Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 2 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 2

 

— Combustível baixo — vup, vup —, combustível baixo — anunciou a voz gerada por computador.

— Já sei, já sei — resmungou o piloto em resposta.

Ele podia ver a informação necessária em seu mostrador CRT no painel de controle. A luz de alarme do computador de bordo piscava havia pelo menos 15 minutos. Eles cruzaram a costa canadense dez minutos antes, e à luz do dia poderiam olhar para baixo e ver um terreno verde com troncos raquíticos. A menos que tivesse errado completamente a navegação, logo veriam algumas luzes. De qualquer modo, já operavam sobre terreno seco, o que era um alívio.

Os ventos do Atlântico Norte foram muito mais severos que o previsto. A maioria do tráfego noturno dessa hora era em direção ao leste e aqueles aparelhos carregavam muito mais combustível que o Dassault Falcon 9000. Tinham o suficiente para mais vinte minutos. Dez a mais do que precisavam. A velocidade marcada estava acima dos 500 nós, altitude de 25 mil pés e descendo.

— Aproximação de Gander — disse ele ao microfone do rádio —, aqui é Hotel zero-nove-sete, Mike Foxtrot, chegando para abastecimento, câmbio.

— Mike Foxtrot — veio a resposta —, aqui é Gander. Os ventos estão calmos. Recomendo pista dois-nove para aproximação normal.

— Ventos calmos? — observou o copiloto. — Droga. — Eles enfrentaram uma corrente de ventos de mais de 100 nós bem no bico durante três horas de pequena turbulência. Nada muito pesado a 41 mil pés de altitude, mas ainda assim perceptível. — Esse pulo sobre a água foi longo demais para o meu gosto.

— Especialmente com ventos como esses — respondeu o piloto. — Espero que os motores funcionem só com vapor de combustível.

— Estamos certos com a alfândega?

— Devemos estar. Já temos o CANPASS e estamos liberados com o destino de Moose Jaw. Fazemos a imigração aqui?

— Sim, certo. — Mas os dois sabiam que nem tudo aquilo era verdade. O voo de Gander para seu destino final seria um tanto fora do normal. Mas estavam sendo pagos para isso. E o câmbio do euro para o dólar os favorecia. Especialmente com dólares canadenses.

— Já vi as luzes. Cinco minutos mais — declarou o copiloto.

— Entendido, pista à vista — respondeu o piloto. — Flapes.

— Flapes descendo para 10. — O copiloto operou os controles e eles escutaram o chiado dos motores elétricos estendendo os flapes. — Acordo os passageiros?

— Não. Para quê? — decidiu o piloto. Se fizessem tudo certo, eles não notariam nada até a aceleração na próxima decolagem. Depois de tirar o brevê e voar 20 mil horas com a Swissair, ele havia se aposentado e comprado seu próprio Dassault Falcon para fretar milionários e bilionários viajando pela Europa e ao redor do globo. Metade das pessoas que podiam pagar seus serviços acabavam indo para os mesmos lugares: Mônaco, Harbor Island nas Bahamas, Saint-Tropez, Aspen. O fato de seu atual passageiro não ir a nenhum desses lugares era uma curiosidade, mas, enquanto pagasse, ele não tinha nada a ver com isso.

Começaram a descer e passaram à marca dos 10 mil pés. As luzes da pista eram facilmente visíveis, uma raia reta na escuridão que uma vez já abrigara uma esquadrilha de caças F-84 da Força Aérea dos Estados Unidos.

Cinco mil pés e descendo.

— Flapes para 20.

— Entendido, flapes para 20 — respondeu o copiloto.

— Trem de pouso — comandou ele em seguida, e o copiloto pegou nas alavancas. O ruído de ar entrando chegou à cabine quando as portas do trem de pouso se abriram e a estrutura abaixou. Trezentos pés.

— Baixados e travados — respondeu o copiloto.

— Cem pés — informou a voz computadorizada.

O piloto tencionou os braços e depois os relaxou, fazendo a aeronave descer, suavemente, suavemente, escolhendo o ponto certo. Apenas seus sentidos bem-treinados conseguiram informá-lo quando a aeronave tocou o solo nos quadrados de concreto de 10 metros. Acionou o reversor de empuxo e o Dassault diminuiu. Um caminhão com luzes piscando indicou para onde ele deveria se dirigir e quem seguir até o ponto onde o caminhão-tanque esperava.

 

Permaneceram em solo por um total de vinte minutos. Um funcionário da imigração os interrogou pelo rádio e verificou que não havia mudanças nos dados do CANPASS. Lá fora, o caminhão-tanque desconectou a mangueira e fechou a válvula de combustível.

Ok, terminamos aqui, pensou o piloto. Agora era o segundo segmento do voo em três partes.

O Falcon taxiou de volta para a ponta norte da pista, verificando a lista de itens pré-decolagem, como sempre fazia, depois de esperar no final da pista. A aceleração foi suave; as rodas saíram do solo, depois os flapes foram recolhidos, seguidos pela aceleração de subida. Mais dez minutos e eles estavam a 37 mil pés, a altitude determinada pela Central de Toronto.

 

O avião entrou em velocidade de cruzeiro rumo a oeste a Mach 0,81 — cerca de 520 nós ou 960 quilômetros por hora —, com os passageiros dormindo na popa enquanto os motores engoliam combustível à razão de 1.500 quilos por hora. O transponder do avião transmitia sua velocidade e altitude para os radares de controle aéreo, e fora isso não havia necessidade de tráfego de rádio de nenhum tipo. Em uma tempestade, eles poderiam ter requisitado uma altitude diferente, provavelmente mais alta, para permitir um cruzeiro mais confortável. Porém a torre de Gander estava correta. Depois de ultrapassar a frente fria que haviam enfrentado em seu voo para a Terra Nova, parecia que nem se moviam, exceto pelo rugir amortecido dos jatos presos na cauda. Piloto e copiloto nem conversavam muito. Já voaram juntos o suficiente para saber as mesmas piadas, e, em um voo tão tranquilo quanto esse, não havia troca de informações. Tudo tinha sido planejado até os últimos detalhes. Ambos imaginavam como seria o Havaí. Aguardavam ansiosamente o par de suítes no Royal Hawaiian, e um longo sono para compensar o inevitável jet lag que com certeza acompanharia as dez horas do dia adicional que iriam experimentar. Bem, os dois gostavam de uma soneca numa praia ensolarada e a previsão do tempo no Havaí indicava o clima monotonamente perfeito de sempre. Planejaram uma parada de dois dias antes de empreender a viagem para o leste de volta ao seu aeroporto-base nos arredores de Genebra, sem previsão de passageiros nesse trecho.

— Moose Jaw em quarenta minutos — observou o copiloto.

— Hora de voltar ao trabalho, eu acho.

O plano era simples. O piloto pegou o rádio HF — uma relíquia remanescente da Segunda Guerra Mundial — e chamou Moose Jaw, anunciando sua aproximação e o início da descida, assim como a hora de chegada prevista. A torre de Moose Jaw recebia a informação dos sistemas de controle de área e inseria os códigos alfanuméricos do transponder nos seus radares.

O Dassault começou a diminuir a altitude em uma aproximação completamente normal, o que foi devidamente anotado pelo Centro de Toronto. A hora local era 0304, ou Zulu – 4 horas, tomando como base a Hora Média de Greenwich/Hora Universal, ou quatro horas ao leste.

— Lá está — anunciou o copiloto. As luzes de aproximação de Moose Jaw se destacavam na paisagem escura. — Altitude 12 mil, descendo a mil por minuto.

— Coloque o transponder em aguardo — ordenou o piloto.

— Entendido — respondeu o copiloto. O transponder era uma instalação customizada, feita pela própria tripulação.

— Seis mil pés. Flapes?

— Deixe como está — comandou o piloto.

— Entendido. Pista à vista.

O céu estava claro e as luzes estroboscópicas de aproximação de Moose Jaw piscavam no ar sem nuvens.

— Moose Jaw, aqui é Mike Foxtrot, câmbio.

— Mike Foxtrot, Moose Jaw, câmbio.

— Moose Jaw, nosso trem de pouso não quer descer. Por favor, aguardem. Câmbio. — A notificação fez as pessoas acordarem.

— Entendido. Você está declarando uma emergência, câmbio? — inquiriu o rádio de aproximação imediatamente.

— Negativo, Moose Jaw. Estamos verificando os sistemas elétricos. Aguardem.

— Entendido. Aguardando. — Apenas um toque de preocupação na voz.

— Ok — disse o piloto ao copiloto. — Saímos do radar deles a mil pés. — Já haviam treinado aquilo tudo, é claro. — Altitude 3 mil e descendo.

O piloto aliviou o leme à direita. Isso era para mostrar uma mudança de curso no radar de aproximação de Moose Jaw, nada sério, mas de qualquer modo uma mudança. Com a altitude caindo, isso poderia parecer interessante nas gravações do radar se alguém se importasse em olhar, o que era duvidoso. Outro blip perdido no espaço aéreo.

 

— Estamos a 2 mil — disse o copiloto. O avião sacudia um pouco na baixa altitude, mas não tanto quanto iria sacudir. — Agora, 1.500. Talvez queira ajustar o coeficiente de descida.

— Muito bem. — O piloto puxou o manche para trás para nivelar a aeronave a 900 pés acima do nível do mar. Isso era baixo o suficiente para obstruir feixes de radar e criar eco. Apesar do Dassault não ter nada de invisível, a maioria dos radares civis de controle de tráfego via em primeiro lugar os sinais do transponder, e não “pinturas de pele”. Na aviação comercial, um avião aparecia no radar como nada mais que um sinal no céu.

— Mike Foxtrot, Moose Jaw, informe altitude, câmbio.

Fariam isso por algum tempo. E a equipe local da torre estava incomumente alerta. Talvez tivessem entrado num exercício de treinamento, pensou o piloto. Azar, mas não um grande problema.

— Piloto automático desligado. Pilotagem manual.

— A aeronave é do piloto — respondeu o copiloto.

— Ok, entrando em curva para a direita. Desligar transponder — comandou o piloto.

O copiloto desligou a energia do transponder.

— Desligado. Estamos invisíveis. — Isso chamou a atenção de Moose Jaw.

— Mike Foxtrot, Moose Jaw. Informe altitude, câmbio — exigiu a voz mais categoricamente. Depois, uma segunda chamada.

O Falcon completou a curva pelo norte e estabilizou no rumo dois-dois-cinco. O terreno abaixo era plano e o piloto ficou tentado a reduzir a altitude para 500 pés, mas decidiu não o fazer. Não era preciso. Tal como planejado, o avião havia simplesmente evaporado do radar de Moose Jaw.

— Mike Foxtrot, Moose Jaw. Informe altitude, câmbio!

— Ele parece nervoso — observou o copiloto.

— Não o culpo.

O transponder que eles acabaram de desligar era de outro aparelho, provavelmente estacionado em um hangar em Söderhamn, na Suécia. Esse voo custava um adicional de 70 mil euros para quem o fretara, mas a tripulação de voo suíça compreendia bem o que era ganhar dinheiro, e não estava transportando drogas ou coisas assim. Dinheiro ou não, esse tipo de carga não valia a pena.

Moose Jaw já estava a 60 quilômetros atrás deles, desvanecendo-se a 10 quilômetros por minuto, segundo o radar Doppler do avião. O piloto ajustou o manche para compensar os ventos cruzados. O computador ao lado de seu joelho direito compensaria a deriva, e o computador sabia exatamente para onde se dirigiam.

Parte do caminho, pelo menos.