Morto ou Vivo
Capítulo 22
Mary Pat apagou os faróis e parou ao lado da cabine da guarda e abaixou o vidro. Um sujeito de cara fechada com um anoraque azul saiu de lá. Apesar de ele ser o único guarda visível, ela sabia que havia mais meia dúzia de outros olhos fixados nela, assim como outras tantas câmaras de segurança. Tal como o restante da força de proteção do edifício, os guardas do portão eram parte da divisão interna de segurança da CIA. A simples pistola Glock 9 milímetros no cinto do sujeito tampouco iludia Mary Pat. Escondido sob o anoraque dele, a alcance fácil de suas mãos treinadas, havia um coldre lombar especialmente desenhado, contendo uma submetralhadora compacta.
O Centro Nacional de Contraterrorismo, que até 2004 era conhecido como Centro de Integração de Ameaças Terroristas e agora seus empregados o conheciam como Encruzilhada da Liberdade, estava aninhado nos subúrbios tranquilos de McLean, na parte norte de Fairfax County, na Virgínia. Construído com um monte de vidro e concreto, estava mais para o estilo James Bond que para a banalidade da CIA, algo que Mary Pat levara algum tempo para se acostumar. Mas as paredes eram resistentes a explosões, e as janelas, à prova de balas, calibradas para deter balas calibre .50. É claro que, se os bandidos chegassem tão perto dali a ponto de disparar no edifício com uma calibre .50, eles estariam com problemas muito mais sérios com que se preocupar. Contudo, apesar de a fachada do NCTC ser um tanto conspícua para seu gosto, tinha que admitir que era um lugar magnífico para onde vir todos os dias trabalhar. O restaurante do lugar também era de primeira linha, o que levava Ed até a Encruzilhada da Liberdade todas as quartas-feiras para o habitual almoço juntos.
Ela mostrou sua identificação para exame do guarda, que a estudou cuidadosamente, conferindo tanto seu rosto quanto a lista de permissão de acessos na prancheta. A noite havia descido completamente, e ela conseguia escutar o coaxar das rãs nos arbustos.
Depois de longos dez segundos, o guarda acenou para ela, desligou a lanterna e permitiu que Mary Pat passasse. Ela esperou a barreira levantar e então acelerou saindo do posto de controle em direção ao estacionamento. O procedimento de segurança pelo qual tinha passado era o mesmo para todos os empregados do NCTC, a todas as horas, todos os dias, desde o analista de nível mais baixo até o diretor. O fato de ela ser a número dois da Encruzilhada da Liberdade não fazia a menor diferença para os guardas, que pareciam desenvolver uma espécie de amnésia para rostos, veículos e nomes segundos depois que estes atravessavam o posto de controle. Não era uma boa ideia tentar ser amistosa com eles. Eram pagos para suspeitar de todos, e levavam isso a sério. Tampouco eram conhecidos por seu senso de humor. A coisa toda lembrava um pouco a Mary Pat de um episódio de Seinfeld, o do “Soup Nazi”: um passo adiante, faça o pedido, avance à direita, pague, pegue sua sopa, saia. Nesse caso, era pare, mostra sua identidade, fale somente se for perguntado, espere o assentimento, avance. Desvie desse padrão e corra os riscos.
Às vezes aquilo era um incômodo, especialmente naqueles dias quando ela acordava tarde e não conseguia dar sua paradinha habitual em uma Starbucks, mas Mary Pat não estava a fim de se queixar. O que eles faziam era importante, e ai do idiota que achasse o contrário. De fato, alguns cretinos tinham cometido o erro de levar na brincadeira o trabalho dos guardas — geralmente algum babaca tentando passar direto, exibir o distintivo —, e ganharam uma parada estilo policial, com armas apontadas como se fossem bandidos. Alguns chegaram até a se queixar depois do tratamento. Muitos desses não continuavam empregados na Encruzilhada da Liberdade.
Ela estacionou em sua vaga reservada, separada das demais apenas por uma insígnia de serviço no meio-fio. Mais segurança: nomes constituíam detalhes pessoais, e detalhes pessoais eram ferramentas potenciais para os bandidos. Mais uma vez, uma situação improvável, mas ali não se tratava de chances, mas sim de abrangência. Controle o que for possível, porque existe uma porrada de coisas que não se pode controlar.
Ela passou pelo saguão e se dirigiu até o coração do NCTC e seu “escritório”, o centro de operações. Enquanto o restante do Centro era cheio de móveis de madeira envernizada e carpetes de agradáveis tons de terra, o centro de operações parecia ter saído direto da série 24 horas — assunto objeto de várias piadas por ali.
Os quase mil metros quadrados do centro de operações eram dominados por um punhado de telas do tamanho de uma parede, nas quais eram projetadas as ameaças quentes, incidentes ou dados brutos dos últimos minutos ou horas — e, devido ao fato de a missão no NCTC ser uma espécie de câmara de compensação de dados de inteligência, era mais frequente a primeira que a segunda alternativa.
Dúzias de estações de trabalho com computadores com teclados ergonômicos e múltiplos monitores de LCD tela plana ao redor, usados por analistas da CIA, do FBI e da NSA preenchiam o espaço central, e em cada extremidade estava, em posição mais elevada, um centro de observação envidraçado: um para a Divisão de Contraterrorismo do FBI e outro para o Centro de Contraterrorismo da CIA. Em qualquer dia do ano, o NCTC recebia mais de 10 mil despachos através de sua recepção eletrônica, qualquer um dos quais podia ser uma peça de um quebra-cabeça que, se fosse deixado desmontado, poderia custar vidas americanas. A maioria das peças resultava ser trivial, mas todas eram analisadas com o mesmo cuidado.
Parte do problema era tradutor, ou a falta de. Uma boa parte dos dados que recebiam diretamente chegava em estado bruto, em árabe, farsi, pashtun ou qualquer um da meia dúzia de outros dialetos que era suficientemente diferente da língua materna para exigir um tradutor especializado, espécie difícil de encontrar por si só, muito menos alguém que passasse pelo tipo de verificação necessária para trabalhar no NCTC. Acrescente a isso o brutal volume de tráfego que o centro de operações recebia e aí estava a receita para uma sobrecarga de dados. Eles tinham desenvolvido um programa que colocava as interceptações em escaninhos categorizados, de modo que coisas de alta prioridade eram revisadas na frente, mas isso era mais arte que ciência e muitas vezes descobriam pepitas importantes apenas depois que o sistema já as havia filtrado, perdendo relevância e contexto no meio do caminho.
O problema da tradução era apenas um lado da mesma moeda, acreditava Mary Pat. Por ter vindo da área de coleta da CIA, ela sabia que possuir recursos humanos era o que realmente fazia o mundo da inteligência girar, e desenvolver esses recursos em países árabes tinha se revelado um osso duro de roer. A triste verdade era que na década que antecedeu o Onze de Setembro, a CIA havia deixado o recrutamento de agentes cair de sua lista de prioridades. A coleta técnica — satélites, intercepções de rádio e mineração de dados — era fácil e sexy, e podia, dentro de certos parâmetros, produzir bons resultados, mas os veteranos como Mary Pat há muito aprenderam que a maioria das batalhas na área da inteligência era vencida e perdida dependendo da força da inteligência humana, ou seja, dos agentes e dos supervisores responsáveis por casos que as controlavam.
A safra de supervisores em Langley tinha crescido em relativos saltos nos últimos sete anos, mas havia ainda um longo caminho a percorrer, especialmente em países como o Afeganistão e o Paquistão, nos quais religião, antigas rivalidades e política cruel transformavam o recrutamento de agentes confiáveis numa tarefa dificílima.
Ainda que fosse visualmente impressionante como era — até mesmo para uma veterana como Mary Pat —, ela sabia que o verdadeiro triunfo do lugar era um bem intangível que se perderia para o observador casual: cooperação. Durante décadas, o peso que atrapalhava a comunidade de inteligência dos Estados Unidos era que, na melhor das hipóteses, havia uma débil polinização cruzada dos dados e, na pior, uma guerra interna aberta, principalmente entre as duas agências que tinham a missão de manter o país a salvo de ataques terroristas. Mas, como os comentaristas da televisão e os políticos da capital já haviam assinalado ad nauseam, os acontecimentos do 11 de Setembro mudaram tudo, incluindo o modo como a comunidade de inteligência dos Estados Unidos tratava a tarefa de manter o país a salvo. Para Mary Pat e muitos dos profissionais da inteligência, o 11 de Setembro não tinha sido tanto uma surpresa, e sim uma triste confirmação do que havia muito suspeitavam: o governo dos Estados Unidos não levava devidamente a sério a ameaça do terrorismo, e não apenas nos poucos anos anteriores ao 11 de Setembro, mas talvez desde que os soviéticos invadiram o Afeganistão, em 1979, quando o Talibã e os mujahedin — então aliados convenientes, mas ideologicamente incompatíveis — mostraram o que combatentes determinados, mas deploravelmente inferiores em número e armamento, podiam conseguir contra uma das duas únicas superpotências do planeta. Para muitos — inclusive para os Foley e para Jack Ryan —, a guerra no Afeganistão tinha sido uma espécie de trailer de um filme que temiam que fosse exibido contra o Ocidente quando os mujahedin liquidassem os soviéticos. Embora a aliança entre a CIA e os mujahedin tivesse sido efetiva, o relacionamento era tênue, na melhor das hipóteses, sempre obscurecido pela fissura entre a cultura ocidental e a lei da sharia, pelo fundamentalismo islâmico radical e o cristianismo. A questão, nascida com o provérbio árabe “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, se transformou em “quando a amizade vai terminar?”. Para Mary Pat, a resposta fora simples: no momento em que o último soldado soviético deixasse o solo afegão. E, dependendo de quem escrevesse a história, ela havia sido terrivelmente precisa em seu palpite, ou quase. De qualquer maneira, por volta de meados dos anos 1980, o Talibã, os mujahedin e até mesmo o CRO do Emir viraram seu olhar desdenhoso, e agora testado em combate, para o Ocidente.
O que passou, passou, pensou Mary Pat, olhando do parapeito do balcão no centro de operações. Fosse qual fosse a tragédia que os levara até ali, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos estava mais no jogo do que jamais esteve desde o começo da Guerra Fria, e o NCTC tinha a maior parte do crédito por isso. Nele trabalhavam analistas provenientes de virtualmente todos os ramos do mundo da inteligência, que sentavam lado a lado sete dias por semana, 24 horas por dia, e a cooperação agora era a regra, não mais a exceção.
Ela desceu as escadas e seguiu pelas fileiras de estações de trabalho, acenando para colegas enquanto passava, até chegar ao Centro de Contraterrorismo da CIA. Esperando por ela lá dentro estavam dois homens e uma mulher: seu chefe e diretor do NCTC, Ben Margolin, a chefe de operações, Janet Cummings, e John Turnbull, cabeça da Estação Acre, a força-tarefa conjunta dedicada a descobrir, capturar ou eliminar o Emir e a liderança do CRO. O rosto franzido de Turnbull informou a Mary Pat que as coisas não estavam exatamente um mar de rosas na Estação Acre.
— Estou atrasada? — perguntou Mary Pat, e se sentou. Do outro lado da parede de vidro, a equipe do centro de operações prosseguia silenciosamente com suas tarefas. Como teoricamente todas as salas de conferência da Encruzilhada da Liberdade, o Centro de Contraterrorismo era um tanque eletromagnético, isolado de praticamente todas as emissões eletromagnéticas, tanto as que entravam quanto as que saíam, salvo correntes de dados criptografados.
— Não, nós é que estamos adiantados — disse Margolin. — O pacote está descendo.
— E?
— Nós o perdemos — resmungou Turnbull.
— E ele esteve por lá mesmo?
— Difícil dizer — comentou a chefe de operações Janet Cummings. — Temos produtos capturados no assalto, mas o quão bom ainda não sabemos. Alguém esteve lá, provavelmente importante, mas além disso...
— Nove mortos — disse Turnbull.
— Prisioneiros?
— Começaram com dois, mas durante a saída a equipe foi emboscada e perderam um; perderam o segundo quando sua área de embarque foi atingida por um RPG. Perdemos também alguns Rangers.
— Que merda.
Que merda, mesmo, pensou Mary Pat. Os Rangers, é claro, estariam de luto pela perda de um deles, mas esses sujeitos eram os melhores dos melhores, de modo que assumiam o risco simplesmente como parte do trabalho. Eram profissionais completos, mas, enquanto trabalhadores civis poderiam saber como desentupir um cano, fazer a instalação elétrica de uma casa ou construir um arranha-céu, os Rangers se especializavam em algo completamente diferente: matar inimigos.
— O líder da equipe — Cummings parou para olhar sua pasta —, o sargento Driscoll, foi ferido, mas sobreviveu. Segundo o relatório pós-ação de Driscoll, o prisioneiro se levantou durante um tiroteio. De propósito.
— Jesus — murmurou Mary Pat. Eles haviam visto isso antes com soldados da CRO, que preferiam morrer a ser capturados. Se isso vinha do orgulho ou do desejo de não falar durante o interrogatório, era um ponto de discussões acaloradas nas comunidades de inteligência e dos militares.
— O segundo tentou escapar quando o helicóptero desceu. Eles o abateram.
— Bem, não foi exatamente um poço seco — disse Turnbull —, mas não é o resultado que esperávamos.
O problema não havia sido a transmissão de rádio, disso Mary Pat tinha certeza. Ela lera tanto os dados brutos quanto as análises. Alguém andara realizando transmissões daquela caverna usando pacotes de código de palavras abertas da CRO. Uma das palavras — Lótus — era algo que tinham visto antes, tanto nos interrogatórios de agentes feitos por supervisores quanto nas interceptações do Driftnet da NSA, mas o que significava ninguém, até então, havia conseguido determinar.
Há muito eles suspeitavam que o CRO tinha adotado medidas da velha guarda para suas comunicações criptografadas, empregando tabelas de permutação, que são essencialmente um protocolo ponto a ponto no qual apenas o remetente e o receptor têm a tabela exigida para decifrar a mensagem. O sistema é antigo, datando da época do Império Romano, mas é confiável e, desde que as tabelas sejam completamente randomizadas, é quase impossível de ser quebrado, a menos que se consiga colocar as mãos em uma delas. Numa terça-feira, digamos, o Inimigo A envia uma série de palavras-chaves — cão, repolho, cadeira — para o Inimigo B, o qual, usando sua própria tabela, converteria as palavras em seus valores alfanuméricos, de modo que cão se traduziria nos números 4, 15 e 7, que por sua vez se traduziriam em outras tantas palavras. Equipes de forças especiais no Afeganistão capturaram certo número de tabelas em assaltos, mas nenhuma era de uso atual, e até então nem a CIA nem a NSA tinham sido capazes de inferir um padrão do qual pudessem deduzir uma chave.
Mas o sistema tinha seus problemas. Primeiro, era incômodo. Para funcionar corretamente, transmissores e receptores precisavam usar as mesmas tabelas físicas, trocando para uma nova nos mesmos intervalos, quanto mais frequentemente melhor, o que por sua vez exigia que correios se movimentassem entre o Inimigo A e o Inimigo B. Enquanto a CIA tinha a Estação Acre dedicada à caçada do Emir, o FBI tinha um grupo de trabalho chamado Peixe-palhaço, dedicado à interceptação dos correios do CRO.
A grande questão, sabia Mary Pat, era: o que havia provocado seja lá quem estivesse vivendo naquela caverna a dar no pé pouco antes de a equipe descer por lá? Pura coincidência ou algo mais? Ela duvidava de que se tratasse de erro humano; os Rangers eram bons demais para isso. De fato, ela lera mais cedo o relatório pós-ação, e além da perna quebrada do chefe da equipe, a operação tinha saído cara: dois mortos e dois feridos. E tudo isso por um poço vazio.
Esquecendo as coincidências, o culpado mais provável era o boca a boca. Raro era o dia em que um helicóptero levantasse voo de uma das bases no Paquistão ou no Afeganistão sem que um soldado ou simpatizante do CRO não anotasse e desse um telefonema, um problema que fora parcialmente solucionado pelas equipes de forças especiais fazendo voos curtos e aleatórios pelo interior nas horas e dias que antecediam uma operação, assim como usar pontos desviados do caminho do alvo, as duas medidas ajudando a evitar a previsão correta dos observadores. Mas o terreno acidentado e implacável, assim como o tempo, fazia com que certas rotas se tornassem intransponíveis. Tal como havia aprendido o exército de Alexandre, o Grande, e os soviéticos mais tarde, a geografia da Ásia Central era um inimigo por si só. E um inimigo inconquistável, pensou Mary Pat. Você ou aprendia a sobreviver ou se virar por ali, ou perecia. Ora, tanto Napoleão quanto Hitler aprenderam essa lição — não obstante, tardiamente —, cada um durante uma atrevida e mal-aconselhada invasão à Rússia durante o inverno. Claro, os dois estavam certos de uma rápida vitória, alcançada bem antes de a neve começar a cair. E, caramba, na Rússia o terreno era fácil e plano. Mas acrescentem montanhas na mistura... Bem, aí está a Ásia Central.
Um mensageiro apareceu na porta de vidro, digitou o código de acesso e entrou. Sem dizer nada, deixou uma pilha com quatro pastas com faixas vermelhas e uma pasta-acordeão diante de Margolin e depois saiu. Margolin distribuiu as pastas e nos 15 minutos seguintes o grupo leu em silêncio.
Finalmente Mary Pat disse:
— Um caixão de areia? Que diabos.
— Seria ótimo se o tivessem trazido com eles — disse Turnbull.
— Olhe o tamanho — disse Cummings. — Não havia como tirar isso de lá a pé. Não sem prejudicar a equipe. Fizeram a coisa certa, acho.
— Sim, suponho que sim — murmurou o chefe da Estação Acre, sem muito convencimento.
Turnbull estava sob uma pressão inacreditável. Enquanto a versão oficial era de que o Emir não estava no topo da lista dos Mais Procurados dos Estados Unidos, ele de fato estava. Mesmo sendo improvável que sua captura virasse a maré da guerra contra o terrorismo, tê-lo solto lá fora era no mínimo embaraçoso. Na pior das hipóteses, perigoso. John Turnbull caçava o Emir desde 2003, primeiro como vice da Estação Acre, depois como chefe.
Mesmo sendo bom em seu trabalho, Turnbull, como muitos oficiais que seguiam carreira na CIA, sofria do que Mary Pat e Ed chamavam de “desconexão operacional”. Ele simplesmente não tinha ideia de como era, de como se desenvolvia uma operação no terreno, e essa desconexão gerava um monte de problemas, que geralmente caía em uma única categoria: expectativas irreais. Ao planejar uma operação, espera-se demais, seja das pessoas que a conduzem, seja do alcance da missão. A maior parte das operações não leva a gols, são trocas de passe que, devagar e firmemente, avançam pelo campo até chegar ao objetivo. Como o agente literário de Ed uma vez lhe dissera: “Levam-se dez anos para ser um sucesso da noite para o dia.” A mesma coisa era o que geralmente acontecia com operações secretas. Algumas vezes o trabalho de inteligência, preparação e boa sorte se combinam do jeito certo na hora certa, mas na maioria das vezes as coisas acontecem fora de sincronia, o suficiente para fazer a bola sair do campo. E às vezes, ela lembrou a si mesma enquanto continuava examinando o relatório, não se sabe que se fez um gol até bem depois de ele acontecer.
— Estão vendo essa história do Corão que acharam por lá? — perguntou Cummings ao grupo. — Não há como aquilo pertencer a alguém que estava naquela caverna.
Ninguém respondeu; não havia necessidade. Ela estava certa, é claro, mas a não ser que houvesse alguma inscrição e um “endereço de devolução” na capa, um Corão antigo não ia ser de grande serventia para eles.
— Percebo que tiraram muitas fotografias — disse Mary Pat. Os Rangers tinham meticulosamente fotografado todos os rostos dos membros do CRO na caverna. Se algum deles tivesse sido capturado ou identificado no passado, os computadores cuspiriam os detalhes. — E amostras do caixão. Esse Driscoll é um sujeito esperto. Onde estão as amostras, Ben?
— Parece que perderam a viagem do helicóptero no Centcom Cabul. Chegarão amanhã de manhã.
Mary Pat se perguntou o que essas amostras revelariam, se é que haveria algo. Os sábios do laboratório de Ciência e Tecnologia de Langley faziam milagres, assim como os laboratórios do FBI em Quantico, mas não havia como saber quanto tempo aquelas coisas estiveram na caverna nem nenhuma garantia de que a mostra revelaria traços particulares. Um jogo de dados.
— As fotos já temos aqui — disse Margolin.
Ele pegou um controle remoto da mesa e apontou para uma tela plana de 42 polegadas na parede. Um momento depois, uma grade de oito por dez imagens em miniaturas aparecia no monitor. Cada uma tinha a anotação da data e a marca da hora. Margolin apertou um botão no controle remoto e ampliou a primeira foto, que mostrava o caixão de areia de uma distância aproximada de 1 metro.
Mary Pat logo percebeu que seja lá quem tivesse tirado as fotos havia feito um bom serviço, fotografando o caixão de areia do macro ao micro, usando um pedaço de fita métrica para dar a escala de cada foto. Apesar de estarem numa caverna, tinham prestado atenção na iluminação também, o que fazia uma grande diferença. Das 215 fotos que Driscoll e sua equipe tiraram, 190 eram variações de um tema — a mesma visão, mas em detalhe ou de um ângulo diferente —, e Mary Pat se perguntou se aquilo era suficiente para que Langley criasse uma versão em 3-D da coisa. Algo a ser tentado. Se animar aquela droga faria diferença ou não, ela não tinha a menor ideia, mas é melhor tentar e fracassar que lamentar não ter tentado. Alguém do CRO havia se dado o grande trabalho de fazer essa coisa, e seria ótimo descobrir a razão. Não se faz a droga de um caixão de areia só por ter vontade.
Segundo o relatório, as 25 fotos restantes eram repetição de três pontos separados no caixão de areia, todas exibindo algum tipo de marca. Mary Pat pediu a Margolin que as transferisse para o monitor, o que ele fez, mostrando-as como slideshow. Quando terminou, Mary Pat disse:
— As duas da frente parecem marcas do fabricante. Driscoll disse que a base era de compensado. Pode ser que, usando as marcas, consigamos levantar mais alguma coisa. A outra marca, atrás... Me corrijam se estiver errada, mas parece escrita à mão.
— Concordo — falou Margolin. — Vamos soltar os tradutores em cima disso.
— E que tal a pergunta de 1 milhão de dólares? — disse Cummings. — Por que fazer esse caixão de areia, e o que supostamente ele representa?
— O lugar de férias do Emir, espero — respondeu Turnbull.
Todos riram.
— Se querer fosse poder... — ruminou Margolin. — Mary Pat, posso ver as engrenagens da sua cabeça se mexendo. Alguma ideia?
— Talvez. Se aparecer algo, conto a você.
— E os documentos na caixa de munição? — perguntou Turnbull.
— A estimativa dos tradutores é de amanhã à tarde — disse Margolin. Ele abriu a pasta-acordeão, tirou um mapa da caverna e o estendeu sobre a mesa. Todos se levantaram e se inclinaram sobre o mapa.
Cummings leu a legenda:
— Agência de Mapeamento de Defesa... 1982?
— Presente deixado pelos conselheiros da CIA — disse Mary Pat. — Eles queriam que os mujahedin tivessem mapas, mas não os melhores.
Margolin virou o mapa, exibindo o lado de Peshawar do Baedeker.
— Há algumas marcas aqui — disse Mary Pat, batendo no mapa e se inclinando mais. — Pontos. Marcas de esferográficas.
Todos escarafuncharam o mapa e logo descobriram nove marcas, cada uma formada por um agrupamento de três ou quatro pontos.
— Quem tem uma faca? — perguntou Mary Pat. Turnbull entregou a ela um canivete, e ela abriu a fita protetora nos quatro lados, depois virou o Baedeker novamente. — Aí está... — murmurou.
Inscrita no canto superior direito, com não mais que meio centímetro de comprimento, havia uma seta apontando para cima seguida de três pontos, e uma seta apontando para baixo, seguida de quatro pontos.
— A legenda — sussurrou Margolin.