Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 23 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 23

 

Começou no Departamento de Justiça. Encaminhado pelo Pentágono, era o relatório escrito pelo primeiro-sargento Driscoll sobre o assalto à caverna no Hindu Kush. O relatório — de apenas três páginas, escrito com simplicidade — detalhava o que Driscoll e seus homens fizeram. O que chamou a atenção do advogado que revisou o relatório foi o número de mortos. Driscoll relatava ter matado nove ou mais combatentes afegãos, quatro deles com pistola com silenciador à queima-roupa. Tiros diretos na cabeça, foi o que o advogado leu, o que fez seu sangue esfriar um pouco. Era a coisa mais próxima de uma confissão de assassinato a sangue-frio que já lera. Ele havia lido uma boa quantidade de confissões desse tipo, mas jamais escritas de forma tão direta. Esse tal de Driscoll tinha violado algumas leis de guerra ou coisa assim, pensou o advogado. Não era uma ação no campo de batalha, nem mesmo o relato de um atirador de elite eliminando pessoas a 100 metros de distância quando essas colocavam a cabeça para fora como patinhos no estande de parque de diversão. Ele liquidara os “bandidos” (assim os chamava) enquanto dormiam. Dormiam. Totalmente inofensivos, pensou o advogado, e ele os matara sem nem um momento de hesitação e relatava a coisa de modo direto, como se estivesse contando que tinha aparado o gramado de sua casa.

Era chocante. Ele os havia pegado “de calças arriadas”, como se diz vulgarmente. Não tinham como resistir. Nem mesmo sabiam que suas vidas corriam perigo, mas o tal de Driscoll pegara sua pistola e os despachara como se esmagasse insetos. Porém não se tratava de insetos. Eram seres humanos, que, sob o direito internacional, deviam ser capturados e feito prisioneiros de guerra protegidos pela Convenção de Genebra. Mas o primeiro-sargento os matara, sem qualquer piedade. Pior ainda, o casca-grossa aparentemente nem pensara que os homens que matara podiam ser fonte de informações. Decidiu, aparentemente de modo arbitrário, que esses nove homens não valiam nada, nem como seres humanos nem como fontes.

O advogado era jovem, ainda não havia chegado aos 30 anos. Tinha se formado em Yale em primeiro lugar de sua turma antes de aceitar uma oferta para trabalhar em Washington. Quase fora assistente de um juiz da Suprema Corte, mas perdeu o lugar para um caipira da Universidade de Michigan. De qualquer maneira, não teria gostado daquilo. A nova Suprema Corte, que não mudaria nos próximos cinco anos ou mais, estava cheia de “construcionistas estritos”, conservadores que adoravam a letra da lei como se fosse o Zeus da Antiguidade. Como os batistas sulistas que pregavam nos púlpitos do interior nas manhãs de domingo, e que ele via apenas de passagem enquanto zapeava através dos canais de programas matinais de entrevistas.

Droga.

Releu o relatório e mais uma vez ficou chocado pelos fatos crus descritos numa linguagem de aluno do ensino fundamental. Um soldado do Exército dos Estados Unidos tinha assassinado sem piedade e sem respeito ao direito internacional. E depois escreveu um relatório sobre o acontecido, delineando o processo em termos fortes.

O relatório chegou à sua mesa proveniente de um amigo e colega de classe que trabalhava no escritório do secretário de Defesa, com uma anotação dizendo que ninguém no Pentágono tinha dado muita atenção, mas que ele, o outro advogado, o havia considerado chocante. O novo secretário de Defesa tinha sido capturado pela burocracia inchada do outro lado do rio. Ainda que ele mesmo fosse um advogado, passava muito tempo com o pessoal de uniforme. Não ficara alarmado com o relatório sangrento, e isso apesar de o atual presidente ter publicado diretivas sobre o uso da força, mesmo no campo de batalha.

Bem, ele cuidaria disso. Escreveu seu próprio resumo do caso, com uma nota furiosa que iria para seu chefe de seção, um graduado por Harvard com acesso ao presidente — bem, poderia ter acesso, pois seu pai era um de seus mais importantes partidários políticos.

O primeiro-sargento Driscoll era um assassino, pensou o advogado. Ah, no tribunal o júri poderia se apiedar dele, pontuando se tratar de um soldado no que era um campo de batalha, ou algo parecido com isso. Não era uma guerra de verdade, como sabia o advogado, tendo em vista que o Congresso não a declarara, mas era comumente assim considerada, e o advogado de Driscoll certamente assinalaria a questão, e o júri do Tribunal Federal Distrital — que seria selecionado pela defesa por sua equanimidade para com os soldados — teria piedade do assassino por causa disso. Era uma tática padrão de defesa, mas mesmo assim o assassino seria duramente criticado. Mesmo se inocentado (o que era provável, diante da composição do júri na qual o advogado de defesa dedicaria muito esforço, o que não era uma tarefa difícil na Carolina do Norte), ele aprenderia uma lição, e essa lição seria aprendida por mais um grupo de soldados que certamente prefeririam disparar armas numa colina a ficar sentados em um tribunal.

Que diabos, isso mandaria uma mensagem, e era uma mensagem que precisava ser enviada. Dentre as muitas coisas que distinguia os Estados Unidos de uma república de bananas estava a firme obediência dos militares aos seus líderes civis. Sem isso, os Estados Unidos não eram melhores que Cuba ou que a droga da Uganda sob Idi Amin. O alcance do crime de Driscoll, que ele admitia ser pequeno, não vinha ao caso. Essas pessoas tinham que saber a quem obedeciam.

O advogado rascunhou seu parecer sobre o documento e o mandou por e-mail para seu chefe de seção com um mecanismo de recibo permitido pela rede interna de computadores. Esse tal de Driscoll tinha que ser reprimido, e ele era o homem que faria isso. O jovem advogado estava certo disso. Muito bem, ótimo, eles estavam atrás do Emir, mas não o tinham agarrado, e havia um preço para o fracasso no mundo real.

 

Depois de uma viagem de cinco horas de carro, ele embarcou em um voo em Caracas para Dallas e conexões. A mala de mão de Shasif Hadi tinha um laptop cuja veracidade fora devidamente verificada no portão de embarque. Também foram inspecionados os nove CD-ROM da bagagem para que ele jogasse enquanto voavam sobre o oceano. Menos um. Mesmo que esse fosse examinado, o que apareceria era bobagem, dados robustamente criptografados na linguagem C++ que não fariam nenhum sentido. Mesmo que a vigilância aeroportuária tivesse programadores ou hackers nas equipes dos pontos de vigilância, não haveria como distinguir aquilo de um jogo normal para computadores. Não lhe disseram nada sobre o conteúdo e ele simplesmente recebeu o lugar de encontro em Los Angeles, onde o entregaria a alguém que identificaria apenas pela troca de frases de reconhecimento cuidadosamente codificadas.

Uma vez feito isso, ele passaria alguns dias na Califórnia para manter as aparências, depois voaria para Toronto e dali de volta para sua base semipermanente para esperar outra tarefa. Era o correio perfeito. Não sabia realmente nada de valor e, portanto, não poderia trair nada de importante.

Shasif queria desesperadamente se envolver mais diretamente com a causa, e comunicara esse desejo a seu contato em Paris. Ele tinha sido leal, era capaz e estava disposto a entregar a vida se necessário. Reconhecidamente, só tinha um treinamento militar rudimentar, mas havia mais coisas nessa guerra além de puxar um gatilho, não é? Sentiu uma pontada de culpa. Se Alá, em toda sua sabedoria, achasse conveniente pedir mais dele, obedeceria com alegria. Do mesmo modo, se seu destino fosse desempenhar apenas esse pequeno papel, também deveria aceitar isso. Independentemente do desejo de Alá, ele obedeceria.

Passou pela inspeção sem problemas além da revista suplementar que a maioria dos homens com aparência árabe sofria nesses dias, e seguiu para o portão de embarque. Vinte minutos mais tarde estava a bordo do avião, com o cinto afivelado.

Seu tempo total de viagem seria de apenas 12 horas, e isso incluía a viagem de automóvel até seu aeroporto de origem. Assim, Shasif se sentou no último assento da primeira classe do lado direito do Airbus, distraidamente jogando no computador e pensando no filme que iria passar na minitela a que tinha direito por conta do preço da passagem. Mas ele já estava alcançando o seu recorde pessoal no jogo e por enquanto dispensou o filme. Sabia que uma taça de vinho ajudava a conseguir mais pontos. Devia relaxar o suficiente para acalmar as mãos sobre o touchpad do laptop...