Judas: romance lírico em quatro jornadas
JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:
UDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:
Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?
Desegualdade sem razão, medonha!
Uma alma pura, virginal, submissa;
Outra, vertendo em lagrimas peçonha!
—Ah! fatal e profundo sentimento,
Que tens do abismo a attracção e o horror!
És para mim dulcissimo tormento,
E sendo um grande amor... não és amor!
Um desejo voraz, ardente, furia,
Que a força da vontade não arranca!
Tem sonhos de volupia, de luxuria,
Com as palpitações da carne branca!
Transforma o ideal em verdadeiro
E a minha alma timida conduz
A seductor e vago paradeiro,
Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!
Não morrerás? não has de ter um fim,
Ó tenebrosa e infernal tortura, Que pareces viver dentro
de mim
A construir a minha sepultura?
—Quem te ordena que leves a maldade
A fazer-me avançar para o impossivel?
Porque segrédas tu que a castidade
Nem sempre pode ser irresistivel
Ás seducções frenéticas do amor?
E porque vens mostrar-me, sensual,
Certa nudez, e em todo o seu fulgor
Um monte de oiro junto d'um punhal?
—Como és infame! Sim! Com violencia
Levas minh'alma fraca aos empurrões.
E, como a Daniel, a Consciencia
Queres deitar á cova dos leões!
—Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!
Hei de salvar minh'alma moribunda,
Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
Escarrar-te no corpo, besta immunda!
E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta o
vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do interior da casa.
Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo traz
apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, como