Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 58 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 58

 

Eles tinham três pistas sobre o que — se é que havia mesmo algo — o Emir e o CRO planejavam: antigas interceptações de e-mails, que resultaram em pouca utilidade, salvo o anúncio de nascimento que parecia ter colocado o rádio de todas as células do CRO em silêncio, assim como movimentado algumas peças do grupo pelo tabuleiro: Hadi, um mensageiro e um rosto novo no cenário; e o pen drive que Chavez inadvertidamente retirara de um dos bandidos no assalto à embaixada em Trípoli. Até o momento, o fato de o CRO usar esteganografia não lhes tinha dado mais que centenas de gigabytes de fotos de sites afiliados ao Comitê datando de até oito anos antes. Descobrir uma mensagem de 5 quilobytes embutida em um arquivo JPEG duzentas vezes maior era tarefa que não apenas consumia tempo, como também era assustadora.

A quinta e mais promissora pista fora obtida acidentalmente por um dedo que continuou apertando um botão disparador por alguns segundos a mais que o pretendido.

Entre as duas dúzias ou mais de fotografias que Jack havia tirado de Hadi em Chicago, três eram importantes, mostrando o rosto do mensageiro de perfil ou de modo oblíquo, e com luz suficientemente boa. Resultou, entretanto, que não foi o rosto de Hadi que despertou o interesse do Campus, e sim suas mãos. Quando se trata de analisar inteligência, Jack sabia, nem sempre se tratava de descobrir o que se estava buscando, mas sim ver o que estava diante de si.

— Esta aqui — disse Jack, apertando o botão de avançar no controle remoto. A foto seguinte, que apareceu na tela de LCD da TV da sala de conferências, mostrava Hadi subindo no meio-fio e passando ao lado de outro pedestre a caminho da porta. Perto do fundo da foto, pouco visível na sombra, a mão de Hadi e a do estranho se pressionavam, e, entre as duas, um objeto indistinguível.

— Passada por fricção — disse Clark, inclinando-se. — E bem limpa.

— Boa pescaria, Jack — disse Hendley.

— Obrigado, chefe, mas foi pura sorte.

— Não existe isso, mano — declarou Chavez. — Sorte é sorte. Aproveite quando ela vem.

— Então temos um segundo rosto — disse Sam Granger. — O que isso serve para nós?

— Nada. Nada por si só — disse Jack. — Mas pode nos levar a algum lugar. — Apertou novamente o botão de avançar. — A maleta do sujeito, ampliada e retocada. Pedi que Gavin produzisse um pouco da mágica do Photoshop. Verifiquem o canto superior direito, aquele quadradinho branco meio enrolado. — Jack apertou novamente o avançar, e o objeto se expandiu e ficou nítido. — É um tíquete de bagagem.

— Puta merda — murmurou Brian Caruso. — É preciso mesmo adorar essa merda de computador.

Hendley se dirigiu a Dominic:

— Agente especial Caruso, essa pode ser uma tarefa adequada para você.

— É para já, chefe.

 

Munido do número do tíquete, um horário aproximado, e o número de seu escudo no FBI, Dominic levou menos de uma hora para voltar com um nome: Agong Nayoan, vice-cônsul para Assuntos Econômicos do Consulado Geral da República Islâmica da Indonésia em São Francisco.

— Nada de excepcional nele — disse Dominic. — Voou de Vancouver para Chicago e São Francisco na mesma manhã que Hadi. A agência de Frisco conferiu seus dados há alguns anos. Não apareceu nada. Nada de ligações com grupos extremistas, politicamente moderado, sem registros criminais...

— Pelo menos até onde Jacarta admite — disse Granger. — É isso ou ele cobriu bem seus rastros. Temos esse sujeito fazendo uma transferência para um mensageiro conhecido do CRO. Alguém em algum lugar pisou na bola na verificação de antecedentes.

Com uma população de quase 200 milhões de muçulmanos, a Indonésia estava, segundo muitas comunidades de inteligência, ocidentais ou não, rapidamente se tornando um ponto central de recrutamento de grupos terroristas extremistas, os mais poderosos dentre os quais — Jemaah Islamiah, Frente dos Defensores Islâmicos (FDI), Darul Islam e Laskar Jihad — não apenas tinham ligações operacionais e financeiras com o CRO do Emir, como também eram simpatizantes em todos os níveis do governo indonésio. Saber que Agong Nayoan, funcionário do consulado indonésio, tinha tais inclinações não surpreendeu Jack, mas o fato de Nayoan ter optado por ser um atalho para um mensageiro do CRO significava que estavam lidando ali com uma enrascada muito maior do que pensavam.

— Seja lá quem trouxe Nayoan para esse jogo deve ser grande — disse Jack. — Se for pego, o que ele provavelmente vai receber de nós é um PNG. — O que significava persona non grata, um termo burocrático para “não queremos mais você aqui”. Expulsão. — Jacarta trata as coisas de modo diferente, entretanto. E é bom se lembrar disso.

A Agência Indonésia para a Coordenação da Assistência para a Consolidação da Segurança Nacional, ou BAKORSTANAS, tinha atribuições amplas e vagas para descobrir e eliminar ameaças à república, e que era, por sua vez, combinada com poucas restrições legais e supervisão. Se fosse expulso dos Estados Unidos acusado de ajudar o CRO, o melhor que Nayoan podia esperar era um buraco escuro na prisão de Cipinang, e anos ali para refletir sobre seus crimes. O governo de Jacarta nos últimos anos estava tentando se livrar da sombra econômica da China e se vender para o Ocidente como um contrapeso comercial. Seria difícil fazer isso com a fama de placa de Petri de terroristas.

— Ideias? — perguntou Hendley, olhando para Clark.

— Vamos rastrear o gato — respondeu Clark. — Sabemos que Hadi se dirigiu para Las Vegas e talvez mais além. Sabemos onde Nayoan está e de onde veio. Vamos grudar os olhos nele e ver aonde nos leva.

Hendley considerou o assunto; olhou para Granger, que assentiu.

— Você e Chavez — disse Granger. — Comecem em São Francisco, depois Vancouver. Dissequem o sujeito.

— E que tal Jack? — sugeriu Clark. — Boa oportunidade para ele dar os primeiros passos.

Hendley e Granger mais uma vez cruzaram olhares. O chefe olhou para Chavez e para os irmãos Caruso.

— Cavalheiros, podemos dispor da sala por alguns minutos? — Depois que eles saíram, Hendley disse a Jack: — Tem certeza de que quer isso?

— Sim, chefe.

— Então nos diga a razão. — Isso veio de Granger.

— Eu já...

— Diga novamente.

— Posso fazer coisas boas, acho...

— Está fazendo muito bem aqui onde está. E mais: não corremos o risco de queimar você... ou ver o filho de um ex-presidente assassinado. Você é um rosto, Jack.

— Um rosto comum. Conto nos dedos de uma só mão quantas vezes fui reconhecido nos últimos dois anos. O que os olhos não veem, o coração não sente. John e eu já tivemos essa conversa, certo? Não tenho visões românticas sobre a ação em campo.

Hendley olhou para Clark, que abriu os braços.

— Ou ele é bom ator ou está dizendo a verdade.

Jack sorriu.

— Olhem, no pior dos casos, vou ver como a outra metade vive e isso fará de mim um analista melhor, certo? É uma situação em que todos ganham.

— Muito bem, você está na equipe. Mas cuidado com seus modos. Nada de andar enfiando agulhas em pessoas desta vez, entendido?

Jack assentiu.

— Entendido.

— John, como você está com Driscoll?

— Conversei com ele hoje de manhã, dei algumas dicas. Acho que podemos ter como dado que o CID quer a cabeça dele. Está lidando calmamente com isso... melhor do que a maioria. Gosta do trabalho que faz. Acho que, se tiver uma oportunidade de sair de baixo e ainda manter a mão na massa, ele estaria interessado. Algum avanço do seu lado?

— Acho que teremos força suficiente para fazer a Procuradoria-Geral recuar, mas não para manter Driscoll com o uniforme. Quando voltar de Chicago, pode vender o caso para ele.

Clark assentiu.

— Chame-os de volta, Sam.

Depois que Chavez e os Caruso entraram, Brian disse:

— Ei, como finalmente estamos proativos sobre essa merda... O CRO matou esse tal de Dirar por alguma boa razão. Alguma ideia a mais sobre irmos a Trípoli dar uma sacudida na árvore?

— E o que você espera que caia? — perguntou Granger.

Dessa vez foi Dominic que respondeu:

— Ou Dirar foi liquidado diretamente pelo CRO, ou mandaram algum afiliado fazer o serviço. De qualquer modo, se descobrirmos quem fez isso teremos mais uma peça do quebra-cabeça... Talvez alguma indicação sobre protocolos de comunicação, rotas de financiamento... Quem sabe?

Hendley assentiu.

— Preparem os documentos e peçam para Viagens preparar o itinerário. Vamos ver se vocês conseguem levantar algum contato em Trípoli, alguém na embaixada que não se importe em ter uma conversinha por fora. Vamos providenciar também um briefing para Dominic e Brian... Jack, talvez esse novo negócio no qual você e Gavin tem trabalhado?

— Deixa comigo, chefe.

Hendley levantou e olhou ao redor da mesa.

— Muito bem, cavalheiros, ao trabalho. Precisamos de uma ponta, algo a partir do qual possamos descascar e usar como alavanca.

 

*

 

Cada homem iria precisar de um quarto para si, sabia Hadi, todos dentro de uma hora de carro de distância da instalação, e nenhum luxuoso demais para despertar curiosidade em uma estada de dez a 14 dias. Estrangeiros que chegavam a um novo país procurando trabalho não tinham dinheiro para acomodações de luxo, e, apesar de fazer sentido que amigos ficassem juntos nesse tipo de viagem, quatro sujeitos de aparência árabe se acomodando em um único lugar poderia despertar o interesse da polícia local.

Havia uma grande quantidade de motéis duas estrelas em São Paulo; Hadi não estava preocupado em achá-los, mas essa era sua primeira incursão em trabalho de campo e ele não queria deixar nada ao acaso, tal como não havia deixado nada ao acaso em suas histórias de cobertura.

Cada um deles havia estudado ou sabia o suficiente sobre a indústria, de modo que sua chegada e a busca de trabalho subsequente despertaria a mínima atenção, pelo menos durante o pouco tempo que pretendiam passar no país. A recente prosperidade do Brasil provocara um fluxo de trabalhadores, muitos provenientes do Oriente Médio, cansados de receber salários miseráveis por trabalhos exaustivos e perigosos. Não, pensou Hadi, enquanto não fizessem nada que os destacasse, mais quatro árabes procurando trabalho passariam despercebidos.

A parte difícil seria o reconhecimento. Havia muitos quilômetros de trilhos e centenas de vagões para inspecionar; havia horários e rotas para conferir duas e três vezes; topografia e infraestrutura para estudar. A própria instalação, apesar de estar longe de ser inexpugnável, tinha sua própria força de segurança, e a pesquisa preparatória de Ibrahim sugeria que a instalação rotineiramente fazia exercícios envolvendo tanto a polícia quanto os militares, e os dois mantinham forças de reação imediata. Claro que tais forças só seriam úteis em certa medida. Se ele e os demais planejassem bem e se mantivessem sempre sob a orientação de Alá, nada poderia detê-los.