Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 64 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 64

 

Nayoan saiu do consulado às cinco horas da tarde, tomou o ônibus do estacionamento perto da Columbus e entrou num Toyota Camry azul. Com Clark ao volante, foi seguido até um apartamento no primeiro andar no sudoeste do famoso distrito de Tenderloin, em São Francisco, entre a prefeitura e a Market Street. Provavelmente era a pior vizinhança da cidade, com um índice acima do normal de pobreza, crime, moradores de rua, restaurantes étnicos, hotéis de carregação, clubes suspeitos e galerias de arte. Só podia haver uma razão para Nayoan escolher essa área para viver, consideraram Clark e os demais: o Tenderloin tinha uma população de asiáticos-americanos bem alta, o que lhe permitiria se movimentar relativamente anônimo.

Depois de um algumas horas em casa, Nayoan emergiu do apartamento vestindo um terno escuro e entrou no Camry. Dessa vez com Jack ao volante, eles o seguiram de volta ao centro até o Holiday Inn. Observaram-no entrar no saguão, esperaram dez minutos e voltaram para o Tenderloin.

— Por que chamam isso de Tenderloin? — perguntou Chavez enquanto Clark entrava na Hayes Street e começava a procurar um lugar para estacionar. Os faróis do carro passavam por cima de latas de lixo derrubadas e figuras na sombra dos pórticos.

— Ninguém tem certeza — disse Jack. — É uma espécie de lenda urbana. As histórias vão desde aqui ser a zona mais vulnerável da cidade até ter sido uma vizinhança perigosa para policiais, que podiam conseguir um extra e, com isso, os melhores cortes de carne.

— Andou lendo um guia de viagens, Jack?

— Isso e um pouco de Sun Tzu. Conheça seu inimigo, certo?

— O lugar tem estilo, com certeza.

Clark achou um lugar para estacionar embaixo de uma árvore entre dois postes de iluminação e entrou. Apagou os faróis e desligou o motor. O apartamento de Nayoan ficava a um quarteirão abaixo e do outro lado da rua.

Clark verificou o relógio.

— Oito horas. Nayoan deve estar na recepção. Trocar de roupa — disse Clark.

Eles trocaram as roupas de andar no centro — calças de gabardina, suéteres, casacos — pelos trajes estilo Tenderloin que compraram antes em uma loja de artigos usados: blusões de moletom, camisas de flanela, bonés e toucas de lã.

— Vinte minutos, então aqui de volta — disse Clark. — Círculo de três quarteirões. Mesmas instruções de antes. É um bairro de merda, então ajam de acordo.

— Como assim? — perguntou Jack.

Chavez respondeu:

— Você não se mete comigo que eu não me meto com você.

 

Encontraram-se de volta no carro, depois caminharam meio quarteirão para o sul e se juntaram debaixo de um pórtico vazio. Chavez começou:

— Só vi um carro de polícia. Parecia patrulha normal. Não estavam prestando muita atenção.

— Jack?

— Não vi luzes no apartamento. Há um beco ao lado e uma cerquinha de madeira meio arruinada com um portão sem tranca que dá para um pátio de concreto. Cães nos dois jardins adjacentes. Latiram quando passei, mas não vi rostos aparecendo nas janelas.

— Luzes na porta dos fundos? — perguntou Clark.

Jack assentiu.

— Lâmpada nua. E nenhuma porta com tela.

— E por que isso é importante?

Jack sacudiu o ombro.

— Portas de tela rangem e chacoalham.

— O garoto merece uma estrelinha dourada.

 

Com trinta segundos de diferença eles deram a volta no quarteirão, e depois se encontraram no beco. Chavez entrou primeiro pelo portão, subiu as escadas, afrouxou a lâmpada e desceu. Clark e Jack avançaram. Clark subiu os degraus e passou noventa segundos agachado à porta, trabalhando na fechadura e na trava. Sinalizou para que esperassem e depois deslizou pela porta. Uns sessenta segundos depois, estava de volta e acenou para que entrassem.

O interior do apartamento era uma imagem espelhada da arquitetura: comprido e estreito, corredores atravancados, assoalho de tábuas estreitas coberto com carpete gasto, rodapés e frisos escuros. Nayoan não ligava muito para decoração interior, percebeu Jack: cozinha utilitária e banheiro com ladrilhos axadrezados de porcelana, uma sala da frente com um sofá modulado, mesa de centro e uma televisão de 13 polegadas. Provavelmente não esperava ficar muito tempo ali, pensou Jack. Para que então se importar com algo além das necessidades básicas? Isso poderia significar alguma coisa? Talvez valesse a pena verificar quanto tempo Nayoan ainda tinha de serviço na embaixada.

— Muito bem, vamos vasculhar tudo — ordenou Clark. — E tudo de volta ao mesmo lugar quando terminarmos.

Acenderam as lanternas e começaram a trabalhar.

 

Quase imediatamente Chavez achou um laptop Dell sobre uma mesinha de jogos no quarto de Nayoan. Jack o ligou e começou a revisar as pastas e os arquivos, o histórico do navegador e os arquivos de e-mail. Chavez e Clark deixaram que trabalhasse, e passaram trinta minutos dissecando cada cômodo do apartamento, verificando primeiro os lugares de esconderijo mais óbvios.

— Muito bem — disse Jack. — Não tem proteção de senha, nenhum software com chave de acesso... À parte um firewall padrão e um programa antivírus, essa coisa está bem aberta. Muita coisa aqui, mas nada que se destaque. A maior parte é de assuntos não secretos da embaixada e e-mails, alguns pessoais. Família e amigos de casa.

— Quanto mais você pode escavar? — perguntou Clark.

— Aqui? Não muito. Posso copiar todos arquivos, pastas e caixas de entrada, mas duplicar o disco rígido levaria muito tempo.

— Muito bem, pegue o que puder.

Jack conectou um HD portátil da Western Digital Passport na porta FireWire do Dell e começou a copiar os arquivos enquanto Clark e Chavez continuaram caçando. Depois de mais quarenta minutos, Chavez sussurrou da cozinha:

— Achei.

Voltou para o quarto carregando um saco plástico de sanduíche, desses que fecham por cima.

— Fundo falso na gaveta de ferramentas.

Jack pegou o saco e o examinou.

— DVD de leitura e gravação. — Abriu o drive do leitor do Dell e enfiou o DVD lá dentro. Clicou na letra da unidade apropriada, e a janela se abriu na tela. — Muitos dados aqui, John. Uns 60 gigabytes. E muitos são arquivos de imagem.

— Abra alguns.

Jack clicou duas vezes numa pasta e miniaturas de fotos apareceram.

— Parecem familiares.

— Realmente — disse Clark.

Jack bateu com a unha do indicador em três das fotografias.

— Com certeza essas vieram dos sites do CRO.

— Onde há fumaça... — declarou Chavez.

Clark olhou o relógio.

— Copie tudo. Ding, vamos arrumar as coisas. É hora de dar no pé.

Uma hora mais tarde estavam de volta ao hotel, o La Quinta Inn, perto do aeroporto. Jack usou um FTP — protocolo de transferência de arquivos — seguro para subir algumas das imagens ao servidor do Campus, e depois ligou para Gavin Biery, o geniozinho de informática, e o colocou no viva-voz.

— Já vimos essas antes — disse Biery. — No pen drive de Trípoli.

— Certo — disse Jack. — Precisamos saber se estão esteganocriptografadas.

— Estou dando os toques finais no algoritmo para decriptografar. Parte do problema é não sabermos que tipo de programa eles usaram para criptografar, comercial ou caseiro. Segundo o Centro de Análise e Pesquisa da Esteganografia...

— E esse lugar existe? — perguntou Chavez.

— ... até agora temos 725 aplicativos de esteganografia, e isso é só a parte comercial. E qualquer programador vagabundo pode fazer um e colocá-lo em um pen drive. Simplesmente sai por aí, pluga no computador e você já está no modo esteganografia.

— Então, como você vai quebrar isso? — perguntou Clark.

— Desenvolvi um processo em duas partes. Primeiro, verifico discrepâncias no arquivo, seja vídeo, imagem ou áudio. Se descobrir uma anomalia, então começo a rodar a segunda parte do programa, percorrendo o arquivo através dos modos de criptografia mais comuns. É um processo de força bruta, mas a chance é que o CRO tenha seu método favorito. Descobrindo-o, podemos apressar a dissecação.

— Quanto tempo? — perguntou Jack.

— Não tenho a menor ideia. Vou começar a alimentar o monstro e retorno a vocês.

 

O telefone tocou às três da manhã. Os três despertaram instantaneamente.

— Biery — disse Jack, esfregando e apertando os olhos para ver a identificação na tela do celular. Atendeu e colocou a chamada no viva-voz.

— Posso estar estourando o champanhe um pouco cedo — começou Biery —, mas acredito que achamos o veio principal. Essa é a boa notícia. A má é que parece que eles usam três métodos diferentes de criptografia, de modo que vai demorar algum tempo.

— Você tem nossa atenção — respondeu Clark.

— Primeiro ponto: a imagem do banner que vimos no site do CRO mostrando a morte de Dirar... acho que é uma senha para usar uma única vez. Essencialmente é uma tabela para decodificar mensagens em linguagem comum. Se é ultrapassada ou vigente, ainda não sei.

Isso não foi surpresa para Jack. O que era velho voltava a ser novidade, ele sabia. O sistema de uso único de senha era antigo — o quão antigo era tema de debate entre os acadêmicos da criptografia, mas nascera nos tempos modernos, em 1917, com um engenheiro da AT&T chamado Gilbert Vernam —, e, apesar de existir uma variedade de sabores no método, no fundo se trata de uma cifra de substituição, na maior parte das vezes arrumada na forma de uma grade alfanumérica aleatória: combina-se um dígito da margem esquerda com outro da margem de cima e onde os dois se entrecruzam no corpo da grade é o dígito único de substituição. Codificar e decodificar consumia tempo, mas, desde que a senha fosse de conhecimento restrito do remetente e do destinatário, era virtualmente inquebrável. Nesse caso, certos membros do CRO saberiam como verificar certos sites em dias específicos e baixar determinadas imagens, que seriam então esteganodecriptografadas, revelando a senha única através da qual telefonemas comuns, cartas e e-mails podiam ser transmitidos com segurança.

A questão era, pensou Jack, com que frequência o CRO alterava essa senha única on-line? A única maneira de saber isso era tentar combinar mensagens conhecidas do CRO com imagens criptografadas no mesmo período.

— Isso poderia explicar por que o e-mail com o anúncio do nascimento do bebê terminou com tudo — disse Jack. — Eles mudaram as grades e ficamos um passo atrás.

Clark assentiu e falou:

— Continue, Gavin.

— Segundo: uma das imagens mais pesadas do DVD de Nayoan não tinha correspondência com nenhuma que capturamos dos sites do CRO. O algoritmo ainda está mastigando a coisa, porém, baseado no que possuímos até agora, temos um monte de números de cartões de crédito e de roteadores de bancos.

— Nayoan é um tesoureiro do CRO. Puta merda — disse Chavez.

— Você está verificando os números? — perguntou Clark a Gavin.

— Ainda não. O que vocês preferem primeiro?

— Cartões de crédito. Mais fáceis de conseguir e de descartar que uma conta bancária. Comece com o material das contas de São Francisco e da Costa Oeste. É melhor aproveitar isso enquanto estamos por aqui.