Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 14 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Maria

Muito falados!

Olha que outros bem-amados

Como estes não houve ainda!

E quando elle se transporta,

Descrevendo a sua amante?

Não pode ser mais galante!

Queres ouvir?

MARIA

Que m'importa!...

MARTHA

«És formosa entre as formosas!

Como tu não ha nenhuma!

Tens no rosto duas rosas...

És formosa entre as formosas!

Como tu não ha nenhuma!

 

«Duas pombas tens no olhar

Onde transluz a bondade.

Os teus cabellos sem parFazem-me sempre lembrar As cabrinhas de Galaad...

 

«Tua bocca é tão fagueira!

Quando sorrís com ternura,

Julgo vêr n'uma ribeira,

Unidinhas em fileira,

Ovelhas de casta alvura!

 

«Oh! que suaves martirios

Em tuas caricias francas!

São teus seios—que delirios!

—Como duas corças brancas

A pastarem entre os lirios!»

 

Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu

sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de Poncio

Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da liteira; sem ser

presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua escrava e confidente Geda.

Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente,

avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado

em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, brilha

o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.