Judas: romance lírico em quatro jornadas
PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.
Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!
—Que forças colossaes, que forças imprevistas
O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas
Majestosas, assim que despontava ao largo;
A Lua namorada, em languido lethargo,
Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,Que as lagrimas do ceu
tornavam tão macío
Como um peito de cisne ou face de mulher...
O proprio Creador do Mundo nem siquer
Lhe causava receio. Em doidas convulsões,
Um raio desabou das vastas amplidões
Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,
Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!
—Que forças colossaes, que forças imprevistas,
Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?
Que forças?—Perguntae-o áquella massa informe,
Que por vezes murmúra e que por outras dorme
Em profundo silencio; interrogae o Mar,
Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar
Do horisonte sem fim, da solidão distante,
Para oscular os pés do impávido gigante!
Interrogae o vil hipocrita, que ao passo
Que era meigo e humilde, em fraternal abraço,
Tratava de roer, silenciosamente,
As bases do colosso athletico e indiff'rente,
Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,
No abismo tombou com fragor tão medonho,
Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,
Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!
PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços
alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta
quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.
Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,
Féros como leões, grandes como as montanhas!
Possuem dos clarins as frases inspiradas,
E fusilam do olhar relampagos d'espadas!
Ó mares da perfidia, andaes a carcomer
As bases do colosso herculeo do poder?
Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes!
Ondas que assim correis, que vindes em galopes,
Apressadas, servís, infames... Para traz!
Que para reprimir a vossa furia audaz,
Para que o vosso dente ao monstro não carcoma,
Basta um simples olhar dos hercules de Roma!