Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 84 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 84

 

Hendley e Granger esperavam os dois com um Suburban quando desceram em Dulles.

— Para onde vamos? — perguntou Clark.

— Andrews. Há um Gulfstream esperando — respondeu Hendley. — Já temos equipamento e roupas a bordo. Mas comecemos pelo começo: o navio, Losan. Você estava certo, Jack. Os Salim tinham duas dúzias de bombas. No manifesto de carga estavam listados 46 tanques de propano, todos com defeito e vazios, voltando do Senegal para o fabricante, a Tarquay Industries, em Smithfield.

— Bem, sabemos que não estavam vazios — disse Clark.

— Correto. Ainda demora uns dois dias para terem certeza, mas as equipes do Departamento de Materiais Perigosos suspeitam que havia em cada tanque algumas centenas de galões de amoníaco ou hipoclorito de sódio.

— Alvejantes — apontou Jack.

— Sim, parece. Alvejante comum de uso diário. Misture as duas e você tem gás cloro. Faça as contas e estamos falando de pelo menos 35 toneladas de precursores de gás cloro. Da maneira como ficou, sabemos que apenas umas duas centenas de galões foram misturados. Conseguiram conter a coisa.

— Puta merda! — exclamou Jack. — São 35 toneladas. Que tipo de danos isso poderia provocar?

— Depende muito do vento, da umidade e da temperatura, mas podíamos estar considerando milhares de mortos. Milhares a mais com queimaduras na pele e na mucosa, edema pulmonar, cegueira... É uma merda feia — respondeu Granger.

— Ponto seguinte da pauta. Chavez e Caruso agarraram Hadi — continuou Hendley.

— E os outros do grupo? — perguntou Chavez.

— Mortos na Rocinha. Isso pode ter algo a ver com o resultado, mas, quando Hadi começou a falar, não parou mais.

— Estamos com ele?

— Não, ele foi empacotado que nem um peru do Dia de Ação de Graças e deixado numa delegacia com um bilhete anexado. Jamais vai sair de uma prisão brasileira.

— Estávamos basicamente corretos sobre Hadi. Há muito tempo era mensageiro do CRO, e foi recrutado para a operação em Paulínia no momento final. No seu último trabalho como mensageiro, de Chicago a Vegas e de lá para São Francisco, ele deu uma parada no caminho para visitar um velho amigo.

A expressão de Hendley respondeu à pergunta seguinte antes que Jack ou Clark pudesse formulá-la.

— Você está de sacanagem com a gente.

— Não. O Emir veio em um Dassault Falcon desde a Suécia há cerca de um mês. Vive nos arredores de Vegas desde então.

— E Hadi sabia onde...

— Sim.

— Isso é bobagem — declarou Jack. — Ele veio para cá por alguma razão. Essa coisa de Paulínia, o Losan... Ding está correto. O dominó começa a cair.

— Concordo — disse Granger. — Por essa razão é que vocês vão agarrá-lo; Chavez e Caruso já estão voando. Vão pousar mais ou menos uma hora depois de vocês.

— Então agarramos o cara e o colocamos na soleira do FBI? — disse Clark.

— Não tão cedo, e não até termos a oportunidade de espremê-lo um pouco.

— Isso pode levar algum tempo.

— Veremos.

Hendley disse isso com um sorriso que Jack só pôde descrever como ligeiramente maligno.

 

Em Andrews, o Gulfstream estava abastecido e pronto, a porta aberta e as escadas estendidas para eles. Jack e Clark pegaram seus equipamentos no porta-malas do Suburban, apertaram as mãos de Hendley e Granger, e entraram a bordo do avião. O copiloto os recebeu na porta.

— Sentem onde desejarem. — Recolheu as escadas, trancou a porta. — Estaremos taxiando em cinco minutos e com as rodas recolhidas em dez. Sirvam-se do que quiserem no refrigerador e no minibar.

Jack e Clark foram para a cabine. Na última fileira estava sentado um rosto familiar: Dr. Rich Pasternak.

— Gerry não me contou muita coisa — disse Pasternak. — Por favor, me digam se estou atravessando o país no meio da noite por conta de uma maldita boa razão.

Clark sorriu.

— Nada está escrito em pedra, doutor, mas acho que seu tempo vai valer a pena.

 

Com quatro horas de diferença de fuso horário e um voo de quatro horas e vinte minutos, tecnicamente pousaram no aeroporto de North Las Vegas apenas vinte minutos depois de deixar Andrews. Era um fenômeno que Jack compreendia, é claro, mas pensar muito sobre a flexibilidade surrealista do mundo contemporâneo podia deixar uma pessoa com dor de cabeça.

Entre sonecas, ele e Clark dissecaram a missão no Losan, conversaram sobre beisebol e vasculharam a geladeira e o minibar. Por sua vez, Pasternak ficou sentado na poltrona, cochilando de vez em quando, mas principalmente olhando o espaço. Jack sabia que havia muita coisa na mente do médico. O homem tinha perdido um irmão naquela feia manhã de setembro, e agora estava ali, oito anos depois, talvez para conhecer o sujeito que planejara tudo aquilo. Embora “conhecer” não fosse exatamente a palavra certa, não é? O que Pasternak havia guardado para o Emir era algo que Jack não desejava para ninguém. Quase ninguém.

O avião parou, os motores pararam de girar. Jack, Clark e Pasternak recolheram seus pertences pessoais e foram para a porta. O copiloto saiu da cabine, abriu a porta e estendeu a escada.

— Doutor, quer que mandemos seu equipamento para o terminal?

— Não, aguardaremos por ele.

Na pista, Clark perguntou a Pasternak:

— Que equipamento?

— Ferramentas do ofício, Sr. Clark.

Pasternak disse isso sem qualquer traço de um sorriso.

 

Um ônibus do aeroporto os levou até o terminal, e dez minutos depois estavam numa minivan Ford rumo sul para Rancho Drive. Entraram no estacionamento rotativo do McCarran e acharam uma vaga. Jack ligou para o celular de Dominic, que respondeu no segundo toque.

— Já pousaram? — perguntou Jack.

— Há cinco minutos. Onde vocês estão?

— Pegamos vocês na saída.

 

Chavez e Dominic jogaram suas coisas na área de carga e entraram. Todos se cumprimentaram. Chavez disse:

— Droga, John, jamais pensei que veria você dirigindo um carrinho de mamãe levar filhos para o futebol.

— Engraçadinho.

Clark saiu e se dirigiu para a rodovia.

 

Em apenas 15 minutos, eles já entravam no condomínio de luxo. Seguindo as indicações de Chavez, Clark passou pela casa sem diminuir a marcha, depois dobrou na esquina e voltou para a entrada da seção. No sinal de parada, colocou a van em ponto morto e desligou os faróis.

— Temos cerca de duas horas antes do amanhecer e nenhuma inteligência sobre o que há lá dentro, correto, Ding?

— Hadi viu a garagem, a cozinha e a sala de estar. Só isso.

— Sistemas de alarme?

— Não se lembra de ter visto nenhum teclado. Sabe com certeza que o Emir tem um guarda-costas, um sujeito chamado Tariq. Aparência regular, altura média, cabelos castanhos, mas suas mãos são todas queimadas. Hadi não sabia nada a respeito.

— Então com certeza temos dois lá dentro — disse Clark. — Provavelmente faz algum tempo que o Emir não atua como soldado, mas assumimos que ambos são durões. Perguntas?

Não havia nenhuma.

— Vamos em silêncio até a porta da garagem do lado, depois para a cozinha. Duas equipes. Alguém acha necessário misturarmos as duas?

— Não — respondeu Chavez.

Jack notou Dominic baixar ligeiramente a cabeça e olhar pela janela.

— Dom? — perguntou Clark.

— Nós funcionamos bem juntos. Eu meio que fodi um pouco as coisas, mas depois ajeitamos tudo, certo?

Ding assentiu.

— Podemos prosseguir.

— Ok — concordou Clark. — Duas equipes, revista padrão na casa. Precisamos de todos os vivos que consigamos, mas o Emir é nosso alvo primário. É melhor se não dispararmos nenhum tiro. Numa vizinhança destas vamos ter policiais aqui em cinco minutos. Doutor, vou pedir que fique aqui e cuide do forte. Chamamos depois de terminar. Se houver espaço na garagem, entre direto. Se não, vá pelo acesso.

 

Estacionaram a van no final do quarteirão e caminharam o restante do caminho. O céu estava claro, com lua cheia; o ar frio, o tipo de frio que só acontece numa noite no deserto.

Clark foi à frente, caminhando pela calçada, pelo portão do lado e a porta lateral. A tranca era uma maçaneta de girar, e ele a abriu com a gazua em quarenta segundos. Todos entraram na garagem. Dominic, na retaguarda, fechou a porta. A garagem estava vazia. Nenhum carro. Ficaram ali um minuto completo, escutando e deixando os olhos se acostumarem com a escuridão.

Clark foi até a porta da cozinha e experimentou a maçaneta. Olhou para os demais, e todos assentiram. Cada um sacou sua arma. Clark girou a maçaneta, parou, escutou e abriu a porta. Ficou parado na soleira por vinte segundos e examinou o umbral, procurando o bipe de um alarme. A casa estava em silêncio. A cozinha e a copa estavam à direita; à esquerda, através de um arco, a sala de estar.

Clark entrou e foi para a direita, seguido por Jack, depois por Dominic e Chavez, e então foram na direção do arco. Quando Clark acenou, começaram a se movimentar pela casa. Do outro lado da cozinha havia uma porta aberta e, adiante, um corredor. Clark espiou pelo canto. A 3 metros, à sua esquerda, a cabeça de Ding apareceu no outro lado. O corredor se estendia pela direita de Clark. Três portas, uma de cada lado e uma no final do corredor. Clark fez gestos para Ding e Dominic pegarem a porta da esquerda. Quando chegaram na frente, Clark e Jack deslizaram do lado da porta da direita. As duas equipes entraram no mesmo momento e saíram dez segundos depois. Ambos eram quartos de hóspedes, e os dois estavam vazios.

Pararam diante da porta no final: Clark, Jack, Chavez e Caruso. Clark gesticulou: dois a dois, direita e esquerda. Todos assentiram. Clark experimentou a maçaneta, virou-se e assentiu. Todos avançaram pela porta, ocupando a direita e a esquerda, as armas acompanhando. Clark levantou o punho — esperem —, e indicou um amontoado sob as cobertas. Depois apontou para Chavez e em seguida para o closet. Ding verificou, e sacudiu a cabeça.

Clark deslizou até a cama. Jack e Dominic ficaram no pé, e Ding do outro lado. Todos os quatro apontaram as armas para a figura sob as cobertas. Clark colocou a pistola no coldre e ligou a lanterna-lápis de LED. Agarrou a ponta do lençol e puxou.

— Merda.