Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 35 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 35

 

— Perda de tempo — disse Brian Caruso, olhando a paisagem pela janela do banco de passageiros. — Mas há lugares piores para isso, acho. — A Suécia era muito bonita, com muito verde e, pelo menos pelo que observaram desde que saíram de Estocolmo, rodovias de primeira qualidade. Nada de lixo à vista. Estavam a 150 quilômetros ao norte da capital sueca; a 20 quilômetros ao nordeste, as águas do golfo de Bótnia brilhavam sob um céu parcialmente nublado. — Onde você acha que eles guardam a turma de biquíni?

Dominic riu.

— São todas geradas por computadores, cara. Ninguém jamais as viu pessoalmente.

— Bobagem, são de verdade. A que distância ainda estamos do tal lugar? Como é mesmo o nome? Söderhamn?

— Isso. Mais uns 250 quilômetros.

Jack e Sam Granger deram as instruções para os dois, e, apesar de os irmãos Caruso concordarem com a avaliação do chefe de operações de que o trabalho era “um tiro no escuro”, eles também gostavam da ideia de vasculhar coisas. Mais ainda, era um bom jeito de aprimorar suas habilidades. Até então a maior parte do trabalho que fizeram para o Campus tinha sido na Europa. Quanto mais treinamento tivessem em um ambiente operacional verdadeiro, melhor. Os dois se sentiam mais que um pouco despidos sem armas, mas isso, também, era uma realidade operacional: era sempre mais provável que, quando estivessem no exterior, andassem desarmados.

Nenhum dos dois sabia exatamente como Jack descobrira a conexão da Hlasek Air com o pequeno aeroporto de Söderhamn, mas seja lá onde o Dassault Falcon tivesse se perdido, seu último pouso conhecido fora ali. Era, explicou Dominic, muito parecido com localizar uma pessoa perdida. Onde ela foi vista pela última vez, e por quem? Como exatamente eles conseguiriam responder a essa pergunta quando chegassem a Söderhamn era outra questão. A sugestão de Jack, oferecida com um sorriso encabulado, provavelmente se revelaria presciente: improvisem. Com esse objetivo, o pessoal de documentação do Campus, que trabalhava em algum cubículo nas profundezas do edifício, havia providenciado para os dois um conjunto completo de papéis timbrados, cartões de visita e credenciais da divisão de investigação de indenizações da Lloyd’s of London, companhia controladora da XL Insurance Switzerland.

 

Já era começo da tarde quando alcançaram os arredores do Söderhamn, com 12 mil habitantes, e Dominic saiu da E4, seguindo as indicações pictográficas para o aeroporto por 8 quilômetros antes de parar no pátio de estacionamento quase vazio do local. Contaram três carros. Pelo muro de arame de 2,5 metros de altura, viram um conjunto de quatro hangares com teto branco. Um único caminhão-tanque de combustível estava ao lado do concreto trincado da pista.

— Acho que foi uma boa ideia vir no fim de semana — observou Brian. A teoria era de que haveria poucos responsáveis no aeroporto em uma tarde de sábado, o que significava, esperavam, menos oportunidades de encontrar alguém com autoridade de verdade. Se tivessem ainda mais sorte, achariam o escritório ocupado por um trabalhador de meio expediente e salário baixo que só queria passar a tarde com o mínimo de trabalho. — Marque outro ponto para o priminho.

Os dois saíram, foram até o escritório e entraram. Um rapaz louro de pouco mais de 20 anos estava atrás do balcão, os pés apoiados num arquivo. Atrás dele, uma caixa de som explodia com a última versão do tecno-pop sueco. O rapaz levantou e abaixou o volume.

— God middag — disse.

Dominic colocou suas credenciais no balcão.

— God middag.

 

Gastaram apenas cinco minutos bajulando e fazendo ameaças oblíquas para ter acesso ao registro diário dos voos do aeroporto, que mostravam apenas dois pousos do Dassault Falcon nas últimas oito semanas, uma vindo de Moscou há um mês e meio e outra de Zurique, onde ficava baseada a Hlasek Air, três semanas atrás.

— Precisamos ver o manifesto, o plano de voo e os registros de manutenção para esse avião — disse Dominic, dando um tapinha sobre o fichário.

— Não tenho isso aqui. Deve estar no hangar principal.

— Então vamos lá.

O garoto pegou o telefone.

 

O mecânico de voo de plantão, Harold, era apenas um pouco mais velho que o sujeito do escritório e ainda mais perturbado com a presença deles. Investigador de seguros, aeronave perdida e registro de manutenção era um trio de expressões que nenhum mecânico de voo queria ouvir, especialmente quando combinado com Lloyd’s of London, que, com quase trezentos anos de existência, exibia uma reputação como poucas companhias no mundo.

Harold os levou até o escritório da manutenção, e, logo depois, Dominic e Brian estavam diante dos registros que pediram e de duas xícaras de café. Harold se demorou, parado na porta, até que o olhar especial de suma daqui de um marine que Brian lhe dirigiu surtiu efeito imediato.

O plano de voo da Hlasek Air listava Madri, na Espanha, como destino do Falcon, mas planos de voo eram somente isso: planos. Uma vez fora do espaço aéreo de Söderhamn, o Falcon podia ter ido a qualquer lugar. Havia complicações nisso, é claro, mas nada insuperável. Os registros de manutenção pareciam também ser rotineiros até que eles passaram do sumário e leram os detalhes. Além de completar os tanques do Falcon, o mecânico de voo havia executado um diagnóstico do transponder do avião.

Dominic se levantou, bateu na janela de vidro do escritório e acenou para que Harold entrasse. Mostrou ao mecânico o relatório de manutenção.

— Esse mecânico, Anton Rolf, gostaríamos de falar com ele.

— Hã, ele não está aqui hoje.

— Já imaginávamos. Onde podemos achá-lo?

— Não sei.

— O que isso quer dizer? — perguntou Brian.

— Faz uma semana que Anton não aparece no trabalho. Ninguém o viu nem soube dele.

 

A polícia de Söderhamn, explicou Harold em seguida, fora ao aeroporto na quarta-feira anterior, investigando uma queixa de pessoa desaparecida feita pela tia de Rolf, com quem Anton vivia. O sobrinho não voltara para casa depois do trabalho na sexta-feira da semana anterior.

Supondo que a polícia já havia feito o trabalho de rotina, Brian e Dominic dirigiram até Söderhamn, hospedaram-se no Hotel Linblomman e dormiram até as seis da noite, depois acharam um restaurante por perto, onde comeram e fizeram hora até ir a pé para um pub chamado Dålig Radisa — Rabanete Ruim —, o qual, segundo Harold, era o lugar preferido de Anton Rolf.

Depois de darem uma volta de reconhecimento pelo quarteirão, entraram pela porta da frente do bar e foram atingidos por uma onda de fumaça de cigarro e heavy metal, e envolvidos por um mar de corpos com cabelos louros que ou disputavam uma posição no bar ou dançavam em qualquer espaço livre que houvesse.

— Pelo menos não é aquela merda tecno — gritou Brian por cima da cacofonia.

Dominic agarrou uma garçonete que passava e usou seu precário sueco para pedir duas cervejas. Ela desapareceu e voltou cinco minutos depois.

— Você fala inglês? — perguntou a ela.

— Sim, inglês. Você é inglês?

— Americano.

— Olá, americano. Que legal, hein?

— Estamos procurando Anton. Tem visto ele?

— Qual Anton? Vêm muitos por aqui.

— Rolf — respondeu Brian. — Mecânico. Trabalha no aeroporto.

— Sim, ok, Anton. Acho que faz mais de uma semana que não aparece.

— Sabe onde podemos achá-lo?

O sorriso da garçonete esmaeceu um pouco.

— E por que vocês estão procurando ele?

— Nós o conhecemos pelo Facebook no ano passado. E dissemos que o procuraríamos da próxima vez que passássemos por aqui.

— Ah, tá, Facebook. Legal. Os amigos dele estão ali. Pode ser que saibam. Bem ali, no canto. — Ela apontou uma mesa com uma meia dúzia de jovens de 20 e poucos anos, com camisas de clubes.

— Obrigado — disse Brian, e a garçonete se virou para ir embora. Dominic a deteve.

— Ei, só por curiosidade: por que você perguntou a razão de estarmos procurando por Anton?

— Houve outros. Não simpáticos como vocês.

— Quando?

— Na última terça-feira? Não, desculpe, segunda-feira.

— A polícia, talvez?

— Não, não era a polícia. Conheço todos os policiais. Quatro homens, não eram brancos, mas não eram negros também. Talvez do Oriente Médio.

Quando ela se foi, Dominic gritou no ouvido de Brian:

— Segunda. Três dias depois que a tia de Rolf disse que ele não voltou para casa.

— Talvez ele não queira ser encontrado — respondeu Brian. — Merda, cara, eles tinham que ser torcedores de futebol.

— E daí?

— Você nunca assistiu à Copa do Mundo, cara? Esses caras gostam de brigar mais do que de beber.

— Então não deve ser difícil conseguir alguma reação deles.

— Dom, não é como se fosse pugilismo. Estou falando de briga de rua tipo arranco sua orelha e piso nos seus colhões. Acrescente a isso todo um grupo e o que você tem?

— O quê?

— Um monte de dentes — respondeu Brian com um sorriso malévolo.

 

— Ei, pessoal, estamos procurando Anton — disse Dominic. — A garçonete disse que vocês são amigos deles.

— Não falo inglês — disse um deles. Tinha uma treliça de cicatrizes viscosas na testa.

— Ora, vai se foder, Frankenstein — disse Brian.

O homem empurrou a cadeira para trás e se levantou, assumindo uma postura de ataque. O restante o imitou imediatamente.

— Agora você fala inglês, não? — gritou Brian.

— Apenas digam a Anton que estamos procurando por ele — falou Dominic, levantando as mãos na altura do ombro. — Se não, vamos fazer uma visita à tia dele.

Brian e Dominic deram a volta pelo grupo e foram para a saída que dava para o beco.

— Quanto tempo você acha? — perguntou Brian.

— Trinta segundos, não mais — respondeu Dominic.

Lá no beco, Brian agarrou uma lata de lixo de aço, e Dominic, um pedaço de vergalhão enferrujado do tamanho do seu antebraço, e se viraram a tempo de ver a porta girar e se abrir. Brian, parado atrás da porta, deixou três dos torcedores saírem e correrem para cima de Dominic, depois chutou a porta na cara do quarto e avançou, balançando a lata de lixo como uma foice. Dominic deu um chute na canela do líder, desviou a cabeça de um soco dado pelo segundo e desceu o vergalhão no antebraço dele, quebrando-o. Brian se virou quando a porta abriu de novo, enfiou o fundo arredondado da lata de lixo bem na testa do quarto sujeito, esperou que ele desabasse e jogou a lata nos joelhos dos dois que avançavam pela soleira. O primeiro caiu aos pés de Brian, tentou se levantar apoiado nas mãos e nos joelhos, mas Brian lhe deu um chute na cabeça, derrubando-o de vez. O último torcedor, punhos fechados e agitando os braços, atacava Dominic, que recuou, mantendo-se fora do seu alcance, antes de desviar para o lado e tascar o vergalhão no lado da cabeça do sujeito. Ele caiu por cima da parede do beco e depois desabou.

— Tudo bem? — perguntou Dominic ao irmão.

— Tudo, e você?

— Alguém acordado?

— Sim, esse aqui. — Brian se ajoelhou ao lado do primeiro torcedor que saíra pela porta. Ele gemia e rolava de um lado para o outro, segurando o joelho fraturado. — Ei, Frankenstein, diga a Anton que estamos procurando por ele.

 

Eles deixaram os torcedores de futebol no beco e andaram da rua do bar até um parque, onde Dominic ficou sentado em um banco. Brian foi correndo para o hotel, pegou o carro de aluguel, voltou e estacionou do outro lado do parque.

— Nada de polícia? — perguntou Brian, aproximando-se do banco onde estava Dominic pelo meio das árvores.

— Nada. Eles não me pareceram ser do tipo que gosta muito da polícia.

— Nem para mim. — Esperaram cinco minutos, depois a porta da frente se abriu e dois dos torcedores saíram e se enfiaram em um carro estacionado mais abaixo no quarteirão. — Bons amigos.

— Ingênuos, mas bons amigos.