Morto ou Vivo
Capítulo 46
Sem querer arriscar serem vistos colocando a marca do recolhimento, Clark e Chavez despertaram na manhã seguinte bem antes de o sol nascer e viram que Embling já estava de pé, fazendo café e preparando uma frasqueira com rações para o dia. Assim munidos, dirigiram-se para o acantonamento, dessa vez no outro carro de Embling, um Honda City 2002 azul, malconservado, e chegaram em Chowk Yadgaar 15 minutos depois, separando-se na escuridão de antes do amanhecer: Chavez e Clark fazendo uma caminhada para se familiarizar novamente com a área e testar os rádios portáteis com o fone de ouvido, o microfone e o sistema “aperte para falar” com que Gavin Biery os equipara; Embling vigiando o local do Portão Kohati e colocando a marca. Quarenta minutos depois, todos se encontraram em Chowk Yadgaar.
— Tenham em mente — disse Embling — que há um posto policial a poucas centenas de metros abaixo da praça. Se forem detidos... — Parou e riu. — Olhem só para mim, tagarelando. Imagino que vocês dois já fizeram esse tipo de coisas antes.
— Uma ou duas vezes — disse Clark. Ou cem. Operar pontos de entrega não era uma tarefa assim tão comum, mas os métodos universais de vigilância e contravigilância ainda se aplicavam. Como esperavam pelo adversário em vez de segui-lo, a distração seria o inimigo mais poderoso. Distraia-se, perca o foco, deixe passar alguma coisa. No fundo da mente de Clark um relógio contava o tempo: quanto tempo permaneceriam em Peshawar esperando alguém que verificasse o ponto antes de decidir que a rede estava morta?
— Então, tudo certo — disse Nigel. — Vou estacionar o carro mais perto do Portão Kohati. Estou com o celular ligado.
Quando os primeiros camelôs chegaram para levantar seus toldos e montar quiosques e mesinhas, Chavez assumiu o primeiro turno.
— Posicionado — emitiu ele pelo rádio.
— Entendido — respondeu Clark pelo microfone no colarinho. — Me avise quando Nigel passar.
Dez minutos transcorreram.
— Já o vi. Acabou de passar pelo Portão Kohati. Está estacionando.
Agora a gente espera, pensou Clark.
Enquanto a Cidade Velha se enchia de movimento e os turistas e locais começavam a afluir, Clark, Chavez e Embling se revezavam pela área do Portão Kohati, fluidamente e sem nem mesmo trocar um olhar, transferindo a vigilância para o seguinte, que fazia o melhor possível para passar o tempo sem parecer óbvio: parando pelos quiosques para regatear com os proprietários o preço de um colar ou de um camelo esculpido em madeira, fotografando a arquitetura, e falando eventualmente com algum local que se interessasse por saber de onde era e o que o levara até Peshawar — e durante todo o tempo mantendo metade de sua atenção focada na marca de giz feita no tijolo de argila na parede do beco no lado oposto ao portão.
Às onze e quinze, Clark, que estava de turno, sentiu um tapinha no ombro e deu de cara com um policial.
— Americano? — perguntou a Clark em um inglês arrevesado.
Clark respondeu com um sorriso de simpatia:
— Não, canadense.
— Passaporte. — Clark entregou. O policial o examinou por trinta segundos, fechou e o devolveu. Apontou para a câmera digital de Clark. — Que fotos?
— Desculpe?
— Você fotografa. O quê?
Clark acenou para os edifícios próximos.
— Arquitetura. Trabalho para a National Geographic. Estamos fazendo uma matéria sobre Peshawar.
— Você tem permissão?
— Não sabia que precisava de uma.
— Permissão.
Clark compreendeu. Baksheesh. No mundo muçulmano, o termo significava tanto esmola para mendigos, gorjetas, ou suborno, o que era o caso ali.
— Quando custa a permissão?
O policial olhou Clark de cima a baixo, avaliando o quanto valia.
— Mil e quinhentas rupias.
Cerca de 20 dólares. Clark tirou um maço de notas amarrotadas do bolso “leve” e entregou três notas de 500 rupias.
— Só este dia ficar aqui?
— Talvez volte amanhã — respondeu Clark com um sorriso amistoso. — Posso pagar adiantado pela permissão?
A oferta provocou um sorriso no rosto do policial, que até então permanecia sério.
— Claro que sim.
— Há desconto para pagamento adiantado? — A maioria dos comerciantes paquistaneses ficavam ligeiramente ofendidos se as vítimas não regateassem um pouco.
— Mil e quatrocentas rupias.
— Mil e duzentas.
Depois, previsivelmente:
— Mil e trezentas.
Clark entregou as notas, o policial assentiu e deu no pé.
— O que ele queria, chefe? — Chavez perguntou pelo rádio de algum lugar não visível.
— Me extorquir. Tudo bem.
A voz de Embling:
— Temos um peixe beliscando, John.
Clark levantou a câmera e, olhando pelo visor, virou vagarosamente, como um turista procurando uma boa foto, até que o beco e o Portão Kohati estivessem enquadrados. Um garoto de 7 ou 8 anos, usando roupas imundas de lona branca e uma camiseta azul da Pepsi, estava inclinado ao lado do tijolo com a marca. Depois de um instante, cuspiu nas mãos e esfregou vigorosamente até limpá-lo.
— E mordeu — informou Clark. — Está saindo pelo portão. Calça branca, camiseta azul da Pepsi.
— Estou a caminho — acrescentou Chavez.
— Indo para o carro — relatou Embling. — Encontro vocês lá fora.
Chavez alcançou Clark, que tinha acabado de chegar ao lado de fora do portão, em menos de um minuto.
— Ele desceu a rua. Do nosso lado, acabou de passar pelo Opel azul.
— Estou vendo.
Embling ligou o Honda e os dois entraram. O inglês saiu, virou para evitar um caminhão de entrega que se aproximava do portão, acelerou forte por cinco segundos e depois voltou para o limite de velocidade quando se aproximaram e ultrapassaram o garoto. Embling entrou na primeira à direita, adentrou uns 30 metros pela rua lateral e fez um retorno rápido e retornou para o cruzamento, parando a uns 10 metros. Pela janela, puderam ver o garoto virar à esquerda ainda na sua rua, cruzando-a diagonalmente num trote e entrando em uma tabacaria.
— Vou lá — disse Chavez no banco traseiro, estendendo a mão para a maçaneta.
— Espere — murmurou Embling, olhar fixado na loja.
— Por quê?
— Seja lá para quem ele trabalhe, provavelmente tem outros à disposição. É um hábito local; pequenos mensageiros para tarefas sem importância.
Sessenta segundos depois, o garoto reapareceu na calçada. Olhou para os dois lados, depois chamou um homem sentado em um banco duas portas abaixo. O homem respondeu alguma coisa e apontou diretamente para o Honda de Embling.
— Virada desalentadora — disse Embling.
Clark respondeu com calma:
— Não se ele vier em nossa direção. Se estivermos queimados, ele vai para o lado oposto.
Não foi. Dando uma arrancada, correndo e se esquivando de uma corrente de carros buzinando e desviando, o garoto cruzou as ruas e passou bem ao lado deles. Do assento traseiro, Chavez disse:
— Um quarteirão mais para cima, virou para leste.
Nigel engatou o carro e foi até o semáforo, esperando por uma brecha no trânsito. Quando apareceu, dobrou à esquerda.
— Aqui vamos paralelos a ele por dois quarteirões. — Na parada seguinte, ele dobrou à direita e depois à esquerda, e parou diante do playground de uma escola.
— Já o vi — disse Clark, com o olhar fixado no retrovisor lateral.
O garoto se enfiou por uma porta coberta por um toldo vermelho e voltou alguns segundos depois com outro rapaz, esse já adolescente, de cabelos negros crespos e um casaco de couro. Enquanto o primeiro garoto falava e gesticulava, o adolescente foi até um posto próximo e começou a abrir uma corrente com cadeado que protegia uma mobilete amarela.
— Boa jogada, Nigel — disse Clark.
— Veremos. Esses garotos com mobiletes por aqui acham que manejam motocicletas de corrida.
Aquele, logo perceberam, não era exceção. Apesar de sua velocidade máxima não ultrapassar os 40 quilômetros por hora, o adolescente costurava pelo meio do trânsito com uma irregularidade aparente que fez Clark se lembrar de uma pipa em dia de vento. Por sua vez, Nigel não seguia o motociclista em todas as suas mudanças de faixa. Em vez disso, continuava em frente, sempre mantendo a mobilete amarela à vista e mudando de pista só quando se fazia necessário.
O adolescente seguiu rumo sudoeste para fora do acantonamento, primeiro pela estrada de Bara, depois para noroeste, passando pelo viaduto do anel viário. As placas de rua, escritas em urdu, eram indecifráveis para Clark e Chavez, mas Embling comentava o trajeto.
— Cruzando o canal Cabul — anunciou.
— Estamos nos aproximando de Hayatabad, não é? — perguntou Chavez.
— Boa observação. Sim, estamos. Mais uns 5 quilômetros. Chegando a Gul Mohar.
No último momento, a mobilete dobrou à direita cruzando duas pistas e pegou a saída. Embling, que já estava na pista direita, simplesmente ligou o pisca-pisca e entrou.
Nos vinte minutos seguintes, o adolescente fez o que só podia ser um trajeto de precauções — e fez um trabalho bem decente nesse sentido, Clark teve que admitir. Passaram pela Universidade de Peshawar, pelos escritórios do Departamento de Turismo, e pelo Cemitério Inglês, até que finalmente o garoto seguiu para norte pela estrada de Pajjagi, passou pelo Clube de Golfe de Peshawar, e mais uma vez cruzou o canal Cabul. Logo estavam nos arredores da cidade. Campos irrigados apareciam à direita e à esquerda deles. Embling diminuiu a velocidade até a mobilete se tornar apenas uma mancha de amarelo brilhante.
Depois de 10 quilômetros, a mobilete dobrou para oeste e seguiu por uma estrada sinuosa e arborizada antes de se enfiar numa estreita entrada para carros. Embling parou a algumas centenas de metros antes, fez a volta e desligou o motor. Esperaram. Assim tão longe da cidade não havia buzinas tocando nem motores acelerando. Os minutos tiquetaqueavam até passar meia hora.
O barulho de um motor desceu pela estrada. Embling ligou o carro e acelerou até outra entrada, a uns 500 metros dali, e entrou, descendo por uma estrada de terra até que a via principal mal fosse visível pela janela traseira. Adiante havia um celeiro velho, o telhado parcialmente destruído. Chavez se virou no banco. Um instante mais tarde, a cabeça do rapaz passou pela janela.
— Você é quem manda, John.
— Deixa ele ir. Acho que encontramos o que procurávamos. Se o garoto for verificar o ponto de recolhimento, logo mais vai estar de volta.
E voltou, quarenta minutos depois, passando disparado pela entrada onde estavam. Um pouco depois, o motor da mobilete se silenciou.
— Diria que você encontrou sua presa — disse Embling.
Clark assentiu.
— Vamos passar por lá de carro e ver o que for possível.
Uma hora mais tarde, de volta à casa de Embling, Clark e Chavez tomavam chá enquanto seu anfitrião fazia três chamadas telefônicas falando rápido em urdu. Desligou e disse:
— É uma empresa de segurança particular.
— Eu me pergunto do quem ele tem medo.
O que eles viram quando passaram foi uma van branca com um cartaz branco e vermelho, parada na estrada de terra e, próxima a ela, uma casa de fazenda de dois andares.
— Isso eu não sei, nem consegui descobrir o nome do cliente. A empresa foi contratada há pouco tempo, entretanto. De fato, na semana passada. Dois homens por turno, cobertura 24 horas.
Clark verificou o relógio. O pôr do sol seria dali a cinco horas. Olhou para Chavez, que já havia lido a mente de seu parceiro.
— Vamos lá pegá-lo.
— Nigel, suponho que você não tenha ferramentas...
— Tenho sim. De fato, um belo conjunto.