Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 67 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 67

 

Após estancar o sangue que pulsava dos dedos cortados de Bari, colocaram-no em uma cadeira na sala de estar e prenderam seus pés com fita adesiva nas pernas da cadeira. Amarraram o líder do grupo com fita adesiva na mesa de cavalete. Os dois homens ainda estavam inconscientes. Finalmente, pegaram os cadáveres e os empilharam na banheira, sobre o corpo do segundo guarda-costas de Bari.

— Vou dar uma volta pelo quarteirão — disse Dominic. — Verificar se os nativos estão inquietos. Acho que não atraímos atenção, mas...

— Boa ideia.

— Volto em cinco minutos.

Brian se sentou na sala de estar, estudando os cativos e fazendo uma necropsia mental da operação. Porra de trabalho bem-feito, pensou. Dominic sempre fora bom com armas e fera no Hogan’s Alley, mas essa era a primeira vez que realmente enfrentavam a merda juntos. Claro, houvera aquela situação no shopping center, mas não era a mesma coisa, não é? Aqui eles haviam liquidado autênticos bandidos do CRO na sua própria terra. Mas realmente não estavam acostumados a fazer prisioneiros. Tinha que mudar o funcionamento mental quanto a isso. O cabo da Browning havia feito os dois desmaiar, é certo, mas não de maneira muito eficiente. Talvez um bastão de chumbo recoberto de couro pudesse ser melhor. Precisava dar uma pensada nessas coisas.

Ouviu o portão do pátio abrindo. Levantou-se, caminhou até a porta e olhou pelo canto.

— Sou eu mesmo, cara — disse Dominic, entrando.

— Como está a situação?

— Calma. O lugar realmente entra em coma depois que escurece. Mais umas duas horas e provavelmente isso aqui vai parecer uma cidade fantasma.

— O que levanta uma boa questão.

— Esses dois? — respondeu Dominic, apontando para Bari e para o outro.

— Claro. Se eles têm informações, precisamos decidir se tentamos espremê-los aqui ou tirá-los daqui.

— Bem, de uma coisa tenho certeza: não vamos conseguir tirá-los da Líbia por conta própria. Talvez uma corrida para a Tunísia.

— Que distância?

— Uns 160 quilômetros a oeste, mais ou menos. Mas não vamos botar o carro na frente dos bois. Vamos ter uma conversinha com Bari e ver aonde isso nos leva.

Com um copo de água fria jogado em sua cabeça e uns tapinhas no rosto, conseguiram acordar Bari. Ele piscou várias vezes, olhou a sala, depois Brian e Dominic.

Disparou algumas palavras em árabe, e então falou em um inglês de sotaque carregado:

— Quem são vocês?

— A cavalaria — disse Brian.

Bari apertou os olhos e gemeu.

— Minha mão.

— Só dois dedos — disse Dominic. — Nós já estancamos o sangramento. Tome. — Entregou a Bari meia dúzia de tabletes de aspirina de um frasco que encontraram no banheiro. Bari enfiou os tabletes na boca, e depois aceitou um copo de água de Brian.

— Obrigado. Quem são vocês?

— Ao que parece, somos seus últimos amigos em Medina — disse Dominic. — Quem são eles?

— Estão todos mortos?

— Menos o cara com a faca de filetar — respondeu Brian. — Quem são eles?

— Não posso...

— Nosso palpite é que são do CRO. Alguém apertou seu botão, Sr. Bari.

— O que você quer dizer?

— Alguém ordenou que o matassem. Sobre o que eles interrogavam você?

Bari não respondeu.

— Olha, sem ajuda, eles vão te pegar. Pode ser que consiga se esconder por algum tempo, mas eles vão descobrir. E provavelmente também a sua família em Benghazi.

Bari ergueu a cabeça.

— Vocês sabem sobre eles?

Dominic assentiu.

— E se nós sabemos...

— Vocês são americanos, não é?

— Isso importa?

— Não, acho que não.

— Você nos ajuda e nós te ajudamos. Tentamos tirá-lo do país — disse Brian.

— Como?

— Deixa que a gente se preocupa com isso. Quem são eles?

— CRO.

— Os mesmos que liquidaram Dirar al-Kariim?

— Quem?

— De um vídeo da web. O cara que ficou sem pé, nem cabeça...

— Ah, sim. Foram eles.

— Qual é o nome dele, do sujeito com a faca? — perguntou Dominic.

— Eu o conheço como Fakhoury.

— E o que ele faz?

— O que você viu aqui. Assassinato. Punição. Um sujeito bem baixo nível. Ele se gabou sobre al-Kariim. Falou disso.

— E por que estava atrás de você?

— Não sei.

— Porra nenhuma. Você e seus guarda-costas estavam com pressa. Sabia que Fakhoury estava atrás de você. Como?

— Começou a circular pelas ruas que eu tinha falado para a polícia. Não é verdade. Não sei quem disse, mas para essas pessoas... a segurança é tudo. Me matar era uma precaução.

— E o que eles queriam de você? Você é o especialista deles na web, certo?

— Sim. Fakhoury queria saber se eu havia guardado dados.

— Tais como?

— Nomes de domínio. Senhas. Gráficos...

— Como imagens de um banner?

— Sim. Sim, ele perguntou por isso.

Dominic olhou Brian e murmurou:

— Esteganografia.

— Isso.

— Do que vocês estão falando? — perguntou Bari.

— Então, qual é a resposta? — perguntou Dominic. — Você guardou alguns dados? Algo para garantir um pouco da sua segurança, talvez?

Bari abriu a boca para falar, mas Brian o interrompeu:

— Se mentir para nós, libertamos Fakhoury e vamos embora.

— Sim, guardei dados. Está em um cartão SD, segurança digital, o mesmo que vai em câmeras. Está sob um ladrilho atrás da privada.

Brian já estava se movimentando.

— Saquei. — Dois minutos depois estava de volta com um cartão do tamanho de uma unha.

Dominic perguntou a Bari:

— Quem dá as ordens a Fakhoury?

— Só escutei boatos.

— Muito bem.

— Um sujeito chamado Almasi.

— Daqui mesmo?

— Não, tem uma casa perto de Zuwarah.

Dominic olhou para Brian.

— Uns 100 quilômetros a oeste daqui.

— E esse sujeito manda muito? Pode ter ordenado a execução de al-Kariim?

— É possível.

Deixaram Bari a sós e foram até o pátio.

— O que você acha? — perguntou Brian.

— Bari é uma boa presa, mas seria ótimo pegar um peixe mais acima na cadeia alimentar. Se esse Almasi pode mesmo dar sinal verde para liquidar um deles, pode ser que valha a pena a tentativa.

Brian verificou o relógio.

— Já são quase dez da noite. Calcule uma meia hora para voltar até o carro, depois duas horas até Zuwarah. Emboscamos o cara aí pelas duas da manhã, e depois pegamos o caminho de volta.

— Então levamos Bari, e agarramos Almasi se pudermos.

— E Fakhoury está sobrando.

— Peso morto, cara.

Dominic pensou no caso e suspirou.

Brian disse:

— É um assassino de sangue-frio, Dom.

— Não me diga. Mas tenho problemas em ligar minha cabeça nisso, sabe?

— Você já ligou antes. Naquele caso do sequestrador da garota.

— Era um pouco diferente.

— Não muito diferente. O bandido não ia parar por conta própria. A mesma coisa aqui.

Dominic considerou o assunto, depois assentiu.

— Pode deixar que eu faço.

— Não, cara. Esse é meu. Prepare Bari para sairmos. Vou fazer a limpeza.

 

Cinco minutos depois, Dominic e Bari estavam no pátio. Brian saiu e deixou uma bolsa de lona nos pés de Dominic.

— Meia dúzia de semiautomáticas e dez pentes. Volto já. — Brian entrou novamente.

— O que ele foi fazer? — perguntou Bari.

Um ruído como o de um tapa abafado veio de dentro, depois um segundo.

— Fakhoury? — disse Bari a Dominic. — Vocês o mataram.

— Preferia que ele ficasse vivo para vir atrás de você?

— Não, mas quem garante que vocês não farão o mesmo comigo quando terminarem?

— Eu garanto. Na pior das hipóteses, soltamos você.

— E na melhor?

— Isso depende do quão útil você for.

Brian saiu dez minutos depois. Ele e Dominic foram até a parede dos fundos, e Brian deu o impulso para Dominic subir até o telhado. Dez segundos depois estava de volta com as mochilas. Então os três foram até a porta do pátio.

Brian se virou para Bari.

— Só para deixar claro. Se você correr, ou chamar atenção sobre nós, metemos uma bala na sua cabeça.

— E por que eu faria tal coisa?

— Não sei e nem me importa. Se nos colocar em perigo, vai ser o primeiro a morrer.

— Compreendo.

 

Quarenta minutos mais tarde saíram de Medina pela Sidi Omran e caminharam dois quarteirões para leste, na direção do Corinthia, onde haviam estacionado o Opel. Cinco minutos depois, já estavam na Umar al Mukhtar, dirigindo para oeste e passando pelos subúrbios da cidade. O céu estava claro, com uma lua crescente e um campo de diamante de estrelas.

Dirigiram em silêncio, com Bari deitado no assento de trás, até passarem por Sabratah, a 60 quilômetros de Trípoli, na costa.

— Pode sentar — disse-lhe Dominic do banco de passageiros. — Como está a mão?

— Bem dolorida. O que fizeram com meus dedos?

— Dei descarga no banheiro — respondeu Brian.

Essa fora a parte mais fácil das tarefas dentro da casa de Bari. Além disso, inspecionou Fakhoury e seus homens à procura de tatuagens e identificações. Não encontrou nenhuma das primeiras, mas bastante das segundas, que colocou na bolsa de lona. Depois fez três disparos na parte de trás da cabeça de cada homem. As balas de ponta côncava fizeram seu serviço, transformando os rostos em hambúrgueres irreconhecíveis. A polícia provavelmente terminaria os identificando, mas, quando o CRO compreendesse que tinha perdido um dos seus, ele, Dominic e Bari já estariam fora do país.

— Você deu descarga nos meus dedos pela privada? — repetiu Bari. — Por quê?

Dessa vez, Dominic respondeu:

— Para não deixar rastros seus. Quanto mais coisas desconhecidas eles tiverem, melhor. Onde fica a casa de Almasi?

— A leste da cidade. Eu reconheço o desvio. Está diante de uma velha refinaria. — Cerca de vinte minutos depois, Bari disse: — Mais devagar. Essa próxima estrada à esquerda.

Brian diminuiu a velocidade e entrou na estrada de terra. Quase imediatamente a inclinação aumentou; adiante, a estrada desfilava por uma série de colinas baixas e cobertas de mato. Após cinco minutos, dobrou subitamente à direita. Bari, olhando pela janela do lado do motorista, bateu no vidro.

— Ali. Aquela casa com as luzes acesas. É a de Almasi.

A uns 300 metros adiante, no final de uma descida erodida, Brian e Dominic puderam ver uma estrutura de dois andares em tijolo cru, cercada por um muro de barro e tijolos à altura dos ombros. A uns 50 metros dela, a oeste, um conjunto de quatro chalés de adobe. Bem atrás da casa havia um celeiro.

— Antiga fazenda? — perguntou Dominic.

— Sim. De cabras. Almasi a comprou como casa de campo há três anos.

Dominic disse:

— Percebeu as antenas no telhado, Bri?

— Sim. O sujeito está preparado para comunicações pesadas.

Continuaram por mais uns 800 metros, perdendo a casa de fazenda de vista, e diminuíram em um cruzamento. Num impulso, Brian dobrou à esquerda. A estrada de terra se estreitou por uns 50 metros antes de se abrir no que parecia ser uma pedreira de cascalhos.

— Aqui deve dar — disse Dominic.

Brian apagou as luzes, encostou o carro mais para o lado e desligou o motor. Os dois se viraram nas poltronas e olharam para Bari.

— O que mais você sabe sobre esse lugar? — perguntou Brian.

— Só onde está e mais nada.

— Já esteve aqui?

— Uma vez. Mas só passei por ali.

— E como isso aconteceu? Só curiosidade?

Bari hesitou.

— No meu negócio, é vantagem saber com quem se está lidando. Eu sabia que Fakhoury respondia a Almasi. Achei que seria prudente algum dia lidar diretamente com ele, de modo que fiz algumas perguntas.

— Que diligente — notou Dominic. — Então você nunca esteve lá, nunca entrou na casa?

— Não.

— E quanto a guarda-costas? — perguntou Brian.

— Com certeza deve haver, mas não sei quantos. — Brian e Dominic olharam fixamente para ele. — É a verdade, juro por meus filhos.

— Cães?

— Não sei.

— Me dê suas mãos — disse Brian. — Coloque-as sobre os apoios de cabeça.

Bari fez o que mandaram, hesitando. Brian e Dominic prenderam as mãos dele com fita adesiva nos apoios de cabeça.

— Isso é mesmo necessário?

— Ainda não chegamos à etapa da confiança mútua — explicou Dominic. — Não tome isso como pessoal. Nós voltaremos.

— E se não voltarem?

— Então você está na merda — disse Brian.

Os dois saltaram, tiraram a bolsa do porta-malas, e sentaram no chão para separar o arsenal. Além de suas Browning, tinham quatro semiautomáticas MAB P15 9 milímetros de fabricação francesa, e dois revólveres .32 de cano curto.

— Temos sessenta balas para as P15 — disse Brian. — Parabellum 9 milímetros. Cabem nas nossas Browning. Se precisarmos de mais de sessenta, quer dizer que estamos mesmo fodidos.

Recarregaram os pentes das Browning e dividiram entre si as balas restantes, enfiando-as no bolso das calças cargo. Finalmente, colocaram mais alguns itens nas mochilas. Brian foi até a janela traseira do Opel. Bari disse:

— Preciso de mais aspirinas.

Brian pescou o frasco da mochila e o jogou para Dominic, que derramou meia dúzia na boca de Bari, e depois lhe deu um gole d’água do cantil.

— Não vá a lugar nenhum nem faça ruídos — disse Dominic. Voltou-se para Brian. — Pronto?

— Como nunca. Vamos empacotar o peixe grande.