Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 3 de 92

Páginas do PDF

Morto ou Vivo

Capítulo 3

 

 

Parecia diferente das imagens — o que sempre acontecia —, mas eles estavam no lugar exato, isso com certeza. Ele sentiu seu cansaço se esvair, substituído por uma antecipação focada.

Dez semanas atrás, um satélite da CIA havia captado uma transmissão dali e outro tirou uma foto, que Driscoll tinha agora no bolso. Esse era o lugar, sem dúvida. Uma formação triangular de rochedos no topo identificava o ponto. Não era decoração, a despeito de aparentar ter sofrido interferência humana, mas, sim, algo deixado para trás pelo último conjunto de geleiras que tinha passado pelo vale, sabia Deus há quantos milhares de anos. Provavelmente, a mesma água derretida que havia esculpido o triângulo ajudou também a furar a caverna. Ou seja lá como se formavam as cavernas. Driscoll não sabia nem se importava especificamente com o assunto. Algumas eram bem profundas, com centenas de metros, buracos de segurança perfeitos para se esconder. Mas essa aqui tinha originado um sinal de rádio. E isso a tornava especial. Especial para cacete. Washington e Langley demoraram mais de uma semana para localizar o lugar, mas foram muito cuidadosos na sequência. Quase ninguém sabia sobre essa missão: menos de 30 no total, e a maioria estava em Fort Benning. Onde estava o clube para suboficiais. Para onde ele e sua equipe regressariam em menos de 48 horas. Se Deus quiser — inshallah, como diziam por ali. Não era sua religião, mas o sentimento fazia sentido. Driscoll era metodista, embora isso não o impedisse de tomar sua cervejinha de vez em quando. Ele era principalmente um soldado.

Ok, como vamos fazer isso?, perguntou-se. Com força e rapidez, é claro, mas como fazer isso com força e rapidez? Ele carregava meia dúzia de granadas. Três de verdade e três granadas de luz M84. Estas eram revestidas de plástico em vez de aço, pesadas, com explosivos barulhentos, fabricados com algum tipo de mistura de magnésio e amônia que os fazia parecer com a superfície do sol surgindo para uma visita inesperada, para ofuscar e cegar quem estivesse por perto. Ali, também, pouco lhe importava a química das coisas. O que importava era que funcionavam muitíssimo bem.

O negócio dos Rangers não era combater lealmente. Tratava-se de uma operação de combate, e não dos Jogos Olímpicos. Podiam prestar os primeiros socorros aos inimigos que sobrevivessem, e apenas porque sobreviventes tendem a ser mais falantes que os mortos. Driscoll espiou novamente a entrada da caverna. Alguém havia ficado bem ali, naquele ponto, para fazer sua ligação telefônica via satélite, e o RHYTHM, um satélite de espionagem eletrônica, a copiara, e um satélite KEYHOLE tinha marcado a localização, e a missão deles fora autorizada pelo próprio SOCOM, o Comando de Operações Especiais. Driscoll ficou imóvel, parado junto a um rochedo grande, perto o suficiente para que sua silhueta se fundisse à pedra. Não havia movimento evidente lá dentro. Nenhuma surpresa. Mesmo os terroristas tinham que dormir. E isso funcionava a seu favor. Muito bem, de fato. Dez metros. Ele se aproximou com movimentos que pareceriam cômicos para os não iniciados, movimentos exagerados de subir e levantar o pé e as canelas, cuidadosamente evitando pedras soltas. Então chegou lá. Apoiou-se em um joelho e olhou para dentro. Deu uma espiada por cima do ombro para se certificar de que o restante da equipe não estava amontoado. Nenhuma preocupação nesse sentido. Ainda assim, Driscoll sentiu as asinhas da preocupação adejarem na sua barriga. Ou seria medo? Medo de ferrar com tudo, medo de repetir a história. Medo de ter homens mortos.

Há alguns anos, no Iraque, o predecessor do capitão Wilson, um segundo-tenente novato, tinha planejado uma missão — uma caçada direta aos insurgentes pelas margens sul do lago Buhayrat Saddam, a norte de Mosel —, e Driscoll havia participado. O problema era que o jovem tenente estava mais interessado em fazer um belo relatório do que na segurança de seus Rangers. Indo de encontro ao conselho de Driscoll e com a noite caindo, ele dividiu a equipe para flanquear um complexo de casamatas, porém, como era a tendência de planos refeitos apressadamente, esse também não sobreviveu ao primeiro contato com o inimigo — nesse caso, o encontro de um grupo do tamanho de uma companhia formado por ex-soldados leais a Saddam, que cercaram e massacraram a esquadra de tiro do jovem tenente antes de voltar sua atenção para Driscoll e seus homens. O combate em retirada durou a maior parte da noite, até que, finalmente, Driscoll e três outros conseguiram abrir caminho cruzando o rio Tigre e se colocando ao alcance de fogo de uma base armada.

Driscoll soube que o plano do tenente era um desastre em andamento. Mas teria argumentado com firmeza suficiente contra ele? Se tivesse insistido... Bem. Essa era a questão que o assombrara durante todo o ano que passou. E, agora, novamente em território inimigo, mas dessa vez as decisões — boas, más, desastrosas — eram todas suas.

Olho na bola, obrigou-se Driscoll. Ponha a cabeça no jogo.

Avançou mais um passo. Ainda nada pela frente. Os pashtuns podiam ser durões — eram durões para caramba, como Driscoll já aprendera —, mas não tinham treinamento que fosse mais além de apontar o rifle e puxar o gatilho. Deveria haver alguém na entrada da caverna também de vigia. Ele viu umas bitucas de cigarro por perto. Talvez uma sentinela estivesse ali e seus cigarros tivessem acabado. Mau hábito, babaca, pensou Driscoll. Mau posicionamento de batalha. Vagarosa e cuidadosamente, ele deslizou para dentro. Seus óculos de visão noturna eram uma bênção. A caverna era reta por uns 15 metros, paredes ásperas, quase toda ovalada. Nada de iluminação. Nem mesmo uma vela, mas ele percebeu uma curva à direta logo adiante, assim manteve os olhos preparados para perceber luz. O chão da caverna não tinha pedras nem sujeira. Isso dizia muita coisa ao sargento: alguém vivia ali. A informação que lhes deram era sólida. Será que os milagres nunca acabam?, pensou Driscoll. Frequentemente, essas expedições de caça revelavam apenas um buraco de esconderijo vazio e um bando de Rangers emputecidos olhando para seus próprios cacetes.

Talvez a caverna certa? Nem sempre ele se permitia esse tipo de pensamentos. Isso não seria uma boa?, pensou por um breve instante. Esta aqui é um prêmio grande. Ele deixou de lado o pensamento. O tamanho do prêmio não mudava em nada o modo como faziam o trabalho.

O solado de suas botas era flexível. Confortável nos pés, porém, mais importante, silenciosos. Enfiou sua carabina M4 mais para perto do ombro. Havia deixado a mochila lá fora. Não precisava nem de peso nem de volume adicionais dentro da caverna. Driscoll não era muito grande. Um pouco menos que 1,80m, pesava 80 quilos, enxuto e musculoso, os olhos azuis pesquisando adiante. Tinha dois soldados alguns metros atrás dele, que escutavam sua respiração pelo rádio que todos usavam, mas o sargento não falou nem uma palavra. Apenas sinais de mão, que de qualquer maneira eram cheios de conteúdo.

Movimento. Alguém vinha daquela direção.

Driscoll se apoiou em um joelho.

Os passos se aproximavam. Driscoll levantou o punho esquerdo, dizendo aos que vinham atrás para que se abaixassem, ao mesmo tempo que preparava a carabina. Os passos eram descuidados. Passos alertas soariam diferentes para seus ouvidos treinados. O sujeito estava em casa, e se sentia confortável ali. Bem, azar o dele. Atrás do homem, algumas pedras correram e Driscoll sabia qual era a fonte, pois isso já acontecera com ele: uma bota escorregou. Permaneceu imóvel. Depois da curva, as passadas pararam. Dez segundos transcorreram, depois vinte. Por meio minuto, nada se mexeu. Então, os passos recomeçaram. Ainda despreocupados.

Driscoll apoiou a M4 no ombro e virou a esquina e lá estava o babaca. Um momento depois, ele estava com duas balas no peito e uma terceira na testa, e caiu sem um gemido. Era mais velho que o de fora, talvez com 25 anos, e tinha uma barba espessa. Azar o seu. Driscoll avançou, passando ao lado do corpo e dobrando à direita, depois esperando seus companheiros se aproximarem. Podia ver mais uns 6 metros adiante. Avance. Qual a profundidade dessa caverna? Impossível dizer naquele momento. Segurou firme a carabina com as mãos.

Havia mais luzes adiante, piscando. Velas, provavelmente. Talvez os babacas precisassem de luzes noturnas, como os filhinhos de Driscoll. O chão da caverna ainda estava limpo. Alguém limpara o lugar. Por quê?, perguntou-se Driscoll. Há quanto tempo?

E continuou avançando.

A curva seguinte era para a esquerda, um arco suave e limpo na rocha de calcário, e na curva seguinte, muitas luzes — relativamente falando. Sem o PVS-17 seria, no máximo, um brilho suave.

Foi quando ele escutou um ruído. Ronco. Não muito adiante. Driscoll não avançava rapidamente, mas então diminuiu ainda mais. Hora de ser cuidadoso. Aproximou-se da curva, arma apontada, virando, virando vagarosamente.

Pronto. Era o que procurava. Madeira sem acabamento. Simples e conhecidas vigas de madeira, dessas que não cresciam direto do chão. Alguém as levara desde a civilização até ali, e esse alguém usara um serrote para cortá-las e ajustar o tamanho.

Com certeza, alguém vivia ali, e não era um simples esconderijo de ocasião. Era algo muito elaborado para uma simples caverna.

Ele começou a ficar animado, sentia o formigamento na barriga. Isso não acontecia frequentemente com o primeiro-sargento (E-8) Sam Driscoll. Sua mão esquerda fez o gesto para que os companheiros se aproximassem. Todos ficaram em um intervalo de uns 3 metros e seguiram em frente.

Beliches duplos. Para isso é que a madeira tinha sido usada. Ele podia ver oito deles. Todos ocupados. Seis beliches, seis babacas. Um deles parecia até ter um colchão, desses de plástico inflável que se podia comprar na Gander Mountain. No chão, havia uma bomba acionada por pedal. Seja lá quem fosse, gostava de dormir confortavelmente.

Ok. E agora?, perguntou a si mesmo. Não era sempre que ele não sabia o que fazer, e quase sempre se aconselhava com o comandante da companhia, mas o capitão Wilson estava preso no alto de uma colina a 15 quilômetros de distância dali, o que colocava Driscoll no comando, e, de repente, comandar parecia ser algo muito solitário. O pior é que aquela não era a última sala. A caverna continuava para o fundo. Sem indicação de quanto mais. Ah, merda.

De volta ao trabalho.

Ele avançou. Suas ordens eram bem simples, e, para cumprir o objetivo, tinha um silenciador para sua pistola, que ele agora sacou do coldre. Colocou a Beretta próxima à cabeça do homem e disparou o primeiro tiro. O silenciador funcionou como previsto. O barulho da ação da pistola foi maior que o do próprio disparo. Ele chegou a escutar o ruído do cartucho de cobre chacoalhando no chão com aquele barulhinho que parecia feito por um brinquedo. Seja lá com o que o sujeito estivesse sonhando, tinha se tornado tão real quanto o inferno. Os homens dormindo nos beliches de baixo partiram do mesmo modo.

Driscoll pensou por um instante que, no mundo civil, isso seria considerado assassinato, mas essa não era sua preocupação. Esses sujeitos tinham se colocado do lado de pessoas que estavam travando guerra contra seu país, e era culpa deles não ter montado guarda suficiente no quartel. A preguiça gerava consequências, e a guerra tinha regras duras para quem as violava. Em três segundos todos os demais homens foram despachados. Talvez conseguissem sua cota de virgens. Isso Driscoll não sabia. Nem se importava. Nove vilões abatidos e mortos. Ele avançou. Atrás dele, seguiam mais dois Rangers, não perto demais, mas o suficiente, um com a pistola e o outro com a carabina M4 para vigilância, tal como dizia O Livro. A caverna dobrava para a direita logo adiante. Driscoll avançou, parando um instante apenas para respirar. Viu mais beliches. Dois.

Porém nenhum dos dois estava ocupado. A caverna continuava se aprofundando. Ele já estivera num monte de cavernas semelhantes. Algumas se estendiam até 300, 400 metros. Mas a maioria não. Algumas eram quase como closets, mas também não era o caso desta. Tinha ouvido falar que algumas, no Afeganistão, iam até a metade do infinito, compridas demais para que os russos as derrotassem, a despeito de medidas significativas para isso, até inundá-las com óleo diesel e jogar um fósforo dentro. Talvez usar gasolina fosse melhor ali, pensou Driscoll. Ou talvez explosivos. Os afegãos eram bem duros e a maioria não temia a morte. Driscoll jamais encontrara esse tipo de gente antes de vir para essa parte do mundo. Mas eles morriam, assim como todos os outros, e então os problemas que criavam desapareciam com eles.

Um passo de cada vez. Nove corpos atrás deles, todos homens, todos na casa dos 20 anos, jovens demais para ter informações úteis, provavelmente, e Guantánamo já tinha bastantes inúteis sentados atrás das grades. Trinta anos ou mais — então talvez valesse a pena poupar suas vidas para que algum sujeito da inteligência conversasse com eles. Mas todos eram jovens demais, e agora estavam todos mortos.

De volta ao trabalho.

Nada mais a ser visto aqui. No entanto ainda havia um brilho fraco adiante. Talvez outra vela. Seu olhar abaixava a cada poucos passos, procurando pedras que pudessem gerar algum ruído, e no momento o ruído era seu inimigo mais perigoso. Barulho acordava as pessoas, especialmente num lugar como esse. Ecos. Por isso as botas tinham solas flexíveis. A curva seguinte era para a esquerda, e parecia mais pronunciada. Hora de ir mais devagar novamente. Uma curva mais pronunciada significava lugar para sentinela. Vagarosamente, vagarosamente. Quatro metros. Mais ou menos 12 pés. Vagarosamente, gentilmente. Como se enfiar no quarto de dormir de um bebê para vê-lo deitado no berço. Mas ele se preocupava mesmo com algum adulto na esquina, segurando um rifle e com o sono entrecortado. Continuava com a pistola sacada, segura com as duas mãos, o silenciador com jeito de lata de refrigerante aparafusado na ponta. Onze tiros ainda no carregador. Parou e se voltou. Os dois Rangers permaneciam ali, olhares fixados nele. Não assustados, mas tensos e totalmente focados. Tait e Young, dois sargentos da Companhia Delta, Segundo Batalhão, 75º Regimento Ranger. Profissionais completamente sérios, tal como ele, ambos em busca de uma carreira no Exército.

Olho no trabalho. Era difícil, às vezes, manter o foco. Mais um par de passos até a esquina. Era uma esquina aguda. Driscoll se aproximou... e enfiou a cara para olhar do outro lado. Havia alguém por perto. Um afegão ou outro tipo qualquer de babaca, sentado em uma... cadeira? Não, parecia mais uma pedra. Esse era mais velho do que ele esperava. Talvez uns 30 anos. O sujeito não estava simplesmente sentado nem bem-adormecido, mas também não acordado. Como se entre os dois estados, e realmente sem prestar atenção. O homem tinha uma arma, um AK-47, pouco mais de 1 metro distante da mão, encostado na pedra. Perto, mas não o bastante para ser alcançada numa emergência de verdade, como a que o sujeito logo iria enfrentar.

Driscoll se aproximou em silêncio, movimentando as pernas de modo exagerado, aproximando-se, e...

Ele deu uma porrada no lado direito da cabeça do sujeito. Talvez o suficiente para matar, mas provavelmente não. Driscoll enfiou a mão em um dos bolsos do casaco de combate e tirou um par de algemas de plástico. Esse era provavelmente velho o bastante para os espiões interrogarem, e provavelmente iria parar em Guantánamo. Deixaria Tait e Young o empacotarem para transporte. Chamou a atenção de Tait, apontou para a forma inconsciente e fez um gesto de enrolar com o indicador. Embrulhe-o. Tait assentiu em retorno.

Outra volta mais adiante, uns 5 metros à frente, à direita, e o brilho piscava.

Seis passos a mais, depois à direita.

Driscoll não perdeu o foco. Passos vagarosos, cuidadosos, a arma bem segura.

A câmara seguinte, que media aproximadamente uns 10 metros por 10, resultou ser o fim da caverna. Estava, talvez, a uns 60 metros da entrada. Fundo o suficiente. Essa caverna provavelmente fora preparada para os importantes. Talvez para o importante? Ele saberia dentro de alguns minutos. Geralmente, não se permitia esse tipo de pensamento. Mas essa era a razão fundamental da missão. Talvez, talvez, talvez. Por isso Driscoll era um Ranger de operações especiais. Avançar, vagarosamente. Sua mão se levantou atrás dele.

Estava tão escuro que seus óculos de visão noturna PVS-17 mostravam agora tanto ruído de recepção quanto imagens, como pipoca em seu campo de visão, estourando e esvoaçando ao redor. Ele deslizou até a quina e olhou mais adiante, muito cuidadosamente. Alguém estava ali, deitado. Havia um AK-47 bem ao alcance, completo com um pente de plástico pré-carregado. O sujeito parecia estar adormecido, mas nisso eles eram bons soldados. Não adormeciam completamente como os civis, mas de modo leve e alerta. E Driscoll queria o cara vivo. Muito bem, sem problema, naquela noite ele já havia matado um punhado de gente só nos últimos dez minutos, mas esse aí ele queria vivo... se possível...

Muito bem. Driscoll passou a pistola para a mão direita e com a esquerda tirou a granada de luz das correias do peito do casaco. Tait e Young viram aquilo e se imobilizaram no lugar. A caverna logo iria se transformar. Driscoll levantou um dedo. Tait respondeu ao sargento superior com o polegar para cima. Hora de botar para quebrar. O babaca já iria ouvir o despertador. Tait olhou ao redor. Uma vela pequena que iluminava bem o aposento. Driscoll recuou um ou dois passos, desligou sua visão noturna e puxou o pino da granada. Soltou a trava, esperou um instante e depois a atirou, contando, 1.001, 1.002, 1.003...

Soou como o fim do mundo. Os dez gramas de pó de magnésio estouraram como o sol do meio-dia, mas ainda mais brilhante. E o barulho. O barulho soou e foi sentido como o fim do mundo, estourando um BUM que acabou com qualquer sonho que o babaca estivesse desfrutando. Então Driscoll entrou. Ele não ficara tonto com a explosão. Estava aguardando-a, e assim seus ouvidos se ajustaram ao ruído e ele fechara os olhos para atenuar a magnitude do flash. O babaca não desfrutara dessa proteção. Seus ouvidos tinham sido violentados e isso afetava seu equilíbrio. Ele nem tentou pegar a arma próxima, mas Driscoll havia saltado e a chutado para longe, e em seguida estava com a pistola bem diante do rosto do babaca. Ele não tinha a menor chance de resistir e essa era a intenção do sargento.

Foi então que percebeu que estava com o alvo errado. Ele era barbado, mas tinha 30 e poucos anos, ainda longe dos 40. Babaca errado foi seu pensamento imediato, seguido por Merda. O rosto era a personificação da confusão e do choque. Sacudia a cabeça, tentando iniciar seu cérebro, mas, apesar de ser jovem e durão, não reagiu com a rapidez que as necessidades do momento exigiam.

Driscoll viu movimento perto dos fundos da câmara, uma sombra agachada, deslizando pela parede rochosa. Não se movendo na direção deles, mas para outro ponto qualquer. Driscoll colocou a pistola de volta no coldre, voltou-se para Tait e apontou para o babaca no chão — Algeme —, e depois ligou sua visão noturna e enquadrou a mira da M4 na sombra em movimento. Outro babaca barbudo. Seu dedo apertou levemente o gatilho, mas ele se deteve, agora curioso. A 4 metros do sujeito, ainda encostado na parede, havia um AK-47. Ele evidentemente tinha escutado a granada e sabia que a merda estava a caminho, então estaria tentando escapar?, perguntou-se Driscoll. Ainda o seguindo com a mira da M4, Driscoll o acompanhou, procurando uma saída... Ali: uma abertura de 2 metros na parede rochosa. Focou de volta e viu que o babaca tinha uma granada na mão direita. Era uma versão 40 milímetros de uma RPG-7, que os locais adoravam converter a carga para versões de lançamento manual.

Não tão rápido, cara, pensou Driscoll, e fixou a mira da M4 na orelha do homem. Ao mesmo tempo, o sujeito estendeu o braço para trás, por baixo, para atirar a granada. A bala 5,56mm de Driscoll entrou logo acima do ouvido do sujeito, atrás do olho. A cabeça estalou para trás e ele desabou, mas não antes que a granada estivesse voando, quicando na direção deles.

— Granada! — gritou Driscoll, e se atirou no chão.

Brum!

O sargento olhou para o alto e ao redor.

— Contagem!

— Ok — respondeu Tait, seguido rapidamente por Young e os demais.

A granada havia quicado na parede e rolado antes de parar, deixando uma cratera do tamanho de uma bola de areia no chão.

Driscoll tirou seu PVS-17 e sacou uma lanterna. Essa, ele ligou e focou ao redor. Aquele era o segmento de comando da caverna. Havia muitas prateleiras de livros e até mesmo um tapete no chão. A maioria dos afegãos que eles encontravam eram semianalfabetos, mas havia livros e revistas em evidência, alguns em inglês. Uma prateleira com alguns livros belamente encadernados em couro. Um em particular... couro verde, incrustações em ouro. Driscoll o folheou. Uma iluminura estampada — não por máquina e sim pela mão de algum escriba há muito morto com tinta multicolorida. Esse livro era antigo, realmente antigo. Em árabe, pelo menos era o que parecia, escrito à mão e iluminado com folhas de ouro. Devia ser uma cópia do Sagrado Corão, e não havia como saber sua idade ou valor relativo. Mas era valioso. Driscoll o guardou. Algum espião iria querer dar uma olhada. Em Cabul eles tinham um par de sauditas, oficiais militares superiores que davam apoio ao pessoal das Operações Especiais e aos espiões do Exército.

— Ok, Peterson, tudo limpo. Mande para o ar o código de chamada — disse Driscoll via rádio para seu especialista em comunicações. — Alvo sob controle. Nove alvos abatidos para a contagem, dois prisioneiros vivos. Nenhuma baixa amiga.

— Mas nada debaixo da árvore de Natal, Papai Noel — comentou o sargento Young em voz baixa. — Droga, tinha um bom pressentimento em relação a isso quando entrávamos. Tinha a sensação certa, acho. — Mais um buraco vazio para as tropas de Operações Especiais. Eles andavam furando muitos buracos desse tipo, mas isso fazia parte da natureza das Operações Especiais.

— Eu também. Qual o seu nome, babaca? — perguntou Driscoll ao prisioneiro de Tait. A granada de luz realmente havia derrubado o giroscópio do filho da mãe. Ele ainda nem compreendia que podia ter sido pior. Uma merda muito pior. Mas, também, quando os interrogadores começassem a cuidar dele...

— Muito bem, pessoal, vamos fazer uma limpeza nesse buraco. Procurem por um computador e qualquer coisa eletrônica. Virem o lugar de cabeça para baixo e de dentro para fora. Qualquer coisa interessante, empacotem. Mandem alguém vir aqui pegar nosso amigo.

Havia um helicóptero Chinook em alerta rápido para a missão, e talvez ele estivesse a bordo dentro de uma hora. Droga, queria passar pelo clube para suboficiais de Fort Benning e beber um copo de Sam Adams, mas isso ainda ia levar pelo menos uns dois dias.

 

Enquanto o restante de sua equipe estabelecia um perímetro de vigilância do lado de fora da entrada da caverna, Young e Tait faziam buscas no túnel de entrada. Descobriram algum material, mapas e coisas do tipo, mas não toparam com nenhum tesouro evidente. Era assim que essas coisas funcionavam. CDFs ou não, o pessoal da inteligência conseguia fazer uma refeição completa a partir de uma noz. Um pedacinho de papel, um Corão manuscrito, algum desenho feito com lápis de cera vermelho — eles às vezes faziam milagres com essas coisas, e por essa razão Driscoll não iria desperdiçar nenhuma chance. O alvo deles não estava lá, e isso era uma maldita vergonha, mas talvez a merda que os babacas tivessem deixado poderia dar a pista para alguma outra coisa, que por sua vez resultasse em algo bom. Era assim que funcionava, apesar de Driscoll não se ocupar muito com essas coisas. Estava acima do seu salário e da sua MOS. Que dessem a ele e aos Rangers a missão, e que alguém mais se preocupasse com os comos, os o quês e os porquês.

Driscoll caminhou para o fundo da caverna, apontando a lanterna ao redor, até chegar ao aposento que o babaca havia se empenhado tanto em destruir. Era mais ou menos do tamanho de um closet, como ele percebia agora, talvez um pouco maior, com um teto baixo. Ele se acocorou e entrou bamboleando alguns metros dentro do aposento.

— O que você achou? — perguntou Tait, entrando atrás dele.

— Um caixão de areia e um engradado de madeira com munição.

Uma placa de compensado de 2 centímetros de espessura, quadrada, com mais ou menos 2 metros de largura, coberta com modelos colados em areia e papel machê de montanhas e espinhaços, com edifícios quadrados espalhados aqui e ali. Parecia uma coisa dessas que se viam nos velhos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial ou num diorama desses de colégio. Trabalho bem-feito também, nada dessas coisas improvisadas que às vezes se encontra com esses sujeitos. Na maioria das vezes, os babacas dali rabiscavam um mapa no chão, rezavam alguma coisa e saíam para a ação.

O terreno não era familiar a Driscoll. Podia ser qualquer lugar, mas com certeza parecia ser uma área acidentada o suficiente para estar por ali mesmo, o que não estreitava muito as possibilidades. Também nada de pontos de referência. Nada de edifícios ou estradas. Driscoll levantou a ponta do caixão. Era bastante pesada, talvez uns 40 quilos, o que resolvia um de seus problemas: não havia como levar aquilo montanha abaixo. Era uma maldita de uma descida tortuosa; naquela altitude o vento era impiedoso e eles ou perderiam a coisa numa rajada ou ela começaria a adejar e poderia derrubá-los. E separá-la em pedaços poderia arruinar algo valioso.

— Ok, tire as medidas e pegue algumas amostras, depois veja se Smith já terminou de tirar as fotos do rosto dos babacas e fotografa esse troço em detalhe — comandou Driscoll. — Quantos cartões SD nós trouxemos?

— Seis. Cada um com 6 giga. É o bastante.

— Ótimo. Diversas fotos de tudo, na maior resolução possível. Traga alguma iluminação extra para cá e deixe alguma coisa do lado para mostrar a escala.

— Reno tem uma trena.

— Ótimo. Use. Muitos ângulos e closes, quanto mais, melhor. — Essa era a beleza das câmaras digitais. Tire quantas fotos quiser e apague as que ficarem ruins. Neste caso, deixariam a tarefa de apagar para o pessoal da inteligência. — E verifique cada centímetro para ver se há marcas.

Nunca se sabia o que era importante. Muito dependeria da escala do modelo, suspeitou. Se estivesse em escala, poderiam colocar as medidas num computador, fazer alguma álgebra, algoritmos ou seja lá o que for e sair com uma equivalência em algum lugar. Quem sabe, talvez aquele troço em papel machê resultasse ser algo especial ou alguma coisa feita apenas num beco qualquer em Kandahar. Merdas ainda mais estranhas já aconteceram, e ele não daria nenhum motivo para o pessoal de cima encher o seu saco. Já estariam bastante chateados pelo inimigo não estar ali, mas isso não era culpa de Driscoll. Inteligência pré-missão, boa ou ruim ou vice-versa estava além do controle de um soldado. Ainda assim, valia o velho ditado militar: “A merda escorre para baixo.” Era mais verdadeiro do que nunca, e nesse negócio sempre havia alguém morro acima pronto para dar um empurrão no balde de merda.

— Pode deixar comigo, chefe — disse Tait.

— Solte uma granada de fragmentação quando terminar. Melhor terminar o serviço que eles deveriam ter feito.

Tait saiu trotando.

Driscoll voltou a atenção para o engradado de munição, pegando-o e levando para a entrada do túnel. Lá dentro havia um maço de papéis de quase 10 centímetros de altura — algumas folhas de bloco pautadas, cobertas com escritos em árabe, alguns números ao acaso e rabiscos —, e um grande mapa duplo dobrado. Um lado estava intitulado: “Carta de folha de navegação operacional, G-6, Agência de Mapeamento de Defesa, 1982”, e exibia a região da fronteira afegã-paquistanesa, enquanto a outra, colada com fita adesiva, era um mapa de Peshawar rasgado de um guia de viagem Baedeker.