Morto ou Vivo
Capítulo 29
O telefone particular de Jack Ryan Senior tocou, e ele atendeu, esperando alguma distração da escrita.
— Jack Ryan.
— Senhor presidente?
— Bem, sim, já fui — disse Ryan, inclinando-se na cadeira. — Quem fala?
— Senhor, aqui é Marion Diggs. Eles me promoveram a FORCECOM. Estou no Fort McPherson, na Geórgia... na verdade, em Atlanta.
— Já é um quatro estrelas? — Ryan lembrou que Diggs havia ficado famoso há alguns anos na Arábia Saudita. Um bom comandante de campo como Buford-Six.
— Sim, senhor, correto.
— E como anda a vida em Atlanta?
— Nada mau. O comando tem suas vantagens. Senhor... — A voz dele parecia um pouco inquieta. — Senhor, preciso falar com o senhor.
— Sobre o quê?
— Prefiro dizer isso pessoalmente, senhor, não pelo telefone.
— Muito bem. Pode vir até aqui?
— Sim, senhor. Tenho um bimotor à minha disposição. Posso chegar no Aeroporto de Baltimore em, digamos, duas horas e meia, mais ou menos. Depois posso dirigir até sua casa.
— Muito bem. Me informe a hora aproximada de chegada e mando o Serviço Secreto pegar você. Está bem assim?
— Sim, senhor. Isso seria ótimo. Posso sair daqui em 15 minutos.
— Muito bem. Isso coloca você em Baltimore por volta de, vejamos, mais ou menos uma e meia da tarde?
— Sim, senhor.
— Faça isso, general. Irão encontrar você no aeroporto.
— Obrigado, senhor. O vejo dentro de algumas horas.
Ryan desligou e chamou Andrea Price-O’Day pelo intercomunicador.
— Sim, senhor presidente?
— Tenho uma companhia chegando, o general Marion Diggs. É o FORCECOM de Atlanta. Chegará no Aeroporto de Baltimore. Pode cuidar para que ele seja recebido e trazido até aqui?
— Certamente, senhor. A que horas ele chega?
— Por volta de uma e meia, no terminal de aviação geral.
— Vou mandar alguém para lá.
O U-21 bimotor do general pousou e taxiou normalmente, parando diante do Ford Crown Victoria. O general era facilmente reconhecível com sua camisa verde com quatro estrelas de prata nas dragonas. A própria Andrea fora recebê-lo, e os dois não conversaram muito na viagem até Peregrine Cliff.
Ryan havia preparado ele mesmo o almoço, incluindo 700 gramas de corned beef do Attman’s de Lombard Street, em Baltimore. A viagem e a chegada do general tinham sido bem rápidas. Menos de quarenta minutos depois do pouso, Diggs estava à porta. O próprio Ryan foi abrir.
Ryan encontrara Diggs apenas uma ou duas vezes antes. Era um homem de altura média, negro como um pedaço de carvão, e tudo nele dizia “soldado”, inclusive, Jack percebeu, certa inquietação.
— Olá, general, bem-vindo — disse Ryan, apertando a mão dele. — O que posso fazer pelo senhor?
— Senhor... estou... bem, um tanto inquieto sobre isso, mas tenho um problema e acho que o senhor deveria saber disso.
— Muito bem, entre e prepare seu sanduíche. Bebe Coca-Cola?
— Sim, obrigado, senhor.
Ryan o conduziu até a cozinha. Depois de os dois terem montado seus sanduíches, Ryan sentou. Andrea passeava pelos arredores. General ou não, ele não era exatamente um frequentador regular da casa, e o trabalho de Andrea era manter Ryan vivo em todas as eventualidades.
— Então, qual é o problema? — perguntou o ex-presidente.
— Senhor, o presidente Kealty quer processar e julgar um sargento do Exército dos EUA sob a alegação de assassinato no Afeganistão.
— Assassinato?
— É assim que o Departamento de Justiça está qualificando o caso. Mandaram um procurador-geral assistente até o meu comando ontem, que me interrogou pessoalmente. Como comandante em chefe do Comando das Forças, eu sou legalmente responsável por todas as forças operacionais do Exército dos Estados Unidos; de outras forças também, mas esse caso é realmente um assunto do Exército. O soldado em questão é um primeiro-sargento de companhia (E-8) chamado Sam Driscoll. É um soldado de operações especiais, parte do 75º Regimento Ranger em Fort Benning. Puxei seu arquivo pessoal. É um soldado muito sério, a ficha de combate excelente, um soldado para cartaz de recrutamento e um excelente Ranger.
— Muito bem. — Ryan considerou a observação final. Ele estivera em Fort Benning e fizera o tour VIP da base. Os Rangers, nos trinques para aquele dia, o impressionaram muito como rapazes extraordinariamente bem-preparados, para os quais matar era uma exigência especial da sua linha de trabalho. Era o pessoal das operações especiais, o equivalente americano do regimento SAS britânico. — Qual o problema?
— Senhor, há algum tempo tivemos um sinal da inteligência de que o Emir poderia estar numa determinada caverna, e assim montamos uma operação especial para ir até lá agarrá-lo. Por fim ele não estava lá. O problema, senhor, é que Driscoll matou nove dos bandidos, e algumas pessoas ficaram preocupadas pelo modo como ele fez isso.
Ryan tinha dado duas mordidas em seu sanduíche.
— E?
— E chegou a chamar a atenção do presidente, que instruiu o Departamento de Justiça a processá-lo, isto é, investigar o incidente como uma possível investigação de assassinato, pois ele poderia ou não ter violado uma ordem executiva sobre conduta no campo de batalha. Driscoll liquidou nove pessoas, algumas delas dormindo.
— Assassinato? Acordados ou dormindo eram combatentes inimigos, certo?
— Sim, senhor. Driscoll enfrentou uma situação tática adversa, e, usando seu julgamento como suboficial superior no local, teve que eliminá-los antes de continuar a missão. E fez isso. Mas os caras na Justiça, todos nomeações políticas, se é que isso importa, parecem pensar que ele deveria tê-los aprisionado em vez de matá-los.
— E onde é que Kealty entra nisso? — perguntou Jack, bebericando sua Coca-Cola.
— Ele leu o relatório e ficou preocupado. Então chamou a atenção do procurador-geral, que mandou uma pessoa dele até mim para começar a investigação. — Diggs deixou seu sanduíche de lado. — Senhor, isso é difícil para mim. Jurei defender a Constituição, e o presidente é meu comandante em chefe, mas, Deus do céu, se trata de um dos meus soldados, um bom soldado, fazendo um trabalho difícil. Tenho o dever de ser leal ao presidente, mas...
— Mas também tem a responsabilidade de ser leal para com seus sargentos — Ryan terminou a frase.
— Sim, senhor. Driscoll pode não representar muito no grande esquema das coisas, mas é um ótimo soldado.
Ryan pensou no caso. Para Kealty, Driscoll era apenas um soldado, uma forma inferior de vida. Se fosse um motorista sindicalizado a coisa podia ser diferente, mas o Exército dos Estados Unidos ainda não tinha sindicatos. Para Diggs, era uma questão de justiça, e uma questão de moral, que seria abalada em todas as Forças Armadas se esse soldado fosse preso, ou fosse a uma corte marcial por causa do incidente.
— O que diz a lei sobre isso? — perguntou Jack.
— Senhor, a coisa é um tanto turva. O presidente emitiu ordens, mas essas não eram absolutamente claras, e, de qualquer maneira, tais ordens geralmente não se aplicam a operações especiais. A missão dele era localizar e capturar o Emir caso o localizasse, ou matá-lo se precisasse. Soldados não são policiais. Não são treinados para isso, e são medíocres quando tentam. Do meu ponto de vista, Driscoll não fez nada de errado. Pelas regras da guerra, você não tem que avisar a um inimigo antes de matá-lo. É problema dele cuidar de sua segurança, e, se ele ferra com as coisas, bem, azar o dele. Atirar num sujeito pelas costas é perfeitamente aceitável no campo de batalha. É assim que os soldados são treinados. Nesse caso, quatro bandidos dormiam nos beliches, e o sargento Driscoll providenciou para que não acordassem. Fim da história.
— E essa coisa vai adiante?
— O procurador-geral assistente parecia bastante animadinho com o caso. Tentei explicar a ele como são as coisas da vida, mas ele simplesmente tentou me explicar como eram essas coisas da vida do modo como pensava. Senhor, sou soldado há 34 anos. Nunca ouvi falar de uma coisa dessas. — Fez uma pausa. — O presidente nos mandou para lá. Tal como para o Iraque, mas está comandando essa coisa como... como já aconteceu no Vietnã, suponho. Perdemos um bocado de pessoas por lá, boas pessoas, por conta desse microgerenciamento deles, mas esse caso... Jesus, senhor, simplesmente não sei o que fazer.
— E não há muito que eu possa fazer, general. Não sou mais o presidente.
— Sim, senhor, mas eu tinha que procurar alguém. Geralmente eu me reporto diretamente ao secretário de Defesa, mas nesse caso seria uma perda de tempo.
— E você falou com o presidente Kealty?
— Perda de tempo, senhor. Ele não está muito interessado em falar com pessoas uniformizadas.
— E eu estou?
— Sim, senhor. O senhor sempre foi alguém com quem podíamos falar.
— E o que quer que eu faça?
— Senhor, o sargento Driscoll merece um tratamento justo. Nós o mandamos para as montanhas com uma missão. A missão não foi um sucesso, mas não foi culpa dele. Já furamos um monte de poços secos por lá. Esse foi mais um, mas droga, senhor, se mandarmos mais tropas para essas colinas, e se massacrarmos esse sujeito por ter feito seu trabalho, todos os poços que furarmos estarão secos.
— Muito bem, general, já apresentou seu ponto de vista. Temos que apoiar nosso pessoal. O sujeito poderia ter feito alguma coisa diferente?
— Não, senhor. É um soldado caxias. Tudo que fez é consistente com seu treinamento e com sua experiência. O Regimento Ranger... bem, eles são pagos para matar, talvez, mas às vezes é útil ter esse tipo de serviço à mão. O que se quer na guerra é matar. Não mandamos recados. Não tentamos educar nossos inimigos. Quando vamos a campo, nosso trabalho é matar. Algumas pessoas não gostam disso, mas é para isso que somos pagos.
— Muito bem, vou olhar o material e talvez levantar alguma poeira. O que me trouxe?
— Trouxe uma cópia do relatório do sargento Driscoll para que leia, juntamente com o nome do advogado que tentou enfiar isso pelo meu rabo. Droga, senhor, se trata de um bom soldado.
— Está certo, general. Algo mais?
— Não, senhor. Obrigado pelo almoço.
Ryan percebeu que ele mal dera uma mordida no sanduíche. Diggs voltou para o carro.