Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA, querendo esquivar-se:
Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o
convencido, diz então baixinho á irmã:
Não responde. Pode ser
Que facilmente consigas
Descobrir toda a verdade.
MARIA, querendo esquivar-se:
Eu?
MARTHA
Com palavras amigas
Interroga-o, porque, em summa,
Custa ver n'um coração,
Que deveria ser meigo,
Semelhante ingratidão.
E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. Judas
e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, observa-a.
MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo a si
propria:
É mais prudente...
E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:
UDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:
Maria,
Pareces que vaes fugindo...
MARIA baixando o olhar:
Para não te incommodar,
Quando estiveres dormindo.
E retira-se tambem, fechando a porta castamente:
UDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo.
Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:
É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. Provem este rancor, que ella sente por mim, Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!
—Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,
Ainda que me sinta a resvalar no lodo!
E erguendo-se, impetuoso:
E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!
Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,
Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!
Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!
—... Mas quem me diz não ser este sinistro plano
Improficuo, ou então summamente leviano!
Se elle fugir á morte, ao estertor final,
Por um processo occulto e sobrenatural,Contra mim lançará todo
o furor do ceu,
Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!
Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:
Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,
O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,
Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,
Uma canção igual aos psalmos de David,
Transformando o meu peito em grande tabernaculo!
—Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!
Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um
sorriso malevolo, animando-se:
E se, como se diz, elle não fôr divino?
Se obedecer, como eu, á força do destino?...
—Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso
E possante vigor d'um corajoso pulso!
Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente,
Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:
Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.
E como poderei matar, sem ver o crime?
Armando um braço vil? comprando uma consciencia?
É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia!
Quem poderá saber onde reside a féra,
Que tenha peito humano e garras de pantéra?
Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca
espumando:
—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,
Que vive silenciosa em tua negra entranha,
Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! Genio amante do crime e á virtude adverso, Que mora num covil... e zomba do Universo!Eu quero conhecer o amigo dos devassos: