Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 30 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 30

 

O voo transcorreu sem problemas. O taxiamento terminou, e eles já estavam no avião havia oito horas e meia quando o ônibus de transferência parou ao lado da escada que saía da porta dianteira esquerda do 777. Clark não sentou. Fizera isso por tempo demais, o suficiente para deixar suas pernas duras. O mesmo aconteceu com seu neto, que olhava animado para sua terra natal — na verdade, ele nascera na Inglaterra, mas já tinha uma bola de beisebol e sua primeira luva. Dentro de seis meses jogaria T-ball e começaria a comer cachorro-quente de verdade, como um garoto americano devia fazer. Dentro de um pãozinho, com mostarda, e talvez algumas cebolas e molho picante.

— Feliz por estar de volta em casa, querida? — perguntou Ding a Patsy.

— Gostava de lá, e vou sentir falta dos amigos, mas nossa terra é nosso lar.

A despeito do pedido para que continuassem a viagem, feito tanto por Chavez quanto por Clark, suas esposas saíram do avião em Heathrow, e não houve argumento que as fizesse mudar de ideia.

— Voltaremos para casa juntos — declarou Sandy, encerrando com firmeza e discussão.

A operação em Trípoli transcorreu sem maiores tropeços. Oito bandidos mortos em ação e apenas ferimentos leves entre os reféns. Cinco minutos depois da autorização que Clark dera a Masudi, ambulâncias locais chegaram à embaixada para cuidar dos reféns, a maioria dos quais sofria apenas de desidratação. Minutos depois, a Säkerhetspolisen e a Rikskriminalpolisen suecas chegaram e tomaram conta da embaixada. Duas horas mais tarde, a Rainbow estava a bordo do mesmo Piaggio P180 Avanti que os trouxera, rumo norte para Taranto, e depois para Londres.

A avaliação oficial da operação com Stanley, Weber e os demais viria mais tarde, provavelmente através de uma conferência segura via webcam, quando Clark e Chavez já estivessem instalados nos Estados Unidos. Incluí-los na avaliação era tanto uma cortesia quanto uma necessidade, provavelmente um pouco mais a primeira. Ele e Ding estavam oficialmente separados da Rainbow, e Stanley estava lá em Trípoli, de modo que, além do capítulo das “lições aprendidas” que sempre faziam depois de cada operação, Clark tinha pouco a contribuir com o relatório oficial.

— Como você se sente? — perguntou John Clark à esposa.

— Depois de dormir ficarei bem. — O jet lag em direção a oeste era sempre mais fácil de lidar. O que acontecia quando se viajava para leste era terrível. Ela espreguiçou. Mesmo as poltronas de primeira classe da British Airways tinham suas limitações. As viagens aéreas, apesar de convenientes, raramente faziam bem para as pessoas. — Pegou os passaportes e as outras coisas?

— Bem aqui comigo — assegurou-lhe Ding, dando um tapinha no bolso do paletó. J.C. deve ter sido um dos americanos mais jovens a obter um passaporte diplomático negro. Mas Ding também tinha sua Beretta automática .45, e o escudo de ouro e o cartão de identidade que o qualificava como delegado federal dos Estados Unidos, o que realmente era muito útil para alguém armado em um aeroporto internacional. Possuía ainda uma licença para porte de armas britânica, tão raro que a própria rainha praticamente tinha que assiná-lo. Isso permitiu que passassem rapidamente pela alfândega e pela imigração.

Depois da alfândega, perceberam no saguão de recepção público um sujeito bem comum segurando uma placa de papelão com CLARK escrito, e os cinco foram até ele.

— Como foi o voo? — A pergunta usual.

— Ótimo. — A resposta padrão.

— Estou estacionado aí fora. Um Plymouth Voyager azul com placa da Virgínia. Vocês vão ficar no Key Bridge Marriott, as duas suítes do último andar. — Que já foi cuidadosamente vasculhada, ele não precisou acrescentar. A cadeia Marriott fazia muitos negócios com o governo, especialmente essa unidade na Key Bridge, com vista para Washington.

— E amanhã? — perguntou John.

— Vocês estão programados para as oito e quinze da manhã.

— Quem vamos encontrar? — perguntou Clark.

O sujeito deu de ombros.

— Vai ser no sétimo andar.

Clark e Chavez trocaram um olhar de oh, que merda, mas na verdade isso não era surpreendente, e ambos estavam prontos para uma longa noite de sono que provavelmente terminaria por volta das cinco e meia no máximo, mas desta vez sem a corrida de 5 quilômetros e as dúzias diárias de exercícios físicos.

— Como foi na Inglaterra? — perguntou o recepcionista/motorista enquanto saíam.

— Civilizada. Algumas vezes bem agitada — disse Chavez, mas depois percebeu que o recepcionista oficial era apenas um oficial de campo novato que não tinha a menor pista do que eles andaram fazendo na velha terra. Mas isso não importava. Ele não tinha aparência de ex-militar, apesar de isso nem sempre ser evidente.

— Foram assistir a jogos de rúgbi quando estavam por lá? — perguntou o acompanhante.

— Alguns. É preciso ser maluco para jogar aquilo sem os equipamentos de proteção — comentou Clark. — Mas por lá eles são mesmo um pouco excêntricos.

— Ou talvez mais durões do que nós.

A viagem até Washington transcorreu sem problemas, ajudada pelo fato de estarem fazendo isso antes do engarrafamento da hora do rush e não entrando muito na cidade. Os efeitos do jet lag atingem até mesmo passageiros experimentados, e, quando chegaram ao hotel, ficaram bastante satisfeitos com a presença de carregadores. Em cinco minutos, estavam no último andar, acomodados em suítes vizinhas, e J. C. já estava observando a cama king-size que o acomodaria. Patsy deu o mesmo tipo de olhada para a banheira — era menor que os monstros construídos pelos britânicos, mas havia espaço para se sentar e um suprimento ilimitado de água quente do outro lado da torneira. Ding escolheu uma cadeira e pegou o controle remoto para se refamiliarizar com a televisão americana.

 

Na porta ao lado, Clark deixou Sandy desfazer as bagagens e foi até o frigobar pegar uma miniatura de Jack Daniel’s Old nº 7. Os britânicos não entendiam de Bourbon nem do seu primo do Tennessee, e o primeiro gole puro, mesmo sem gelo, foi de enorme prazer.

— E amanhã? — perguntou Sandy.

— Temos uma reunião no sétimo andar.

— Com quem?

— Ele não disse. Provavelmente um vice-diretor assistente de operações. Não acompanhei a dança das cadeiras em Langley. Seja lá quem for, vai me falar sobre o grande pacote de aposentadoria que arrumaram para mim. Sandy, acho que já está na hora de pendurar o paletó.

Ele não podia acrescentar que realmente nunca havia considerado a possibilidade de viver tanto tempo. Então, sua sorte ainda não tinha terminado? Notável. Devia comprar um laptop e encarar seriamente uma autobiografia. Mas, por enquanto: levante-se, espreguice, pegue seu paletó e pendure no armário antes que Sandy brigue novamente por ser desleixado. Na lapela estava a faixa azul-celeste e as cinco estrelas brancas que representavam a Medalha de Honra que Jack Ryan arranjara para ele, depois de olhar sua folha de serviços na Marinha e um longo documento escrito pelo vice-almirante Dutch Maxwell, que Deus o tenha. Ele estava fora quando Maxwell descansou, aos 83 anos — estava no Irã, entre todos os lugares. Tentando ver se uma rede de agentes fora completamente liquidada pela segurança iraniana. O processo havia começado, mas John conseguira tirar do país cinco deles, vivos e com suas famílias, através dos Emirados Árabes Unidos. Sonny Maxwell ainda voava, capitão sênior para a Delta, pai de quatro. A medalha viera por ter tirado Sonny do Vietnã do Norte. Agora parecia que isso tudo acontecera durante a última era glacial. Mas ele possuía essa pequena faixa para comprovar, e isso era melhor que um chute nos colhões. Guardado em algum lugar, estava o uniforme social e os sapatos pretos de sargento-mor, juntamente com o escudo dourado de Navy SEAL. Na maioria dos clubes de suboficiais não lhe permitiriam pagar sua própria cerveja, mas, Jesus, hoje os sargentos pareciam ser cada vez mais jovens. Houve época em que todos pareciam o próprio Noé.

A boa notícia era que ele ainda não estava morto. E podia ter a perspectiva de uma aposentadoria honrosa, e talvez escrever a tal autobiografia, se é que Langley alguma vez permitiria que fosse publicada. Bastante improvável. Ele sabia de um monte de coisas que não podiam ser reveladas, e fizera uma ou duas coisas que provavelmente não deveriam ter sido feitas, mas, durante a vida, havia encarado esse problema. Coisas como essas nem sempre faziam sentido para as pessoas que ocupavam escrivaninhas no Old Headquarters Building, mas, para eles, o ponto alto do dia era encontrar um bom lugar para estacionar e descobrir se haveria ou não seu bolo preferido no mostruário de sobremesas da cafeteria.

Ele podia ver Washington, D.C., pela janela. O edifício do Capitólio, o Lincoln Memorial e o obelisco de mármore de George Washington, além dos terrivelmente feios edifícios que abrigavam os vários departamentos do governo.

Para John Terrence Clark, essa era simplesmente uma cidade inteira cheia de babacas burocratas, para os quais a realidade era uma pasta na qual os papéis deviam ser adequadamente arquivados, e, se alguém tinha que derramar sangue para que as coisas fossem assim, bem, isso era apenas objeto de um interesse distante. Centenas de milhares deles. A maioria tinha esposas — ou maridos —, e filhos, mas, mesmo assim, era difícil não observá-los com desgosto — e ocasionalmente com puro ódio. Mas eles tinham seu mundo, e ele, o dele. Podiam até se sobrepor, mas realmente jamais se encontravam.

— Feliz por estar de volta, John? — perguntou Sandy.

— Sim, algo assim. — A mudança era difícil, mas inevitável. Quanto à direção que sua vida tomaria a partir dali... o tempo diria.

 

Na manhã seguinte, Clark pegou a saída à direita pela George Washington Parkway, contornando pela esquerda e passando pela portaria, cuja guarda armada tinha seu número de identificação anotado como “estranho permitido” para entrar. Deixaram que John estacionasse na área de visitantes, bem diante e à esquerda do grande toldo na entrada.

— Então, quanto tempo antes de eles nos dizerem que temos que procurar um novo emprego, John? — perguntou Domingo.

— Calculo que por volta de uns quarenta minutos. Serão bem-educados, tenho certeza.

Com essa avaliação, os dois desceram do Chevy alugado e caminharam até a porta principal, onde foram recebidos por um OPS, ou oficial de segurança e proteção, que nenhum dos dois conhecia.

— Sr. Clark, Sr. Chavez. Sou Pete Simmons. Bem-vindos ao lar.

— É bom estar de volta — respondeu John. — E você é...

— Sou um OPS, esperando uma designação de campo. Saí da Fazenda há dois meses.

— Quem foi seu instrutor de treinamento?

— Max DuPont.

— Max ainda não se aposentou? Bom sujeito.

— Bom professor. Ele nos contou algumas histórias sobre vocês dois, e vimos o filme de treinamento que fizeram lá em 2002.

— Me lembro disso — disse Chavez. — Sacudido, não mexido. — E deu uma risadinha breve.

— Não bebo martínis, Domingo, lembra?

— Também não é boa-pinta como o Sean Connery. O que você aprendeu naquele filme, Simmons?

— Mantenha suas opções abertas e não ande pelo meio da rua. — Que eram, de fato, boas lições para um agente de campo.

— Então, quem vamos encontrar?

— O vice-diretor assistente Charles Sumner Alden.

— Indicação política?

— Correto. Kennedy School, Harvard, sim. É bastante amistoso, mas às vezes eu me pergunto se ele realmente aprova o que fazemos por aqui.

— E o que Ed e Mary Pat andam fazendo agora?

— Ed está aposentado — contou Simmons. — Escrevendo um livro, pelo que ouvi dizer. Mary Pat está por aqui, no NCTC. É uma fera.

— Ela tem os melhores instintos de agente de campo que jamais encontrei — disse Clark. — Se ela afirma uma coisa, você pode botar a mão no fogo.

— O que me leva a perguntar por que o presidente Kealty não manteve na folha de pagamento ela e Ed — observou Chavez.

Sujeira, sujeira, pensou Clark.

— E o moral, como anda? — perguntou a caminho dos leitores de cartões de segurança. Simmons tratou disso, com um aceno para o guarda no final da fila de entrada.

— Poderia estar melhor. Temos um monte de gente andando em círculos por aqui. Estão aumentando a diretoria de inteligência, mas a minha foi a última turma a passar pela Fazenda por enquanto, e nenhum de nós recebeu designações para o campo ainda.

— De onde você veio?

— Polícia de Boston. Fui contratado pelo Plano Azul. Sou formado pela Universidade de Boston, não por Harvard. Línguas.

— Quais?

— Sérvio, um pouco de árabe e um pouco de pashtun. Supostamente eu deveria ter ido a Monterrey para dar uma caprichada nisso, mas me engavetaram.

— Você vai precisar das duas últimas — aconselhou John. — E dê um trato no seu jogging. Afeganistão, já passei algum tempo por lá nos meados dos anos 1980, e por lá até um cabrito-montês se cansa.

— É tão ruim assim?

— O pessoal dali guerreia por diversão, e não há nenhum bonzinho. Eu me vi sentindo pena dos russos. Os afegãos são um povo duro. Acho que é culpa da geografia, mas o islamismo é apenas um verniz por cima de uma cultura que já tem mais de 3 mil anos.

— Obrigado pela dica. Vou tirar o lugar da minha lista de preferências — disse Simmons quando o elevador chegou ao sétimo andar.

Ele deixou os dois à mesa da secretária. O carpete fofo informou que se tratava de um escritório importante — parecia bem novo. Clark pegou uma revista e folheou um pouco enquanto Domingo olhava placidamente a parede. Sua antiga vida de soldado o tornara bastante tolerante à chateação.