Morto ou Vivo
Capítulo 27
Jack Jr. desligou o computador e deixou seu cubículo, dirigindo-se ao estacionamento e a seu Hummer H2 amarelo, um dos poucos guilty pleasures de sua vida. Ainda assim, com o preço da gasolina e a situação geral da economia, sentia uma pontada de culpa sempre que ligava a chave de ignição daquela maldita coisa. Ele não era nenhum abraçador de árvores, com certeza, mas talvez fosse o momento de pensar em recuar. Droga, a chata da sua irmã ecomilitante o aporrinhava. Ele tinha ouvido dizer que a Cadillac estava fazendo um Escalade híbrido bem decente. Talvez valesse a pena fazer uma visita à concessionária.
Tinha um dos raros jantares com sua mãe e seu pai programado para aquela noite. Sally também estaria lá, provavelmente cheia de ideias da sua faculdade de medicina. Ela precisava escolher sua especialidade e por conta disso ocupava muito a orelha da mãe. E Katie estaria encantadora como sempre, paparicando o irmão mais velho, o que podia ser uma chatice, mas SANDBOX não era tão ruim no papel de irmã mais nova. Noite familiar, bifes e salada de espinafre, batata assada e milho na espiga, pois esse era o menu preferido do pai para os jantares familiares. Talvez uma taça de vinho, agora que ele estava mais velho.
A vida de um filho de ex-presidente tinha seus problemas, como Jack aprendera havia muito tempo. A segurança não o acompanhava mais, ainda bem, apesar de ele nunca ter certeza absoluta de não ter alguma cobertura disfarçada. Perguntou a Andrea sobre isso e lhe foi dito que não havia mais tropas cuidando dele, mas quem saberia dizer se ela estava sendo totalmente sincera sobre isso?
Estacionou na rua em frente a seu apartamento e subiu para trocar de roupa, descendo com uma calça esporte e camisa de flanela. Em pouco tempo, estava na I-97 para a viagem até Annapolis e, de lá, até Peregrine Cliff.
Seus pais construíram uma casa bem grande antes de entrar no serviço público. A notícia ruim era que todo mundo sabia onde ela estava. Carros dirigiam pela estrada municipal estreita e paravam para observá-la, sem saber que cada placa era registrada e verificada pelo computador do Serviço Secreto, através de um emaranhado de câmeras de TV escondidas. Eles podiam adivinhar que a estrutura protegida a uns 60 metros da casa principal abrigava um mínimo de seis agentes armados para o caso de alguém tentar passar pelo portão e dirigir estrada acima. Ele sabia que seu pai achava aquilo opressivo. Era necessária toda uma produção até para ir à padaria comprar pão e leite.
O prisioneiro na gaiola dourada, pensou Jack.
— SHORTSTOP, entrando — informou na portaria, e uma câmera se certificou de que se tratava dele mesmo antes de abrir o portão. O Serviço Secreto não gostava do seu carro. O amarelo brilhante do Hummer era conspícuo, com certeza.
Ele estacionou, saiu e foi até a porta, ao lado da qual encontrou Andrea.
— Não tive oportunidade de falar com você depois daquilo — disse-lhe ela. — Foi algo fantástico o que você fez, Jack. Se você não tivesse sacado a coisa...
— Então você teria que dar um tiro mais de longe, só isso.
— Talvez. Mesmo assim, obrigada.
— De nada. Já sabemos alguma coisa sobre o sujeito? Escutei um boato de que ele poderia ser do CRO.
Andrea considerou sua resposta por um instante.
— Não posso confirmar nem negar — disse com um sorriso e uma ênfase clara no confirmar.
Então o Emir tentou liquidar meu pai, pensou Jack. Que merda inacreditável. Controlou o impulso de voltar para seu computador no Campus. O Emir estava lá fora, e mais cedo ou mais tarde não teria para onde correr. Infelizmente, talvez, pensou Jack, ele não estaria lá quando isso acontecesse.
— Motivo?
— Choque de valores, é o que achamos. Seu pai pode ser um “ex”, mas ainda é muito popular. Além disso, a logística é menos complicada: é mais fácil matar um presidente aposentado do que um no exercício do cargo.
— Talvez seja menos complicada, mas não é fácil droga nenhuma. Você provou isso.
— Nós provamos isso — disse Andrea sorrindo. — Quer um formulário para se candidatar ao emprego?
Jack sorriu.
— Eu lhe conto como anda o negócio de ações. Obrigado, Andrea. — Ele empurrou a porta. — Ei, já cheguei! — gritou.
— Olá, Jack — disse sua mãe, saindo da cozinha para lhe dar um abraço e um beijo. — Você está ótimo.
— Você também, senhora professora de cirurgia. Onde anda o meu pai?
Ela apontou para a direita.
— Biblioteca. Tem companhia. Arnie.
Jack caminhou para lá, subindo os poucos degraus e dobrando à esquerda até o lugar de trabalho do pai, que estava sentado numa poltrona giratória, com Arnie van Damm esparramado numa cadeira ao lado.
— Sobre o que vocês dois estão conspirando? — perguntou quando entrou na sala.
— Conspirações não funcionam — disse o pai, cansado. Houvera muitos rumores durante sua presidência, e o pai detestava tudo aquilo, apesar de uma vez ter feito uma piada sobre pintar o helicóptero presidencial de preto só para irritar os idiotas que acreditavam que nada acontecia no planeta sem alguma obscura conspiração por detrás. Não ajudava o fato de John Patrick Ryan Senior ser, ao mesmo tempo, rico e ex-empregado da CIA, é claro; uma combinação que certamente criava um rumor de conspirações, reais ou imaginárias.
— E isso não é uma pena, pai? — brincou Jack, avançando para o abraço. — O que Sally está fazendo?
— Foi até a loja comprar coisas para a salada. Levou o carro da mãe. Quais as novidades?
— Aprendendo arbitragem de câmbio. É tipo meio misterioso.
— Já está ganhando algum dinheiro?
— Bem, ainda não, não muito, de qualquer maneira, mas aconselho pessoas.
— Contas teóricas?
— Sim, semana passada ganhei meio milhão de dólares virtuais.
— Você não pode gastar dólares virtuais, Jack.
— Eu sei, mas é preciso começar de algum lugar, certo? Então, Arnie, tentando fazer o meu pai concorrer de novo?
— Por que você diz isso? — perguntou Van Damm.
Talvez fosse o ambiente, pensou Jack. Suas sobrancelhas subiram um pouco, mas ele não forçou o assunto. E então todos na sala sabiam de algo que os demais não sabiam. Arnie não sabia nada sobre o Campus e o papel de seu pai em estabelecê-lo, não sabia nada sobre o perdão abrangente, não sabia o que seu pai autorizara. O pai não sabia que seu filho trabalhava lá. E Arnie conhecia mais segredos políticos que qualquer pessoa desde a administração Kennedy, a maior parte dos quais jamais saíra de seus lábios, nem mesmo para os ouvidos do presidente em exercício.
— Washington está uma confusão — comentou Jack, imaginando o que poderia sair dali.
Van Damm não engoliu a isca:
— Geralmente é.
— Faz imaginar o que as pessoas pensavam em 1914, como o país estava se afundando na época, mas ninguém se lembra disso agora. Isso porque alguém consertou o estrago, ou porque a coisa realmente não era importante?
— O primeiro mandato de Wilson — respondeu Arnie. — A guerra começando na Europa, mas ninguém percebeu como aquilo ainda se tornaria ruim. Levou mais de um ano para as pessoas perceberem, e então era tarde demais para achar uma saída. Henry Ford tentou, mas riram da cara dele.
— Mas isso porque o problema era grande demais ou as pessoas que eram muito mesquinhas e idiotas? — divagou Jack.
— Não perceberam o problema chegando — disse o Ryan mais velho. — Estavam ocupadas demais lidando com o dia a dia para parar e perceber as grandes tendências históricas.
— Como todos os políticos?
— Os políticos profissionais tendem a focar nos temas pequenos, não nos grandes — concordou Arnie. — Tentam manter a continuidade porque é mais fácil manter o trem nos mesmos trilhos. O problema é: o que fazer quando os trilhos estão soltos na curva seguinte? Por isso é que é um trabalho difícil, mesmo para pessoas espertas.
— E ninguém viu o terrorismo chegando também.
— Não, Jack, não vimos, pelo menos não completamente — admitiu o ex-presidente. — Alguns perceberam. Droga, com um serviço de inteligência melhor talvez tivéssemos percebido, mas o estrago foi feito há trinta anos, e ninguém jamais tentou realmente consertar isso.
— O que funciona? — perguntou Jack. — O que teria feito diferença? — Era uma pergunta suficientemente ampla que poderia gerar uma resposta honesta.
— Inteligência eletrônica é importante, e provavelmente nós ainda somos os melhores nisso, mas não há substituto para a inteligência humana; os verdadeiros espiões de campo, falando com pessoas reais e descobrindo o que elas realmente pensam.
— E matando alguns? — perguntou Jack, só para ver no que ia dar.
— Não há muito disso — respondeu seu pai. — Pelo menos, não fora de Hollywood.
— Não é o que os jornais dizem.
— Eles também continuam noticiando aparições de Elvis — respondeu Arnie.
— Caramba, talvez fosse ótimo se James Bond existisse, mas não existe — observou o ex-presidente. Podia ter sido o desmonte feito na administração Kennedy, que começara a acreditar na ficção do 007, exceto por um idiota chamado Oswald. Será que a maioria das grandes viradas na história acontecem por conta de acidentes, assassinatos e azar? Talvez na época fosse possível ter uma conspiração decente, mas agora não mais. Advogados demais, repórteres demais, blogueiros demais e câmeras e filmadoras digitais demais.
— E como consertamos isso?
Isso fez a cabeça do Ryan mais velho se voltar para cima, um tanto tristemente, seu filho pensou.
— Já tentei uma vez, se lembra? — falou o pai.
— Então por que Arnie está aqui?
— Desde quando você ficou tão curioso?
— Meu trabalho é olhar as coisas e tirar sentido delas.
— A maldição da família — observou Van Damm.
Sally entrou nesse instante na sala.
— Bem, olha só quem apareceu.
— Já terminou de dissecar seu cadáver? — perguntou Junior.
— O difícil é colocar tudo de volta no lugar e fazer com que ele saia pela porta dos fundos — disparou de volta Olivia Barbara Ryan. — É melhor do que lidar com dinheiro. Coisa suja, o dinheiro, cheia de germes.
— Não quando você faz isso pelo computador. Assim é limpo e bonitinho.
— Como está minha garota número um? — perguntou o ex-presidente.
— Bem, trouxe alface. Orgânico. Só pode ser assim. Mamãe mandou dizer que já é hora de você colocar os bifes para grelhar.
Sally não aprovava bifes, mas era a única coisa que seu pai sabia fazer, assim como hambúrgueres. Como não era verão, devia fazer isso na grelha da cozinha em vez de usar a churrasqueira externa de carvão. Foi o suficiente para fazer o pai se levantar e ir para a cozinha, deixando Junior e Arnie juntos.
— Então, Sr. Van Damm, ele vai topar?
— Acho que tem que fazer isso, aceite ou não a ideia agora. O país precisa que ele o faça. E agora me chame de Arnie, Jack.
Jack suspirou.
— Esse é um negócio de família pelo qual não tenho o menor interesse. Não paga o suficiente pelas angústias que acompanham.
— Talvez, mas como você diz não para seu país?
— Jamais me perguntaram — respondeu Jack, mentindo em pequeno grau.
— A questão é sempre interior. E seu pai está escutando isso agora. O que ele vai fazer? Droga, você é filho dele. Você o conhece melhor do que jamais conhecerei.
— A coisa mais difícil para o meu pai diz respeito a nós, mamãe e as garotas. Acho que a primeira lealdade dele é para conosco.
— E é assim que deve ser. Me conte: alguma garota simpática na sua vida? — perguntou Van Damm.
— Ainda não.
Não era completamente verdade. Ele e Brenda estavam saindo havia mais de um mês, e ela era especial, mas Jack não tinha certeza se era o especial certo. Do tipo de levar para casa e apresentar aos pais.
— Ela ainda está por aí, esperando ser achada. A boa notícia é que ela também está procurando você neste mesmo instante.
— Aceito sua palavra. A pergunta é: será que vou estar velho e grisalho quando isso acontecer?
— Está com pressa?
— Não especialmente.
Sally apareceu na porta.
— Jantar, para os que querem devorar a carne de uma criatura pacífica e inofensiva, provavelmente assassinada em Omaha.
— Bem, ela teve uma vida gratificante — observou Jack.
Arnie entrou na conversa:
— Ah, sim, levavam a comida direto para ela, teve muitos amigos, todos de sua idade, nunca precisou andar muito nem se preocupar com os lobos, teve boa assistência médica para cuidar de qualquer doença que a preocupasse...
— Só tem uma coisa — disparou de volta Sally, conduzindo-os pelas escadas. — Fizeram com que ela subisse por uma rampa inclinada até uma jaula apertada e destroçaram seu cérebro com um martelo hidráulico.
— Já lhe ocorreu, minha jovem, que um pé de alface pode gritar quando é cortado?
— Mas é difícil de ouvir — intrometeu-se Jack. — As cordas vocais são pequenas. Nós somos carnívoros, Sally. Por isso é que temos pouco esmalte nos dentes.
— Nesse caso, somos mal-adaptados. O colesterol nos mata logo depois de chegarmos à idade reprodutiva.
— Jesus, Sally, você quer andar pelo mundo pelada com uma faca de pedra para sobreviver? E que tal seu Ford Explorer? — perguntou Jack. — E o boizinho que nos proporcionou o jantar também forneceu o couro para seus sapatos estilosos. Você pode empurrar a ecochatice longe demais, lembra?
— A coisa vira religião, Jack — avisou Arnie. — E você não pode discutir religião com as pessoas.
— Tem muito disso por aí. E nem tudo se expressa em palavras.
— Verdade — concedeu Arnie. — Mas não precisamos aumentar a confusão.
— Está certo, ótimo. Sally, conte para nós sobre o buraco na camada de ozônio — convidou Jack. Ele havia vencido aquela. Sally gostava demais de se bronzear.