Judas: romance lírico em quatro jornadas
Ampío
Pois quê! não morreu hontem o profeta?
Nada mais facil do que haver rebeldes...
Conhecemos a vossa grande astucia
E o vosso rancor, judeus malditos!
O MERCADOR por entre dentes:
Maldita Roma!...
ÁBIO com uma risada alvar:
Eh! lá! Vê como falas,
Que o teu rei já não vive!
O MERCADOR muito seccamente:
Da Judéa
Ha muito que fugiu a realeza!
E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que
d'elles chasqueiam.
A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas.
Um vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra
um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os
membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada
e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos.
UDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a voz
muito enfraquecida:
Vem o dia a nascer das regiões eternas. Depois de ter lançado as iras justiceiras, O grande firmamento agora é mudo e quedo. Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas, E vão pedir a noite ás fendas do rochedo
As aves agoureiras.
E olhando para a caverna d'onde saíu:
Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,Ó treva de amargura e negras maldições!
Ó antro, que animei co'o halito do crime, Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,
Das tectricas visões!
Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se
com passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e
depois, como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:
Estavam a dormir ao pé das oliveiras,
E a Lua derramava em cheio nas clareiras
O argentino olhar, o seu formoso pranto.
Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
Dos archotes a luz na solidão campestre.
—Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»
Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo
Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
Co'um latido feroz toda a matilha sae
Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
Aos amigos leaes occorre o pensamento
Heroico de empregar a força. A gritaria
Desperta o olival da funda lethargia.
Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...
Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.
Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
Espavorida vae dizendo-me que fuja.
E erguendo-se de chofre, animando-se:
Percorro velozmente os grandes olivaes;
Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
O manto esfarrapado o rasto meu indica,
Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,
Pois se olho para traz, sobre a verdura espessaPersegue-me, a
rolar em sangue, uma cabeça.
Termina de repente o estenso matagal,
Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal
Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:
A lama em borbotões entra-me pela bocca,
Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
Fogem nuvens de rãs para logares occultos,
E o seu coaxar parece arremetter insultos!
Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;
Então quero parar... mas corro sem descanso.
As forças vão fugindo, e julgo que do peito
O coração rebenta exanime e desfeito!
Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto
Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando
Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
Chego á margem; depois entro por um atalho Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho... Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo Descobrir de repente o mais seguro abrigo!
Abeirando-se da caverna:
Sem saber onde estou, a estremecer d'horror, Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor, Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura, Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura, Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas, A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!
Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna responde-
lhe longamente...
Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços
pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:
Eliminei a causa, e agora nem procura A minh'alma saber se existe ou já não duraO effeito. Um assassino é o que vejo em ti,
Judas!
Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.
O coração refugiou-se aqui
Transformado em dinheiro. É prata reluzente, Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente! E falas de ambição, tu que possues a marca Das filhas sem pudor do velho patriarcha!... Relembras o incesto horrendo de Thamar, E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar A honra de seu pae no leito da madrasta!... E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta Em de redor de mim o grande amontoado Das velhas podridões da carne e do peccado!
Ferido por um rapido pensamento:
—Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame, E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...
Mas detendo-se, hesitante:
Tenho medo... não sei...
E supersticioso:
Era de madrugada
E eu ia caminhando em terras d'Ephraím Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse Para vir espreitar meus passos junto á estrada. Esmaguei o!—Se alguem agora me fizesse
A mesma cousa, a mim?