Judas: romance lírico em quatro jornadas
MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito resignada:
Compadecído:
Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda,
Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente!
Rasteja para longe, ó animal mesquinho,
Deixando atraz de ti a escuridão profunda...Rasteja para
longe... e ségue o teu caminho
Silenciosamente...
A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que ella
fórma.
Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade.
Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São Maria de Bethania e sua irmã Martha.
MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito resignada:
Fica perto da cidade
O sepulcro: é no jardim
Do José d'Arimathéa.
Ao aroma do jasmim
Casa-me o aroma da rosa...
É tudo meigo e silente
N'aquelle triste remanso
Onde elle dorme. A corrente,
Que vae regar os pomares,
Tem uns murmurios tão doces
E tão cheios de misterio...
MARTHA
Maria, irmã, se tu fosses
Contaminar o teu corpo?
É prohibido na Lei
Ir a um sepulcro...
MARIA
Decerto...
MARTHA
É um crime.
MARIA
Sim; bem sei.
Mas devo eu conjecturar
Que os negros vermes da terra
Contaminem moradia
Que tanto perfume encerra? As borboletas sómente,