Morto ou Vivo
Capítulo 11
OXITS daquela manhã continha uma interceptação criptografada para a qual o Campus tinha a chave. O conteúdo dificilmente poderia ser mais inócuo, tanto que a criptografia era supérflua. A prima de alguém havia parido uma menininha. Tinha que ser puro código em texto. “A cadeira está encostada na parede” foi uma frase desse tipo usada na Segunda Guerra Mundial para alertar a resistência francesa a fazer alguma coisa com o exército de ocupação alemão. “Jean tem bigodes compridos” alertara que a invasão do Dia D era iminente, tal como “Machuca meu coração com um langor monótono”.
Então, o que isso significa?, perguntou-se Jack. Talvez alguém tivesse tido um bebê, uma menina, o que não era um acontecimento de grande importância no mundo árabe. Ou talvez tivesse acontecido alguma grande (ou pequena) transferência de dinheiro, que era como eles tentavam rastrear as atividades da oposição. O Campus eliminara quem fazia essas transferências de dinheiro. Um deles era Uda Bin Sali, que morrera em Londres pela mesma caneta que Jack usou em Roma para abater MoHa, o qual, ele soube depois, era um rapaz bastante levado.
Algo atraiu a atenção do olhar de Jack. Hein? A distribuição do e-mail continha uma quantidade incomum de endereços franceses. Alguma coisa está sendo cozinhada ali?, perguntou-se.
— Você está de novo dando chifradas na parede? — perguntou Rick Bell a Jack vinte minutos mais tarde. Como Jack, o chefe de análise do Campus tinha a sensação de que o anúncio de nascimento era amorfo demais para gerar excitação.
— O que mais se faz num curral? — perguntou Jack. — Além do bebê, há algumas transferências bancárias, mas o pessoal do andar de baixo já está trabalhando nisso.
— Grande?
Ryan meneou a cabeça.
— Não, o pacote todo não chega a meio milhão de euros. Dinheiro de manutenção de casas. Também não há bilhetes aéreos para rastrear. De qualquer modo, o FBI já está trabalhando nisso, tanto quanto é capaz sem nossa coleção de chaves de cifras.
— E isso não vai durar — opinou Bell. — Não deve demorar muito para que eles mudem o sistema de criptografia, e vamos ter que começar do zero novamente. O melhor que podemos esperar é que não façam isso antes de nós quebrarmos alguma coisa importante. Nada mais?
— Só perguntas, como onde o grande pássaro se esconde? E nem sinal disso.
— A NSA vigia todos os sistemas de telefone do mundo. Já está até forçando os computadores deles. Querem comprar mais dois novos mainframes da Sun Microsystems. A verba está sendo liberada esta semana. Os nerds já estão começando a montar as caixas lá na Califórnia.
— A NSA alguma vez ficou fora do ar ou com poucos recursos?
— Não, desde que eu me conheço por gente — retrucou Bill. — Basta eles preencherem corretamente os formulários e se humilharem adequadamente diante dos comitês parlamentares.
A NSA sempre conseguia o que queria, isso Jack sabia. Mas a CIA não. A Agência de Segurança era mais confiável e discreta. Salvo o Trailblazer, que não era. Não muito depois do 11 de Setembro, a NSA percebeu que sua tecnologia de intercepção, SIGINT, era lamentavelmente inapropriada para lidar com o volume de tráfego que eles tentavam não apenas digerir como disseminar e, assim, uma companhia de San Diego, a SAIC (Corporação Internacional de Aplicações Científicas), foi contratada para aperfeiçoar os sistemas de Fort Meade. O projeto chamado Trailblazer durou 26 meses, consumiu 280 milhões de dólares e não deu em nada. Então a SAIC ganhou mais 380 milhões de dólares em um contrato para o sucessor do Trailblazer. O desperdício de dinheiro e tempo fez cabeças rolarem na NSA e prejudicou sua imagem até então impecável no Congresso. O projeto Execute Locus, embora ainda estivesse em desenvolvimento, não havia passado da fase beta, de modo que a NSA suplementava seus computadores de interceptação com os mainframes Sun, que, apesar de efetivamente poderosos, eram equivalentes a sacos de areia colocados para conter um tsunami. Pior ainda, quando o Execute Locus ficasse pronto e on-line, já estaria descendo a ladeira da obsolescência, graças principalmente ao übercomputador Sequoia da IBM.
Para alguém que se considerava um entendido em tecnologia, como Jack, a capacidade do Sequoia era estonteante. Mais rápido que os quinhentos mais rápidos supercomputadores do mundo, o Sequoia podia executar 20 quatrilhões de processos matemáticos por segundo, estatística que só podia ser compreendida por redução comparativa: se cada um dos 6,7 bilhões de habitantes da Terra fosse armado com uma calculadora e trabalhassem juntos num cálculo 24 horas por dia, todos os dias do ano, demoraria mais de três séculos para fazer o que o Sequoia fazia em uma hora. Por outro lado, o Sequoia ainda não estava realmente disponível para uso. Segundo os últimos relatórios, estava abrigado em 96 racks do tamanho de refrigeradores, ocupando uma área de mais de 300 metros quadrados.
Grande como uma boa casa de dois andares, pensou Jack. E depois: Será que estão fazendo tours?
Agora era Bill quem perguntava:
— Então, por que você acha que isso é importante?
— Qual a razão de criptografar um anúncio de nascimento? — replicou Ryan. — E nós quebramos isso com a chave deles. Ok, talvez os inimigos tenham famílias com crianças, mas não há nome da mãe, do pai ou da garota. É clínico demais.
— Verdade — comentou Bell.
— Mais uma coisa. Há um recipiente novo na lista de distribuição, que usa um servidor diferente. Talvez valha a pena dar uma olhada. Talvez ele não seja tão cuidadoso com seus apoiadores e finanças como os outros.
Até então, todos os e-mails da “Conexão Francesa” chegavam através de fornecedores de acesso à internet, os ISP, ocultos e usando contas de e-mail do tipo “mande e esqueça” com nada mais que fantasmas na outra ponta, pois todos se originavam de provedores estrangeiros. O Campus possuía poucas maneiras de olhar por baixo do assoalho. Se os franceses estivessem cooperando, simplesmente entrariam no ISP e tirariam as informações da conta. Pelo menos conseguiriam o número do cartão de crédito, e dali podiam conseguir o endereço para onde a conta era enviada mensalmente, a menos que fosse um cartão falsificado, mesmo assim seria possível deslanchar uma operação de rastreamento e tentar reunir as outras peças. Era a teoria do quebra-cabeça: muitas peças pequenas terminam por deixar claro um quadro maior. Com sorte.
— Talvez seja preciso hackear um pouco, mas é possível que consigamos o suficiente para jogar um anzol para esse sujeito.
— Vale a pena tentar — concordou Bill. — Vá em frente.
Por sua parte, o anúncio do nascimento chegou como uma surpresa feliz para Ibrahim. Escondida dentro da transmissão aparentemente inócua havia três mensagens: sua parte no Lótus passava para a fase seguinte, os protocolos de comunicação estavam sendo mudados e um estafeta estava a caminho.
Já era final da tarde em Paris e a cidade se agitava com a hora do rush. O tempo estava agradável. Os turistas estavam voltando — dos Estados Unidos, para satisfação comercial e descontentamento filosófico dos parisienses, para provar da comida e do vinho, e visitar os pontos turísticos. Agora muitos vinham de trem desde Londres, mas se podia adivinhar de onde eram pelas roupas. Os motoristas de táxi tiravam seus honorários circulando, dando aulas informais de pronúncia e resmungando sobre o tamanho das gorjetas — ao menos os americanos entendiam sobre dar gorjetas, ao contrário da maioria dos europeus.
Ibrahim Salih al-Adel estava completamente aclimatado. Seu francês era tão bom que os parisienses tinham dúvidas sobre a origem de seu sotaque, e ele circulava como qualquer outro local, sem ficar embasbacado feito um macaco no zoológico. Estranhamente, eram as mulheres que mais o ofendiam. Saltitavam orgulhosas com suas roupas na moda, muitas vezes com adoráveis e caras bolsas de couro penduradas nas mãos, mas geralmente calçando sapatos confortáveis, porque ali as pessoas caminhavam mais que dirigiam. Melhor para exibir o orgulho deles, pensou.
Ele teve um dia rotineiro no trabalho, a maior parte vendendo filmes em vídeos e DVDs, principalmente filmes americanos dublados em francês ou com legendas — o que permitia que seus clientes aperfeiçoassem suas habilidades no inglês aprendido nas escolas. (Apesar de os franceses desdenharem muito dos americanos, um filme era um filme, e os franceses adoravam cinema mais que a maioria das nacionalidades.)
Então amanhã ele começaria a reunir a equipe para iniciar de verdade o planejamento da missão, algo mais facilmente discutido em uma mesa de jantar do que realmente realizado. Mas ele já levara isso em consideração, ainda que no recolhimento de seu apartamento e não realmente no campo. Algumas coisas podiam ser feitas dali, pela internet, mas apenas em termos gerais. As particularidades do alvo só podiam ser acessadas quando estivessem no terreno, mas fazer o dever de casa lhes pouparia um tempo precioso. Algumas das peças logísticas já estavam no lugar, e até então seu informante no estabelecimento havia se revelado estável e confiável.
O que ele precisava para a missão? Algumas pessoas. Fiéis, todos eles. Quatro. Não mais que isso. Um deles precisava ser especialista em explosivos. Automóveis não detectáveis — sem problemas nesse ponto, é claro. Bom domínio de idiomas. Deviam aprender o papel, o que não seria difícil, dada a localização do alvo; poucas pessoas podiam detectar as sutilezas da cor da pele, e ele falava inglês sem muito sotaque, então isso também não seria problema.
Mais importante, no entanto, é que cada um dos membros da equipe tinha que ser um autêntico fiel. Disposto a morrer. Disposto a matar. Era fácil para alguém de fora pensar que o primeiro era mais importante que o último, mas, embora houvesse muitos desejando jogar fora suas vidas, era muito mais útil apenas descartar a vida se isso fosse servir para avançar a causa. Eles se viam como guerreiros sagrados e queriam suas 72 virgens, porém de fato eram jovens com poucas perspectivas, para os quais a religião era o caminho para a grandeza que de outro modo jamais teriam. Era notável como eram tão estúpidos para sequer enxergar isso. Mas por isso ele era o líder, e os demais, seus seguidores.