Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 77 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Ampío

Pois quê! não morreu hontem o profeta?

Nada mais facil do que haver rebeldes...

Conhecemos a vossa grande astucia

E o vosso rancor, judeus malditos!

O MERCADOR por entre dentes:

Maldita Roma!...

ÁBIO com uma risada alvar:

Eh! lá! Vê como falas,

Que o teu rei já não vive!

O MERCADOR muito seccamente:

Da Judéa

Ha muito que fugiu a realeza!

E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que

d'elles chasqueiam.

 

A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas.

Um vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra

um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os

membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada

e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos.

UDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a voz

muito enfraquecida:

Vem o dia a nascer das regiões eternas. Depois de ter lançado as iras justiceiras, O grande firmamento agora é mudo e quedo. Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas, E vão pedir a noite ás fendas do rochedo

As aves agoureiras.

E olhando para a caverna d'onde saíu:

Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,Ó treva de amargura e negras maldições!

Ó antro, que animei co'o halito do crime, Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,

Das tectricas visões!

Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se

com passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e

depois, como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:

Estavam a dormir ao pé das oliveiras,

E a Lua derramava em cheio nas clareiras

O argentino olhar, o seu formoso pranto.

Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,

Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...

Mas ficou-se indeciso apenas descobriu

Dos archotes a luz na solidão campestre.

—Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»

Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,

Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo

Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!

Co'um latido feroz toda a matilha sae

Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!

Aos amigos leaes occorre o pensamento

Heroico de empregar a força. A gritaria

Desperta o olival da funda lethargia.

Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...

Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.

Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja

Espavorida vae dizendo-me que fuja.

E erguendo-se de chofre, animando-se:

Percorro velozmente os grandes olivaes;

Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;

O manto esfarrapado o rasto meu indica,

Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,

Pois se olho para traz, sobre a verdura espessaPersegue-me, a

rolar em sangue, uma cabeça.

Termina de repente o estenso matagal,

Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal

Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:

A lama em borbotões entra-me pela bocca,

Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,

Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,

Fogem nuvens de rãs para logares occultos,

E o seu coaxar parece arremetter insultos!

Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;

Então quero parar... mas corro sem descanso.

As forças vão fugindo, e julgo que do peito

O coração rebenta exanime e desfeito!

Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto

Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,

Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando

Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.

Chego á margem; depois entro por um atalho Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho... Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo Descobrir de repente o mais seguro abrigo!

Abeirando-se da caverna:

Sem saber onde estou, a estremecer d'horror, Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor, Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura, Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura, Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas, A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!

Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna responde-

lhe longamente...

Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços

pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:

Eliminei a causa, e agora nem procura A minh'alma saber se existe ou já não duraO effeito. Um assassino é o que vejo em ti,

Judas!

Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.

O coração refugiou-se aqui

Transformado em dinheiro. É prata reluzente, Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente! E falas de ambição, tu que possues a marca Das filhas sem pudor do velho patriarcha!... Relembras o incesto horrendo de Thamar, E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar A honra de seu pae no leito da madrasta!... E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta Em de redor de mim o grande amontoado Das velhas podridões da carne e do peccado!

Ferido por um rapido pensamento:

—Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame, E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...

Mas detendo-se, hesitante:

Tenho medo... não sei...

E supersticioso:

Era de madrugada

E eu ia caminhando em terras d'Ephraím Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse Para vir espreitar meus passos junto á estrada. Esmaguei o!—Se alguem agora me fizesse

A mesma cousa, a mim?