Morto ou Vivo
Capítulo 5
Como se fosse um sinal de Alá, indicando que seu caminho era o justo e verdadeiro, Dirar al-Kariim escutou o Adhan, a chamada para a prece, ecoando sobre os telhados de Trípoli e descendo até onde ele estava sentado no café, tomando chá. O momento não foi coincidência, ele sabia. Estivera tão focado passando e repassando mentalmente a operação que se esqueceu de ver o sol mergulhando no horizonte. Não importava. Certamente Alá perdoaria a distração — especialmente se tivesse sucesso em sua tarefa —, que também era sua para o bem ou para o mal, não era? O fato de seus superiores terem falhado em perceber o valor da missão era um desperdício infeliz, mas Dirar não estava preocupado. Iniciativa, pelo menos enquanto estivesse seguindo a vontade de Alá e as leis do islã, era uma bênção, e certamente seus superiores reconheceriam isso quando ele completasse a missão. Se estaria ou não vivo para receber os elogios, era uma questão para Alá decidir, mas sua recompensa estava assegurada, nesta vida ou na próxima. Dirar se confortou com o pensamento e o usou para acalmar a agitação no estômago.
Até bem recentemente, seu papel no jihad fora principalmente como apoio, proporcionando transporte e informação, oferecendo seu lar para seus camaradas soldados, e ocasionalmente ajudando no reconhecimento e recolhimento de inteligência. Havia manipulado armas, é claro, mas, para sua grande vergonha, jamais empunhara uma contra o inimigo. Isso logo mudaria — antes do próximo amanhecer, na verdade. Ainda assim, como lhe ensinaram no campo de treinamento em Fuqha, a proficiência em armas e no uso delas era apenas uma pequena parte da operação. Ao menos nisso os militares americanos estavam certos. A maioria dos combates é vencida ou perdida antes mesmo de os soldados chegarem ao campo de batalha. Planeje, replaneje, depois verifique seus planos pela terceira vez. Os erros nascem da má preparação.
O alvo de sua escolha havia se provado inexequível, não apenas pelo limitado número de soldados que tinha sob comando, como também pela localização. O hotel era um dos mais novos de Trípoli, com tantas saídas, andares e pontos de entrada desconhecidos que seriam necessárias pelo menos duas dúzias de homens apenas para ocupá-lo, e isso sem nem mesmo levar em conta a força de segurança local, todos ex-soldados e policiais armados com equipamentos avançados e respaldados por um sistema de vigilância ímpar. Com tempo e recursos suficientes, Dirar tinha confiança de que poderia obter êxito numa missão dessas, mas nenhum dos dois estava à sua disposição. Ainda não, pelo menos. Da próxima vez, talvez.
Em vez do alvo principal, escolheu um secundário, um que já havia sido proposto por outra célula — o grupo de Benghazi, suspeitava Dirar —, mas que tinha sido subsequentemente rejeitado pela liderança. Nenhuma razão fora dada, nem uma alternativa sugerida, e, como muitos de seus compatriotas, Dirar estava cansado de esperar enquanto o Ocidente continuava impávido em sua cruzada. Não foi surpresa encontrar outros membros da célula que compartilhavam desse sentimento, apesar de o recrutamento ter sido feito meio ao acaso, com Dirar nunca sabendo se seus planos tinham chegado a ouvidos hostis, tanto dentro quanto fora da organização. No decorrer do ano anterior, a Haiat amn al Jamahiriyyah de Kadafi conseguira infiltrar com sucesso certo número de células, uma das quais era dirigida por um amigo de infância de Dirar. Aqueles nove homens, bons soldados e fiéis verdadeiros, haviam desaparecido no quartel de Bab al-Azizia e dali jamais saíram — pelo menos, não vivos.
O alvo secundário certamente era coadjuvante, e apenas perifericamente responsável pelo ato pelo qual logo seria punido, porém, se obtivesse sucesso, Dirar confiava que a mensagem seria clara: os soldados de Alá tinham a memória longa e facas ainda mais. Mate um dos nossos e mataremos cem de vocês. Ele duvidava que chegasse a matar cem ali, mas isso não importava.
Juntamente com vários dos fregueses do café, Dirar levantou e foi até uma prateleira na parede do estabelecimento e de lá retirou uma sajada enrolada. Como era requisito, o tapete de oração estava limpo e sem detritos. Voltou à mesa e o desenrolou no pátio de tijolos, cuidando para que a ponta estivesse na direção da Qibla, Meca, depois ficou de pé, ereto, mãos nos lados do corpo, e começou a salah, iniciando com uma iqama sussurrada, o chamado particular para a oração. Imediatamente, sentiu uma onda de paz lavar sua mente enquanto prosseguia pelos sete passos da salah, terminando com a salawah.
Ó Alá, bendito seja Maomé
e seu povo;
Certamente sois o Glorioso.
Ó Alá, derramai a graça divina sobre Maomé
e sobre o povo de Maomé;
Tal como fostes misericordioso com Abraão
e o povo de Abraão.
Pois certamente sois o Eterno, o Glorioso...
Dirar terminou com um olhar de relance sobre cada ombro — reconhecendo a presença dos anjos que registravam as boas ações de cada fiel, assim como seus malfeitos —, e depois colocou as mãos unidas sobre o peito e em seguida limpou o rosto com as palmas.
Abriu os olhos e respirou fundo. Em Sua sabedoria, Alá considerou necessário que os fiéis cumprissem a salah pelo menos cinco vezes ao dia, antes da alvorada, ao meio-dia, no meio da tarde, ao pôr do sol e à noite. Tal como a maioria dos muçulmanos, Dirar considerava que os frequentes rituais eram tanto um momento de se recentralizar quanto um tributo ao poder e à graça de Alá. Jamais falava desses sentimentos com os outros, com receio de que fosse uma blasfêmia, mas no fundo do coração duvidava que Alá o condenasse por isso.
Verificou o relógio. Hora de ir.
A única questão que restava agora era se estaria vivo para cumprir a última salah do dia. Isso agora estava nas mãos de Alá.
Apesar de Driscoll não considerar montanhismo sua caminhada pelo Hindu Kush por si só, era o suficiente para que ele se lembrasse de um velho ditado do Everest: alcance o cume e você só terá subido até a metade da montanha. Tradução: muitas vezes, descer em segurança é a parte realmente difícil. E, para ele e sua equipe, aquilo era especialmente verdadeiro: montanhistas geralmente seguem a mesma rota na subida e na descida. Ele e seus Rangers não podiam fazer isso, a menos que se arriscassem a uma emboscada. Para complicar as coisas, estavam carregando consigo dois prisioneiros, que até então estavam sendo cooperativos, mas isso podia mudar rapidamente.
Driscoll alcançou um ponto plano na trilha entre um par de matacões e parou, levantando o punho ao mesmo tempo. Atrás dele, o resto da equipe parou quase em uníssono e se acocorou. Estavam a uns 150 metros acima do fundo do vale. Mais uns quarenta minutos, segundo a estimativa de Driscoll, e depois mais 2 quilômetros pelo fundo do vale e chegariam à zona de aterrissagem. Verificou o relógio: a caminhada seguia em um bom ritmo.
Tait deslizou pelo lado da coluna e ofereceu a Driscoll um pedaço de carne-seca defumada.
— Os prisioneiros estão começando a arrastar um pouco a bunda.
— A vida é uma merda.
— E aí você morre — respondeu Tait.
Lidar com prisioneiros sempre era arriscado, ainda mais em um terreno como este. Se algum deles torcesse o tornozelo ou simplesmente decidisse sentar e se recusar a caminhar, você tinha três escolhas: deixá-lo para trás, arrastá-lo ou dar um tiro no sujeito. O truque era convencer os prisioneiros de que apenas um destino — o último — os esperava. O que provavelmente era verdade de qualquer maneira, pensou Driscoll. De jeito nenhum ele colocaria dois babacas de volta em circulação.
Driscoll disse:
— Cinco minutos e voltamos a nos mover. Avise aos demais.
O terreno coalhado de matacões lentamente se nivelava e dava lugar a rochas do tamanho de barris e cascalho. A 100 metros do fundo do vale, Driscoll decidiu parar novamente e verificou o caminho à frente com os óculos de visão noturna. Seguiu o caminho ziguezagueante da trilha até o fundo, pausando em cada esconderijo em potencial até ter certeza de que nada se movia. O vale tinha 200 metros de largura e era bordejado por paredes de pura rocha. Lugar perfeito para uma emboscada, pensou Driscoll, porém, considerando tudo, a geografia do Hindu Kush fazia disso mais a regra do que a exceção, uma lição retransmitida há milênios, começando por Alexandre, o Grande, depois pelos soviéticos e, neste momento, pelos militares americanos. Driscoll e seu capitão, agora com a perna quebrada, planejaram essa missão de frente para trás e de trás para a frente, mas não acharam alternativas, pelo menos não numa área de 10 quilômetros, uma volta que colocaria a retirada deles sob a luz do dia.
Driscoll se voltou e contou rapidamente as cabeças: os 15 e mais dois. Sair com o mesmo número com que entrou já era uma vitória em si. Assinalou para Tait — em movimento —, que passou a mensagem para trás da fila. Driscoll se levantou e começou a descer a trilha. Dez minutos depois estavam a um passo do fundo do vale. Parou para verificar se alguém estava se amontoando, depois começou novamente a andar e parou.
Havia alguma coisa errada...
Driscoll só levou um instante para descobrir a fonte: um de seus prisioneiros, o que estava na posição número quatro com Peterson, já não parecia tão cansado. Sua postura era rígida, a cabeça balançando de um lado para o outro. Um sujeito preocupado. Por quê? Driscoll realizou outra parada, fez a coluna se acocorar. Pouco depois, Tait estava ao seu lado.
— O que houve?
— O babaca que está com o Peterson está nervoso com alguma coisa.
Driscoll inspecionou o terreno adiante com a visão noturna, mas não notou nada. O fundo do vale, plano e sem detritos, salvo o matacão ocasional, parecia vazio. Nada se movimentava e não havia ruído algum, salvo o leve assovio do vento. Ainda assim, sua intuição dizia alguma coisa.
Tait perguntou:
— Viu algo?
— Nada, mas alguma coisa deixou o cara de bosta animado. — Então, prosseguiu: — Pegue Collins, Smith e Gomez, recue uns 30 metros e tome outro caminho pela colina. Diga ao Peterson e ao Flaherty para colocarem seus prisioneiros de cara no chão e cuidarem para que fiquem em silêncio.
— Entendido.
Tait desapareceu na trilha, parando para dar instruções a cada homem. Através da visão noturna, Driscoll observou seu progresso enquanto ele e os outros três deslizavam como cobras de volta pelo declive, depois saíam da trilha, movimentando-se de matacão em matacão paralelamente ao vale.
Zimmer havia se movimentado pela fila até a posição de Driscoll.
— A vozinha falou com você, Papai Noel? — perguntou.
— Sim.
Passaram-se 15 minutos. Sob o brilho fosco dos óculos, Driscoll viu Tait parar subitamente. Pelo rádio:
— Chefe, temos um espaço aberto adiante: um chanfro na rocha. Posso ver a ponta de uma tenda.
O que explica o nervosismo do babaca, pensou Driscoll. Ele sabe que o acampamento está ali.
— Sinais de vida?
— Vozes abafadas. Cinco, talvez seis.
— Entendido, mantenha a pos...
À direita, 50 metros acima do vale, apareceu um par de faróis. Driscoll se voltou para ver um jipe UAZ-469 derrapar pela quina e vir na direção deles. Restos da invasão soviética ao Afeganistão, os UAZ eram favoritos entre os inimigos curtidos do local. Aquele ali não tinha capota e era equipado com outra peça do equipamento do Exército soviético, uma metralhadora pesada NSV calibre 12,7 milímetros. Treze disparos por segundo, alcance de 1.500 metros, pensou Driscoll. No instante em que reconhecia a coisa, sua boca começou a disparar. Balas penetravam nas rochas e no solo, lançando cacos e nuvens de poeira. Mais abaixo no vale, por cima do penhasco oposto a Tait e aos demais, outras bocas começaram a atirar. O prisioneiro de Peterson começou a gritar em árabe, coisa que Driscoll não entendia patavina, mas cujo sentido era indisfarçável: encorajamento a seus compatriotas. Peterson bateu com o cabo da M4 atrás da orelha do sujeito, que ficou imóvel.
A equipe de Tait abriu fogo, suas M4 estourando e ecoando pelo vale. O restante dos homens de Driscoll achou uma cobertura e iluminou o UAZ, que derrapou e parou a uns 20 metros de distância, os faróis apontados para os Rangers.
— Tait, jogue umas granadas nessas tendas! — ordenou Driscoll, e depois mergulhou para a esquerda e disparou duas rajadas curtas no UAZ.
— É para já! — respondeu Tait.
Mais acima na trilha, Barnes achou um nicho entre algumas rochas e colocou sua M249 SAW no tripé. A boca começou a cuspir fogo. Com o para-brisas despedaçado, o UAZ começou a recuar, a 12,7 milímetros ainda despejando balas na direção da colina. Vindo de onde Tait estava posicionado, Driscoll escutou o estampido de uma granada, depois outra, ainda mais duas em rápida sucessão. Agora se ouviam mais vozes em árabe. Gritos. Driscoll levou meio segundo para perceber que os gritos vinham de trás. Virou-se, a M4 no ombro. A 15 metros de distância, na trilha, o prisioneiro de Gomez estava de pé, de frente para o UAZ e gritando. Driscoll entendeu uns pedaços — Atire em mim... atire em mim... — e então a cabeça do sujeito explodiu e ele caiu para trás.
— Barnes, faça essa coisa parar! — gritou Driscoll.
Em resposta, os tracejadores da SAW baixaram da cabine e capota do UAZ para a grade do radiador, que começou a soltar faíscas. As balas batiam no bloco do motor, seguidas pouco depois por um gêiser de vapor. A porta do motorista se abriu e uma figura tropeçou para fora. A SAW o cortou ao meio. Na plataforma do jipe, a NSV silenciou, e Driscoll percebeu uma figura descendo. Recarregando, o sargento se voltou e assinalou a Peterson e Deacons — granadas —, mas os dois já estavam de pé, armas engatilhadas. A primeira granada foi longe demais e explodiu sem provocar danos atrás do UAZ, mas a segunda caiu bem ao lado do pneu traseiro do jipe. A explosão levantou a traseira do veículo alguns centímetros do chão. O artilheiro na plataforma caiu para o lado e ficou imóvel.
Driscoll se virou, esquadrinhou o penhasco mais distante com o PVS-17. Contou seis babacas, todos deitados e cuspindo fogo na posição de Tait.
— Fogo nesses merdas! — ordenou, e 11 armas começaram a regar o penhasco. Trinta segundos foram o suficiente. — Cessar fogo, cessar fogo! — ordenou Driscoll. O tiroteio parou. Ele falou pelo rádio: — Tait, conte as cabeças.
— Ainda tenho todas as quatro. Pegamos algumas lascas de rochas, mas estamos bem.
— Verifique as tendas. Limpe tudo.
— Entendido.
Driscoll começou a subir pela trilha, verificando cada homem por vez e só descobrindo alguns arranhões e cortes feitos por rochas fragmentadas.
— Barnes, você e Deacons verifiquem o...
— Papai Noel, você está...
— O quê?
— Seu ombro. Sente, Sam, sente! Médico aqui!
Agora Driscoll sentia o entorpecimento, como se seu braço direito tivesse adormecido do ombro para baixo. Deixou que Barnes o fizesse sentar na trilha. Collins, o segundo médico da equipe, veio correndo. Ajoelhou-se, e ele e Barnes tiraram a mochila, primeiro do ombro direito, depois do esquerdo. Collins acendeu a lanterna do capacete e examinou o ombro de Driscoll.
— Você tem um estilhaço de pedra aí, Papai Noel. Assim do tamanho do meu polegar.
— Que merda. Barnes, você e Deacons vão verificar aquele jipe.
— Saquei, chefe.
Os dois saíram trotando pela trilha até o veículo.
— Dois mortos — avisou Deacons.
— Reviste, veja se acha documentos — disse Driscoll apertando os dentes. O entorpecimento dava lugar a uma dor incandescente.
— Você está sangrando muito — falou Collins. Tirou uma bandagem de campo da mochila e a pressionou contra o ferimento.
— Enrole isso o melhor que puder.
Tait, no rádio:
— Papai Noel, temos quatro mortos em combate e dois feridos, estou mandando para aí.
— Entendido. Verificação e busca de inteligência. Depois volte para cá.
Collins disse:
— Vou pedir uma evacu...
— Porra nenhuma. Dentro de 15 minutos vamos estar nos afogando em babacas. Vamos sair daqui. Me levante.