Morto ou Vivo
Capítulo 62
OConsulado Geral da República da Indonésia ficava na Columbus Avenue, alguns quarteirões ao sul do Embarcadero, ladeada pelo Telegraph Hill e pela Lombard Street e à vista da ilha de Alcatraz. Clark achou um lugar para estacionar na Jones Street, um quarteirão ao sul do consulado, e ali parou seu Ford Taurus alugado.
— Já esteve em Frisco, Jack? — perguntou Chavez do banco traseiro.
— Quando era garotinho. Só me lembro do Fisherman’s Wharf, aquele submarino museu...
— USS Pampanito — disse Clark.
— Isso. E a Ilha do Tesouro. Segundo conta meu pai, chorei quando ele me disse que não era a mesma Ilha do Tesouro do livro.
Clark riu.
— Isso foi antes de ele lhe dar a notícia sobre o Coelhinho da Páscoa e o Papai Noel?
Jack riu de volta.
— Acho que foi no mesmo dia.
Clark tirou o celular, um dos três desinfetados pré-pagos que pegaram no aeroporto. Discou um número e depois de um momento disse:
— Sim, bom dia, o Sr. Nayoan está aí hoje de manhã? Sim, obrigado. — Clark desligou. — Ele está lá. Vamos dar um passeio e reconhecer o terreno.
— O que estamos procurando?
— Nada e tudo — respondeu Clark. — O mapa não é o território, Jack. Você está se aclimatando. Descubra onde estão os cafés, os caixas eletrônicos, os becos e as ruas laterais, as bancas de jornais, os telefones públicos. Qual o melhor lugar para pegar táxis ou subir num bonde? Aprender a sentir como se vivesse aqui.
— Ah, só isso?
Dessa vez foi Chavez quem respondeu:
— Não. Como as pessoas se movimentam, como interagem? Esperam o sinal verde para atravessar ou avançam? Encaram as pessoas nas calçadas ou trocam amabilidades? Quantos carros de polícia você vê? Verifique o estacionamento. Tem parquímetro ou é livre? Localize as entradas do BART.
— Bay Area Rapid Transit — acrescentou Clark antes que Jack pudesse perguntar. — O metrô local.
— É muita merda para absorver.
— Esse é o trabalho — respondeu Clark. — Quer voltar para casa?
— De jeito nenhum.
— É uma questão de atitude, Jack. Mudar o modo como você observa a paisagem. Soldados buscam cobertura e pontos de emboscada; espiões procuram locais de entrega e vigilância. Duas perguntas que você tem que se fazer o tempo todo: como posso seguir alguém aqui, e como posso me livrar de alguém aqui?
— Está bem.
Clark conferiu o relógio.
— Vamos tomar uma hora e nos encontramos de volta no carro para ver se Nayoan está pronto para o almoço. Jack, você vai rumo ao sul; Ding e eu iremos pelo nordeste e noroeste.
— Por que essa cobertura? — perguntou Jack.
— A área fica mais residencial ao sul. Pelo menos durante o dia, Nayoan vai seguir o horário: reuniões, almoço, esse tipo de coisa. Use a caminhada para se aclimatizar.
Tal como instruído, Jack seguiu rumo sul pela Jones Street, depois para o oeste subindo a Lombard, exercitando-se ao subir pela calçada tortuosa e abrupta, até chegar nas quadras de tênis no alto da Telegraph Hill, de onde voltou novamente para o sul. As casas ali eram bem juntas e com pintura colorida, muitas com balcões e pórticos transbordando de flores. Jack tinha visto muitas fotografias do terremoto de 1906, e era difícil sobrepô-las mentalmente com o que via agora. A crosta da terra deslizando algumas dezenas de centímetros, ou talvez menos, e uma cidade é arruinada. Realmente, não se pode brincar com a Mãe Natureza. Mais recentemente, o Katrina lembrara os Estados Unidos disso, apesar de, dessa vez, o furacão ter sido apenas coadjuvante. O restante se deveu à péssima logística e aos suprimentos inadequados. É de se pensar como seriam as coisas se algo pior caísse sobre o país, natural ou artificial. Estaríamos realmente prontos para algo assim?, ponderou Jack. Melhor pergunta: existia mesmo isso de estar efetivamente preparado? China, Índia e Indonésia haviam enfrentado tsunamis e terremotos desde épocas imemoriais, e mesmo assim, quando acontecia agora, a resposta e a recuperação pareciam ser um caos malcontrolado. Talvez o problema fosse com a própria definição. Todos os sistemas, sejam governos ou corpos de bombeiros ou a polícia, apresentavam pontos de ruptura quando as circunstâncias ultrapassavam a mão de obra e os recursos. Pensando nisso, os humanos provavelmente eram diferentes, e, se assim fosse, o conceito de estar preparado se torna uma questão de vida ou morte, de sobrevivência ou extinção? Se você se achar vivo após uma catástrofe, será que isso aconteceu porque estava preparado para ela?
Pense no jogo de agora, ordenou Jack a si mesmo.
Na marca dos quarenta minutos, ele voltou rumo norte na Feusier Octagon House e seguiu para o carro. Clark e Chavez ainda não tinham voltado, então ele arranjou um banco do outro lado da rua, sob uma árvore, e leu o jornal que havia comprado durante a caminhada.
— Foi esperto não ter entrado no carro. — Jack escutou atrás de si. Clark e Chavez estavam parados ali. — Por quê?
— Em um belo dia como este? Quem faria isso senão policiais, detetives ou perseguidores?
— É isso aí, rapaz. Se levante e venha até aqui. O mesmo princípio: três sujeitos não ficam simplesmente sentados em um banco juntos a menos que estejam esperando o ônibus ou sejam vagabundos. — Jack se reuniu a eles debaixo da árvore e ficaram em um semicírculo. — Muito bem, agora somos uns otários ocupados — disse Clark — conversando sobre o jogo da noite passada ou sobre o babaca do patrão. Então, o que você viu?
— A vibração é mais contida que em Nova York ou Baltimore — respondeu Jack. — As pessoas não parecem ter muita pressa. Mais contato visual e sorrisos.
— Bom. E o que mais?
— Bom sistema de transporte público, muitas paradas. Vi cinco carros de polícia, mas sem luzes nem sirenes. Quase todo mundo veste casaco ou suéter. Não há muitas buzinadas. Muitos carros compactos, híbridos e bicicletas. Um bocado de lojinhas e cafés com entrada pelos fundos.
— Não está mal, Jack — disse Chavez. — Talvez tenha algo de espião no DNA do garoto, hein, John?
— Pode ser.
Depois de mais dez minutos dessa rotina de homens de negócio, Clark disse:
— Muito bem, já é quase hora do almoço. Ding, você dirige. Jack e eu perambulamos um pouco. A entrada principal do consulado é na esquina da Columbus com a Jones, mas há uma entrada lateral, mais ao sul pela Jones.
— Vi um caminhão de entrega de produtos estacionar ali durante a caminhada — disse Chavez. — E um par de funcionários lá fora, fumando.
— Bom. Vamos embora.
Vinte e cinco minutos depois, Jack estava ao telefone.
— Já pesquei o cara. Saindo pela entrada principal. A pé, na direção sul para a Columbus.
— Ding, fique onde está. Jack, não descole dele, pelo menos uns 15 metros atrás. Estou a um quarteirão de você, subindo pela Taylor.
— Entendido. — Um minuto depois: — Passando pelo Motor Coach Inn. A uns trinta segundos da esquina da Taylor.
— Estou lá, rumo sul — respondeu Clark. — Seja lá o que ele fizer na esquina, cruze a rua e vá para o oeste descendo a Chestnut. Eu pego.
— Saquei. Está na esquina. Dobrou ao norte pela Taylor.
— Já o vi. Pode se separar e siga em frente.
Jack caminhou pela calçada até a Chestnut e continuou em frente. Pelo canto do olho viu Nayoan.
— Soltando... agora — avisou Jack.
E Clark:
— Ele vem na minha direção. Aguentem aí. — Um momento depois, a voz de Clark mudou. — Não, não, estou dizendo, esse ataque deles é uma merda. Não tem profundidade. Cara, você está errado. Dez paus como eles se afundam no primeiro jogo... — Alguns segundos depois. — Acabou de passar por mim. Entrou em um restaurante. Pat’s Café, lado leste da rua. Jack, vamos almoçar. Vou pegar uma mesa para nós.
Ding se meteu:
— Para mim, sanduíche de pastrami no pão integral.
Jack voltou pelo norte na esquina da Chestnut com a Mason, e depois ao norte novamente até a Taylor. Achou Clark em uma mesa perto da porta, diante da janela. O lugar já começava a ficar movimentado, com a multidão que almoçava mais cedo. Jack se sentou.
— No balcão — disse Clark. — O terceiro partindo do fundo.
— Sim, já o vi.
— Quem está sentado nos dois lados dele?
— O quê?
— Ficar no rastro do seu alvo principal é só metade da batalha, Jack. Ele falou com alguém enquanto você o seguia, fez alguma parada?
— Não, nem passou perto de ninguém.
Clark deu de ombros.
— Até os imbecis têm que comer.
Jack pediu atum no pão de centeio; Clark, um sanduíche de bacon, com alface e tomate e uma sacola para levar o de Ding.
— Ele está terminando — disse Clark. — Eu pago a conta. Apertamos as mãos na saída e dizemos “Vejo você mês que vem”, e você vai direto para o carro. Eu levo nosso rapaz até em casa e depois encontro vocês na Starbucks na baía.
Trinta minutos mais tarde, estavam tomando suas três xícaras de café Gold Coast de torrefação escura, sentados em um reservado perto da janela. Lá fora, pedestres e carros deslizavam pela brilhante luz solar. Na TV montada em uma esquina, Jack Ryan Senior discursava de pé atrás de um atril. O som estava desligado, mas os três sabiam o que estava acontecendo. Assim como o restante dos fregueses e os baristas, a maioria dos quais olhava a imagem ou pescava as notícias que saíam, enquanto cuidavam de suas vidas.
— Cara, ele está mesmo fazendo isso — disse Chavez. — Seu pai tem colhões de bronze, Jack.
Jack assentiu.
Clark perguntou:
— Ele falou com você a respeito, suponho.
Outro assentimento.
— Não acredito que esteja muito feliz com essa coisa toda, mas é o chamado do dever, sabe? Para aqueles a quem muito é dado, muito é pedido.
— Bem, ele já deu muito. Muito bem, vamos ao nosso negócio. O que aprendemos?
Jack bebeu um gole de café, e depois disse:
— Nayoan gosta de sopa de ervilhas e dá gorjetas ruins.
— Hã? — disse Chavez.
— Ele tomou uma sopa de ervilhas e comeu um sanduíche de peru com bacon. Doze paus, mais ou menos, segundo o menu. Deixou uns trocados. Além disso, não sei o que aprendemos.
— Não muito — concordou Clark. — Não esperava muito. Se ele estiver no bolso do CRO, deve ser algo que faz de vez em quando. As chances de o pegarmos na sujeira em um dia era praticamente zero.
— E daqui em diante?
— Segundo o site do consulado, eles têm uma recepção no Holiday Inn Express hoje à noite. Uma espécie de festa beneficente conjunta com o consulado polonês.
— Deixei meu smoking em casa — disse Chavez.
— Não vai precisar dele. O caso é: sabemos onde Nayoan estará hoje à noite, e não vai ser em casa.
A 13 mil quilômetros dali, o engenheiro emergiu do vestiário da tenda e usou um trapo para limpar o suor da testa e do pescoço. Com as pernas tremendo, foi até um tamborete próximo e se sentou.
— Então? — perguntou Musa.
— Terminei.
— E a potência?
— De 7 a 8 quilotons. Diminuta para os padrões de hoje. Por exemplo, a bomba de Hiroshima tinha 15 quilotons. Mas será mais que o suficiente para o que planejam. Deve produzir um impacto de 15 psi, ou mais de 103 mil pascals, atingindo uma distância de 500 metros.
— Não parece muito.
O engenheiro sorriu cansado.
— Esses 15 psi são o suficiente para demolir concreto reforçado. Você disse que o chão é principalmente de terra?
— Correto. Com algumas estruturas subterrâneas reforçadas.
— Então não tem com que se preocupar, meu amigo. Esse espaço fechado que você mencionou... Tem certeza do volume?
— Sim.
— E a superestrutura? Qual é a composição?
— Me informaram que é algo chamado de ignimbrito. É...
— Sim, sei do que se trata. Também é chamada de rocha vulcânica piroclástica, ou tufo consolidado; essencialmente, trata-se de camadas compactas de rocha vulcânica. Isso é bom. Desde que a superestrutura seja suficientemente espessa, a onda de choque deve se dirigir para baixo com atenuação mínima. As exigências de penetração que você me forneceu serão alcançadas.
— Aceito sua palavra quanto a isso. Está pronta para o transporte?
— Claro. Tem uma assinatura de saída baixa, de modo que medidas de detecção passivas não devem preocupar. Mas medidas ativas são diferentes. Suponho que tenha se preparado para...
— Sim, tudo foi considerado.
— Então a deixo em suas boas mãos — disse o engenheiro, que se levantou e foi até o escritório no fundo do armazém. — Agora vou dormir. Acredito que o restante dos meus honorários estará depositado pela manhã.