Morto ou Vivo
Capítulo 47
Duas horas depois do pôr do sol, Clark enfiou o Honda de Embling na entrada do celeiro abandonado. Deixou em ponto morto, desligou o motor, e permitiu que o impulso fizesse o carro descer pela pendente até a sombra ao lado da parede da construção. Quando o carro parou, Clark engrenou na primeira, Chavez desligou a luz interna e os dois desceram.
Nigel não havia exagerado o tamanho de seu esconderijo de armas, que guardava num velho baú de navio no seu vestiário. Eles escolheram um par de pistolas SIG Sauer P226 9 milímetros, com silenciador. Armamento de mão padrão para o SAS britânico. Os dois tinham passado muitas horas no estande de tiros com a P226. Por insistência de Embling, cada um pegou também um cassetete de couro e chumbo.
— Nunca se sabe quando é preciso ter um momento de misericórdia — disse ele, com um sorriso.
Chavez sussurrou:
— Qual é o plano?
— Provavelmente um guarda do lado de fora, parado ou patrulhando, e outro lá dentro. Abatemos o primeiro e depois lidamos com o outro quando o momento chegar. Ding, primeiro experimente o cassetete. Quanto menos cadáveres deixarmos, melhor.
— Por mim, tudo bem.
Os dois se separaram, Clark indo para oeste através das árvores atrás do celeiro e Chavez seguindo a vala de drenagem que margeava a estrada principal.
— Posicionado. — Clark escutou pelo fone de ouvido.
Essa foi rápida, pensou ele. Ah, ser jovem mais uma vez.
— Aguarde aí.
Ele se demorou na movimentação entre os arbustos, verificando cuidadosamente galhos baixos ou no chão que pudessem denunciar sua posição no escuro. Depois de uns 400 metros, as árvores começaram a diminuir, e logo ele se viu na ponta norte do retorno, a 25 metros do outro lado da entrada.
— Posicionado — sussurrou. — Onde está você?
— No fim da vala de drenagem, perto do acostamento da entrada.
— Vejo uma sentinela. Sentada numa cadeira de jardim diante do para-choque da van.
— Pode repetir?
— Sentado numa cadeira de jardim, fumando, olhando na minha direção. — Quem os contratara não estava recebendo pelo que pagou. — Tem uma Type 56 encostada no para-choque à direita dele. — O Type 56 era uma cópia chinesa do AK-47. Não tinha a mesma qualidade, mas certamente era de se preocupar.
Chavez disse:
— Vejo uma luz acesa, andar de baixo, do meu lado.
— Aqui tudo escuro. Sem movimentos. Avance quando estiver pronto.
— Entendido.
Mesmo sabendo que Ding estava se movimentando, Clark não o localizou até estar a 3 metros do para-choque traseiro da van. Os ninjas são os donos da noite era o lema da antiga unidade de Chavez. E ele ainda fazia justiça a isso, sabia Clark.
Chavez alcançou o para-choque, deu uma olhada pelo lado e caiu de cócoras para esperar.
— Ainda nada — sussurrou Clark depois de um minuto.
Recebeu um clique duplo de entendido como resposta.
Chavez recuou, movimentando-se pelo outro lado da van, fora de vista. Dez segundos depois, uma sombra apareceu ao lado do guarda sentado. Um dos braços se levantou para trás e desceu. O guarda caiu para a frente, deslizando de lado pela grade do radiador da van. Chavez o puxou de volta e apagou o cigarro caído no chão.
— Apagado.
— Entendido. Movendo.
Os dois se encontraram nas sombras da parede sul da casa. A varanda e a porta da frente estavam à sua esquerda. Com Clark adiante, os dois deslizaram até avistar a entrada. A porta interna estava aberta, mas a entrada com tela estava fechada. Subiram na varanda e se posicionaram a cada lado da porta. Podiam agora ouvir o ruído longínquo de uma televisão dentro da casa. Clark, ao lado da maçaneta, estendeu a mão e a experimentou. Trancada. Pegou seu canivete no bolso de trás da calça e, gentil e cuidadosamente, enfiou a ponta no arame até fazer uma abertura de uns 15 centímetros. Fechou o canivete e o colocou de volta no bolso, depois passou a mão e foi tateando até achar o que procurava. Um suave clique. Retirou a mão e ficou imóvel por um minuto.
Clark acenou para Chavez, que retribuiu, e depois veio andando de cócoras, passando pela porta e se posicionando atrás dele, que estendeu o braço e girou a maçaneta. Abriu a porta cerca de 2 centímetros, parou, depois abriu mais uns 5. Independentemente da idade ou das condições, portas de tela sempre tendem a estalar. Talvez seja a exposição aos elementos.
Aquela porta não desapontou. No meio do caminho as dobradiças rangeram. Clark se imobilizou. Chavez avançou para poder observar por baixo do braço estendido de Clark para dentro da casa. Recuou e assinalou limpo. Centímetro a centímetro, vagarosamente, Clark abriu a porta até o fim. Entrou com a arma à frente. Chavez segurou a porta e o seguiu, fechando-a cuidadosamente atrás de si sem provocar mais que outro barulho metálico.
Estavam na cozinha. Balcões de madeira, armários e uma pia à esquerda, mesa de jantar redonda no centro. Uma passagem arqueada à direita levava a outra sala. Chavez verificou e apontou o polegar para cima. Entraram no que evidentemente era uma sala de estar. À direita, escadas levavam ao segundo andar. Adiante, um saguão pequeno. Era dali que vinha o ruído de televisão. Cada um em uma parede, os dois se movimentaram pelo corredor, avançando e pausando, avançando e pausando, até chegarem a 3 metros da porta aberta. Clark percebeu lá dentro a luz azul-acinzentada da televisão refletindo nas paredes.
Clark percorreu o restante da distância e tomou posição ao lado da maçaneta. Acenou para Ding, que veio pela parede da direita até ter um ângulo por onde podia ver além da porta. Recuou dois pés e gesticulou: Dois homens sentados. O que estava mais perto da porta estava armado. Clark sinalizou de volta: Eu pego esse; você varre a sala.
Chavez assentiu.
Clark passou a arma para a mão esquerda e tirou o cassetete do cinto. Com um leve sinal com a cabeça, inclinou-se pela esquina, localizou seu alvo e golpeou com o cassetete na testa do homem. Enquanto o sujeito deslizava para o chão, Chavez já estava dentro da sala, arma em punho. Parou. Sua testa franziu. Balançou o dedo para Clark, que avançou pela porta.
O homem estava dormindo.
Chavez o despertou com uma pancadinha do cano da pistola no seu nariz. Os olhos piscaram e abriram, e Chavez disse:
— Inglês?
O homem se espremeu ao máximo contra o fundo da cadeira.
— Inglês? — repetiu Chavez.
— Sim, falo inglês.
Clark disse:
— Se assegure de que este aqui e o Sr. Cadeira de Jardim estão mesmo incapacitados para ação. Eu cuido dele. — Chavez empurrou o guarda para o chão, depois agarrou seus punhos e o arrastou pelo corredor até a sala de estar, e saiu.
— Como você se chama? — perguntou Clark ao anfitrião deles.
Nenhuma resposta.
— Se você não quer me dizer nem seu nome, vamos passar uma noite longa e feia aqui. Vamos começar com seu primeiro nome. Não há problema nisso.
— Abbas.
Clark puxou a cadeira vazia onde o guarda estivera, girou e sentou de modo que estivessem de joelho contra joelho.
A porta de tela abriu e fechou. Chavez voltou com o primeiro guarda no ombro do jeito que bombeiros carregam. Sem cerimônias, jogou-o ao lado do seu colega.
— Achei um rolo de fita crepe na van — disse a Clark, e começou a trabalhar nos dois. Quando terminou, juntou-se a Clark.
— Vamos nos assegurar de que começamos com o pé direito — disse Clark a Abbas. — Você sabe o que isso quer dizer?
— Sim.
— Não acredito que seu nome seja Abbas. Vou pedir a meu amigo que reviste a casa procurando por qualquer coisa que tenha um nome escrito. Se não for Abbas, vamos começar a machucar você.
— Meu nome é Obaid. Obaid Masood.
— Ótimo. — Clark acenou para Ding, que começou a vasculhar por ali. — Quer mudar sua resposta enquanto ainda há tempo?
— Meu nome é Obaid Masood. Quem são vocês?
— Depende de como responda minhas perguntas. Coopere e somos amigos. Não coopere... Conte para mim sobre esses guardas. Você acha que precisa deles?
Masood deu de ombros.
— Escute, se você estivesse preocupado com a polícia ou com o Exército, provavelmente eles já teriam passado por aqui, o que me sugere que você andou com más companhias. Talvez alguém para quem você trabalhou?
Chavez reapareceu. Assentiu: Está dizendo a verdade.
— Alguém para quem você trabalhou? — repetiu Clark.
— Talvez.
— O Conselho Revolucionário Omíada?
— Não.
— Você assiste a beisebol?
A testa de Masood franziu.
— Já assisti, sim.
— Vamos dizer que esse seu “não” foi a segunda falta — disse Clark. — Mais uma e vou atirar no seu pé. Você já se perguntou como o achamos?
— As marcas de mensagens?
— Certo. E de quem você supõe que conseguimos isso?
— Percebo.
— Acho que não. Nós descobrimos você. Eles podem te achar.
— Você é americano.
— É verdade. O que você vai ter que decidir é se nos odeia mais do que tem medo deles. Porque, se não começarmos a ouvir algumas respostas, vamos levar você até Hayatabad e jogá-lo para fora do carro.
Isso despertou a atenção de Masood.
— Não faça isso.
— Me convença.
— Eu trabalhei para o ISI. Eu... transportava pessoas. As realocava.
— Como um agente de viagem clandestino? — observou Chavez.
— Sim, acho que sim. Há oito meses me procuraram.
— Quem?
— Não o conhecia, e nunca mais o vi novamente.
— Mas era do CRO, correto?
— Descobri isso mais tarde. Ele me ofereceu um monte de dinheiro para mover alguém.
— Quanto?
— Duzentos mil dólares americanos.
— E você conheceu essa pessoa?
— Não.
— O que exatamente você fez por eles?
— Passaportes, documentação, aviões particulares. Assegurar que as pessoas certas na alfândega e na imigração fossem pagas. Levei cinco meses para preparar tudo. Eram muito meticulosos nas suas exigências e me faziam conferir duas ou três vezes cada um dos arranjos.
— E quando você entregou tudo?
— Há dois meses.
— Você entregou tudo para eles? — perguntou Chavez.
— O que você quer dizer?
— Guardou cópias?
— Cópias em papel?
— Qualquer tipo de cópias, Obaid. — Clark endureceu um pouco mais a voz.
— Tenho um disco rígido.
— Aqui?
Masood assentiu.
— Preso com fita adesiva embaixo da pia da cozinha, dentro de um saco plástico.
Chavez saiu e voltou um minuto depois, com um saco Ziploc. Dentro havia um disco rígido do tamanho de um maço de baralhos.
— Oito giga — disse Chavez.
— Em inglês, Ding.
— Muito espaço de armazenamento. — Mostrou o saco para Masood. — Tudo o que você fez para eles está aqui?
— Sim. Escâneres digitais, e-mails... Tudo. Vocês podem me tirar daqui? Para fora do país?
— Pode levar algum tempo — disse Clark —, mas faremos isso. Até lá, não vamos perder você de vista. Levante.
Masood assim o fez. Clark lhe deu uma palmadinha nas costas.
— Bem-vindo ao lado dos mocinhos. — Empurrou Masood para a porta.
Ding pegou no cotovelo de Clark e falou:
— Um instante?
— Vá na frente, Obaid. Espere por nós aí.
Chavez disse:
— Você pensa em escondê-lo com Nigel?
— Sim.
— Existe uma grande chance de que alguém o descubra. E, se acharem, a coisa acaba para Nigel e para o garoto.
— Alguma ideia melhor?
Chavez fez uma pausa.
— Estamos com o disco. Talvez possamos cortar as pontas soltas e... — Chavez inclinou a cabeça para o lado, olhando por cima do ombro de Clark. — Merda.
Passos soaram na outra sala.
— Ele me ouviu! Droga!
Chavez disparou pela porta, atravessou a sala de estar e entrou na cozinha bem na hora em que a porta de tela fechou.
— Ah, maldição! — Estava na metade do caminho para a tela quando um crack o deteve. De cócoras, recuou até a sala de estar. Clark já estava lá, espichando a cabeça para olhar pelo parapeito. Viu dois fachos de luz vindos de um carro estacionado na entrada. Deitado no foco de um dos fachos estava Masood. Uma pessoa carregando uma pistola foi até ele, ajoelhou-se e disparou duas vezes na sua cabeça, depois se levantou e caminhou de volta para os faróis. Uma porta bateu, seguida pelo barulho de pneus no cascalho.
Silêncio.
— O que diabos acabou de acontecer? — sussurrou Chavez.
— Eram os visitantes que o preocupavam.
— E nós?
— Devem ter suposto que Masood fugia deles. Vamos dar o fora daqui antes que pensem duas vezes.