Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 65 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.

Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!

—Que forças colossaes, que forças imprevistas

O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas

Majestosas, assim que despontava ao largo;

A Lua namorada, em languido lethargo,

Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,Que as lagrimas do ceu

tornavam tão macío

Como um peito de cisne ou face de mulher...

O proprio Creador do Mundo nem siquer

Lhe causava receio. Em doidas convulsões,

Um raio desabou das vastas amplidões

Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,

Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!

—Que forças colossaes, que forças imprevistas,

Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?

Que forças?—Perguntae-o áquella massa informe,

Que por vezes murmúra e que por outras dorme

Em profundo silencio; interrogae o Mar,

Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar

Do horisonte sem fim, da solidão distante,

Para oscular os pés do impávido gigante!

Interrogae o vil hipocrita, que ao passo

Que era meigo e humilde, em fraternal abraço,

Tratava de roer, silenciosamente,

As bases do colosso athletico e indiff'rente,

Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,

No abismo tombou com fragor tão medonho,

Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,

Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!

PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços

alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta

quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.

Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,

Féros como leões, grandes como as montanhas!

Possuem dos clarins as frases inspiradas,

E fusilam do olhar relampagos d'espadas!

Ó mares da perfidia, andaes a carcomer

As bases do colosso herculeo do poder?

Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes!

Ondas que assim correis, que vindes em galopes,

Apressadas, servís, infames... Para traz!

Que para reprimir a vossa furia audaz,

Para que o vosso dente ao monstro não carcoma,

Basta um simples olhar dos hercules de Roma!