Judas: romance lírico em quatro jornadas
Maria
Muito falados!
Olha que outros bem-amados
Como estes não houve ainda!
E quando elle se transporta,
Descrevendo a sua amante?
Não pode ser mais galante!
Queres ouvir?
MARIA
Que m'importa!...
MARTHA
«És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
Tens no rosto duas rosas...
És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
«Duas pombas tens no olhar
Onde transluz a bondade.
Os teus cabellos sem parFazem-me sempre lembrar As cabrinhas de Galaad...
«Tua bocca é tão fagueira!
Quando sorrís com ternura,
Julgo vêr n'uma ribeira,
Unidinhas em fileira,
Ovelhas de casta alvura!
«Oh! que suaves martirios
Em tuas caricias francas!
São teus seios—que delirios!
—Como duas corças brancas
A pastarem entre os lirios!»
Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu
sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de Poncio
Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da liteira; sem ser
presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua escrava e confidente Geda.
Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente,
avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado
em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, brilha
o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.