Judas: romance lírico em quatro jornadas
Martha
grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.
MARTHA
No que pensa o meu irmão?
ELEAZAR
Em nada penso.
MARTHA
Duvido.
Ha n'esse olhar definido
Vislumbre d'inquietação.
SIMÃO
Se tu pensas na lavoura,
Fazes mal, que o dia de hoje,
Emquanto o Sol não nos foge,
Prohibe que, scismadora,
A mente se occupe assim
De coisas que não respeitam
A Deus.
MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:
Aquelles que engeitam
O pensar, mesmo o ruim,
São como as ondas brutaes,
Que lançam á rocha dura
A espuma de cuja alvura
Ellas são as mães e os paes...
SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:
Sempre has de ser renitente
Em respeitar a doutrina
De Moysés!
MARIA, com amargo sorriso:
O que ella ensina
É por vezes incoherente.
De ouvil-a já estou cançada,
E nem assim me convence.
MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:
Não falas?
SIMÃO