Morto ou Vivo
Capítulo 53
Aestrada de cascalhos que saía da praia parecia quase imaculada, provavelmente porque havia pouco trânsito, se é que havia, passando por ali, e nem mesmo muitos animais que a pisoteassem, além do tempo inclemente que matara ou impedira o crescimento de qualquer vegetação.
Musa deu um adeus final a seu capitão, Vitaliy, depois assentiu solenemente para Idris, a quem ordenou que ficasse ali. Apesar de improvável, se o capitão tentasse sair antes que retornassem, Idris mataria os dois russos. Pilotar o barco de volta ao porto sem eles seria um desafio, mas Alá lhes mostraria o caminho.
Musa subiu no assento de passageiros do veículo. Fawwaz, já atrás do volante, deu a partida no motor, enquanto Numair e Thabit subiam na carroceria.
— Vamos — ordenou Musa. — Quanto mais cedo terminarmos o que viemos fazer, mais rápido saímos desse lugar amaldiçoado.
Fawwaz engatou a primeira e começou a subir a colina.
O farol e o abrigo vizinho estavam a apenas 1 quilômetro dali, talvez uns 500 metros colina acima. Vitaliy e Vanya sentaram nas cadeiras giratórias da casa do leme e observaram o progresso dos homens através de binóculos, bebendo chá e fumando cigarros, e desejando mais comida, enquanto a música no rádio ficava pior. O cão de guarda de Fred ficou na amurada, observando os dois. A leste estava a tundra verde-bandeira, e a vista era tão sem acidentes geográficos quanto a que um rato teria ao contemplar um carpete verde.
Vitaliy observou quando dois deles saíram do caminhão, e depois usaram sinais de mão para o motorista estacionar de costas no abrigo de aço.
Vitaliy jamais vira um dos geradores que faziam o farol funcionar. Tinha ouvido falar que tinham material radioativo, ainda que seu modo de funcionamento fosse além do seu conhecimento. Também havia ouvido dizer que alguns desapareceram, mas, se isso aconteceu, não foi com algum dos faróis importantes de seu pedaço da costa. Tanto quanto sabia, podiam muito bem ser pequenos geradores a diesel. A lâmpada do farol geralmente era pequena, dificilmente com mais de 100 watts, um fato que surpreendia — na verdade, maravilhava — os que não sabiam disso. As lentes Fresnel focavam a luz em um raio pequeno, da espessura de um lápis, cujo alcance efetivo era determinado pela altura do farol, e qualquer luz aparecia brilhante na noite escura. Os faróis, falou a si mesmo, eram um resto obsoleto dos tempos antigos, dificilmente ainda necessários na era das ajudas eletrônicas. Então, que dano realmente ele podia estar provocando? Esse fretamento financiaria a aquisição por ele de um moderno sistema GPS, provavelmente um dos novos modelos japoneses que custavam 500 ou 600 euros, mais baratos que o carro novo que ele queria. E que droga importava isso?
Naquele instante, jamais lhe ocorreu que aquilo podia provocar a morte de milhares de pessoas.
Levou quatro horas, muito menos do que Fred havia sugerido. Poderia ter sido ainda mais rápido se simplesmente tivessem demolido o abrigo de placas corrugadas, mas evidentemente não queriam fazer aquilo. O farol pareceria inteiramente normal durante o dia (com o sol completamente descoberto era difícil ver se a luz estava ou não acesa), e, à noite, poucos iam até aquele golfo para notar. E mesmo se fossem, tanta coisa na Rússia não funcionava como previsto que uma a mais dificilmente seria notícia. Duas xícaras de chá e cinco cigarros mais tarde, o caminhão ribombou voltando à vida e começou a descer a estrada de cascalhos até o barco. Só quando fizeram a volta para regressar é que Vitaliy viu algo pendurado no guindaste, com cerca de 1 metro, grosseiramente retangular com bordas curvas que sugeriam haver um cilindro ali dentro, talvez do tamanho de um barril de petróleo. Então aquilo era a bateria do farol? Ele havia se perguntado como era a aparência delas, e também como funcionavam. Parecia grande demais para proporcionar uma energia para uma lâmpada tão pequena. Isso a fazia tipicamente soviética, é claro: grande, desajeitada, mas geralmente funcional.
Um dos membros da equipe caminhava de costas atrás do caminhão guindaste, guiando-o de volta para o barco e, depois de três horas, quando a maré ficou novamente favorável, chegou a hora de levantar a rampa e partir. O homem na cabine do caminhão manobrou o guindaste para abaixar o gerador até o convés. Seus colegas não o amarraram no lugar. Não eram marinheiros, mas estavam cheios de euros.
Vitaliy ligou os motores em reverso e avançou para águas profundas, depois girou o leme para se dirigir de volta a noroeste, na direção do estreito de Kara. Então, ele ganhara seus 2 mil e tantos euros. No processo, talvez tivesse queimado 1.000 em óleo diesel — na verdade menos, mas as pessoas que o fretaram não sabiam disso —, e o restante era o desgaste de seu T-4, e de seu próprio e valioso tempo, é claro. Assim, a tarefa já estava concluída pela metade. Ao voltar para o porto, ele os descarregaria e deixaria que fossem para onde quisessem. Nem queria imaginar onde seria isso. Não se interessava em saber. Verificou seu cronômetro. Exatamente 14 horas. Portanto, ele não aportaria antes do fim do dia; mais um dia para cobrar, e para ele isso era ótimo.
Sem ter conhecimento de que havia uma missão complementar a caminho a 300 milhas dali, Adnan e seus homens se preparavam para deixar o conforto relativo do barco. O capitão, Salychev, manobrava o Halmatic para dentro de uma enseada na costa ocidental da ilha. Adnan estava de pé na proa, observando os braços incrustados de neve da enseada se fecharem ao redor deles até a passagem não ter mais que 1 quilômetro de largura. O nevoeiro continuou subindo da superfície da água até que Adnan só conseguia vislumbrar os penhascos, escarpas marrons erodidas salpicadas de cascalhos e matacões.
O motor a diesel do Halmatic pipocava suavemente enquanto Salychev assoviava para si mesmo dentro da cabine. Adnan avançou e entrou.
— O quanto estamos distantes do povoado...
— Belushya Guba — completou Salychev por ele. — Não muito. Subindo pela costa está a cerca de 100, 150 quilômetros. Não se preocupe. As patrulhas não entram nas enseadas, ficam pela costa. Posso até escutá-las se o vento estiver certo, mas assim tão perto da terra os radares de navegação deles se embaralham. Não poderiam nos ver a menos que tropeçassem em nós.
— Houve detonações nesta área?
— Algumas, mas isso foi lá pelos anos 1960, 1961. E das pequenas. Nada mais que uns 15 quilotons. Só bebezinhas, nada com que se preocupar. Agora, costa acima, talvez uns 300 quilômetros ao norte de Belushya Guba, está Mityushev. Lá, sim, fizeram muitas. Dúzias e dúzias, todas com centenas de quilotons, um par de megatons, também. Se você quiser ver como é a lua, esse é o lugar para ir.
— Você já esteve lá?
— Ao largo. Não há dinheiro no mundo que me faça me enfiar por aquelas baías e canais. Não, o lugar para onde estamos indo é um paraíso comparado com Mityushev.
— É de admirar que qualquer coisa viva ali.
— Tudo é relativo. Você já ouviu falar do Pak Mozg?
— Não.
— A tradução é “caranguejo de cérebro”. Supostamente tem meio metro de altura, com uma casca partida ao fundo e com o sistema nervoso exposto, tipo pendurado pela abertura da carapaça.
— Você está brincando comigo.
Salychev deu de ombros.
— Não, nunca vi um, mas tenho um amigo que jura que já viu.
Adnan sacudiu a mão desdenhosamente.
— Bobagem. Quanto tempo até chegarmos ao estaleiro?
— Mais ou menos duas horas. Vai escurecer logo depois, de modo que vai ter que esperar amanhecer. Não vai querer zanzar por lá na escuridão.
— Não.
— Você nunca disse exatamente o que está procurando. Amostras, certo?
— Desculpe?
— Amostra de solo e rochas. É isso que a maioria dos tipos como você vem pegar aqui: lixo. Para testar seja lá o quê.
— Certo — respondeu Adnan. — Lixo.