Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 9 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Martha

grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.

MARTHA

No que pensa o meu irmão?

ELEAZAR

Em nada penso.

MARTHA

Duvido.

Ha n'esse olhar definido

Vislumbre d'inquietação.

SIMÃO

Se tu pensas na lavoura,

Fazes mal, que o dia de hoje,

Emquanto o Sol não nos foge,

Prohibe que, scismadora,

A mente se occupe assim

De coisas que não respeitam

A Deus.

MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:

Aquelles que engeitam

O pensar, mesmo o ruim,

São como as ondas brutaes,

Que lançam á rocha dura

A espuma de cuja alvura

Ellas são as mães e os paes...

SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:

Sempre has de ser renitente

Em respeitar a doutrina

De Moysés!

MARIA, com amargo sorriso:

O que ella ensina

É por vezes incoherente.

De ouvil-a já estou cançada,

E nem assim me convence.

MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:

Não falas?

SIMÃO