Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 6 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 6

 

Clark sabia que seria um dia triste. Suas malas já estavam arrumadas — Sandy cuidava disso, eficiente como sempre. Seria a mesma coisa na casa de Ding — Patsy aprendera isso com a mãe. Rainbow 6 estava sendo entregue à segunda geração, boa parte da equipe original já havia partido, removida de volta para os Estados Unidos no caso dos americanos, principalmente para o Fort Bragg e a Delta School ou para Coronado, na Califórnia, onde a Marinha treinava os candidatos ao SEAL. Lá contavam as histórias permitidas pelas normas com cerveja em volta para alguns poucos instrutores de confiança. Quantas vezes foram até Hereford, em Gales, para beber pints de John Courage no confortável bar Green Dragon e trocar histórias de guerra, de modo mais livre, com seus colegas graduados dos Homens de Preto. Os locais sabiam quem eles eram, mas eram tão conscientes da segurança quanto os agentes do Serviço de Segurança — chamados de homens do “Cinco”, em homenagem ao antigo MI5 britânico —, que também apareciam por lá.

Nada era permanente no serviço, independentemente do país. Isso era saudável para as organizações, sempre trazendo novas pessoas, algumas delas com novas ideias, e também provocava reuniões calorosas nos lugares mais improváveis — muitas em terminais de aeroportos por todo esse mundo assustador —, e muitas cervejas bebidas e apertos de mão trocados antes de serem chamados para os voos de partida. Mas a instabilidade e a incerteza se tornavam desgastantes com o tempo. Você começa a se perguntar quando um amigo próximo e colega seria enviado para longe, para desaparecer em algum outro compartimento do mundo “preto”, sempre rememorado, mas raramente visto novamente. Clark já vira muitos amigos morrerem em “missões de treinamento” — o que geralmente significava levar um tiro em uma área proibida. Mas isso tudo era o preço por pertencer a essa fraternidade exclusiva, e não havia como mudar isso. Como os SEAL gostavam de dizer: “Não é preciso gostar da coisa, só tem que fazê-la.”

Eddie Price, por exemplo, tinha se aposentado como sargento-mor regimental do 22º Regimento do Serviço Aéreo Especial, o SAS, e agora era Yeoman Gaoler no Palácio Real de Sua Majestade, a Torre de Londres. John e Ding se perguntaram se a chefe de Estado do Reino Unido compreendia o quão mais seguro seu Palácio e fortaleza estava agora, e se o machado cerimonial de Price (o Yeoman Gaoler é o carrasco oficial) estava adequadamente amolado. Afinal, podiam ter a certeza de que ele ainda fazia sua corrida matinal e seus exercícios de educação física, e infeliz aquele membro da força de segurança do Exército regular que não estivesse com as botas brilhando, perfeitamente uniformizado e com o rifle mais limpo do que quando saiu da fábrica.

É uma puta vergonha ter que envelhecer, John Clark disse a si mesmo, já o suficientemente perto dos 60 para ver a sombra disso tudo, e a pior parte de envelhecer é se lembrar de como era ser jovem, mesmo das coisas que seria melhor esquecer no seu caso. As lembranças eram uma faca de dois gumes.

— Olá, Sr. C. — disse uma voz familiar na porta da frente. — Uma merda o dia de ir embora, não é?

— Ding, já conversamos sobre isso — disse John sem se voltar.

— Desculpe... John.

John Clark levou anos para fazer com que Chavez, colega e genro, o chamasse pelo primeiro nome, e até agora Ding tinha problemas com isso.

— Pronto para caso alguém tente sequestrar o avião?

— O Sr. Beretta está no lugar de sempre — respondeu Ding. Eles estavam entre o punhado de pessoas na Inglaterra que podia portar armas de fogo, e tal privilégio não era deixado de lado à toa.

— E como estão Johnny e Patsy?

— O garotinho está empolgado por voltar para casa. Temos algum plano para quando chegarmos lá?

— Na verdade, não. Amanhã de manhã fazemos uma visita de cortesia a Langley. Talvez eu vá visitar Jack dentro de um ou dois dias.

— Para ver se ele anda deixando pegadas no teto? — perguntou Ding com um muxoxo.

— O mais provável é que sejam marcas de garras, se bem conheço Jack.

— A aposentadoria não é divertida, acho. — Chavez não avançou mais no assunto. Era um tema melindroso para seu sogro. O tempo passa, não importa o quanto você deseje que isso não aconteça.

— Como Price está levando a coisa?

— Eddie? Ele aguenta o tranco com disposição, não é assim que vocês marinheiros dizem?

— Chegou perto para um milico.

— Ei, cara, eu disse “marinheiro”, não “grumete”.

— Devidamente anotado, Domingo. Desculpe, coronel.

Chavez desfrutou da risada.

— Sim, vou sentir falta disso — comentou.

— Como está Patsy?

— Melhor que na gravidez passada. Está ótima. Se sente bem... pelo menos é o que diz. Patsy não vive se queixando. É uma ótima garota, John... Mas, o que posso dizer que você já não saiba, não é?

— Nada, mas é sempre bom ouvir isso.

— Bem, não tenho queixas. — E, se tivesse, teria que abordar o assunto com muita diplomacia. Mas não tinha. — O helicóptero está esperando, chefe.

— Droga. — Um sussurro entristecido.

O sargento Ivor Rogers já estava com a bagagem no caminhão verde do Exército britânico que os levaria até o heliporto, e esperava ali fora pelo seu brigadeiro pessoal, que era o posto virtual de John. Os ingleses eram muito conscientes sobre questões de posto e cerimônias, e viu que teria mais disso lá fora. Esperava partir discretamente, mas os locais não pensavam assim. Enquanto dirigiam até o heliporto, lá estava toda a força Rainbow, os atiradores, o apoio de inteligência, até mesmo a equipe de armeiros — a Rainbow tinha os melhores armeiros de toda a Inglaterra —, em formação — o termo local era “em parada” — com seja lá qual fosse o uniforme que tiveram autorização para usar. Existia até um esquadrão do SAS. Rostos impávidos, coletivamente fizeram a apresentação de armas, no elegante movimento em três fases que o Exército britânico adotava havia vários séculos. A tradição podia ser algo bonito.

— Droga — murmurou Clark, descendo do caminhão. Havia avançado muito para um velho suboficial de serviço da Marinha, mas também dera uma série de passos incomuns pelo caminho. Sem saber exatamente o que fazer, percebeu que tinha que passar as tropas em revista, e apertar as mãos de todos enquanto caminhava até o helicóptero MH-60K.

Levou mais tempo do que esperava. Quase todas as pessoas presentes receberam algumas palavras especiais junto com o aperto de mão. E todos mereciam. Sua mente voltou aos seus tempos de terceiro-sargento da guarda, uma vida anterior inteira. Estes eram tão bons quanto aqueles, mesmo que fosse difícil acreditar nisso. Ele também fora jovem, orgulhoso, e também se achara imortal. E o mais notável era não ter morrido por se considerar assim como acontecera com tantos bons homens. Por quê? Sorte, talvez. Não havia outra explicação razoável. Ele aprendeu a ser cuidadoso, principalmente no Vietnã. Aprendeu vendo morrer homens que não tiveram tanta sorte e que simplesmente cometeram algum erro idiota, às vezes simplesmente por não prestar atenção. Alguns riscos você tem que correr, mas tenta repassá-los mentalmente para aceitar apenas os riscos necessários. E esses já eram suficientemente ruins.

Tanto Alice Foorgate quanto Helen Montgomery o abraçaram. Tinham sido secretárias fantásticas, o que era difícil de achar. Clark até ficou meio tentado a achar emprego para as duas nos Estados Unidos, mas os ingleses as valorizavam tanto quanto ele e isso teria provocado uma briga.

E finalmente Alistair Stanley, o chefe que começava, estava de pé no final da fila.

— Vou tomar conta deles, John — prometeu. Os dois apertaram as mãos. Não havia muito mais a dizer. — Nenhuma novidade ainda sobre seu próximo posto?

— Espero que me digam antes da chegada do próximo pagamento. — O governo funcionava bem para fazer esse tipo de papelada andar. Não fazia muito mais que isso, claro, mas, quanto à papelada, sim.

Com nada mais a ser dito, Clark caminhou até o helicóptero. Ding, Patsy e J. C. já estavam com os cintos presos, juntamente com Sandy. J. C. especialmente adorava voar, e iria se empanturrar disso nas próximas dez horas. Levantaram voo e seguiram para sudoeste em direção ao terminal quatro de Heathrow. Aterrissando no heliporto próprio, uma van já os esperava para levar direto ao avião, de modo que não tiveram que passar pela fiscalização eletrônica. Era um 777 da British Airways. O mesmo tipo de avião no qual voaram quatro anos antes, com os terroristas bascos a bordo. Estes estavam na Espanha, mas eles jamais perguntaram em que prisão e em que condições. Provavelmente nada parecido com o hotel Waldorf Astoria.

 

— Estamos desempregados, John? — perguntou Ding enquanto a aeronave taxiava pela pista de Heathrow.

— Provavelmente, não. Mesmo que estejamos, eles não chamam disso. Podem fazer de você um oficial de treinamento na Fazenda. Eu...? Bem, podem me manter na folha de pagamentos por mais um ou dois anos, e talvez eu pilote uma mesa no centro de operações até que eles peçam de volta meu tíquete de estacionamento. Somos experientes demais para sermos despedidos. Não vale a papelada. E eles podem ter medo que falemos com o repórter errado.

— É, você ainda deve um almoço ao Bob Holtzman, não é?

John quase derramou o champanhe de antes da decolagem com essa lembrança.

— Bem, dei minha palavra a ele, não foi?

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, depois Ding disse:

— Então, faremos uma visita de cortesia ao Jack?

— Acho que temos que fazer isso, Domingo.

— Concordo. Diabo, Jack Jr. já saiu do colégio, não é?

— É. Não sei o que ele anda fazendo.

— Aposto que algum emprego de filhinho de papai. Ações, títulos, alguma merda envolvendo dinheiro, aposto.

— Bem, o que você fazia na idade dele?

— Aprendia com você como deixar mensagens clandestinas, na Fazenda, e estudava à noite na Universidade George Mason. Dormindo acordado, quase sempre.

— Mas fez mestrado, se bem me lembro. Muito mais do que eu consegui.

— É. Tenho um pedaço de papel que diz que eu sou esperto. E você deixou cadáveres espalhados pelo mundo todo. — Felizmente, era virtualmente impossível grampear uma cabine de avião.

— Chamo de trabalho de laboratório em política externa — sugeriu Clark, dando uma olhada no menu da primeira classe. Pelo menos a British Airways fingia servir uma comida decente, embora simplesmente não compreendesse por que as companhias aéreas não faziam estoques de Big Macs e batatas fritas. Ou talvez pizzas da Domino’s. Toda a grana que economizariam, apesar de o McDonald’s na Inglaterra não usar o tipo certo de carne. Na Itália era ainda pior. Mas o prato nacional deles era vitela à milanesa, e isso era melhor que um Big Mac. — Você está preocupado?

— Sobre o emprego? Não mesmo. Posso sempre ganhar bastante dinheiro fazendo consultoria. Sabe, nós dois podemos organizar uma companhia, segurança para executivos ou coisa assim, e realmente fazer a limpa. Eu realizaria o planejamento, e você, a proteção. Sabe, simplesmente ficar lá olhando para os caras daquele jeito especial de “não foda comigo” que você sabe fazer.

— Estou velho demais para isso, Domingo.

— Ninguém é bobo de chutar o rabo de um leão velho, John. De qualquer maneira, sou baixo demais para assustar bandidos.

— Porra nenhuma. Eu não encheria seu saco nem brincando.

Chavez raramente recebia esse tipo de elogio. Era muito sensível sobre sua pequena estatura — sua esposa era 3 centímetros mais alta —, mas isso tinha um valor tático. No decorrer dos anos, muitas pessoas o subestimaram e ficaram ao seu alcance. Não os profissionais. Esses podiam ler nos seus olhos e perceber o perigo que havia atrás deles. Isso quando ele se importava em acender as luzes de aviso. Raramente as coisas chegavam a esse ponto, apesar de um valentão de rua da zona leste de Londres uma vez ter sido mal-educado na frente de um pub. Acordou mais tarde com um pint de cerveja na cara e uma carta de baralho enfiada no bolso. Era a rainha de paus, mas a parte de trás dela era de um negro brilhante. Esses acontecimentos eram raros. A Inglaterra continuava sendo um país civilizado na maior parte do tempo, e Chavez nunca saía atrás de confusão. O baralho negro era uma lembrança não autorizada dos Homens de Preto. Os jornais falaram daquilo, e Clark passara um sabão nos homens que usavam as cartas. Mas não tão ensaboado assim. Havia demonstração de segurança, e havia vontade de aparecer. Os rapazes que ele deixara em Gales tinham ambas as coisas, e isso, na verdade, estava ok, contanto que as tropas soubessem onde estava a linha que as separava.

— Qual você acha que foi nosso melhor trabalho?

— Acho que foi o do parque de diversões. Malloy fez um belo trabalho ao conseguir colocar você e sua equipe dentro do castelo, e a manobra que você executou foi quase perfeita, principalmente considerando que não pudemos treinar.

— Puxa, aqueles eram bons soldados — concordou Domingo com um sorriso. — Meus antigos Ninjas nem chegavam perto, e eu pensava que eram os melhores soldados que havia.

— E eram, mas a experiência conta muito. — Cada membro da equipe Rainbow era pelo menos um primeiro-sargento ou equivalente, o que demanda alguns anos de uniforme para ser alcançado. — Muitas capacidades nascem com o tempo de serviço, e isso não se consegue olhando o manual. Depois, os treinamos que nem uns demônios.

— Nem me diga. Se eu precisar correr mais, vou ter que usar pernas novas.

Clark resmungou:

— Você ainda é um filhote. Mas ouça o que digo: nunca vi uma turma como essa antes, e já vi muitas equipes. Jesus, parece até que eles já nasceram com uma pistola na mão. Que tal essa, Ding, qual o seu campeão pessoal?

— Teria que medir com osciloscópio e paquímetro. Escolheria Eddie Price pelo cérebro. Weber ou Johnston no rifle, droga, não há como escolher entre os dois. Para armas curtas, aquele francesinho, Loiselle... Ele expulsaria Doc Holliday de Tombstone. Mas você sabe, só é preciso realmente pôr uma bala no centro do alvo. Morto é morto. E todos nós podemos fazer isso, de perto ou de longe, de dia ou de noite, acordado ou dormindo, bêbado ou sóbrio.

— Por isso que nos pagam tanto.

— É uma vergonha que estejam puxando o freio.

— Uma puta vergonha.

— Droga, por quê? Simplesmente não entendo.

— Porque os terroristas europeus estão liquidados. Nós os derrubamos, Ding, e fazendo isso cortamos nosso trabalho em tempo integral. Mas pelo menos não puxaram totalmente a tomada. Dada a natureza da política, podemos dizer que foi um sucesso e cavalgamos rumo ao pôr do sol.

— Com uma palmadinha nas costas e um “é isso aí, garoto”.

— E você espera que governos democráticos demonstrem gratidão? — perguntou John com uma leve cara. — Seu pobre garoto ingênuo.

Os burocratas da União Europeia foram a principal razão. Nenhum país europeu tolerava mais a pena capital — o que as pessoas comuns poderiam desejar não era considerado, claro —, e um dos tais representantes do povo disse em alto e bom som que a equipe Rainbow fora demasiadamente implacável. Nunca lhe perguntaram se desejava que um cão raivoso fosse capturado de forma humana e tivesse tratamento médico. O povo jamais desaprovou alguma ação da equipe em nenhum país, mas seus burocratas benevolentes e gentis ficavam com a cabeça quente, e essas pessoas sem rosto é que tinham o verdadeiro poder político. Como em qualquer lugar do mundo civilizado.

— Sabe, na Suécia é ilegal criar novilhos do modo mais eficiente. É preciso dar a eles contato social com outras criaturas. Logo não vão poder mais cortar seus colhões até que deem pelo menos uma trepada — resmungou Chavez.

— Isso me parece razoável. Assim eles vão saber o que estão perdendo. — Clark fez um muxoxo. — Uma coisa a menos para os vaqueiros fazerem. Não deve ser brincadeira um homem fazer isso com outro animal.

— Jesus disse que os fracos herdarão a terra, e por mim tudo bem, mesmo assim ainda quero ter os policiais por perto.

— E você já me viu discordando? Recline o assento da poltrona, tome uma taça de vinho e durma um pouco, Domingo.

E, se alguém tentar sequestrar esse avião, nós cuidamos dele, Clark não acrescentou.

Mas a esperança nunca morre. Quem sabe mais um pouco de ação antes de ser colocado para pastar.