Judas: romance lírico em quatro jornadas

Augusto de Lacerda · Capítulo 4 de 93

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Judas: romance lírico em quatro jornadas

Eleazar

O que tenho a dizer-te é coisa de segredo. Escuta-me portanto aqui.

ELEAZAR

Porquê? Tens medo

De que minhas irmãs...?

GAMALIEL

O assumpto é muito grave, E receio que a dôr ainda mais se crave Nas almas feminis do que na tua.

Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de

casa, accode logo ao secreto chamamento.

Amigo,

Uma nova cruel:—o Mestre...

ELEAZAR, estremecendo

Algum perigo

É imminente?

GAMALIEL

Aquella estupida gentalha

Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha Prepara com misterio o plano vingador,

E está na posição terrivel do condôr, Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora, Em casa de Kaiapha...—É sabbado hoje? Embora! —... O Conselho procura, extravasando o fel, Garantir-se o poder no povo d'Israel.

ELEAZAR

Prendendo o Mestre?

GAMALIEL

Sim! Razões tem para tudo

O seu pensar feroz, indómito e agúdo! Amor divino? Qual! Apenas o receio

De perder o logar no execravel meio:

D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma, E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!

N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e

que se expande, emfim, n'uma invocação:

A Virgem de Sião suspira ha muito já!... —Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat! Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?