Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 72 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Maria

Isto é completamente um caso novo,

E agrada-me de véras

Que sejas tu, mulher, em vez do povo,

Quem venha interceder pelo Profeta

Com lagrimas sinceras!

É bello!

MARIA

Tem piedade!

CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:

Honra o teu sexo

O platonico amor que te inquieta;

E n'elle vejo mais do que um reflexo

Do feminil civismo d'outras eras.

Tu excedes Cornelia,

E de Coriolano a mãe Veturia!

—Tenho notado haver n'esta Judéa

Mais valor nas mulheres que nos homens,

O que toma o aspecto d'uma injuria Ás patricias de Rhéa!

Judith a Holofernes rouba a vida,

Para salvar o povo seu amante,

Ao vêr que elle agonisa;

Esther, em patrio amor toda incendida,

De Assuéro affronta a crueldade e insânia;

Debóra, a profetisa,

Entra na lucta e sae-se triunfante...

Agora vem Maria de Bethania!

—Palavra, que a Judéa é divertida!

Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois

de ageitar-lhe as almofadas.

MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignação:

Mas põe fim ao desdem, que chega a ser um crime! Quando uma alma se dobra e tanto se deprime, Quando um peito soluça, a compaixão ordena Que a ironia que esmaga e o riso que envena...

A um olhar severo de Claudia, humildemente:

Oh! peço-te perdão! Esqueço-me de tudo Que não seja o tormento indómito e agudo, Que me offusca a razão e o peito me lacéra! Perdôa. Tem piedade. Apenas eu quizera Que soubesses tambem como é risonha a vida, Que toda se consagra a uma entidade querida:

Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;

Respirar o subtil perfume que evapora;

Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;

Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;

Ouvir-lhe da palavra a doce melodía

Tão limpida, tão casta e pura, que enebría,

Vibrando dentro em nós alguma coisa ideal,

Semelhante, no brilho, ao riso divinal

Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,

Quando ao longe a manhã vem a romper tranquilla.

Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se

impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.

Ó Claudia, sê bondosa e presta-me sentido:

Tu poderás talvez, pedindo a teu marido...

Tu és bôa, afinal; e eu fui leviana

Quando te respondi com altivez soberana.

Esqueces tudo, sim? Já não me tens rancor

E vaes poupar minh'alma, ó Claudia, á enorme dôr...

—Mas fala, mas responde a isto que eu te peço!

Ai! que ella não me escuta! Ó Deus, eu enlouqueço!

E chora convulsamente, com a cabeça entre as mãos, os cotovellos

fincados no coxim.

Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar. Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mãos, e continuando

de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mãos com os dedos enclavinhados sobre o regaço, diz em voz muito dolente:

Não me resta uma esperança,

Pois não me escuta ninguem!

Dorme a eterna Divindade

No azul da Immensidade,

Nos horisontes d'além,

Onde não chega um suspiro,

Onde o silencio é profundo.

Ha de ser bom tal dormir,

Descuidoso do porvir,

Descuidoso d'este mundo,

N'aquelle reino divino

Tecido por andorinhas,

Feito só para os honrados,

Para os bons e desprezados,

Para as meigas creancinhas...

Tão sereno como o lago

Da Galiléa florída,