Morto ou Vivo
Capítulo 81
Para seu crédito, Hadi fez o melhor possível para limpar seu rastro a caminho da Rocinha, contornando a favela por duas horas enquanto dirigia em círculos e fazia retornos, procurando sinais de perseguição que deveriam estar bem claros para ele. O Lancia, o Fiat e o Corcel permaneceram em formação de comboio, jamais trocando de posição e nunca a mais de 100 metros do para-choques traseiro de Hadi.
— Temos que tomar uma decisão — disse Dominic. — Melhor fazer isso agora, antes que tenhamos de enfrentá-la sem alternativa. — Se ele e Chavez tivessem uma oportunidade de agarrar Hadi e seus três associados, iriam fazer isso ou se concentrariam apenas em Hadi?
— Quanto mais, melhor — disse Chavez —, mas temos que lembrar que somos só nós dois e que a polícia do Rio não vai saber a diferença entre nós e o grupo de Hadi, se as coisas derem errado.
Às seis e quinze da noite interromperam a perseguição e tomaram o caminho de volta para a entrada sul da Rocinha. Deixar Hadi por conta própria tinha um risco, mas nenhum dos dois sabia nada sobre o local do encontro. Deviam esperar que os perseguidores não decidissem interceptá-lo nos próximos 45 minutos.
O sol descia por trás das montanhas a oeste, lançando uma luz dourada na favela.
Chavez e Dominic sabiam que o significado em português de Rocinha era algo como “Pequena Fazenda”, mas não sabiam mais nada sobre ela. Cobrindo aproximadamente uns 2 quilômetros de norte a sul e cerca de 400 metros de leste a oeste, a favela se situava em um vale não muito fundo, rodeada dos dois lados por florestas e despenhadeiros. Sombreadas por varais de secar roupa e toldos improvisados, as ruas estreitas serpenteavam por ladeiras densamente habitadas com apartamentos que pareciam caixinhas, alguns tão perto uns dos outros que as sacadas se tocavam e os tetos se misturavam. Escadas de concreto e tijolos quebrados, cobertas de musgo, saíam das ruas e desapareciam atrás das construções. Postes de telefone e luz enfeitados com centenas de metros de fios e cabos se estendiam em todas as direções. Ao lado de cada beco, havia dezenas e dezenas de barracos feitos com placas de madeira e chapas de metal corrugado. O esgoto corria por calhas estreitas, rasas e cheias de lixo.
— Inacreditável — disse Dominic.
— Quantas pessoas moram aqui?
— Pelo menos 100 mil. Talvez 150.
Encontraram uma vaga para estacionar no começo do quarteirão do salão de sinuca e desceram.
— Você vai pelo fundo, eu vou pela frente. Me dê 15 minutos e depois entre.
— Entendido.
Dominic desceu pela rua e virou na esquina. Chavez andou pela rua, comprou uma garrafa de Coca-Cola de um ambulante, depois se encostou na parede sob um toldo. Abaixo, um único poste de iluminação piscava. Dez minutos transcorreram. Não havia sinal de Hadi, do Lancia, do Fiat ou do Corcel. Terminou a Coca-Cola, devolveu a garrafa para o ambulante, cruzou a rua e entrou no salão de sinuca.
Não era bem um salão, e sim um ambiente do tamanho de uma garagem dupla com duas mesas de sinuca no centro, um bar à direita e cadeiras de madeira alinhadas na parede da frente. No fundo do bar havia um lugar com quatro mesas redondas e cadeiras. No canto, três degraus que levavam até uma porta com uma placa de “Saída”. Debaixo de luminárias de plástico manchado e penduradas por correntes, ele viu homens reunidos ao redor das mesas de sinuca. O ar estava pesado de fumaça.
Ding sentou no bar e pediu uma cerveja. Cinco minutos depois, a porta se abriu e Dominic entrou. Foi até o bar, pediu uma cerveja e a levou até o fundo, escolhendo uma mesa.
Às sete e cinco, a porta abriu e Hadi entrou. Ficou perto da porta, olhando tudo nervosamente. Dominic levantou a garrafa de cerveja e acenou para Hadi, que hesitou e depois se dirigiu para a mesa de Dominic.
A porta se abriu novamente. O motorista do Lancia entrou. Como Hadi, ficou parado por trinta segundos, examinando o interior. A camisa estava para fora das calças, e no quadril direito Chavez percebeu uma saliência com um formato familiar. O exame do homem parou de súbito quando viu Hadi, que se aproximava da mesa de Dominic. O homem o seguiu. Chavez o deixou passar e depois se levantou da banqueta.
— Cadê o meu dinheiro, babaca? — disse Chavez em português.
O homem girou, com os punhos subindo. Chavez levantou as mãos à altura dos ouvidos.
— Calma, calma...
Enfiou a palma direita no rosto do homem, quebrando seu nariz. Ele tropeçou para trás e Chavez avançou, dando um golpe com o polegar abaixo da laringe. O homem desabou. Os outros clientes observaram com curiosidade, mas ninguém se meteu. Dívidas eram dívidas.
No fundo da sala, Dominic já havia levantado e levava Hadi pela saída dos fundos.
Chavez foi até o sujeito do Lancia, pisou na mão armada e depois arrancou a arma do cinto dele.
— Você fala inglês?
O homem gaguejou e cuspiu.
— Acene se falar inglês.
O homem assentiu.
— Levanta ou atiro em você aqui mesmo.
Dominic esperava no beco. Já estava completamente escuro. À esquerda, a ruela terminava em um muro, no qual havia uma escada que levava à escuridão. À direita deles, a 20 metros de distância, a saída do beco.
Hadi estava contra o muro ao lado de um monte de latas de lixo. Dominic tinha sacado a arma e a mantinha entre as pernas. Chavez empurrou o homem do Lancia por trás, e ele bateu na parede ao lado de Hadi.
— Quem são vocês? — perguntou Hadi.
— Cala a boca — rosnou Dominic.
Chavez observou os dedos de Dom abrindo e fechando no punho da arma.
— Calma, Dom. — Pegou um pedaço de jornal do chão e jogou para o sujeito do Lancia. — Limpe o nariz.
— Vai se foder.
A porta se abriu de repente ao lado deles. Uma silhueta projetada pela luz fraca do salão de sinuca apareceu e Chavez viu uma pessoa a alguns passos adiante da soleira. Sua mão subiu e se estendeu na direção dela. Um golpe duplo no peito e o sujeito caiu. Chavez fechou a porta com um chute.
— Adiante, Dom. — Apontou a arma para o homem do Lancia e Hadi. — Mexam-se.
Na boca do beco apareceu um sujeito correndo na direção dele. O cano de uma pistola relampejou alaranjado, e depois mais duas vezes. Chavez foi para o lado, ficando atrás das latas de lixo, e disparou duas vezes. O sujeito se esquivou.
— Escadas — ordenou Chavez.
Cutucando o homem do Lancia e Hadi na frente, Dom foi seguindo para a escada. Chavez recuou com eles até sentir os ombros baterem na parede, depois se voltou e os seguiu.
Subindo pelos degraus nos calcanhares de Dominic, Chavez chegou no alto e deu uma olhada. Um beco se estendia da direita para a esquerda; sobre eles, janelas com sacadas. Atrás e à direita, outro retângulo abrindo em outra parede de tijolos. Chavez fez um gesto nessa direção. Dominic assentiu e empurrou o homem do Lancia e Hadi pelos degraus. Atrás, Chavez escutou um sapato se arrastando e olhou para baixo da escada. O sujeito que os perseguia estava ali, dando uma olhada pela esquina. Chavez recuou, ficou parado. Depois de dez segundos de silêncio, o arrastar do sapato ecoou pelas escadas.
Chavez enfiou a arma no cinto, deu dois passos à direita, depois subiu os braços e agarrou o parapeito da sacada. Subiu até ficar com o queixo ali, estendeu de novo a mão, agarrou o corrimão e se alçou. Deitou de bruços na sacada.
As passadas continuaram avançando: passo... pausa. Passo... pausa... À distância, escutou sirenes zumbindo. Será que alguns disparos seriam suficientes para fazer a polícia entrar na Rocinha?, perguntou-se. Fechou os olhos e escutou, esperando uma mudança no eco.
Passo... pausa. O sapato arranhou de novo. Agora não havia mais eco. O homem passou por baixo da sacada onde Chavez estava, obviamente tentando decidir. Beco ou escadas? Escolheu as escadas. Chavez ajoelhou silenciosamente, apoiou a arma no corrimão e disparou, enfiando uma única bala atrás da cabeça do sujeito.
Pulou, correu até o corpo, fez uma revista rápida e disparou pelas escadas. Dominic esperava no alto, acocorado atrás de uma lixeira, com o homem do Lancia e Hadi. Cem metros adiante, a ruela desembocava em um estacionamento fracamente iluminado por postes de rua. De algum lugar ali perto, chegou o ruído de um jogo de basquete e garotos gritando de um lado para o outro.
— Ficamos só com dois — disse Chavez.
— Dois são o suficiente.
Chavez derramou no chão os pertences que tirara do morto: passaporte, um maço de dinheiro, um chaveiro de carro. Pegou as chaves e balançou diante do homem do Lancia e de Hadi.
— De que carro é: do Fiat ou do Corcel?
Nenhum dos dois respondeu.
Dominic agarrou Hadi pelos cabelos, empurrou sua cabeça para trás e enfiou a pistola entre seus lábios. Hadi resistiu, cerrando os dentes. Dominic golpeou Hadi com a outra mão na garganta. Ele engasgou. Dominic enfiou a arma na boca de Hadi.
— Cinco segundos e vou espirrar seus miolos neste beco. — Hadi não respondeu. Dominic enfiou a arma mais fundo. Hadi começou a ter ânsias de vômito. — Quatro segundos. Três segundos.
Chavez observou seu companheiro, observou seu olhar. Expressões faciais podem ser manipuladas quando necessário, mas o olhar é mais difícil de fingir. A expressão no olhar de Dominic informou a Ding que ele falava a sério.
— Dom...
— Dois segundos...
— Dom! — rangeu Chavez.
Hadi estava assentindo, levantando as mãos em súplica. Dominic tirou a arma, e Hadi disse:
— Ford Corcel.
O do Lancia resmungou:
— Você é um traidor.
Dominic apontou a arma para o olho direito do homem do Lancia.
— Agora é você. Onde está estacionado?
Lancia não respondeu.
— Dessa vez você só tem três segundos — disse Dominic, depois trocou a arma de mão e a empurrou contra o joelho do homem. — Depois vai ter que usar bengala pelo resto da vida.
— Um quarteirão acima do salão de sinuca, no meio do quarteirão ao sul.
— Vá pegar. Eu banco a babá para os seus amigos — disse Chavez a Dom.
Cerca de 15 minutos depois, Chavez escutou uma buzina e olhou para o fim do beco. O Corcel estava parado ali, com a porta lateral aberta. Fez o homem e Hadi levantarem e andarem. No carro, cutucou os dois para que entrassem no assento traseiro.
— Achei isso aqui no porta-malas — disse Dominic, segurando um rolinho de arame para enfardar.
Chavez se inclinou sobre o assento.
— Passem as mãos.
Dominic começou a dirigir.
— Vamos precisar de um pouco de privacidade — disse Chavez. Estava sentado de lado no banco do passageiro, a arma apoiada no encosto.
— Acho que temos um lugar. Vi quando vínhamos para cá.
O edifício era quase idêntico a todos os demais — um retângulo de quatro andares com uma porta e janela com terraço —, salvo que as janelas e a porta estavam lacradas com tábuas. Ao lado do edifício, uma escadaria coberta de moitas subia para a escuridão. Um cartaz com aparência oficial estava colado na porta da frente e dizia: “Condenado.”
— Aqui — disse Dominic. — Volto já.
Saiu, abriu caminho pelas escadas cheias de mato e desapareceu. Em dois minutos estava de volta. Assentiu para Chavez, que saiu e ficou atrás do sujeito do Lancia e de Hadi, enquanto todos seguiam Dominic pelas escadas. Depois de uns 10 metros, o mato diminuía e os degraus terminavam em uma porta. Tal como a de baixo, essa também tinha o cartaz de “Condenado”, mas estava presa apenas pela dobradiça de baixo. Dominic levantou a porta e a deixou de lado. Chavez mandou Lancia e Hadi entrarem.
Sob o brilho da lanterna de bolso de LED de Dominic, rapidamente se tornou evidente a razão pela qual o edifício fora condenado. As paredes, o chão e o teto estavam cobertos de fuligem e em alguns lugares queimados até as colunas. O assoalho era um xadrez de pedaços de linóleo, compensado chamuscado e buracos, através dos quais se podia ver os andares de baixo.
— Sentem — ordenou Chavez aos dois.
— Onde? — retrucou Lancia.
— Em qualquer lugar que não seja um buraco. Sentem.
Os dois obedeceram.
— Vou dar uma olhada — disse Dominic.
Chavez se sentou diante dos prisioneiros, ouvindo Dominic revistar as outras dependências. Voltou com um lampião de querosene manchado. Sacudiu e sentiu o combustível balançar lá dentro. Levou até um canto e acendeu. Uma luz amarelada encheu a sala.
Chavez olhou para Dom e sacudiu o ombro.
— Você é o chefe. O espetáculo é seu — falou Dominic.
Chavez levantou, caminhou até perto do sujeito e de Hadi, depois se ajoelhou novamente.
— Vou falar um pouco. Quero que escutem. Com atenção. Não vou falar merda para vocês e não quero que falem merda para mim. Se cooperarem, podem ter uma chance muito maior de ver o amanhecer. Como se chamam?
Nenhum dos dois respondeu.
— Vamos, só os primeiros nomes, para podermos conversar.
— Hadi.
O outro hesitou, com os lábios apertados. Finalmente disse:
— Ibrahim.
— Ótimo. Obrigado. Escutem, sabemos que vocês dois e seus dois amigos mortos incendiaram a refinaria de Paulínia. Sabemos disso, de modo que não vamos falar mais do assunto. Não somos policiais e não estamos aqui para prender vocês pela refinaria.
— Então quem são vocês? — perguntou Hadi.
— Alguém mais.
— E o que faz vocês pensarem que estamos envolvidos com aquele lugar? — perguntou Ibrahim.
— O que você acha? — disse Chavez dando uma olhadinha com meio sorriso na direção de Hadi.
— Por que você olhou para mim?
Para Ibrahim, Chavez perguntou:
— Por que vocês perseguiam Hadi? — Ibrahim não respondeu, e Chavez continuou: — Vou dar um palpite sobre uma coisa. Vocês fizeram o serviço na refinaria, mas não contaram que a fumaça fecharia o aeroporto de São Paulo e passaram para o plano B: vir para o Rio. Chegaram aqui e as coisas desandaram. Hadi sai fugindo; Ibrahim sai atrás dele. Por quê?
— Por que vocês não se importam com a refinaria? — insistiu Ibrahim.
— Não é no nosso país, não é problema nosso. Por que você perseguia ele?
— É um traidor.
— Você é um mentiroso. Você é o traidor. Você, ou Ahmed, ou Fa’ad. Vocês vazaram o retrato falado — retrucou Hadi.
— Que retrato falado?
— O que apareceu na televisão. Eu vi. Parecia comigo. Quem mais poderia ter dado isso para eles?
— Quem disse isso tudo?
— O Em... quando vi o retrato falado, fiz contato. Havia uma mensagem esperando. Dizia que vocês tinham me traído e que eu devia fugir.
— Você foi enganado.
— Eu autentiquei. Era autêntica.
Ibrahim sacudia a cabeça.
— Não, você está enganado. Não traímos você.
— Então você e seus amigos só queriam se encontrar e bater um papo, é isso? — disse Chavez.
— Sim.
Chavez se inclinou para perto de Hadi.
— Isso é merda, e você sabe disso. Quer a mensagem fosse real ou não, eles só sabiam que você estava fugindo. Provavelmente para ir até a polícia. Eles não permitiriam isso. Você sabe que é verdade.
Hadi não disse nada.
— Muito bem, aqui está a proposta — disse Chavez. — No que nos diz respeito...
— Ainda não sabemos quem são vocês.
— Nosso sotaque não diz nada?
— Americanos.
— Certo. No que nos diz respeito, a refinaria está fora da jogada. O que queremos saber é quem opera nos EUA. Quantas células, onde se localizam... Tudo isso.
— Vai se foder — disse Ibrahim.
Chavez escutou Dominic levantar atrás dele. Virou e o viu se dirigindo até a cozinha. Ele se virou para Hadi.
— E quanto a você? Basta nos dizer...
Escutou os passos de Dominic regressando, mas em ritmo mais rápido e decidido. Voltou-se. Com a arma envolvida em um pano de prato cheio de mofo, Dominic caminhou até Ibrahim, colocou a arma sobre o joelho esquerdo dele e puxou o gatilho. A toalha abafou o tiro, que fez um pop suave. Ibrahim gritou. Dominic enfiou uma segunda toalha em sua boca.
— Dom, Jesus... — disse Chavez.
Dominic mudou a posição da arma e fez um disparo no joelho direito de Ibrahim. Ibrahim se debatia, gritando com a toalha na boca, a cabeça batendo contra a parede atrás dele. Dominic se agachou a seu lado e o esbofeteou com força, uma, duas, três vezes. Ibrahim se aquietou. Lágrimas escorriam por seu rosto. Hadi havia se encolhido para longe do companheiro, tentando se esconder na parede.
Chavez apontou para ele.
— Nem mais um centímetro. — Agarrou o braço de Dominic e tentou levantá-lo. Dominic nem se mexeu, ficou ali acocorado diante de Ibrahim, ombros caídos, olhando o rosto dele.
— Dom! Levante.
Dominic tirou os olhos de cima de Ibrahim e se levantou. Chavez o puxou até a cozinha.
— Que porra foi essa?
— A terapia não estava funcionando, Ding.
— Essa não é uma decisão que cabe a você. Cristo! Se contenha. Agora ele é inútil para nós. Uma bala em cada joelho... Teremos sorte se ele conseguir emendar duas palavras.
Dominic sacudiu os ombros. Falou:
— De qualquer modo, Hadi é o nosso cara. Era mensageiro. Ibrahim é líder da célula. Sabe sobre Paulínia e só isso.
— Não sabemos disso. Vai me deixar fazer do meu modo?
— Tudo bem, certo.
— Está me ouvindo?
— Sim, caramba, eu disse que sim.
Chavez voltou para a sala e se ajoelhou novamente. Disse para Ibrahim:
— Vou tirar a toalha. Se gritar, ela volta.
Ibrahim assentiu. Seu rosto estava molhado de suor. Por baixo dos joelhos se acumulavam poças de sangue sobre o compensado.
Dominic removeu a toalha. Ibrahim ofegou, mas apertou o queixo e ficou quieto. Seu lábio inferior tremia.
— Meu amigo está um pouco nervoso hoje. Desculpe. Vamos falar dos Estados Unidos. Se você nos der alguma coisa, o levamos até um hospital.
Ibrahim sacudiu a cabeça.
Para Hadi:
— E você? Nos dê o que queremos e não levamos você de volta conosco.
Ibrahim gemeu:
— Não, Shasif...
Dominic se aproximou e se ajoelhou ao lado de Chavez, fazendo o gesto de estou bem com a palma.
— Hadi — disse. — Vamos pôr as coisas sob perspectiva para você. Alguém o viu fazendo o trabalho na refinaria?
— Não, acho que não.
— Então quem sabia como você parecia? Quem poderia ter vazado o retrato falado? Ou Ibrahim ou alguém mais acima. Ninguém mais.
— Mas por quê?
— Pontas soltas. Talvez alguém ache que você não é confiável. Pense nisso. Ibrahim recebe uma ordem de cima para matar você; o retrato e a mensagem põe você em fuga. Ibrahim usa isso para convencer os outros dois a se unirem na caçada. De outro modo, Ibrahim teria que convencê-los a matar o amigo sem nenhuma razão. O que é mais fácil?
Hadi considerou isso por um momento, depois olhou de lado para Ibrahim, que sacudia a cabeça. Saliva escorria pelos cantos de sua boca e se espalhava pelo queixo.
— Não é verdade — falou.
— Hadi, ele traiu você, e agora está aí sentado ao seu lado, mentindo sobre isso. Isso não te emputece? — disse Dominic.
Hadi assentiu.
— Eu sei que realmente me emputece — continuou Dominic.
Dominic levantou a arma, estendeu na direção de Ibrahim, e atirou no seu olho. Sangue e miolos regaram a parede. Ibrahim caiu de lado e ficou imóvel, menos o braço esquerdo, que retorceu e bateu por dez segundos antes de parar.
Chavez bateu no braço de Dominic, afastando-o.
— Deus do céu! Que porra é essa!
Dominic levantou e recuou alguns passos. Hadi se encolheu em posição fetal e começou a choramingar. Dominic deu duas passadas até ele e apertou a arma na testa de Hadi.
— Não! Nem mais um movimento, Dom — gritou Chavez.
Dominic olhou de relance. Chavez estava com sua própria arma levantada na direção de Dominic, que simplesmente sacudiu a cabeça e voltou a atenção para o prisioneiro.
— Dom, não faça isso...
Dominic se inclinou e disse a Hadi:
— A menos que você tenha alguma coisa para nos dizer, seu merda, eu liquido você. Vou enfiar uma bala em sua orelha. Quando eu disser “fale”, ou você assente ou morre.