Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 31 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que continúa lendo:

OÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que

continúa lendo:

Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. Ha certas podridões que geram peçonhenta Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. Entrando pela vista, é digirida na alma! E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila Provem d'esse veneno horrivel que distila Muito perto de mim com lugubre misterio. Inutil procurar um doce refrigerio,

Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!

Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para alem

da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros

pensamentos.

Judas voltou á leitura sempre silencioso.

SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:

Nunca ouvi tal falar da bôca do João.

SIMÃO PEDRA tristemente:

E o caso é que tambem começo a achar razão A tudo que elle diz.

Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde

conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.

MATHEUS

O Judas, francamente,No que hontem se passou, deu prova de demente,

Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!

SIMÃO

Hontem?

MATHEUS

Á noite.

SIMÃO

O quê? Dizei-me, por favor.

Não sei do que falaes.

MATHEUS

Passou-se tudo aqui.

Durante a ceia. Não ouviste?