Judas: romance lírico em quatro jornadas
JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que continúa lendo:
OÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que
continúa lendo:
Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. Ha certas podridões que geram peçonhenta Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. Entrando pela vista, é digirida na alma! E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila Provem d'esse veneno horrivel que distila Muito perto de mim com lugubre misterio. Inutil procurar um doce refrigerio,
Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!
Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para alem
da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros
pensamentos.
Judas voltou á leitura sempre silencioso.
SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:
Nunca ouvi tal falar da bôca do João.
SIMÃO PEDRA tristemente:
E o caso é que tambem começo a achar razão A tudo que elle diz.
Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde
conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.
MATHEUS
O Judas, francamente,No que hontem se passou, deu prova de demente,
Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!
SIMÃO
Hontem?
MATHEUS
Á noite.
SIMÃO
O quê? Dizei-me, por favor.
Não sei do que falaes.
MATHEUS
Passou-se tudo aqui.
Durante a ceia. Não ouviste?