Morto ou Vivo
Capítulo 61
Jack Ryan Senior deu o laço na gravata e olhou no espelho. Decidiu que estava suficientemente bom. Usava seu terno da sorte, uma camisa branca de mangas compridas e gravata vermelha. Tinha aparado os cabelos no dia anterior, e eles mostravam fios grisalhos o suficiente para assegurar que ele já não era um garoto, mas parecia suficientemente juvenil para um homem no começo dos 50 anos. Um sorriso de teste mostrou que havia escovado adequadamente os dentes. Hora do jogo.
Começaria em uma hora, diante de vinte ou mais câmaras e as centenas de repórteres e comentadores por trás delas, poucos dos quais tinham realmente afeição por ele. Mas não era necessário que tivessem. O trabalho deles era relatar os fatos tal como os viam, clara e honestamente. A maioria, ou pelo menos alguns, fariam isso, se Deus quisesse. Mas Ryan devia falar corretamente, não vomitar nem cair diante das câmaras, por mais que isso fosse interessante para Jay Leno no final do dia.
Bateram na porta e Ryan foi abrir. Não era necessário que fosse muito cuidadoso. A equipe do Serviço Secreto que cuidava dele tinha guardado o andar inteiro como se fosse um silo nuclear da Força Aérea.
— Olá, Arnie e Callie — disse, cumprimentando os dois.
Arnie van Damm deu uma olhada geral.
— Bem, senhor presidente, é bom constatar que ainda sabe como se vestir bem.
— Tem outra gravata? — perguntou Callie Weston.
— O que há de errado com esta vermelha? — perguntou Ryan.
— Agressiva demais.
— O que você preferiria?
— Azul-celeste seria melhor.
— Callie, adoro seu trabalho, mas, por favor, deixe que eu mesmo me visto, está bem?
Callie Weston resmungou, mas deixou passar.
— Tudo pronto? — perguntou Arnie.
— Tarde demais para fugir — respondeu Ryan. E era mesmo. Dali para a frente seria um candidato para valer, pronto para disparar. Sangue nos olhos e espinha de aço.
Van Damm disse:
— Não posso mesmo convencê-lo a...
— Não. — Ele, Arnie e Callie haviam discutido sobre Georgetown: se incluiriam ou não a tentativa de assassinato no discurso de anúncio. Previsivelmente, os dois argumentaram pela inclusão, mas Ryan não quis saber disso. O incidente seria levantado durante a campanha, mas não por ele. No entanto também não o evitaria.
— Como está a audiência?
— Todos pregados — respondeu Arnie. — Por outro lado, temos um dia fraco de notícias, portanto ficarão felizes em vê-lo. Vai proporcionar a eles pelo menos uns cinco minutos de tempo no ar. Você vai vender muita pasta de dente para os caras, Jack. Droga, alguns na verdade gostam de você.
— É mesmo? Desde quando? — perguntou Ryan.
— Eles não são o inimigo. São a imprensa. São observadores neutros. Temos que nos colar a eles, com off-the-record. Tomar uma cerveja com eles. Deixar que gostem de você. Você é um sujeito simpático. Deixe isso funcionar a seu favor.
— Vou pensar no assunto. Café?
— O daqui é bom?
— Não tenho queixas — disse-lhes Jack. Foi até a bandeja do serviço de quarto e se sentou para servir outra xícara. Sua terceira. E essa marcava seu limite, caso contrário a cafeína o deixaria inquieto. Na Casa Branca, o café presidencial era Jamaican Blue Mountain, da antiga colônia britânica, amplamente considerado o melhor do mundo. Aquilo era uma xícara de café. Talvez fosse a bauxita nos grãos, pensou Jack.
Mais uma vez a mente de Ryan voltou à questão central: se ganhasse, como colocar o país de volta em seu rumo? Governar um país tão complexo quanto os Estados Unidos era uma impossibilidade efetiva. Interesses demais, cada um deles um caso de vida ou morte para alguém, e esse alguém ia para a TV ou para os jornais desejando assegurar que suas visões tivessem a atenção adequada, de preferência barulhenta. O presidente podia ou não prestar atenção. Ele, ou ela, tinha uma equipe para assegurar que apenas os assuntos importantes chegassem à sua escrivaninha. Mas isso fazia do presidente refém da equipe, e até mesmo um bom sujeito podia ser direcionado de modo equivocado pelas pessoas que escolhera para o trabalho — e, na prática, a escolha da equipe era delegada aos funcionários mais graduados, todos os quais tinham um sentimento de autoimportância bem acentuado, como se uma mesa na Ala Oeste da Casa Branca ou no Antigo Edifício de Escritórios do Executivo fosse um dom pessoal outorgado pela própria mão de Deus. Tais pessoas podiam e efetivamente moldavam as ideias do presidente simplesmente selecionando o que ele veria. E você está lutando para ter mais quatro anos disso? perguntou-se Ryan. Seu idiota babaca.
— Conheço essa expressão — disse Arnie. — Sei o que você está pensando. O que posso dizer, Jack, salvo que acho que você realmente é o melhor homem para o cargo, e que é necessário? Acredito nisso até os ossos. E você?
— Estou chegando lá — disse Ryan.
— Você viu esse negócio sobre o Irã? — perguntou Arnie.
— Que parte? O programa nuclear ou o exercício na fronteira?
— Ambas.
— Mesma coisa, só muda a fachada — disse Jack. — Teerã simplesmente sabe que basta sacudir um pouco os sabres para Kealty reagir, ou reagir excessivamente. Vai ver ele mandou Netters deslocar para lá um grupo de combate inteiro?
— Sim. Stennis. Cancelou o descanso em casa.
— Idiota. Estão fazendo o presidente dos Estados Unidos de marionete. — Verificou o relógio. — Quanto tempo me resta?
— Dez minutos — respondeu Callie. — Posso pedir que você coloque um pouco de maquiagem de TV?
— Nem no inferno! — trovejou Ryan em resposta. — Não sou nenhuma puta de 10 dólares da rua 16.
— Agora já estão mais caras, Jack. Inflação, lembra?
Ryan se levantou e foi até o banheiro. Perder o controle da bexiga era outra coisa a ser evitada, e algo que ele não podia fazer diante das câmeras. À medida que envelhecia, Ryan percebia que gostava cada vez menos de esperar na fila para dar uma mijadinha. Parte do processo de envelhecimento, percebeu. Bem, ele fez o serviço, puxou o zíper e voltou para vestir o paletó.
— Vamos lá, pessoal?
— Para a toca dos leões, senhor presidente. — Arnie o chamava de Jack apenas em particular. Callie Weston tinha o mesmo privilégio, o que a deixava desconfortável. Ao saírem do quarto viram que Andrea Price-O’Day já estava ali, juntamente com outros membros da segurança de Jack, as armas em segurança nos coldres.
— SWORDSMAN em movimento — comunicou Andrea ao restante da equipe pelo microfone da lapela.
Jack se dirigiu para o elevador, que estava, como sempre, seguro para ele, com outro agente armado dentro.
— Ok, Eddie — disse Andrea, e Eddie soltou a chave que segurava, e o elevador desceu até o segundo andar, onde ficava a sala de reuniões reservada para o anúncio daquele dia.
Quarenta segundos depois, as portas deslizaram se abrindo, e a equipe do Serviço Secreto saiu à frente do desfile. Havia um funil de espectadores, alguns deles cidadãos comuns, algo bastante notável, mas a maioria era formada por repórteres de várias tendências e suas câmeras de TV. Jack sorriu para eles — candidatos têm que sorrir o tempo todo —, acenando para alguns que conhecia de nome de quatro anos antes. O sorriso ameaçava fazer seu rosto rachar, pensou Jack.
— Senhor presidente, por favor, me acompanhe — disse o gerente do hotel, pastoreando o grupo para o fundo da sala. Havia um atril. Jack foi imediatamente até lá. Agarrou firmemente o painel de madeira, o suficiente para que sua mão doesse um pouco. Era seu comportamento normal, e o ajudava a sincronizá-lo com a tarefa que tinha adiante.
— Senhoras e senhores — começou Jack. — Obrigado pela sua presença. Estou aqui para anunciar minha candidatura para disputar a presidência dos Estados Unidos no próximo ano. Desde que deixei a presidência, há três anos, observei desapontado o atual presidente exercer seu mandato. O presidente Kealty não respondeu bem aos desafios colocados diante do nosso país. No Afeganistão e no Iraque, soldados morreram sem necessidade, vítimas de uma política desgovernada de retirada. Mesmo quando uma guerra é malconcebida, quando se tem uma guerra, há que se lidar com ela, e fazer isso corretamente. Fugir de um conflito não é uma política. O presidente Kealty, quando senador dos Estados Unidos, não era amigo de nossas Forças Armadas, e aumentou seus erros anteriores usando essas forças de modo não eficiente, tentando fazer o microgerenciamento das atividades de campo a partir do Salão Oval, de maneira que levou nossos soldados à morte, em vez de escutar nossos comandantes no terreno.
“Além disso, o presidente Kealty também errou na condução da economia nacional. Quando deixei o cargo, a América tinha uma economia crescente e saudável. Em seus dois primeiros anos, a política fiscal equivocada do presidente Kealty encerrou abruptamente nosso crescimento. Neste último ano, a economia chegou ao fundo do poço e agora começa a crescer novamente, mas isso a despeito da política governamental, e não devido a ela. Sob minha administração, simplificamos a política fiscal. Isso desempregou uma boa quantidade de advogados e contadores; aliás, ainda é bom lembrar que sou contador registrado, e os novos códigos fiscais chegaram ao ponto em que eu não consigo mais compreendê-los. Talvez o presidente Kealty esteja feliz porque, em suas palavras, todo mundo paga sua parte dos impostos, mas a receita do governo federal diminuiu, e o déficit disso resultante está minando diariamente os Estados Unidos.
“Só posso considerar os primeiros três anos de Kealty na Casa Branca um erro para o nosso país, e, por essa razão, aqui estou para tentar voltar e corrigi-lo.
“Na questão da segurança nacional, nosso país precisa de um novo e eficiente olhar sobre onde nos colocamos no mundo. Quem são nossos inimigos, e como precisamos lidar com eles. Para início de conversa, precisamos de melhores serviços de inteligência. Consertar esse ponto será tarefa para anos, mas precisamos começar logo. Não é possível lidar com os inimigos a menos que se saiba quem são, e onde estão. Luta-se contra o inimigo apoiando e usando de modo eficiente nossos recursos militares. Evidentemente o presidente Kealty não fez isso bem. A segurança nacional é a primeira tarefa do governo federal. A vida, como disse Thomas Jefferson, vem antes da liberdade e da busca pela felicidade. Proteger a vida da nação é o dever do Exército, da Marinha, da Força Aérea e dos Fuzileiros Navais. Com esse objetivo, eles precisam ser adequadamente apoiados, treinados à perfeição, para que depois possam fazer seu trabalho de acordo com os desejos e a experiência dos oficiais profissionais, sob a direção estratégica do presidente em exercício. O presidente Kealty não parece reconhecer esse simples fato.
“Senhoras e senhores, aqui estou porque alguém precisa substituir o presidente, e essa pessoa, acredito, é John Patrick Ryan. Peço seu apoio e o apoio dos cidadãos. Os Estados Unidos merecem mais do que ele fez, e ofereço a mim e à minha visão para consertar os problemas que foram criados nos últimos três anos. Minha missão é trazer os Estados Unidos de volta às velhas verdades que nos mantiveram saudáveis por duzentos anos. Nosso povo merece mais. E estou aqui para dar ao povo as coisas das quais necessita. E quais são elas? — perguntou retoricamente.
“Liberdade do medo. As pessoas precisam saber que estão seguras em seus lares e locais de trabalho. Precisam saber que seu governo está alerta, buscando aqueles que desejam fazer mal ao nosso país, e pronto para fazer justiça àqueles que atacam americanos na América ou em qualquer outro lugar do mundo.
“Liberdade para viver suas vidas sem interferência das pessoas que moram em Washington e que procuram impor sua vontade aos demais, vivam estes em Richmond, na Virgínia, ou em Cody, no Wyoming. A liberdade é um direito de nascença de todos os americanos, e esse direito de nascença é algo que protegerei com o melhor das minhas capacidades.
“Senhoras e senhores, a tarefa do governo não é a de ser a babá nacional. O cidadão médio pode cuidar de si e de suas necessidades sem a ajuda de alguém que trabalhe aqui em Washington. A América foi fundada porque seus cidadãos, há mais de duzentos anos, não queriam viver sob o governo distante de pessoas que não sabiam, e especialmente não se importavam, com seu bem-estar. A América é uma questão de liberdade. Liberdade para tomar suas próprias decisões, liberdade para viver em paz com seus vizinhos. Liberdade para levarmos nossos filhos para o Disney World na Flórida, ou para um riacho de pescar trutas no Colorado. Liberdade significa decidir o que você quer fazer com a sua vida. Liberdade é o estado natural da natureza. Assim Deus queria que vivêssemos. A tarefa do presidente dos Estados Unidos é preservar, proteger e defender nosso país. Quando o presidente cumpre essa tarefa, os cidadãos podem viver como querem. Esse é o objetivo do presidente: proteger as pessoas e deixá-las em paz.
“É isso o que me proponho a fazer. Reconstruirei as Forças Armadas, permitindo que treinem seus membros uniformizados, dando-lhes o apoio adequado e deixando que lidem com nossos inimigos. Reconstruirei nossa comunidade de inteligência para que possamos identificar e conter aqueles que queiram ferir nosso país e nossos cidadãos, antes que possam agir destrutivamente contra nós. Irei restabelecer um sistema racional de impostos que tire das pessoas apenas o dinheiro que o país precisa para cumprir suas funções, e que não sugue a vida de nossos cidadãos ao mesmo tempo que lhes diz como devem viver.
“Outra coisa recentemente atraiu minha atenção. O presidente Kealty atirou toda a força do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre um conceituado soldado do Exército dos Estados Unidos. Esse soldado estava no Afeganistão buscando o Emir, Saif Rahman Yasin. A missão de prendê-lo fracassou, provavelmente devido a falhas de informação, mas, no desempenho dessa missão, esse soldado matou vários combatentes inimigos. E agora o Departamento de Justiça o está investigando por assassinato. Pesquisei esse incidente em particular. O soldado fez exatamente o que soldados fazem desde o começo dos tempos: matou inimigos de nosso país. Evidentemente, o presidente Kealty e eu temos ideias diferentes sobre o que devem fazer as Forças Armadas de nosso país. Esse processo é uma enorme injustiça. O governo supostamente deve servir a seus cidadãos, e um soldado do Exército dos Estados Unidos é, de fato, um cidadão uniformizado. Apelo ao presidente Kealty para que imediatamente cesse esse ultraje.
“Então, obrigado por sua presença. Minha campanha começa aqui e agora. Será longa e provavelmente dura, certamente mais dura que minha primeira. Mas estou na corrida, e veremos o que o povo dos Estados Unidos decidirá em novembro. Mais uma vez, obrigado pela presença.”
Ryan desceu do atril e respirou fundo. Precisava de um gole de água. Isso ele conseguiu de um copo no atril. Olhou na direção de Arnie e Callie, e viu seus polegares apontados para o alto. Bem, estava feito. A corrida começara. E que Deus o ajudasse.
— Filho da puta! — rosnou Edward Kealty diante da TV. — A porra do mocinho cavalgando para salvar a nação sitiada! E o pior de tudo é que há milhões de cordeiros aí fora acreditando nessa merda.
McMullen e sua equipe sabiam do anúncio de Ryan e tentaram preparar Kealty para ele; evidentemente, tinham fracassado. A reação de Kealty se devia principalmente à raiva, isso McMullen sabia, mas também havia um medo real. Uma boa parte do público ainda estava incomodada com Kealty, em grande medida por conta de como a eleição se desenvolvera. A frase “Confisco da vitória” havia sido muito usada nos programas políticos depois da eleição de Kealty, e mesmo que os números das pesquisas não conseguissem capturar totalmente o sentimento do país, McMullen suspeitava que a maioria das pessoas achava que tinha faltado um ingrediente essencial na eleição: uma disputa longa e dura entre dois candidatos que desnudavam suas almas diante dos eleitores. Kealty tinha feito isso, ou quase conseguira, mas seu adversário não tivera a oportunidade.
— Como ele foi descobrir essa coisa sobre o Ranger? — demandou Kealty. — Quero saber.
— É impossível saber, senhor.
— Não me venha com essa merda, Wes! Descubra!
— Sim, senhor. Vamos ter que desistir do processo.
— Do soldadinho? Sim, percebi, droga. Enterre isso no ciclo do noticiário da sexta-feira. Se livre disso. E como estamos na pesquisa sobre a oposição?
— Ainda trabalhando. Nada que possamos morder com força; o problema é Langley. Muitas coisas que Ryan fez lá ainda estão compartimentalizadas.
— Chame Kilborn...
— Haverá vazamentos. E, se a imprensa descobrir que estamos fuxicando o passado de Ryan na CIA, a coisa explode de volta sobre nós. Temos que achar outra maneira.
— Faça o que for necessário. Esse babaca quer voltar, muito bem, mas vamos fazê-lo sofrer.
— Puta merda — disse Sam Driscoll da cama de hospital. — Aí está uma cara vinda do passado. Que diabos você faz por aqui?
John Clark sorriu.
— Ouvi um boato de que você fodeu com seu ombro jogando peteca.
— Bem que gostaria. Sente-se, cara.
— Trago presentes — disse Clark, que colocou a pasta na cama e abriu. Lá dentro havia duas garrafas de cerveja Sam Adams. Entregou uma a Driscoll e abriu a outra.
Driscoll tomou um gole e suspirou.
— Como você sabia? Quero dizer, sobre a cerveja.
— Me lembrei de você falar sobre isso depois da Somália.
— Que memória você tem. Tem também um pouco de cabelo grisalho, percebo.
— Olha só quem fala.
Driscoll tomou outro gole longo.
— Então, qual é o motivo verdadeiro?
— Queria principalmente verificar como você está, mas escutei falar dessa merda que o CID quer empurrar em cima de você. Como anda isso?
— Não tenho ideia. Já me entrevistaram três vezes. O palpite do meu advogado é que algum idiota sentado atrás de uma mesa está tentando imaginar como pode me acusar. É uma babaquice completa, John.
— Sacou certo. Ferrado se fizer o trabalho, ferrado se fracassar. O que os médicos dizem sobre seu ombro?
— Preciso fazer mais uma cirurgia. A pedra não alcançou veias importantes, mas fodeu com tendões e ligamentos. Calculam mais uns três meses de recuperação, depois mais três de reabilitação. Eles estão muito confiantes, mas não acho que vou conseguir pular de galho em galho novamente.
— E uma mochila grandalhona?
— Provavelmente isso também não. O médico que me cortou acha que não vou ser capaz de levantar meu ombro acima da orelha.
— Sinto muito, Sam.
— É, eu também. Vou sentir falta. Vou sentir falta da rapaziada.
— Você já tem tempo acumulado para passar para a reserva remunerada, não é?
— Até mais que o necessário, mas com essa merda do CID... Quem sabe?
Clark assentiu pensativo.
— Bem, você saiu estourando. Pegou informações importantes naquela caverna. Droga, você podia ter deslizado montanha abaixo com aquele caixão de areia.
Driscoll riu, e depois falou:
— Espere aí. Como você soube disso? Ah, sim, esquece. Você ainda está dentro, não é?
— Depende do que você quer dizer por “dentro”.
Uma enfermeira entrou no quarto carregando uma prancheta. Driscoll deslizou sua cerveja para baixo do lençol; Clark abaixou a sua para tirá-la de vista.
— Boa tarde, sargento Driscoll. Meu nome é Veronica. Ficarei com vocês até meia-noite. Como estamos?
— Estou bem, senhora, e você?
Veronica cuidadosamente verificou os itens de sua prancheta e fez algumas anotações.
— Posso trazer alguma coisa? Como está seu nível de dor, em uma escala de um a...
— Por volta de seis e se mantendo — disparou Driscoll de volta com um sorriso. — Talvez um pouco de sorvete com o jantar?
— Vou ver o que posso fazer.
Veronica soltou um sorriso, voltou-se e caminhou para a porta. Por cima do ombro, disse:
— Apenas se certifiquem de fazer essas garrafas desaparecerem quando terminarem, cavalheiros.
Depois que Clark e Driscoll pararam de rir, Driscoll falou:
— O que quero dizer com “dentro” é “no governo”.
— Então não. Vim oferecer um trabalho, Sam. — Clark sabia que estava passando um pouco dos limites, mas duvidava que tivesse problemas para vender as qualificações de Driscoll.
— Fazendo o quê?
— O tipo de coisas que você anda fazendo, mas sem mochila e com salário melhor.
— Você está querendo me enfiar em algo ilegal, John?
— Nada com que você fique desconfortável. Nada que você não tenha feito antes. E mais: a coisa vem com um cartão para sair da cadeia grátis. Mas você teria que se mudar. Os invernos são mais frios que na Geórgia.
— Washington?
— Ali por perto.
Driscoll assentiu, vagarosamente, matutando sobre a oferta de Clark. De repente disse:
— O que é isso? — Agarrou o controle remoto da mesa de cabeceira e ligou o som da televisão na parede.
— ... Kealty atirou toda a força do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre um conceituado soldado do Exército dos Estados Unidos — dizia o ex-presidente Jack Ryan. — Esse soldado estava no Afeganistão buscando o Emir, Saif Rahman Yasin. A missão para prendê-lo fracassou, provavelmente devido a falhas de informação, mas, no desempenho dessa missão, esse soldado matou vários combatentes inimigos. E agora o Departamento de Justiça o está investigando por assassinato. Pesquisei esse incidente em particular. O soldado fez exatamente o que soldados fazem desde o começo dos tempos: matou inimigos de nosso país...
Driscoll desligou o som da TV.
— Que merda é essa... Como diabos? — Clark sorria. — O quê? — disse Driscoll. — Você fez isso?
— Merda, não. Isso tudo é coisa do general Marion Diggs com Jack Ryan.
— Sua sincronia foi uma porra de perfeição, John.
— Pura coincidência. Eu suspeitava que ele faria alguma coisa assim, mas além disso... — Clark deu de ombros. — Diria que isso liquida esse seu problema com o CID, não acha?
— Por que você acha?
— Ryan está concorrendo à presidência, Sam, e ele simplesmente esculhambou com Kealty em rede nacional. Então, ele pode deixar que essa merda de processar você ainda circule por mais algumas semanas no noticiário, ou jogar isso fora e esperar que as pessoas esqueçam. No momento, o monte de merda com que Kealty tem que se preocupar cresceu mais um pouco, e você virou café pequeno.
— Caramba. Obrigado, John.
— Não fiz nada.
— Minhas chances de falar com Jack Ryan ou com o general Diggs por telefone são bem baixas, de modo que você tem que agradecer por mim.
— Vou passar isso adiante. Pense na minha oferta. Vamos mantê-la aberta até você ficar de pé, depois o levaremos para uma reunião de reconhecimento. O que me diz?
— Parece bom.
Quarenta e três horas depois que Adnan abriu a válvula da traineira Halmadic de Salychev e afundou juntamente com seus três camaradas sob a superfície do Mar de Barents, a 2.100 metros de profundidade, o segundo pacote chegou ao armazém de Dubai.
Desde a chegada de Musa, o engenheiro trabalhara duro, montando a tenda de contenção forrada de chumbo no chão do armazém e verificando sua lista de inventário de componentes. Como a própria tenda, que havia sido fabricada na Malásia, baseada em especificações roubadas do currículo on-line do curso de Segurança Operacional de Radiação do Fort Leonard Wood (OPRAD), as partes componentes tinham sido fresadas e torneadas a laser em moldes de marroquim fabricados na Ucrânia.
A beleza da simplicidade, pensou Musa.
Cada um dos componentes do aparelho nasceu seja da tecnologia benigna de uso duplo ou a partir de plantas há muito abandonadas, consideradas obsoletas segundo os padrões modernos.
Os componentes que ele e sua equipe recuperaram existiam unicamente devido ao que grupos ambientalistas consideravam a atitude frouxa da Rússia em relação ao material nuclear, mas Musa sabia que isso era apenas parte da equação, as outras sendo o namoro do governo russo com programas nucleares inovadores e sua tendência à circunspecção para contar ao mundo sobre esses programas.
Distribuídos pelo curso das rotas de navegação do norte da Rússia havia uns 380 faróis RTG — geradores termoelétricos de radioisótopos —, a vasta maioria dos quais alimentados por núcleos de estrôncio-90, um radioisótopo de baixo nível, produtor de calor cuja meia-vida chegava aos 29 anos e com capacidade de produzir uma energia de até 80 watts. Distribuídos entre os quatro modelos de RTG — Beta-M, Efir-MA, Gorn e Gong —, havia um punhado deles planejados para usar um núcleo completamente diferente: plutônio-238, um material que, ao contrário do estrôncio, que no pior dos casos poderia ser usado na construção de uma bomba suja, era de qualidade fissionável. Entretanto, a quantidade de material de núcleo recuperável não seria suficiente para seus propósitos. Uma segunda fonte era exigida. Essa tinha sido a tarefa de Adnan, pela qual ele e seus homens deram as próprias vidas. O prêmio que recuperaram do quebra-gelo abandonado naquela ilha perdida foi a peça final do quebra-cabeça: um reator à água pressurizada OK-900A contendo 150 quilos de urânio-235 enriquecido.
Ambos grátis para quem fosse buscá-los, pensou Musa. Segurança apenas nominal e registros virtualmente inexistentes. Será que os idiotas chegariam a notar a perda, e, se o fizessem, quanto tempo levariam para isso?, pensou. De qualquer modo, seria tarde demais.
Por mais complexos que fossem os processos e as teorias por trás do funcionamento do aparato, sua elaboração não era mais complicada que a construção de um motor de automóvel de quatro cilindros a partir do zero, como haviam lhe dito o engenheiro. Os ajustes, é claro, tinham que ser de padrão exato, até a escala do micrômetro, o que o tornava meticuloso, mas a escolha de Musa do armazém em Dubai lhes assegurou privacidade e anonimato. O cronograma do Emir lhes garantia tempo bastante para uma montagem adequada.
O engenheiro emergiu da porta fechada com zíper da área de trabalho da tenda, desvestiu o equipamento protetor na sala de trocas, e depois entrou no armazém.
— Os dois conjuntos foram adequadamente embalados — anunciou, aceitando uma garrafa de água de Musa. — À parte a radiação residual no exterior dos contêineres, não há vazamentos. Depois do almoço vou extrair os conteúdos. Minha maior preocupação é o segundo pacote.
— Por quê?
— As conexões onde os acionadores das varas de controle entram no recipiente podem ser problemáticas. Provavelmente foram seladas durante a operação original de salvamento, mas por qual método e quão bem é a questão. Até examiná-los não há como dizer se mantiveram sua integridade.
Musa pensou no assunto, depois assentiu.
— E o rendimento?
— Também só depois de desmontar tudo.
— Mas você compreende qual a quantidade mínima que necessitamos, não é?
— Sim, e suspeito que não teremos problemas para alcançar isso, no entanto não posso prometer nada. Isso é importante: você tem certeza de que nenhum dos dois veio de plataformas militares, correto?
— Por que isso é importante?
— É muito importante. É tudo, meu amigo. O que estamos fazendo, essencialmente, é engenharia reversa do dispositivo. Para complicar as coisas, lidamos com fontes diferentes, usadas para objetivos bem diferentes. O modo como procedemos as desmontagens é quase tão importante quanto o que usaremos na montagem. Compreende?
— Compreendo. Foram obtidos tal como lhe disse. Os esquemas que você possui são para esses dois dispositivos.
— Bom, isso é ótimo. Então não prevejo problemas insuperáveis.
— E quanto tempo vai demorar?
— O desmonte, mais um dia. A montagem... dois ou três dias. Digamos, quatro dias até ficar pronto para o envio.