Judas: romance lírico em quatro jornadas
Eleazar
O que tenho a dizer-te é coisa de segredo. Escuta-me portanto aqui.
ELEAZAR
Porquê? Tens medo
De que minhas irmãs...?
GAMALIEL
O assumpto é muito grave, E receio que a dôr ainda mais se crave Nas almas feminis do que na tua.
Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de
casa, accode logo ao secreto chamamento.
Amigo,
Uma nova cruel:—o Mestre...
ELEAZAR, estremecendo
Algum perigo
É imminente?
GAMALIEL
Aquella estupida gentalha
Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha Prepara com misterio o plano vingador,
E está na posição terrivel do condôr, Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora, Em casa de Kaiapha...—É sabbado hoje? Embora! —... O Conselho procura, extravasando o fel, Garantir-se o poder no povo d'Israel.
ELEAZAR
Prendendo o Mestre?
GAMALIEL
Sim! Razões tem para tudo
O seu pensar feroz, indómito e agúdo! Amor divino? Qual! Apenas o receio
De perder o logar no execravel meio:
D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma, E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!
N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e
que se expande, emfim, n'uma invocação:
A Virgem de Sião suspira ha muito já!... —Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat! Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?