Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 45 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

MARIA, querendo esquivar-se:

Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o

convencido, diz então baixinho á irmã:

Não responde. Pode ser

Que facilmente consigas

Descobrir toda a verdade.

MARIA, querendo esquivar-se:

Eu?

MARTHA

Com palavras amigas

Interroga-o, porque, em summa,

Custa ver n'um coração,

Que deveria ser meigo,

Semelhante ingratidão.

E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. Judas

e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, observa-a.

MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo a si

propria:

É mais prudente...

E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:

UDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:

Maria,

Pareces que vaes fugindo...

MARIA baixando o olhar:

Para não te incommodar,

Quando estiveres dormindo.

E retira-se tambem, fechando a porta castamente:

 

UDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo.

Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:

É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. Provem este rancor, que ella sente por mim, Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito!

—Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,

Ainda que me sinta a resvalar no lodo!

E erguendo-se, impetuoso:

E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços!

Quando o trovão ribomba altivo nos espaços,

Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!

Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho!

—... Mas quem me diz não ser este sinistro plano

Improficuo, ou então summamente leviano!

Se elle fugir á morte, ao estertor final,

Por um processo occulto e sobrenatural,Contra mim lançará todo

o furor do ceu,

Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!

Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:

Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,

O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz,

Ó Deus, entoaria, agradecido a ti,

Uma canção igual aos psalmos de David,

Transformando o meu peito em grande tabernaculo!

—Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!

Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um

sorriso malevolo, animando-se:

E se, como se diz, elle não fôr divino?

Se obedecer, como eu, á força do destino?...

—Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso

E possante vigor d'um corajoso pulso!

Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente,

Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:

Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime.

E como poderei matar, sem ver o crime?

Armando um braço vil? comprando uma consciencia?

É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia!

Quem poderá saber onde reside a féra,

Que tenha peito humano e garras de pantéra?

Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca

espumando:

—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha,

Que vive silenciosa em tua negra entranha,

Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! Genio amante do crime e á virtude adverso, Que mora num covil... e zomba do Universo!Eu quero conhecer o amigo dos devassos: