Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 27 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:

UDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:

Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?

Desegualdade sem razão, medonha!

Uma alma pura, virginal, submissa;

Outra, vertendo em lagrimas peçonha!

—Ah! fatal e profundo sentimento,

Que tens do abismo a attracção e o horror!

És para mim dulcissimo tormento,

E sendo um grande amor... não és amor!

Um desejo voraz, ardente, furia,

Que a força da vontade não arranca!

Tem sonhos de volupia, de luxuria,

Com as palpitações da carne branca!

Transforma o ideal em verdadeiro

E a minha alma timida conduz

A seductor e vago paradeiro,

Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!

Não morrerás? não has de ter um fim,

Ó tenebrosa e infernal tortura, Que pareces viver dentro

de mim

A construir a minha sepultura?

—Quem te ordena que leves a maldade

A fazer-me avançar para o impossivel?

Porque segrédas tu que a castidade

Nem sempre pode ser irresistivel

Ás seducções frenéticas do amor?

E porque vens mostrar-me, sensual,

Certa nudez, e em todo o seu fulgor

Um monte de oiro junto d'um punhal?

—Como és infame! Sim! Com violencia

Levas minh'alma fraca aos empurrões.

E, como a Daniel, a Consciencia

Queres deitar á cova dos leões!

—Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!

Hei de salvar minh'alma moribunda,

Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,

Escarrar-te no corpo, besta immunda!

 

E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta o

vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do interior da casa.

Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo traz

apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, como