Morto ou Vivo
Capítulo 90
Depois do fluxo quase constante de adrenalina que Clark e sua equipe receberam desde que desceram em Las Vegas 24 horas antes, o que aconteceu depois de chegarem à casa de Hendley foi um anticlímax. Para o óbvio desapontamento de todos, Pasternak anunciou que seria necessário mais um dia, talvez dois, antes que seu paciente estivesse estável o suficiente para ser interrogado. Isso deixou todos com tempo de sobra para desperdiçar e não fazer nada além de jogar cartas e ver os noticiários. Sem que surpreendesse ninguém, não houve nem rumor sobre o que acontecera em Yucca, mas sim a cobertura completa do que as redes de TV estavam universalmente chamando de “Ataques ao coração do país”. A explosão da Claymore na igreja em Waterloo, em Iowa, deixara 32 mortos e cinquenta feridos; o ataque de morteiros na inauguração da estátua em Springfield, no Missouri, deixara 22 mortos e 14 feridos; o caso das granadas na piscina em Brady, Nebraska, deixara apenas seis mortos e quatro feridos, graças à reação rápida de um policial de folga que atirou no atacante depois de ele ter rolado somente três granadas sob as arquibancadas. Os atacantes de Waterloo e Brady, que foram rastreados até suas residências horas depois dos acontecimentos, haviam liquidado as próprias vidas. Acrescentadas aos demais ataques, as baixas já alcançavam os três dígitos.
Graças à mão orientadora do FBI e da Segurança Nacional, o ataque quase frustrado de gás de cloro a bordo do Losan em Newport News fora atribuído a um incêndio na cozinha.
Por volta das quatro horas da tarde de seu primeiro dia na casa de campo de Hendley, quando a plastificada apresentadora e o âncora de queixo duro que dominavam o noticiário vespertino anunciaram coletivamente que o presidente Edward Kealty se dirigiria ao público às oito horas da noite, horário da Costa Leste, Clark se levantou e procurou Pasternak. Achou o médico na marcenaria de Hendley, um celeiro adaptado atrás da casa. A bancada com topo de bordo fora convertida em mesa de operações improvisada, incluindo lâmpadas de halogêneo de trabalho, respirador Drager, máquina de eletrocardiograma e ressuscitador de Marquette, que continha até um desfibrilador manual externo para normalizar batimentos cardíacos irregulares. As duas máquinas eram novas, recém-retiradas dos caixotes dos fabricantes, amontoados a alguns metros de distância. Tudo estava preparado para uso, faltando apenas o hóspede de honra, abrigado em um dos quartos sob os turnos de vigilância de Chavez, Jack e Dominic.
— Tudo pronto? — perguntou Clark.
Pasternak apertou vários botões na máquina de eletrocardiograma e recebeu uma série de bipes aparentemente satisfatórios como resposta. Desligou a unidade e olhou Clark.
— Sim.
— Alguma dúvida?
— Por que pergunta isso?
— Você não é exatamente um jogador de pôquer, doutor.
Pasternak sorriu com a resposta.
— Nunca fui bom nisso. Acho que é essa coisa do juramento de Hipócrates; coisa difícil de se livrar. Mas já passei dez anos pensando nisso, acho. Depois do 11 de Setembro, não conseguia distinguir se tudo se tratava apenas de vingança ou se de algo maior, tipo o bem comum e coisa assim.
— E o que concluiu?
— São as duas coisas, porém mais do último. Se conseguirmos tirar desse sujeito alguma coisa que ajude a salvar vidas, então acharei um jeito de lidar com o que fiz... com o que vou fazer. Ou, se Deus quiser, com o passar do tempo.
Clark considerou o que ele disse, e assentiu.
— Doutor, em maior ou menor grau, estamos todos no mesmo barco. O que podemos decidir é o que consideramos certo, fazer isso, e o resto vem como vier.
A expectativa fez todos se levantarem ao amanhecer no dia seguinte. Dominic, o melhor cozinheiro do grupo, preparou uma tigela de aveia e torradas de pão branco para o hóspede, o qual, completamente desperto e evidentemente com dores, teimosamente recusou.
Dr. Pasternak o examinou às sete horas. Demorou apenas alguns minutos. Pasternak olhou Hendley, parado na porta, o restante do grupo atrás dele.
— Sem febre nem sinais de infecção. Está pronto.
Hendley assentiu.
— Vamos levá-lo.
O Emir nem resistiu nem ajudou quando Chavez e Dominic o levaram pela porta dos fundos e pela entrada lateral do galpão. Só quando viu o balcão iluminado com lâmpadas de halogêneo e presilhas de couro improvisadas é que seu rosto mudou. Jack notou a expressão fugaz, mas realmente não conseguiu distinguir sua natureza: medo ou alívio? Medo pelo que viria ou alívio porque suspeitava que o martírio estivesse próximo?
Como tinham treinado na noite anterior, Chavez e Dominic deitaram o Emir na bancada. Seu braço direito foi preso no suporte de couro, enquanto o esquerdo, que estava do mesmo lado dos equipamentos, foi esticado sobre uma toalha dobrada e preso do mesmo modo. Finalmente, as duas pernas foram atadas. Chavez e Dominic se afastaram da bancada.
Pasternak começou a ligar os equipamentos: primeiro a máquina de eletrocardiograma, depois o respirador, seguido por um autodiagnóstico do desfibrilador manual externo. Pasternak então voltou sua atenção para o carrinho com rodas ao lado da mesa, onde havia um conjunto de seringas e garrafas. Tudo observado de perto pelo Emir.
Ele devia estar curioso, pensou Jack, e internamente aterrorizado. Ninguém podia ficar indiferente ao que acontecia ao seu redor, muito menos o homem que estava acostumado a ser o controlador final de tudo que acontecia em seu entorno, acostumado a ter todas as suas ordens rapidamente obedecidas. O mundo que o cercava não estava mais sob seu controle. Não havia como ele pudesse estar confortável com isso, mas mantinha um sentido de dignidade que era, por sua vez, bem impressionante. Muito bem, ele era corajoso, mas a coragem não era uma qualidade infinita. Tinha seus limites, e os que estavam na sala com ele explorariam esses limites.
Dr. Pasternak enrolou a manga e desabotoou a camisa do Emir, depois se afastou da mesa, indo até o carrinho, de onde retirou uma seringa de plástico e um frasco de vidro. Verificou seu relógio e olhou os demais.
— Vou começar com 7 miligramas de sucinilcolina — declarou Pasternak, medindo cuidadosamente a quantidade na seringa de plástico enquanto puxava o êmbolo. — Alguém anote isso, por favor.
Na prancheta em que Pasternak pediu que tudo fosse anotado, Ding escreveu a informação: 7mg @ 8:58.
— Muito bem — disse o médico. Enfiou a seringa na veia braquial na parte interna do cotovelo e empurrou o êmbolo.
Não houve nenhuma dor real para Saif Rahman Yasin, apenas a picada de alguma coisa perfurando a pele do lado de dentro do cotovelo, e a agulha logo foi retirada. Estariam o envenenando?, perguntou-se. Nada óbvio parecia estar acontecendo. Olhou para o homem que acabara de aplicar a injeção e viu um rosto que esperava por alguma coisa. Isso era vagamente assustador, mas era tarde demais para ter medo. Disse a si mesmo para ser forte e fiel a Alá, ter confiança em sua fé, porque Alá podia lidar com qualquer coisa que os homens fizessem, e ele, o Emir, se fortalecia em sua fé. Recitou para si mesmo sua profissão de fé, aprendida quando criança há mais de quarenta anos, de seu próprio pai, na casa da família em Riad. Só há um Deus, que é Alá, e Maomé é seu profeta. Allahu akbar. Deus é grande, disse a si mesmo, pensando na sua declaração de fé o mais alto que podia no silêncio de sua mente.
Pasternak observava e esperava. Seu cérebro disparou. Estaria fazendo a coisa certa? Era tarde para se preocupar com isso, claro, mas, mesmo assim, a mente se fazia a pergunta. Os olhos do homem se fixavam nos deles agora, e o médico disse a si mesmo para não vacilar. Ele é que estava no controle. Completamente no controle do destino do homem que assassinara seu parente mais próximo, seu amado irmão, Mike. O homem que ordenara o piloto do avião a jogá-lo no World Trade Center, provocando o incêndio que enfraqueceria o aço estrutural e jogaria abaixo todo o escritório da Cantor Fitzgerald por 300 metros, até as ruas da Lower Manhattan, esmagando até a morte mais de 3 mil pessoas, mais do que os que morreram em Pearl Harbor. Ali estava o rosto do maldito assassino. Não, ele não iria mostrar nenhuma fraqueza agora, não diante desse bárbaro filho da puta...
O homem esperava algo, pensou o Emir, mas o quê? Não havia dor, nenhum desconforto. Ele simplesmente injetara alguma coisa em sua corrente sanguínea. O que seria? Se fosse veneno, bem, então o Emir logo veria o rosto de Alá, e poderia relatar a Ele que cumprira a vontade de Deus, como todos os homens faziam, soubessem ou não, porque tudo que acontecia no mundo era a comando de Alá, porque tudo que jamais acontecia na terra ou nos céus era escrito pela própria mão de Deus. Mas ele livremente escolhera cumprir a vontade de Alá.
Mas nada estava acontecendo. Ele não sabia, não podia perceber, que sua mente disparava na velocidade da luz, ultrapassando tudo, até mesmo o sangue em suas artérias, espalhando seja lá o que fosse que o médico injetara nele. Desejava que fosse veneno, pois aí logo veria o rosto de Alá, e então poderia dar-Lhe as contas de sua vida, sobre como havia obedecido Sua vontade da melhor forma como a compreendera... mas teria mesmo feito isso? Era o momento da verdade final. Ele tinha feito a vontade do Senhor Deus, não tinha? Não tinha estudado o Sagrado Corão durante toda sua vida? Não havia praticamente memorizado o Livro Sagrado? Não tinha discutido seu significado profundo com os mais proeminentes acadêmicos do reino da Arábia Saudita? Sim, ele discordara de vários deles, mas a natureza de sua discordância fora honrada e direta, fundamentada em sua visão pessoal da escritura, em sua interpretação da palavra divina tal como escrita e distribuída pelo profeta Maomé, que Bênçãos e Paz caiam sobre sua cabeça. O Profeta fora um homem grande e bondoso, como deveria para ser o escolhido pelo próprio Deus como Mensageiro Sagrado, o portador da vontade de Deus para os povos da terra. Pasternak observava o movimento do ponteiro de segundos de seu relógio. Um minuto transcorrido... mais uns trinta segundos, calculou. Sete miligramas deviam ser o suficiente para essa aplicação, injetada como foi, diretamente na corrente sanguínea, fundindo-se nos tecidos corporais do homem... no começo seriam...
... os gânglios motores. Sim, eles seriam os primeiros. Esses nervos amplamente distribuídos, os que controlavam os sistemas periféricos, como os das pálpebras, bem assim... agora.
Pasternak moveu sua mão na direção do rosto do homem, batendo em suas pálpebras, e elas não piscaram.
Sim, estava começando.
O Emir viu a mão esbofeteando seu rosto, mas parando bem a tempo. Involuntariamente piscou os olhos... mas eles não piscaram... Hã? Tentou mover a cabeça, mas ela mal se mexeu um centímetro e caiu de volta... O quê? Ordenou que seu punho direito se fechasse e puxasse contra as algemas, e a mão começou e parou, caindo de volta para a posição de descanso sobre a superfície de madeira da mesa, os dedos se abrindo por conta própria.
Seu corpo não era seu...? O que era isso? O que era isso? Ele moveu as pernas, e elas se moveram ao comando de seu cérebro, só um pouco, mas se moveram como deveriam, tal como faziam desde o começo de suas lembranças de infância, seguindo os comandos de seu cérebro, como o corpo sempre fizera. Ordene seu braço, dissera um filósofo infiel, e ele se move; ordene sua mente, e ela resiste. Mas sua mente funcionava, e seu corpo não. O que era isso? Girou a cabeça para olhar pela sala. Sua cabeça não se moveu, a despeito de seus comandos; nem os olhos. Ele podia ver os painéis brancos do teto. Tentou focar seus olhos melhor neles, mas os olhos não funcionavam como deviam. Seu corpo era como se fosse o de outro homem; podia senti-lo, mas não mais comandá-lo. Mandou as pernas se moverem, e elas mal tremeram, depois se congelaram, completamente moles. Moles como um cadáver.
O que era isso? Estou morrendo? É isso, a morte? Mas não era a morte. De algum modo ele sabia disso, e...
Pela primeira vez, o Emir começou a sentir um começo do medo. Não compreendia o que acontecia. Só sabia que seria muito ruim.
Para Clark, parecia que o sujeito ia dormir. Seu corpo parou de se mexer. Houve alguns reflexos e pequenos espasmos, como o de alguém se arrumando na cama, mas tudo isso parou com rapidez surpreendente. O rosto ficou vazio, sem foco, sem exibição de força ou poder e ausência de medo. Agora tinha o rosto de um manequim. O rosto de um cadáver. Ele já havia visto isso frequentemente em sua vida. Nunca pensara como era para a mente por trás do rosto. Quando a morte acontecia, o problema com aquele corpo terminava para sempre, permitindo-lhe passar para o problema seguinte, deixando aquele atrás para sempre. Nunca fora necessário para Clark destruir um cadáver. Quando morria, o corpo estava liquidado, certo? Uma parte de Clark queria se aproximar do médico e perguntar o que estava acontecendo, mas não o fez, não querendo perturbar o homem responsável pela atual operação ainda...
Ele podia sentir todo o corpo. Isso era de uma clareza cristalina para Saif. Não podia mover nenhuma parte, mas podia sentir tudo. Podia sentir o sangue bombeando por suas artérias. Mas não podia movimentar os dedos. O que era isso? Tinham roubado dele seu próprio corpo. Já não era mais seu. Podia senti-lo, mas não comandá-lo. Era prisioneiro em uma cela, e a cela era... ele mesmo...? O que era isso? Estavam o envenenando? Isso seria a aproximação da morte? Se assim fosse, não era para estar lhe dando boas-vindas? Será que o rosto de Deus estava a alguns momentos adiante? Se assim fosse, ordenou sua mente que sorrisse. Se o corpo não podia se movimentar, a alma podia, e Alá conseguia ver sua alma tão claramente quanto uma enorme pedra no meio do mar. Se isso fosse a morte, então ele lhe daria as boas-vindas como a culminação de sua vida, um dom que proporcionara a tantos homens e mulheres, a oportunidade de ver o rosto de Alá, como ele logo veria... sim... Sentiu o ar entrando em seus pulmões, dando a ele seus últimos segundos de vida enquanto esses infiéis a roubavam dele. Mas o Senhor Alá os faria pagar por isso. Disso ele tinha certeza. Certeza total.
Pasternak verificou novamente o relógio. Chegando à marca dos dois minutos, chegando à última parte. Ele se virou e olhou o ressuscitador. A luz piloto verde estava acesa. O mesmo com a do respirador. Ele os teria disponíveis caso necessitasse. Podia restaurar a vida desse filho da mãe. Imaginou o que Mike pensaria disso, mas o pensamento estava muito longe para que se grudasse nele agora. O que acontecia depois da morte era desconhecido para os vivos. No final, todos descobriam, mas ninguém podia voltar e relatar aos vivos. O grande mistério da vida, o assunto da filosofia e da religião, crenças, talvez, mas desconhecidos. Bem, esse tal de Emir iria dar uma espiadinha, mais ou menos. O que ele veria? O que ele aprenderia?
— Só mais um momento — informou Pasternak aos que estavam ao seu redor.
O Emir escutou e entendeu as palavras. Apenas um momento até ele ver o rosto de Deus. Apenas um instante antes do Paraíso. Bem, ele não chegara até onde pretendia ir. Não se tornara o líder mundial dos Fiéis. Mas tentara. Tentara o melhor possível, e seu melhor possível era muito, muito bom. Mas não o suficiente. Era uma pena, uma grande pena. Ele poderia ter feito tanto. Alguém agora teria que fazer isso. Ahmed, talvez? Um bom homem, Ahmed, fiel e instruído, de bom coração e fé forte. Talvez fosse suficientemente bom... O Emir sentiu o ar entrando e saindo de seus pulmões. Sentia-o tão claramente. Era uma bela sensação, a própria sensação da vida. Como é possível que nunca tivesse apreciado isso, a beleza disso, a maravilha disso?
Então algo mais aconteceu.
Seus pulmões estavam parando. Seu diafragma não estava... não se mexendo. O ar não ia mais para os pulmões. Ele respirava desde o momento em que nasceu. Esse era o primeiro sinal de vida, quando o recém-nascido berrava abrindo seu caminho para o mundo, mas seus pulmões agora não se enchiam de ar. Não havia mais ar em seus pulmões... Isso era a morte chegando. Bem, ele havia enfrentado a morte nos últimos trinta anos. Nas mãos dos russos, nas mãos dos americanos, nas mãos dos afegãos que não aceitavam sua visão do Islã e do mundo. Tinha enfrentado a morte muitas, muitas vezes, o suficiente para que ela não o aterrorizasse. O Paraíso o aguardava. Tentou fechar os olhos e aceitar seu destino, mas seus olhos não fechavam. Ainda via os painéis do teto sobre sua cabeça, retângulos branco-gelo que o observavam de volta sem olhos. Era isso a morte? Era isso que os homens temiam? Que coisa estranha, sua mente observava, esperando, não com paciência, mas com confusão, pela escuridão total que o alcançaria. Seu coração continuava batendo. Ele podia senti-lo, latejando, bombeando sangue por seu corpo, e assim levando a vida, levando consciência, logo a terminar, mas ainda presente. Quando ele chegaria ao Paraíso?, perguntou-se o Emir. Quando veria o rosto de Alá?
— A respiração cessou aos três minutos e 16 segundos — relatou Pasternak. Chavez anotou também isso. O doutor pegou a máscara do respirador, verificando novamente se o sistema estava ligado. Apertou o botão na máscara de borracha e foi recompensado com o ruído mecânico do ar entrando por ela. Depois pegou as almofadas do ressuscitador e as pressionou contra o peito do homem, girando o olhar para o visor do ECG na pequena tela de computador. Observou que o ritmo cardíaco estava normal.
Isso não iria durar muito tempo.
O Emir ouviu sons estranhos ao redor, e sentiu coisas estranhas, mas era incapaz de desviar os olhos para buscar a fonte dos ruídos, pois estes estavam fixados nos painéis do teto. Então, pensou rapidamente, assim que é a morte. Foi assim para Tariq, com um tiro no peito? Ele fracassara diante de seu mestre, não por ser desleixado, mas porque o inimigo, neste caso, havia sido terrivelmente habilidoso e esperto. Isso podia acontecer com qualquer homem, e sem dúvida Tariq morrera envergonhado por fracassar na sua missão de vida. Mas Tariq agora estava no Paraíso, disso o Emir tinha certeza, talvez desfrutando de suas virgens, se isso realmente acontecia lá. Provavelmente não, sabia o Emir. O Corão não dizia isso, não realmente. Desfrutando dos favores de Alá. Isso sim era certo, como ele, o Emir, logo descobriria. E seria o suficiente.
Começou a doer um pouco, bem ali no meio do peito. Ele não sabia que, quando a respiração parou, também havia cessado a infusão de oxigênio em seu sistema. O coração, um músculo poderoso, precisava de oxigênio para funcionar, e, quando o oxigênio foi interrompido, os tecidos do coração começaram a sofrer... e logo começariam a morrer; o coração era cheio de nervos, e estes relatavam a falta de oxigênio como dor para seu cérebro ainda funcionando. Grande dor, a maior dor que um homem poderia conhecer.
Ainda não, mas a caminho.
Seu rosto não mostrava nada, é claro. Os nervos motores periféricos estavam todos mortos, ou não funcionavam, como Pasternak sabia. Mas as sensações estariam ali. Talvez pudessem medir no eletroencefalograma, mas isso somente exibiria traços de tinta negra sobre o papel branco do formulário contínuo, não a incandescente agonia que os traços representavam.
— Muito bem — disse Pasternak em voz baixa. — Já está começando. Vamos dar a ele um minuto, talvez um pouco mais.
Aprisionado em seu corpo sem funcionamento, Saif sentiu a onda de dor. Começou distante, mas aumentou contínua... e rapidamente. Seu coração estava sendo arrancado do peito, como se alguém tivesse avançado com as mãos dentro dele e o puxasse, rasgando os vasos sanguíneos no processo, rasgando tudo como se fosse papel de um livro destruído. Mas não era papel. Era seu coração, o próprio centro de seu corpo, o órgão que proporcionava vida para o restante dele mesmo. Agora parecia estar incendiando, queimando como lenha seca em um campo aberto cercada de pedras, queimando, queimando, queimando... dentro do peito, queimando. O coração estava queimando vivo, queimando enquanto ele o sentia. Não batendo, não enviando sangue pelo corpo, mas queimando como madeira seca, como gasolina, como papel, queimando, queimando, queimando... queimando enquanto ele vivia. Se isso fosse a morte, então a morte era uma coisa horrível, pensou... a pior das coisas. E ele a infligira a outros. Tinha atirado em soldados russos, todos infiéis, mas ainda assim liquidara com suas vidas, os fez sofrer isso... e achara divertido? Uma diversão. Parte da vontade de Alá? Será que Alá achava também divertido? A dor continuava aumentando, tornando-se insuportável. Mas ele tinha que sofrê-la. Ela não desapareceria. Nem ele. Não podia fugir daquilo, não podia rezar em voz alta a Alá para que a parasse, não podia negá-la. Estava ali. Transformada em toda sua realidade. Massacrando toda sua consciência. Transformando-se em tudo. Era um incêndio no meio do seu corpo, e o queimava de dentro para fora, e era mais terrível do que ele jamais imaginara que pudesse ser. A morte não vinha rapidamente? Não era Alá misericordioso em todas as coisas? Por que, então, Alá permitia que isso acontecesse com ele? Ele queria ranger os dentes para lutar contra a dor, queria, precisava, gritar alto para se proteger da agonia que vivia dentro de seu corpo.
Mas não conseguia comandar seu corpo a fazer nada. A realidade era somente a dor. Tudo que podia ver, sentir e ouvir era dor. Até mesmo o Senhor Alá era dor...
Alá fazia isso com ele. Tudo no mundo era vontade de Deus, então Deus desejara isso para ele? Como era possível? Não era Deus um deus de infinita misericórdia? Onde diabos estava essa Sua misericórdia agora? Será que Alá o abandonara? Por quê?
Por quê?
POR QUÊ?
Então sua mente se dissolveu na inconsciência, com um epílogo final de dor incandescente para colocá-lo no caminho.
No visor do ECG, as primeiras irregularidades começaram a aparecer. Isso atraiu a atenção de Pasternak. Normalmente, na sala de operações, como anestesista, sua tarefa era vigiar os sinais vitais do paciente. Isso incluía a máquina de ECG, e ele era, de fato, um cardiologista de primeira. Eles não queriam matar esse merda inútil, o que era uma pena. Podia simplesmente lhe dar uma morte como poucos homens sofreram, uma punição adequada para seus crimes, mas ele era médico, não carrasco, disse Pasternak a si mesmo, afastando-se da borda de um precipício alto e mortal. Não, tinham que trazer o sujeito de volta. Então ele pegou a máscara de ventilação. O “paciente”, como pensava, já estava inconsciente. Ele pressionou a máscara em seu rosto e apertou o botão, e a máquina infundiu ar nos pulmões flácidos e vazios. Pasternak levantou os olhos.
— Muito bem, anote o tempo. Estamos fazendo com que respire agora. O paciente está sem dúvida inconsciente, e estamos infundindo ar em seus pulmões. Isso deve demorar uns três ou quatro minutos, acho. Um de vocês pode vir até aqui?
Chavez era quem estava mais perto, e se aproximou imediatamente.
— Coloque essas almofadas no peito dele e segure bem.
Ding assim o fez, virando para olhar o visor do ECG. Os traços eletrônicos tinham se harmonizado e se repetiam regularmente, mas não no ritmo sinusal, algo que sua esposa poderia reconhecer, mas que para ele eram apenas coisas na TV. À sua esquerda, Dr. Pasternak apertava o botão de ventilação em intervalos regulares de oito ou nove segundos.
— O que está acontecendo, doutor?
— O coração dele se acalmou e agora está recebendo oxigênio. A sucinilcolina vai perder o efeito em mais uns dois minutos. Quando você observar o corpo dele se mexer, já estará quase toda eliminada. Vou fazer com que respire por mais uns quatro minutos — relatou o médico.
— Por que tipo de coisa ele passou?
— Você não vai querer descobrir. Fizemos com que ele sofresse o equivalente a um forte ataque cardíaco. A dor deve ter sido intensa, quero dizer, realmente infernal. Para esse sujeito, talvez tenha sido apenas horrivelmente ruim, mas decididamente foi horroroso para cacete. Dentro de alguns minutos veremos como ele responderá a isso, rapazes, mas passou por algo que ninguém jamais desejaria repetir. Provavelmente ele pensa que chegou ao fundo do inferno. Veremos o que isso faz... fez com ele dentro de alguns minutos.
Demorou quatro minutos e trinta segundos até as pernas se moverem. Dr. Pasternak olhou o visor do ECG no ressuscitador e relaxou. O Emir já estava fora da influência da sucinilcolina, e seus músculos agora estavam sob controle de seus nervos, tal como supostamente deveriam estar.
— Ele ainda ficará inconsciente por alguns minutos, até que seu cérebro receba suficiente sangue oxigenado — explicou o anestesista. — Vamos deixar que desperte normalmente, e depois poderemos falar com ele.
— Como estará seu estado mental? — perguntava Clark. Ele jamais vira algo remotamente parecido com aquilo antes.
— Depende. Suponho que seja possível que permaneça forte e resistente, mas não esperaria isso. Ele passou por uma experiência singular e muito, muito adversa. Não vai querer repeti-la. Passou por uma dor que faz um parto parecer um piquenique no Central Park. Só posso especular sobre o quanto foi terrível. Não conheço ninguém que tivesse passado por isso... bem, talvez alguém que tenha sofrido um forte ataque cardíaco, mas eles geralmente não se lembram da intensidade da dor. O cérebro não funciona assim. Apaga as dores violentas como mecanismo de defesa. Mas não desta vez. Ele vai se lembrar da experiência, se não da própria dor. Se essa experiência não o assustar além de qualquer coisa pela qual tenha passado, bem, então estamos falando de John Wayne com anfetaminas. Pessoas assim não existem no mundo real. Existe a complicação de suas crenças religiosas. Essas podem ser bem fortes. O quão fortes, bem, vamos ver, mas, se ele continuar resistindo daqui em diante, ficarei surpreso.
— Se ele resistir, podemos repetir a experiência? — indagou Clark.
Pasternak se voltou.
— Sim, podemos, quase indefinidamente. Ouvi falar lá em Columbia que a Stasi na Alemanha Oriental usava essa técnica para interrogar prisioneiros políticos e espiões, e que foi uniformemente bem-sucedida. Mas pararam de usar, não sei qual a razão. Talvez fosse maligna demais mesmo para eles. Como falei ontem, isso aqui saiu do programa da Escola de Medicina de Josef Mengele. O sujeito que dirigia a Stasi era judeu, se me lembro, Marcus Wolf, acho que era o nome dele. E talvez por isso tenha ficado afetado.
— Como está se sentindo, Rich? — perguntou Hendley.
— Estou bem. Mas ele não. — O médico fez uma pausa. — Ainda irão executar esse cara?
— Depende de quem ficar com ele no final — respondeu Hendley. — Se o FBI o pegar, ele vai passar pelo sistema judiciário federal, e assim, finalmente acabar no nada em Terre Haute, na Indiana, depois do devido processo legal. Mas isso realmente não nos diz mais respeito.
Porque isso pelo que ele passou é bem pior, pensou Pasternak, mas não disse. Sua consciência estava sob controle, mas fazia ruídos. Aquilo realmente tinha saído do manual de brincadeiras de Josef Mengele, e não era algo calculado para deixar feliz um judeu nova-iorquino. Mas o corpo de seu irmão jamais fora recuperado, esmigalhado até o átomo pela queda da torre do WTC. Não havia nem um túmulo que pudesse visitar com os filhos de Mike. E esse filho da puta tinha feito aquilo acontecer, de modo que Rich Pasternak mandou sua consciência se calar. O que ele fazia, se não era por conta de Deus, era por conta de sua família, e para Pasternak era o suficiente. Sua consciência tinha que ficar muda sobre o assunto.
— Qual é exatamente o nome desse sujeito? — perguntou Pasternak.
Foi Clark quem respondeu:
— Saif Rahman Yasin. É o filho número cinquenta e tantos de seu pai, um sujeito de vigor notável, e também muito próximo da família real saudita.
— Ah, é? Não sabia disso.
— Porém ele odeia a família real saudita mais que Israel — explicou Clark. — Eles tentaram liquidar com ele há uns seis anos, mas a missão fracassou. Ele os odeia pela corrupção, segundo diz. Acho que eles têm algum... quero dizer, uma enorme quantidade de dinheiro controlada por um número relativamente pequeno de pessoas, e isso faz com que alguns queiram pegá-lo, mas, comparado a Washington, a coisa não é tão ruim assim. Já estive lá. Aprendi o idioma nos anos 1980. Os sauditas que conheci são boa gente. A religião deles é diferente da minha, mas, droga, a dos batistas também. Os sauditas querem essa figura morta mais que nós, pode acreditar. Adorariam levá-lo para a praça principal de Riad e cortar sua cabeça com uma espada. Para o povo, ele cuspiu no país, no rei e na religião. Três vezes três, e isso é ruim para caramba por lá. Doutor, os sauditas não são iguais a nós, mas os ingleses também não, certo? Também já vivi por lá.
— O que você acha que devemos fazer com ele?
— Não é da minha alçada, senhor. Sempre podemos matá-lo, mas é melhor fazer isso em público. Porra, bem que podia ser no intervalo do Super Bowl, com replay instantâneo e comentários da televisão. Eu gostaria disso. Mas a questão realmente é maior que essa. Ele é uma figura política, e sua remoção também será um ato político. Isso sempre ferra com as coisas — concluiu Clark.
Realmente ele não tinha, na prática, instintos políticos, nem queria ter. Seu mundo era mais simples: se você assassinou, então devia morrer por isso. Não era elegante ou muito “sensível”, mas já havia funcionado uma vez, na verdade. O sistema legal funcionava bem melhor antes do país ser dominado pelos advogados. Porém não havia retorno, e ele não podia fazer nada a respeito. Clark não tinha ilusões sobre o comando do mundo. Seu cérebro simplesmente não chegava tão longe.
— Doutor, o que você o fez passar foi realmente assim tão ruim?
— Muito pior do que qualquer coisa que jamais cheguei perto de experimentar, pior do que qualquer coisa que vi em 26 anos de medicina, pior do que qualquer coisa que você possa fazer com uma pessoa sem matá-la de vez. Meu conhecimento disso, na verdade, é teórico, mas é algo que por nenhum motivo eu gostaria de passar.
Clark pensou em um sujeito chamado Billy, e seus momentos na câmara de recompressão de Clark. Lembrou-se de como friamente torturou aquele estupradorzinho de merda, e como isso não afetara nem um pouco sua consciência. Mas aquilo tinha sido pessoal, não profissional, e sua consciência não se importava muito. O homem fora deixado vivo em uma fazenda na Virgínia, e depois levado a um hospital e tratado por uma semana ou mais antes que o barotrauma liquidasse com sua vida imprestável de estuprador. Uma parte de Clark de vez em quando se perguntava se Billy gostava do inferno. Mas não com frequência.
Então isso era ainda pior? Droga.
Pasternak olhou para baixo e viu as pálpebras piscarem. Muito bem, ele estava voltando mesmo. Ótimo. Ou quase.
Clark foi até Hendley.
— Quem vai interrogá-lo? — perguntou John.
— Jerry Rounds, para começar.
— Quer que eu dê suporte?
— Provavelmente é uma boa ideia se todos nós ficarmos aqui. Quero dizer, seria melhor se tivéssemos um psiquiatra à mão, melhor ainda, um teólogo islâmico, mas não temos. Estamos sempre a pé, não é?
— Alegre-se. Langley jamais teria os colhões de fazer o que fizemos, não sem pelo menos uma faculdade de direito inteira ao lado para se intrometer, mais um repórter do Post para anotar tudo e alimentar sua indignação moral. Essa é uma coisa que realmente gosto neste lugar: não há vazamentos.
— Parte de mim gostaria de discutir isso com Jack Ryan. Ele não é psicocoisa, mas gosto de seus instintos. Mas não posso fazer isso. E você sabe a razão.
Clark assentiu; ele sabia. Jack Ryan também era conhecido por sofrer problemas de consciência. Ninguém é perfeito.
Hendley foi até um telefone e digitou uns dígitos. Alguns minutos depois, Jerry Rounds entrou.
— Bem? — perguntou Rounds.
— Nosso hóspede teve uma manhã desagradável — explicou Hendley. — Agora precisamos conversar com ele. É tarefa sua, Jerry.
— Parece que ainda está inconsciente — observou Rounds.
— Ainda continuará assim por alguns minutos — esclareceu Pasternak. — Mas vai ficar bem.
— Jesus, temos pessoas suficientes aqui? — apontou Rounds em seguida. Mais gente que nas reuniões ordinárias do conselho.
Então chegou uma câmera de TV, instalada em um tripé por Dominic, e as cortinas de lona alcatroada que tinham emendado com fita adesiva na noite anterior foram colocadas ao redor da bancada. A um sinal de Rounds, Dominic apertou o botão de gravar da câmera, e Hendley assumiu, anunciando, fora da câmera, a hora e a data. Gavin Biery, claro, iria alterar digitalmente a voz de Hendley posteriormente. Dominic reproduziu a sequência e declarou que a gravação estava perfeita.
— Joguinhos de manipulação? — perguntou Rounds, quase como para si mesmo, mas Clark estava bem do seu lado.
— Por que não? — respondeu Clark. — Não temos regras aqui, Jerry.
— Certo. — Clark levava jeito para chegar ao cerne da questão, notou o chefe de informações.
Clark imaginou se todos deveriam usar roupas de caubóis, jeans, cinturões de coldre e chapelões, para distorcer logo a percepção dele, entrar direto no jogo de manipulação com Saif. Mas provavelmente seria melhor manter tudo simples. Pensar demais sobre algo geralmente obscurecia tudo e terminava levando a nada. O simples geralmente era o melhor. Quase sempre.
Clark foi até a mesa e viu que Saif já estava se mexendo, mexendo e se contorcendo no sono. Quase pronto para despertar. Ficaria surpreso por ainda estar vivo?, perguntou-se Clark. Pensaria estar no inferno? Porque com toda certeza não estava no paraíso. Olhou o rosto atentamente. Pequenos músculos agora estavam se movendo. Ele estava perto de voltar ao mundo. Clark decidiu ficar onde estava.
— John? — Era Chavez.
— Fale, Ding?
— Foi mesmo assim tão ruim, hein?
— É o que o doutor diz. Ele é o especialista.
— Jesus.
— Deus errado, cara — observou Clark. — Ele provavelmente esperava ver Alá, ou talvez o demônio. — Talvez eu possa representar isso para ele, pensou John, refletindo. Olhou ao redor. Jerry Rounds parecia incomodado. Hendley mandara que ele fosse o batedor na última entrada, as bases estavam cheias e o jogo dependia do ponto final. Bem, ele não seria humano se não estivesse um tanto tenso, pensou John.
Sentiu que o arrastavam para aquilo. A coisa começou a lhe acontecer e, de repente, percebeu.
Ah, merda, pensou Clark. O que ele poderia dizer para esse filho da puta? Isso era trabalho para um psiquiatra. Talvez um clérigo muçulmano sério, ou um teólogo... Como é mesmo que eles chamam? Mufti? Algo assim. Alguém que conhecesse o Islã muito melhor que ele.
Mas será que esse sujeito era realmente muçulmano? Não seria mais um candidato a político? Será que ele mesmo sabia o que era? Em que momento esse sujeito se tornara o que proclamava ser? Para Clark essas eram questões profundas. Profundas demais. Mas os olhos do sujeito piscavam. Depois se abriram, e Clark estava olhando para eles.
— É bom respirar, não é? — perguntou Clark. Não houve resposta, mas havia confusão no rosto do homem. — Olá, Saif. Bem-vindo de volta.
— Quem é você? — indagou o homem, parecendo meio bêbado.
— Trabalho para o governo dos Estados Unidos.
— O que vocês fizeram comigo? O que aconteceu?
— Induzimos um ataque cardíaco, e trouxemos você de volta. Me disseram que é um procedimento aterrador.
Clark não obteve nenhuma resposta, mas percebeu o raio de terror nos olhos do Emir.
— Você precisa saber o seguinte: o que acabou de passar pode ser replicado, indefinidamente e sem danos em longo prazo. Deixe de cooperar e seus dias consistirão em nada mais que um ataque cardíaco depois do outro.
— Você não pode fazer isso. Vocês têm...
— Leis? Não, aqui não temos. Aqui estamos eu, você e uma seringa, pelo tempo que for necessário. Se não acreditar em mim, o médico estará de volta em dois minutos. Pode escolher.
A decisão do Emir durou menos que três segundos.
— Faça suas perguntas.
Clark e Rounds logo descobriram que a interação com o homem conhecido como Emir não seria um interrogatório, e sim um relato cordial. Yasin evidentemente levara a sério o aviso de Clark.
A primeira sessão durou duas horas e cobriu desde o mundano até o significativo, perguntas para as quais eles já tinham respostas, e mistérios que precisavam desvelar: há quanto tempo ele estava nos EUA? Onde e quando fizera a cirurgia plástica? Sua rota depois de deixar o Paquistão. Como foi adquirida a casa em Las Vegas? Qual o tamanho do orçamento operacional do CRO? A localização das contas bancárias; a estrutura organizacional do CRO, localização das células, agentes adormecidos, objetivos estratégicos...
E por aí foi, entrando pelo começo da noite, até que Hendley determinou uma pausa. Na manhã seguinte, o grupo se reuniu na cozinha da casa principal para uma avaliação e planejamento do interrogatório do dia. O tempo deles era limitado, explicou Hendley. Apesar de suas inclinações pessoais, o Emir não pertencia ao Campus, e não era missão deles dispensar justiça. O homem pertencia ao povo dos Estados Unidos; a justiça deveria ser feita de acordo com suas leis. Além do mais, uma vez que Yasin estivesse nas mãos do FBI, eles poderiam passar meses e anos espremendo até sua última gota de informação. Enquanto isso, o Campus trabalharia com o que o Emir já revelara. Tinham muitas pistas para seguir, e informação suficiente para mantê-los ocupados de oito meses a um ano.
— Diria que há apenas uma última coisa que precisamos tirar dele — disse Jack Ryan Jr.
— O quê? — perguntou Rounds.
— A razão de tudo isso. O pensamento desse sujeito tem muitas camadas. Todas as peças e partes do Lótus: a montanha Yucca, o Losan, os ataques no Meio-Oeste... A questão central era terror ou algo maior? Tem que ser mais que o 11 de Setembro ampliado, certo?
Clark coçou a cabeça pensativamente e olhou para Hendley, que pegou a dica, e depois disse:
— Essa é a grande questão.
Lá pelo meio da manhã, já tinham a resposta que queriam; voltaram sua atenção para a questão complicada de entregar Yasin para o FBI. Apesar de ser simbólica e visualmente atraente, a ideia de empacotar o Emir como se fosse um ganso natalino e jogá-lo de um carro em movimento nas escadas do edifício Hoover não era factível. Há semanas o Campus ladeava a linha cinzenta entre permanecer nas sombras como tinha sido planejado ou atrair a atenção do governo dos EUA.
O problema então se transformou em como “reentregar” o terrorista mais procurado do mundo sem que a coisa explodisse de volta neles. Finalmente, Dominic Caruso, que aprendera a lição com Brian, achou uma solução.
— KISS — disse ele. — “Keep it simple, stupid.”
— Explique — pediu Hendley.
— Estamos complicando tudo. Já temos o perfeito comutador: Gus Werner. Ele me indicou para o Campus, e é bem próximo do diretor do FBI, Dan Murray.
— Esse é um bom presente de grego, Dom — disse Chavez. — Acha que ele topa? Perguntando melhor: acha que ele pode fazer a coisa funcionar?
— E como você acha que funcionaria? — acrescentou Jack.
— Ele seria imediatamente preso e trancado em local bem seguro. Vocês sabem, ler os direitos dele, oferecer um advogado, fazê-lo falar um pouco. Envolver um procurador federal. Aí avisam ao procurador-geral, que informará o presidente. Depois disso, a bola de neve começa a crescer. A imprensa vai ser envolvida, e nós ficamos sentados só vendo o espetáculo. Olhem, Gus sabe como trabalhamos e sabe como o FBI trabalha. Se há alguém que pode vender esse pacote, é ele.
Hendley refletiu por alguns instantes, depois assentiu.
— Ligue para ele.
No Edifício Hoover, o telefone de Gus Werner tocou. Era sua linha particular, e poucas pessoas tinham acesso a ela.
— Werner.
— Dominic Caruso falando, Sr. Werner. Pode me dar alguns minutos esta tarde? Digamos, vinte minutos.
— Hã, claro, quando?
— Agora.
— Muito bem, pode vir.
Dominic estacionou a um quarteirão do Edifício Hoover e entrou no saguão principal, mostrando sua identificação do FBI para os guardas da portaria. Isso permitiu que ele passasse pelo lado dos detectores de metal. A suposição era de que os agentes do FBI sempre estavam armados. Na verdade, Dominic não estava armado naquele momento. Tinha se esquecido e deixara sua arma na escrivaninha, para a própria surpresa.
O escritório de Augustus Werner ficava no último andar, completo com uma secretária, à qual ele tinha direito como principal diretor-assistente do FBI, a apenas algumas portas de distância do escritório bem maior de Dan Murray, o Diretor. Dominic se anunciou para a secretária, e ela o fez entrar imediatamente. Ele se sentou diante da mesa do DA. Pelo seu relógio, eram exatamente 15:30.
— Muito bem, Dominic, o que você quer? — perguntou Werner.
— Tenho uma oferta.
— Que oferta é essa?
— Você quer o Emir? — indagou Dominic Caruso.
— Hã?
Dominic repetiu a pergunta.
— Claro que sim. — A expressão de Werner dizia: Qual a pegadinha?
— Esta noite, no Tysons Corner. Estacionamento do último andar, digamos, às nove e quinze. Venha sozinho. Sei que vai ter gente por perto, mas não perto o suficiente para ver a transferência. Eu pessoalmente o entregarei a você.
— Está falando sério. Vocês estão com ele?
— Claro.
— E como isso aconteceu?
— Não pergunte, não passe adiante. Estamos com ele e ele pode ser seu. Só nos deixe fora de tudo.
— Isso seria difícil.
— Mas não impossível. — Dominic sorriu.
— Não, não impossível.
— Informação anônima, golpe inesperado... qualquer coisa.
— Certo, certo... Tenho que falar com o diretor sobre isso.
— Compreendo.
— Fique perto do telefone. Entrarei em contato.
Como todos sabiam que aconteceria, o telefonema veio rapidamente. De fato, dentro de noventa minutos. A hora e o lugar do encontro foram confirmados. As oito e meia chegaram rapidamente, e o momento de se preparar. Dominic e Clark foram até a oficina ver Pasternak fazer o exame final no Emir, sob o olhar cuidadoso e a mira da Glock de Domingo Chavez.
— Ele está pronto para ir, doutor?
— Sim, só é preciso ter cuidado com a perna.
— Como quiser.
Clark e Dominic levantaram Yasin, e Dominic tirou as algemas flexíveis do bolso de trás e prendeu os punhos dele. Em seguida, Dominic pegou uma bandagem, que passou meia dúzia de vezes ao redor da cabeça de Saif. Era uma boa venda. Com isso feito, Clark agarrou o braço dele e o levou pela porta, cruzando o quintal e pela porta dos fundos da garagem. Hendley, Rounds, Granger e Jack estavam ao lado do Suburban. Ficaram em silêncio enquanto Dominic abria a porta do banco traseiro e ajudava Yasin a entrar. Clark deu a volta e se sentou ao lado dele. Dominic assumiu o volante e ligou o motor. A viagem os levaria pela US-29 até o Beltway de Washington, e depois a oeste pelo norte da Virgínia. Dominic ficou próximo ao limite de velocidade, o que era incomum da parte dele. A presença de uma identificação do FBI em sua carteira o absolvia de manter os limites de velocidade nos Estados Unidos, mas naquela noite ele queria fazer tudo seguindo as regras. Cruzou para entrar na Virgínia pela ponte da American Legion, e depois fez uma curva subindo à esquerda. Mais vinte minutos e Dominic pegou à direita o acesso ao Tysons Corner. O trânsito aumentou, mas a maioria dos carros saía do shopping center. Já eram nove e vinte e cinco. Ele pegou a rampa para o piso superior do estacionamento do lado sul do shopping.
Pronto, pensou Dominic. Lá estava um carro obviamente do Bureau, um Ford Crown Victoria novo com uma antena de rádio extra. Dominic estacionou a 10 metros dele e ficou sentado. A porta do motorista do Ford abriu. Era Gus Werner, em seu terno comum de trabalho. Dominic saiu para se juntar a ele.
— Está com ele?
— Sim, senhor — respondeu Dominic. — Ele parece um pouco diferente agora. Clareou um pouco a pele. Usando isso — Dom entregou um tubo meio usado de Benoquin que tinha retirado da casa de Las Vegas —, e fez uma plástica no rosto, na Suíça, segundo nos disse. Vou buscá-lo.
Dominic voltou ao Suburban, abriu a porta traseira, ajudou Yasin a descer, bateu a porta e caminhou com ele na direção de Werner.
— Vai precisar de atendimento médico. Ferimento à bala na perna. Já foi medicado, mas talvez precise de mais atenção. Fora isso, está cem por cento saudável. Não comeu muito. Pode estar faminto. Vai levá-lo para a Divisão de Campo de Washington?
— Sim.
— Bem, senhor, é todo seu.
— Dominic, algum dia vou querer escutar toda essa história.
— Talvez algum dia, senhor, mas não esta noite.
— Compreendido.
— Uma coisa: pergunte primeiro sobre os Ataques ao Coração do País. Pergunte sobre os agentes adormecidos.
— Por quê?
— Está tentando esconder alguma carta na manga. É melhor ninguém cair nisso.
— Muito bem. — Então a voz de Werner assumiu um tom mais formal: — Saif Yasin, você está preso. Tem o direito de permanecer em silêncio. Qualquer coisa que disser poderá ser usada contra você no tribunal. Você tem direito a um advogado. Compreende o que acabei de dizer? — acrescentou Werner, pegando no braço do homem.
O Emir não disse uma palavra.
Werner olhou Dominic e perguntou:
— Ele sabe inglês?
Dominic abriu um sorriso.
— Ah, sim. Pode acreditar, ele sabe exatamente o que está acontecendo.