muito mais coisas no lugar do que mostra essa... caricatura.
— Sei disso. Não sou estúpida. — Ela levantou, foi até a janela do balcão e ficou olhando para fora.
— Não quis dizer isso — declarou Steve. — Não acho você estúpida.
— Então Jan está errada? Está me dizendo que ninguém naquele lugar se preocupa com essas coisas?
— Claro que nos preocupamos. É um assunto sério. Sabemos disso tudo. O DOE já...
— O quem?
— Departamento de Energia. Já realizou anos de pesquisas sobre isso. Gastou milhões só em estudos de adequabilidade.
— Mas esse documentário... ficou falando dessas falhas no chão. Pontos fracos.
Steve hesitou.
— Ally, realmente não posso falar sobre...
— Muito bem, esqueça. Eu paro de me preocupar. Que tal?
Allison podia senti-lo ali de pé, olhando fixo para suas costas. Devia estar com aquela cara de cachorrinho que levou uma bronca e com as mãos enfiadas nos bolsos dos jeans. Depois de trinta segundos, ele falou:
— Muito bem, se isso é importante para você.
— Não é isso que é importante para mim. É você.
Com os braços ainda cruzados, Allison se virou para ele. Forçou algumas lágrimas a saltarem de seus olhos. Ele estendeu a mão.
— Venha aqui.
— Para quê?
— Só venha aqui.
Ela avançou e pegou na mão dele. Steve disse:
— Só não fale para ninguém que contei sobre essas coisas, está bem? Eles me colocariam na cadeia.
Ela sorriu e limpou uma lágrima do queixo.
— Prometo.
O cargueiro Panamax Losan estava há três dias do destino, depois de fazer a maior parte da travessia do Atlântico com mar calmo e céu claro. O capitão do Losan, um alemão de 47 anos chamado Hans Groder, há oito anos era o mestre do navio, e passara dez meses de cada um desses anos no mar. Uma agenda mais pesada que a do seu trabalho anterior — capitão de um navio de abastecimento Type 702, Classe Berlim, da Marinha alemã —, mas o pagamento era melhor, e o estresse, muito menor. Melhor ainda, o Losan era um barco de mar aberto, uma bela mudança para Groder, após 22 anos navegando pelas águas labirínticas ao redor das bases navais de Eckendorf e Kiel. Que prazer era simplesmente apontar a proa no Atlântico e navegar à toda força com centenas de milhares de metros de água embaixo do casco e nem uma mancha de terra no radar. Claro, nos seus dias de maior introspecção caía no espírito melancólico que todos os marinheiros e soldados sentem ao deixarem para trás a vida militar, mas, no balanço geral das coisas, ele gostava de sua vida e da autonomia que desfrutava. Respondia a apenas um homem, o proprietário, e não a uma cadeia de oficiais de peito estufado que não sabia a diferença entre um calço e uma escota.
Groder passeou pela ponte e deu uma olhada no radar. Não havia outra embarcação em um raio de 20 milhas. O radar de navegação deles não era o mais poderoso do mundo, mas o suficiente para seus propósitos. Para um capitão cuidadoso e com uma boa tripulação, 20 milhas dava tempo o bastante para ajustar o curso e deixar muito espaço para os companheiros viajantes. Groder foi até a janela e inspecionou o convés de avante, passando pelo exame instintivo dos tanques armazenados. Eles haviam sofrido um pouco de balanço, na maioria das vezes devido àquelas drogas dos tanques de propano. Com quatro embalados por contêiner, estavam bem seguros, mas sua forma não tinha a geometria amigável de caixas e paletas. Podia ser pior, Groder sabia. Pelo menos aquelas porcarias estavam vazias.