Judas: romance lírico em quatro jornadas
Maria
Isto é completamente um caso novo,
E agrada-me de véras
Que sejas tu, mulher, em vez do povo,
Quem venha interceder pelo Profeta
Com lagrimas sinceras!
É bello!
MARIA
Tem piedade!
CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:
Honra o teu sexo
O platonico amor que te inquieta;
E n'elle vejo mais do que um reflexo
Do feminil civismo d'outras eras.
Tu excedes Cornelia,
E de Coriolano a mãe Veturia!
—Tenho notado haver n'esta Judéa
Mais valor nas mulheres que nos homens,
O que toma o aspecto d'uma injuria Ás patricias de Rhéa!
Judith a Holofernes rouba a vida,
Para salvar o povo seu amante,
Ao vêr que elle agonisa;
Esther, em patrio amor toda incendida,
De Assuéro affronta a crueldade e insânia;
Debóra, a profetisa,
Entra na lucta e sae-se triunfante...
Agora vem Maria de Bethania!
—Palavra, que a Judéa é divertida!
Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois
de ageitar-lhe as almofadas.
MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:
Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime! Quando uma alma se dobra e tanto se deprime, Quando um peito soluça, a compaixão ordena Que a ironia que esmaga e o riso que envena...
A um olhar severo de Claudia, humildemente:
Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo Que não seja o tormento indómito e agudo, Que me offusca a razão e o peito me lacéra! Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera Que soubesses tambem como é risonha a vida, Que toda se consagra a uma entidade querida:
Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;
Respirar o subtil perfume que evapora;
Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;
Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;
Ouvir-lhe da palavra a doce melodía
Tão limpida, tão casta e pura, que enebría,
Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal,
Semelhante, no brilho, ao riso divinal
Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,
Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.
Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se
impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.
Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:
Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...
Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana
Quando te respondi com altivez soberana.
Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor
E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...
—Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!
Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!
E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos
fincados no coxim.
Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar. Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando
de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:
Não me resta uma esperança,
Pois não me escuta ninguem!
Dorme a eterna Divindade
No azul da Immensidade,
Nos horisontes d'além,
Onde não chega um suspiro,
Onde o silencio é profundo.
Ha de ser bom tal dormir,
Descuidoso do porvir,
Descuidoso d'este mundo,
N'aquelle reino divino
Tecido por andorinhas,
Feito só para os honrados,
Para os bons e desprezados,
Para as meigas creancinhas...
Tão sereno como o lago
Da Galiléa florída,